Terça-feira, Junho 29, 2004
Mar Mulher
Olhei a praia
que se estendia
areia a meus pés
pés descalços
passos idos
desde lá longe
donde me caminho
A doçura da água
salgada
que me olha
me diz a calma
com seu azul verde
que me reflecte
o terno marulhar
Água calma
mar mulher
que me diz
em todo o esplendor
com seus olhos
verdes d’ água
vem comigo
Pedro Rodrigues de Miguel
que se estendia
areia a meus pés
pés descalços
passos idos
desde lá longe
donde me caminho
A doçura da água
salgada
que me olha
me diz a calma
com seu azul verde
que me reflecte
o terno marulhar
Água calma
mar mulher
que me diz
em todo o esplendor
com seus olhos
verdes d’ água
vem comigo
Pedro Rodrigues de Miguel
Fim de tarde
Fim de tarde
bruma de vida
quando meu coração anoitece
junto de ti
e me lembra
o toque suave da pele
que se encontra
como calor da vida
Esperança
como xipefo aceso
é teu corpo
que brilha
lá no longe
no mais perto de mim
porto de abrigo
em que me desencontro
Suave ternura
sombra de acácia
que me acalma
me ilumina a vida
quando o desespero
sem tino nem jeito
me abala
e só tu
me trazes a paz
Pedro Rodrigues de Miguel
bruma de vida
quando meu coração anoitece
junto de ti
e me lembra
o toque suave da pele
que se encontra
como calor da vida
Esperança
como xipefo aceso
é teu corpo
que brilha
lá no longe
no mais perto de mim
porto de abrigo
em que me desencontro
Suave ternura
sombra de acácia
que me acalma
me ilumina a vida
quando o desespero
sem tino nem jeito
me abala
e só tu
me trazes a paz
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Junho 28, 2004
Silêncio
Diz o meu nome
mesmo que em silêncio
para que eu o ouça fundo
para que o escute
sem a pronúncia
dos teus lábios
mas com o dizer da alma
que me bate no peito
e corre
dentro de mim
Diz o nome
o nome que me trocas
que me faz ser
mais eu por dentro
que me cresce
quando teus lábios me tocam
no silêncio
que diz mais alto
o que nenhuma palavra
diz tão bem
Olha meus olhos
brílhamos
como só tu sabes
deixa-me correr a lágrima
de te ouvir
em tão puro silêncio
lágrima de vida
que deixo correr
em ti
como dádiva perene
quando chamas
e dizes
meu nome
Pedro Rodrigues de Miguel
mesmo que em silêncio
para que eu o ouça fundo
para que o escute
sem a pronúncia
dos teus lábios
mas com o dizer da alma
que me bate no peito
e corre
dentro de mim
Diz o nome
o nome que me trocas
que me faz ser
mais eu por dentro
que me cresce
quando teus lábios me tocam
no silêncio
que diz mais alto
o que nenhuma palavra
diz tão bem
Olha meus olhos
brílhamos
como só tu sabes
deixa-me correr a lágrima
de te ouvir
em tão puro silêncio
lágrima de vida
que deixo correr
em ti
como dádiva perene
quando chamas
e dizes
meu nome
Pedro Rodrigues de Miguel
Gosto que me confunde...
Olhei-a
Vi-lhe os olhos
cerrados
nos cirros
e nimbos do sono
Os lábios doces
calmos
sonholentos
o nariz adunco
num respirar de sono
leve
Os cabelos soltos
de ouro corados
atirados
num gesto
para trás
Que doce pensar
o meu olhar
daquela face calma
Sono solto!
... e eu a olhar!
Toquei-lhe
de leve
a loura guedelha
como quem quer
não querer acordá-la
Que lhe vai na mente
em tão doce pensar
quando não se pensa
Ao longe
o trinar constante
dos Nocturnos de Chopin
confundiam-se-lhe
Amor
não é o toque
seco
do gostar
É gostar
desse toque de sentir
ver o outro
e disso gostar
E lá continuavam
os Nocturnos
na tarde de luz e Sol
na penumbra do quarto
Gosto de a ver
assim
gosto dela assim
gosto de ver dela
assim
E é neste gosto
que me confunde
que julgo encontrar
o Amor
Pedro Rodrigues de Miguel
Vi-lhe os olhos
cerrados
nos cirros
e nimbos do sono
Os lábios doces
calmos
sonholentos
o nariz adunco
num respirar de sono
leve
Os cabelos soltos
de ouro corados
atirados
num gesto
para trás
Que doce pensar
o meu olhar
daquela face calma
Sono solto!
... e eu a olhar!
Toquei-lhe
de leve
a loura guedelha
como quem quer
não querer acordá-la
Que lhe vai na mente
em tão doce pensar
quando não se pensa
Ao longe
o trinar constante
dos Nocturnos de Chopin
confundiam-se-lhe
Amor
não é o toque
seco
do gostar
É gostar
desse toque de sentir
ver o outro
e disso gostar
E lá continuavam
os Nocturnos
na tarde de luz e Sol
na penumbra do quarto
Gosto de a ver
assim
gosto dela assim
gosto de ver dela
assim
E é neste gosto
que me confunde
que julgo encontrar
o Amor
Pedro Rodrigues de Miguel
Sábado, Junho 26, 2004
Caminho
Corro
no meu passo disforme
pelo caminho
dos meus Afectos
dos meus Sentidos
que me leva
além
longe no etéreo
no teu sentir
Percorro
longe no tempo
teu corpo
no espaço
que me faz livre
como gaivota
no céu
no espaço infindo
que me leva
a ti
Discorro
meus pensamentos
meu sonhar
teus sonhos
teus sonos
teus encantos mil
que beijo
como se teus doces lábios
se encontrassem
aqui
Pedro Rodrigues de Miguel
no meu passo disforme
pelo caminho
dos meus Afectos
dos meus Sentidos
que me leva
além
longe no etéreo
no teu sentir
Percorro
longe no tempo
teu corpo
no espaço
que me faz livre
como gaivota
no céu
no espaço infindo
que me leva
a ti
Discorro
meus pensamentos
meu sonhar
teus sonhos
teus sonos
teus encantos mil
que beijo
como se teus doces lábios
se encontrassem
aqui
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Junho 25, 2004
Kumbe ou memórias no tempo
Comemora-se hoje o Dia da Independência de Moçambique.
Deixo aqui uma pequena estória, escrita há já algum tempo, que ofereci a alguém que muito Amo como amo o meu País.
Súbito, como todo o sempre, o Sol namaachou. Noite estrelosa aquela, aguardável e saborosa como manga com sal de Siriri, o baniano do bazar. Sempre era assim nos dias de vir em casa de seus tios lá na Malhangalene. Uma, duas vezes por semana, era lá o serão.
Era noite de Pedro não ensonar.
Sua infância lhe corria ao lado da meninice. Desentendia. Os longos cabelos louros e o doce sorriso nos lábios destraduziam. Sua dor funda. Em casa, tudo lhe barulhava. Sentia-se perder pai e pátria!
Mas naquelas noites, quando seus pequenos pés lhe caminhavam e a capulana das acácias lhe envolvia os passos para aquela casa da Malhangalene, só então Pedro se aprontava de alegrias por dentro.
A casa ficava numa esquina, num canto adormecido de um mundo de fantasia dos confins do tempo. Lá dentro tudo lhe encantava. Os seus olhos de criança sentiam os xicuembo de cada um dos pequenos nada. A nota desafinada do piano, a trela do cão no corredor, o cheiro negro e duro da umbila. Mas local que gostava mesmo era sombreira de porta. Lueira de porta que era noite de serão.
Passava ali tempo infindo, catando estrela, olhando a negritude do infirmamento.
Muro ao lado havia uma papaieira que largava seu cheiro acre no ar se misturando ao doce inebrilhante dos maracujás. E era naquele ambiente de feitiço, sentado ao lado do tio, que se sentia ñwana, olhando todos aqueles pontos no céu estreluzindo.
― Tio, porque as estrelas estão tão longe?
― Perto, mufana, perto.
Gargalhou, lacómico. Sempre assim foi. Resposta simples e sorrisenta. Noite no céu é como noite na Catembe com suas tremeluzinhas.
― Só porque a gente não chega, não tem que estar longe.
― Mas...
― Kumbe, mufana.
― Se?
― Se...!
Sempre lhe falava com aquele entrecortar de xironga que se lhe foi adentrando como sua língua mãeterna.
Pedro se adentrava em suas poucas memórias, tão pequenininhas. Olhava no mundo. Se aconchava no quente de se lembrar. Se pedia um esforço de sentir que nascia outra vez. Queria não se perder. Errar é próprio do homem que é ser errante. Vaguear na lembrança é viver por dentro. Vida é um rio que corre para o longe e molha a margem. A margem nos fica à margem, corre ao lado. Mas nos fica a lembrança das mangueiras e do matope.
Que bom que é sentir, mais tarde, o quente do destino. Olhar no longe e querer estar tão perto. Triste é viver com o mesmo sem vontade com que rasgamos o ventre a nossa mãe. Desmemoriamos. Ficamos presos à solta.
Me lembro dele. Quantas vezes uma lágrima presumida. Parecia buscar a solidão como aconchego do mundo. Do mundo e do tempo que fugia como o rio. Não sei que se lhe fez das lembranças, dessa doce herança. Lembrar é esquecer o presente. É querer o passado no presente. Pedro se vivia o seu mundo, criava seu destino. Olhava à volta e sentia cada momento. Queria sentir a vida nos seus sentidos. O cheiro da terra, o aroma dos cajueiros, as flores vermelhas das acácias que lhe enchiam os olhos. E ver as gentes que os outros não viam. Deixar-se ficar naquela idade. Visitar o que ninguém ouvia, correr as imagens que os outros não escutavam. Tocar o tempo, molhar os pés na margem.
Um dia tudo se longeou. E Pedro se perdeu no sempre do tempo. O tempo lhe envolvia e desencontrava memórias. Era como noite de cacimbo. Tudo estava lá e desconseguia de ver. Nessas noites, da outra margem, nem xilunguinè luz. O escuro esfria. Pedro se agarra às palmas das próprias mãos. Se segura. Há tanto que perdeu seu tempo, parece que a noite não acaba mais. O cacimbo se lhe mistura nos olhos. São suas lágrimas que fazem a névoa, é o cacimbo que chora. Já não sorrisa mais.
Perder o tempo é perder a vida. Já não vejo nele o sorriso do mufana. Sei que se procura. Vejo-lhe as mãos entre os cabelos como quando menino. Os olhos fechados procuram o escuro como se a noite lhe pudesse trazer o dia. Um xipefo que fosse, que lhe iluminasse o tempo. Molhar os pés no rio, sentir a margem. Há uma dor funda que lhe esconde o olhar. E tudo se esconde nesse olhar do tempo. Procura o que mais não tem. Olha a distância já sem vontade. Adormece nos seus próprios sonhos. Abraça o que tem por dentro e sente o nada. Já muito longe lhe vai o olhar a outra margem. Vejo-o só na imensidão do tempo que procura. Aconchega-se no vazio. Procura os próprios passos.
Procura no tempo a soleira da porta da casa da Malhangalene. Quer-se sentar lá outra vez. Mas a memória está tão longe. Já não vê os aromas, não escuta as imagens, não sente os passos. Sente-se adormecer, ensonar. A casa está deserta das suas lembranças. Tudo está triste em suas memórias. E aquele cacimbo. A cada momento uma imagem fugaz, só isso. Agarra de novo as palmas das mãos. Segura-se seguro que a manhã chegará. Talvez o sol chegue e o cacimbo se vá. Se o sol chegar, lá do fundo da Xefina. Se o mar deixar. Se deixar correr as lágrimas e lhes sentir o sal. Talvez nelas esteja o sal que traz o mar que deixa vir o sol. Se um dia a memória deixar ele vai deixar-se na memória. Se um dia puder agarrar uma estrela vai deixá-la brilhar dentro de si. Se um dia a noite lhe trouxer o infinito vai correr atrás dele. Se a memória deixar...
Kumbe!
Pedro Rodrigues de Miguel
Deixo aqui uma pequena estória, escrita há já algum tempo, que ofereci a alguém que muito Amo como amo o meu País.
Súbito, como todo o sempre, o Sol namaachou. Noite estrelosa aquela, aguardável e saborosa como manga com sal de Siriri, o baniano do bazar. Sempre era assim nos dias de vir em casa de seus tios lá na Malhangalene. Uma, duas vezes por semana, era lá o serão.
Era noite de Pedro não ensonar.
Sua infância lhe corria ao lado da meninice. Desentendia. Os longos cabelos louros e o doce sorriso nos lábios destraduziam. Sua dor funda. Em casa, tudo lhe barulhava. Sentia-se perder pai e pátria!
Mas naquelas noites, quando seus pequenos pés lhe caminhavam e a capulana das acácias lhe envolvia os passos para aquela casa da Malhangalene, só então Pedro se aprontava de alegrias por dentro.
A casa ficava numa esquina, num canto adormecido de um mundo de fantasia dos confins do tempo. Lá dentro tudo lhe encantava. Os seus olhos de criança sentiam os xicuembo de cada um dos pequenos nada. A nota desafinada do piano, a trela do cão no corredor, o cheiro negro e duro da umbila. Mas local que gostava mesmo era sombreira de porta. Lueira de porta que era noite de serão.
Passava ali tempo infindo, catando estrela, olhando a negritude do infirmamento.
Muro ao lado havia uma papaieira que largava seu cheiro acre no ar se misturando ao doce inebrilhante dos maracujás. E era naquele ambiente de feitiço, sentado ao lado do tio, que se sentia ñwana, olhando todos aqueles pontos no céu estreluzindo.
― Tio, porque as estrelas estão tão longe?
― Perto, mufana, perto.
Gargalhou, lacómico. Sempre assim foi. Resposta simples e sorrisenta. Noite no céu é como noite na Catembe com suas tremeluzinhas.
― Só porque a gente não chega, não tem que estar longe.
― Mas...
― Kumbe, mufana.
― Se?
― Se...!
Sempre lhe falava com aquele entrecortar de xironga que se lhe foi adentrando como sua língua mãeterna.
Pedro se adentrava em suas poucas memórias, tão pequenininhas. Olhava no mundo. Se aconchava no quente de se lembrar. Se pedia um esforço de sentir que nascia outra vez. Queria não se perder. Errar é próprio do homem que é ser errante. Vaguear na lembrança é viver por dentro. Vida é um rio que corre para o longe e molha a margem. A margem nos fica à margem, corre ao lado. Mas nos fica a lembrança das mangueiras e do matope.
Que bom que é sentir, mais tarde, o quente do destino. Olhar no longe e querer estar tão perto. Triste é viver com o mesmo sem vontade com que rasgamos o ventre a nossa mãe. Desmemoriamos. Ficamos presos à solta.
Me lembro dele. Quantas vezes uma lágrima presumida. Parecia buscar a solidão como aconchego do mundo. Do mundo e do tempo que fugia como o rio. Não sei que se lhe fez das lembranças, dessa doce herança. Lembrar é esquecer o presente. É querer o passado no presente. Pedro se vivia o seu mundo, criava seu destino. Olhava à volta e sentia cada momento. Queria sentir a vida nos seus sentidos. O cheiro da terra, o aroma dos cajueiros, as flores vermelhas das acácias que lhe enchiam os olhos. E ver as gentes que os outros não viam. Deixar-se ficar naquela idade. Visitar o que ninguém ouvia, correr as imagens que os outros não escutavam. Tocar o tempo, molhar os pés na margem.
Um dia tudo se longeou. E Pedro se perdeu no sempre do tempo. O tempo lhe envolvia e desencontrava memórias. Era como noite de cacimbo. Tudo estava lá e desconseguia de ver. Nessas noites, da outra margem, nem xilunguinè luz. O escuro esfria. Pedro se agarra às palmas das próprias mãos. Se segura. Há tanto que perdeu seu tempo, parece que a noite não acaba mais. O cacimbo se lhe mistura nos olhos. São suas lágrimas que fazem a névoa, é o cacimbo que chora. Já não sorrisa mais.
Perder o tempo é perder a vida. Já não vejo nele o sorriso do mufana. Sei que se procura. Vejo-lhe as mãos entre os cabelos como quando menino. Os olhos fechados procuram o escuro como se a noite lhe pudesse trazer o dia. Um xipefo que fosse, que lhe iluminasse o tempo. Molhar os pés no rio, sentir a margem. Há uma dor funda que lhe esconde o olhar. E tudo se esconde nesse olhar do tempo. Procura o que mais não tem. Olha a distância já sem vontade. Adormece nos seus próprios sonhos. Abraça o que tem por dentro e sente o nada. Já muito longe lhe vai o olhar a outra margem. Vejo-o só na imensidão do tempo que procura. Aconchega-se no vazio. Procura os próprios passos.
Procura no tempo a soleira da porta da casa da Malhangalene. Quer-se sentar lá outra vez. Mas a memória está tão longe. Já não vê os aromas, não escuta as imagens, não sente os passos. Sente-se adormecer, ensonar. A casa está deserta das suas lembranças. Tudo está triste em suas memórias. E aquele cacimbo. A cada momento uma imagem fugaz, só isso. Agarra de novo as palmas das mãos. Segura-se seguro que a manhã chegará. Talvez o sol chegue e o cacimbo se vá. Se o sol chegar, lá do fundo da Xefina. Se o mar deixar. Se deixar correr as lágrimas e lhes sentir o sal. Talvez nelas esteja o sal que traz o mar que deixa vir o sol. Se um dia a memória deixar ele vai deixar-se na memória. Se um dia puder agarrar uma estrela vai deixá-la brilhar dentro de si. Se um dia a noite lhe trouxer o infinito vai correr atrás dele. Se a memória deixar...
Kumbe!
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Junho 22, 2004
Tu, Minha Vida
Ousada madrugada
como ave que grita
do alto da luz
da Lua
e me ilumina
o caminho certo
em que me perco
Luz do dia
espelho de água
banhado de Sol
que grita
do alto da luz
a palavra que me segue
o sussurro que me serve
Noite de Lua
que espelha o Sol
e se despe
como tu diante de mim
como a primeira vez
que teu corpo tocou
meu corpo sem fim
Pedro Rodrigues de Miguel
como ave que grita
do alto da luz
da Lua
e me ilumina
o caminho certo
em que me perco
Luz do dia
espelho de água
banhado de Sol
que grita
do alto da luz
a palavra que me segue
o sussurro que me serve
Noite de Lua
que espelha o Sol
e se despe
como tu diante de mim
como a primeira vez
que teu corpo tocou
meu corpo sem fim
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Junho 20, 2004
Perder-me
Diz-me
minha fonte de segredo
porque a loucura me leva
por tão profundo Amor
Diz-me
sussurra-me ao ouvido
a palavra vã
que esse doce pulsar
não me deixa ouvir
Diz-me
diz-me tu
chama meu nome
como só tu sabes
e me enganas o chamar
Diz-me
porque sonho
na penumbra do quarto
tuas carícias
tão ternas e belas
que me embalam o sonhar
Diz-me
com teus olhos doces
as palavras que me faltam
os gestos que perdi
para só em ti
me poder perder
Pedro Rodrigues de Miguel
minha fonte de segredo
porque a loucura me leva
por tão profundo Amor
Diz-me
sussurra-me ao ouvido
a palavra vã
que esse doce pulsar
não me deixa ouvir
Diz-me
diz-me tu
chama meu nome
como só tu sabes
e me enganas o chamar
Diz-me
porque sonho
na penumbra do quarto
tuas carícias
tão ternas e belas
que me embalam o sonhar
Diz-me
com teus olhos doces
as palavras que me faltam
os gestos que perdi
para só em ti
me poder perder
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Junho 15, 2004
Os Indigentes
Província 98
Estou a olhar p’ra um copo de cervejinha fresca, um fino como a gente lá lhe chama, uma imperial como dizem aqui. Com o dinheiro que tenho bem que vou continuar a olhar a não ser que consiga cravar alguém. Às vezes é assim, entramos num boteco qualquer só p’ra admirar as bebidas, ou antes, os outros a beber. Que sede qu’isto me faz. Devemos ser masoquistas p’ra entrar em esquemas destes. Mas o meu primo Armando diz qu’isto faz bem à alma. Que bem que faz, porra! Faz mas é uma sede qu’a gente já nem sabe a quantas anda. Um gajo quase que lhe sente o sabor. Deve ser a isto que aqueles tansos dos alcoólicos anónimos chamam de bebedeira seca. E bem seca!
Isto depois dos banhos públicos, dos “banhos quentes”, até vinha a calhar. Nunca mais chega a altura de voltar p’ró Porto, ao menos lá conseguia uma cervejinha na crava, de certeza. Tenho que convencer o meu primo Armando, até porque tínhamos uma hipótese de entrar p’ró programa Porto Feliz. Que felicidade do caraças!... só se for p’ró Rui Rio e toda aquela maralha que anda a encher os bolsos à nossa custa. Todos de fatiota, gravatinha.... e nós sempre a penar! Esquece meu, esquece.
Os dias passam e continuamos os mesmos indigentes. Indigentes, que raio de palavra qu’a doutora Georgina, a tal assistente social da Junta de Freguesia, havia de inventar. Vá lá, vá lá... antes éramos os filhos da puta dos sem abrigo. Já não é mau que não se refiram à nossa mãezinha sem razão.
O meu primo Armando resolveu pedir uma garrafinha, daquelas de plástico de água, com óleo de fritura. Ele diz que é do melhor p’ra proteger a pele das intempéries e do sol. Se é ou não, não sei, mas que ficamos a tolher a peixe frito, ai lá isso ficamos. E na verdade o peixe frito aguenta-se muito bem naquelas coisas de vidro, e cheia de moscas, lá nos botecos. O peixe frito fica com uma pele muito resistente. Não há nada que o estrague. Mas a minha pele também é muito resistente, ou como diz o meu primo Armando, é pele de drogaria. E deve ser verdade. Nem sarna se lhe pega. Olha eu com sarna e, a coçar-me todo, ‘tá quieto ó macaquinho que ‘tava logo à pega com a Ludovina no próximo banho. Em vez de me pôr Quitoso na cabeça, obrigava-me a tomar banho de imersão em Quitoso. Porra! Faz-me lembrar a outra que tinha estado a fazer coisas com a mão ao namorado e o padre mandou-a ficar com a mão meia hora dentro de água benta. Quando a amiga chegou para se confessar, desistiu antes que o padre a pusesse o dia inteiro de molho.
E lá metemos nós os pezinhos ao caminho. Os pezinhos é uma forma de dizer: as Naique! Sim, mais uma oferta dos serviços sociais da Junta de Freguesia de Arroios e, porque não dizer, da Dra. Georgina. Hoje resolvemos ir ao Parque das Nações. O meu primo Armando chama-lhe a Província 98 e diz que deve haver lá muita gente que passa férias todo o ano. Eu cá comecei logo a pensar: também devem lavar os dentes com Theramed 2 em 1. Pois não! Férias por um dia precisava eu, desta vida de indigente.
Francamente não percebo porqu’é qu’aquilo é zona de gente fina. Meio deserto e as coisas ao abandono. O Pavilhão do Futuro até já descasca. Grande futuro qu’aquilo deve ter se ninguém lhe botar a mão. As calçadas, meio levantadas, fazem inveja à Mouraria e ao Bairro Alto, juntos e ao vivo. Obras e basqueiro por todo o lado. A administração daquela merda deve ser gerida por indigentes. Ainda por cima era dia de jogo! Porra, mas vai tudo buzinar p’ráli?!
Gostei foi das paragens de autocarros, onde os autocarros não podem entrar nem sair porque estão bloqueadas por mecos. Grande coisa!
Mais, aquilo é uma desorganização do caraças... os sinais ninguém os entende! Ora vejamos. Ruela fora resolvemos ficar na pedincha à entrada do Vasco da Gama, mesmo à vista do pavilhão, junto a um mascato todo ferrugento, cheio de pontas e uns dez metros de altura, que ninguém deve saber o que é nem p’ró que serve. Ambiente péssimo! Além de ninguém largar um cêntimo, que seja, aparecem logo dois bófias a chatear. Que não podemos estar ali, qu’isto aqui não é sítio p’rá pedincha, qu’isto é tudo gente séria. Gente séria, e nós?! Somos o quê?! De mais a mais o mono ouviu logo: mas que merda é esta? Os sinais já não servem p’ra nada? Eu bem digo qu’aquela merda dos sinais é tudo uma grande desorganização. Pois, e aquele sinalzinho ali além? ‘Tá lá bem escrito: Zona Pedonal! Ora, Zona Pedonal não é o sítio onde se pode pedir? Sim, zona pedonal deve ser zona p’ra pedir! Ignorantes! Ignorantes, nós? Estes filhos da puta dos bófias estão cada vez mais estúpidos. Além de não saberem o que é uma zona pedonal ainda confundem ignorantes com indigentes. Indigente é um gajo que necessita de pedir, ignorante é um gajo que necessita de ignorar. Ora, eu estava mesmo com vontade de ignorar a ordem daqueles cabrões mas, o meu primo Armando, sempre falinhas mansas, lá conseguiu dar a volta à coisa e ainda se pôs na ladainha com os bófias. Delicadamente perguntou-lhes se não podíamos construir um barraco por ali perto! Podem, podem... lá p’rós lados de Vila Franca!
Não achei a resposta muito delicada mas, o meu primo Armando, até a julgou bastante inteligente.
Lá desandamos dali e botamos os chanatos a caminho, a caminho de Vila Franca...
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!
Quiz
Estou a olhar p’ra um copo de cervejinha fresca, um fino como a gente lá lhe chama, uma imperial como dizem aqui. Com o dinheiro que tenho bem que vou continuar a olhar a não ser que consiga cravar alguém. Às vezes é assim, entramos num boteco qualquer só p’ra admirar as bebidas, ou antes, os outros a beber. Que sede qu’isto me faz. Devemos ser masoquistas p’ra entrar em esquemas destes. Mas o meu primo Armando diz qu’isto faz bem à alma. Que bem que faz, porra! Faz mas é uma sede qu’a gente já nem sabe a quantas anda. Um gajo quase que lhe sente o sabor. Deve ser a isto que aqueles tansos dos alcoólicos anónimos chamam de bebedeira seca. E bem seca!
Isto depois dos banhos públicos, dos “banhos quentes”, até vinha a calhar. Nunca mais chega a altura de voltar p’ró Porto, ao menos lá conseguia uma cervejinha na crava, de certeza. Tenho que convencer o meu primo Armando, até porque tínhamos uma hipótese de entrar p’ró programa Porto Feliz. Que felicidade do caraças!... só se for p’ró Rui Rio e toda aquela maralha que anda a encher os bolsos à nossa custa. Todos de fatiota, gravatinha.... e nós sempre a penar! Esquece meu, esquece.
Os dias passam e continuamos os mesmos indigentes. Indigentes, que raio de palavra qu’a doutora Georgina, a tal assistente social da Junta de Freguesia, havia de inventar. Vá lá, vá lá... antes éramos os filhos da puta dos sem abrigo. Já não é mau que não se refiram à nossa mãezinha sem razão.
O meu primo Armando resolveu pedir uma garrafinha, daquelas de plástico de água, com óleo de fritura. Ele diz que é do melhor p’ra proteger a pele das intempéries e do sol. Se é ou não, não sei, mas que ficamos a tolher a peixe frito, ai lá isso ficamos. E na verdade o peixe frito aguenta-se muito bem naquelas coisas de vidro, e cheia de moscas, lá nos botecos. O peixe frito fica com uma pele muito resistente. Não há nada que o estrague. Mas a minha pele também é muito resistente, ou como diz o meu primo Armando, é pele de drogaria. E deve ser verdade. Nem sarna se lhe pega. Olha eu com sarna e, a coçar-me todo, ‘tá quieto ó macaquinho que ‘tava logo à pega com a Ludovina no próximo banho. Em vez de me pôr Quitoso na cabeça, obrigava-me a tomar banho de imersão em Quitoso. Porra! Faz-me lembrar a outra que tinha estado a fazer coisas com a mão ao namorado e o padre mandou-a ficar com a mão meia hora dentro de água benta. Quando a amiga chegou para se confessar, desistiu antes que o padre a pusesse o dia inteiro de molho.
E lá metemos nós os pezinhos ao caminho. Os pezinhos é uma forma de dizer: as Naique! Sim, mais uma oferta dos serviços sociais da Junta de Freguesia de Arroios e, porque não dizer, da Dra. Georgina. Hoje resolvemos ir ao Parque das Nações. O meu primo Armando chama-lhe a Província 98 e diz que deve haver lá muita gente que passa férias todo o ano. Eu cá comecei logo a pensar: também devem lavar os dentes com Theramed 2 em 1. Pois não! Férias por um dia precisava eu, desta vida de indigente.
Francamente não percebo porqu’é qu’aquilo é zona de gente fina. Meio deserto e as coisas ao abandono. O Pavilhão do Futuro até já descasca. Grande futuro qu’aquilo deve ter se ninguém lhe botar a mão. As calçadas, meio levantadas, fazem inveja à Mouraria e ao Bairro Alto, juntos e ao vivo. Obras e basqueiro por todo o lado. A administração daquela merda deve ser gerida por indigentes. Ainda por cima era dia de jogo! Porra, mas vai tudo buzinar p’ráli?!
Gostei foi das paragens de autocarros, onde os autocarros não podem entrar nem sair porque estão bloqueadas por mecos. Grande coisa!
Mais, aquilo é uma desorganização do caraças... os sinais ninguém os entende! Ora vejamos. Ruela fora resolvemos ficar na pedincha à entrada do Vasco da Gama, mesmo à vista do pavilhão, junto a um mascato todo ferrugento, cheio de pontas e uns dez metros de altura, que ninguém deve saber o que é nem p’ró que serve. Ambiente péssimo! Além de ninguém largar um cêntimo, que seja, aparecem logo dois bófias a chatear. Que não podemos estar ali, qu’isto aqui não é sítio p’rá pedincha, qu’isto é tudo gente séria. Gente séria, e nós?! Somos o quê?! De mais a mais o mono ouviu logo: mas que merda é esta? Os sinais já não servem p’ra nada? Eu bem digo qu’aquela merda dos sinais é tudo uma grande desorganização. Pois, e aquele sinalzinho ali além? ‘Tá lá bem escrito: Zona Pedonal! Ora, Zona Pedonal não é o sítio onde se pode pedir? Sim, zona pedonal deve ser zona p’ra pedir! Ignorantes! Ignorantes, nós? Estes filhos da puta dos bófias estão cada vez mais estúpidos. Além de não saberem o que é uma zona pedonal ainda confundem ignorantes com indigentes. Indigente é um gajo que necessita de pedir, ignorante é um gajo que necessita de ignorar. Ora, eu estava mesmo com vontade de ignorar a ordem daqueles cabrões mas, o meu primo Armando, sempre falinhas mansas, lá conseguiu dar a volta à coisa e ainda se pôs na ladainha com os bófias. Delicadamente perguntou-lhes se não podíamos construir um barraco por ali perto! Podem, podem... lá p’rós lados de Vila Franca!
Não achei a resposta muito delicada mas, o meu primo Armando, até a julgou bastante inteligente.
Lá desandamos dali e botamos os chanatos a caminho, a caminho de Vila Franca...
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!
Quiz
Encontro
Percorro teu corpo
em meu desencontro
como madrugada que sobe no dia
como Sol poente
que se namaacha
Percorro teu corpo
escrita que se escrevinha
como capulana
que cobre o sentir
como doce pensar
que se me sente
Percorro teu corpo
livre ao luar
como cacimbo
que me afaga o peito
como chuva quente
que molha a terra
Percorro teu corpo
encontro de halakavuma
como palavra
que se me repete
como sentido pensar
que percorre meu corpo
Pedro Rodrigues de Miguel
em meu desencontro
como madrugada que sobe no dia
como Sol poente
que se namaacha
Percorro teu corpo
escrita que se escrevinha
como capulana
que cobre o sentir
como doce pensar
que se me sente
Percorro teu corpo
livre ao luar
como cacimbo
que me afaga o peito
como chuva quente
que molha a terra
Percorro teu corpo
encontro de halakavuma
como palavra
que se me repete
como sentido pensar
que percorre meu corpo
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Junho 11, 2004
Lembrando-me de ti...
Regresso
Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende
Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que adormecemos
Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro
Mia Couto, Bilene, Janeiro de 1981
Confidência
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Mia Couto, Agosto 1979
Pedro Rodrigues de Miguel
Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende
Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que adormecemos
Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro
Mia Couto, Bilene, Janeiro de 1981
Confidência
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Mia Couto, Agosto 1979
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Junho 09, 2004
Gosto que me confunde...
Olhei-a. Vi-lhe os olhos cerrados, nos cirros e nimbos do sono. Os lábios doces, calmos, sonholentos. O nariz adunco num respirar de sono leve. Os cabelos soltos, de ouro corados, atirados, num gesto para trás. Que doce pensar o meu olhar daquela face calma.
Sono solto!.... e eu a olhar!
Toquei-lhe de leve a loura guedelha como quem quer não querer acordá-la.
Que lhe vai na mente em tão doce pensar quando não se pensa. Ao longe o trinar constante dos Nocturnos de Chopin. Confundiam-se-lhe.
Amor não é o toque seco do gostar. É gostar desse toque de sentir, ver o outro e disso gostar.
E lá continuavam os Nocturnos na tarde de luz e Sol, na penumbra do quarto.
Gosto de a ver assim, gosto dela assim, gosto de ver dela assim. E é neste gosto que me confunde que julgo encontrar o Amor.
Pedro Rodrigues de Miguel
Sono solto!.... e eu a olhar!
Toquei-lhe de leve a loura guedelha como quem quer não querer acordá-la.
Que lhe vai na mente em tão doce pensar quando não se pensa. Ao longe o trinar constante dos Nocturnos de Chopin. Confundiam-se-lhe.
Amor não é o toque seco do gostar. É gostar desse toque de sentir, ver o outro e disso gostar.
E lá continuavam os Nocturnos na tarde de luz e Sol, na penumbra do quarto.
Gosto de a ver assim, gosto dela assim, gosto de ver dela assim. E é neste gosto que me confunde que julgo encontrar o Amor.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Maio 19, 2004
Os Indigentes
Ludovina, meu amor
Acordei muito bem disposto. Seis e vinte da manhã, o Sol já raiara. Só uma pequena dor fina nas costas me incomodava. Os lençóis da funerária de Morais Soares eram um aconchego. Maravilha! Deviam ser do caixão d’ algum finório. Estou mesmo a imaginar o janeca, perninha estendida, sete palmos abaixo de terra. E eu aqui, mais o meu primo Armando, a curtir a luz do dia. É muito bom viver. Ainda mais quando sentimos o aroma do mogno de um sobretudo de madeira e temos a feliz sensação de que alguém já bateu a bota e não fomos nós. Felizardos que nós somos!
E lá estava o meu primo Armando, remelento, na sua bonita camisa de manga curta escandinava. Eh pá, hoje é dia de banho! Banhos públicos, ai ninas! Quarta-feira é quarta-feira! Dia aguardado p’ra tirar o sarro e o bedum acumulado. Encontro marcado com a água fria, o Quitoso e a Ludovina, ou como diz o meu primo Armando, a Senhora Enfermeira Ludovina Simões, que ele é tu lá tu cá com ela. Aquilo da água fria não é brincadeira nenhuma, apesar de à entrada se poder ler o letreiro “Banhos Quentes”. Banhos quentes a puta que os pariu, tão quentes como a frieza da puta da Ludovina que, nos olha como se fôssemos uma colmeia de piolhos. Vá lá piolhosos, toca a baixar a nuca. E ai daquele que respingar. O Pereira há uns tempos armou-se em cuco... levou uma porrada com o frasco de Quitoso nos tomates que nem foi preciso pedir segunda vez. Baixou logo a nuca... e os joelhos, o engraçadinho! Se não me engano foi a primeira e a única vez que sorri com algum afago p‘rá Ludovina. Até a tratei por Senhora Enfermeira, nesse dia! Não, só p’ra ver o Pereira a amouchar...
Às quarta-feiras também temos direito a lâminas p’ra desfazer a barba. Primeiro a barba, seus badalhocos! A Ludovina é de Rio Tinto, perto do Porto, e uma pronúncia e língua afiada pior que a do Major Valentão. Só em ombros é que é mais larga e usa umas socas, p’raí tamanho quarenta e dois, que se um gajo leva com uma nos cornos fica logo a falar sozinho.
O pior é que depois o Quitoso escorre e arde comó caraças em cima da pele arranhada de desfazer a barba. As giletes são descartáveis mas a Ludovina põe-lhes o nosso nome e temos que as usar durante três meses. Estamos no fim de um período e aquela merda já não corta, arranca! É fodido e o Quitoso ainda arde mais. A todos não que o meu primo Armando, sei eu lá como, consegue giletes novas de quinze em quinze dias. Leva a Ludovina à certa com as falinhas mansas dele. E a puta da velha toda langonhosa, a ouvi-lo. Velha sim, qu’ela já tem p’raí quarenta e sete anos ou mais. E bem estragadinhos!
Só depois é que vem a cena do sabão macaco. Quero tudo a fazer espuma! Fazer espuma, fazer espuma... cabra dos diabos! Com’é que podemos fazer espuma com aquela merda que mais parece pedra pomes que sabão e ainda por cima com a merda da água de Lisboa que não deve fazer espuma nem com o mais fino gel de banho?! Por falar em gel deixem-me fazer aqui um pequeno parêntesis. Hoje encontrei ma embalagem de Theramed 2 em 1 lá no balneário. Certamente algum cabrão que se esqueceu dela, fanada em algum chino ali perto. Deu um jeito do caralho... ao menos lavei a dentuça. Bem, aquilo é mais piorreia e dentes podres que dentadura, mas...
Adiante. Eu lavo sempre o imbigo com o indicador, zaque-zaque-zaque de um lado p’ró outro. O meu primo Armando é que tem a mania que é fino e lava com o mindinho. É como tirar o bedum das orelhas, é o mesmo! Quer-se dizer, a gente lava mas aquilo continua a cheirar mal na mesma. Hoje só não sinto o cheiro porque fiquei com o hálito do Theramed 2 em 1. A boca parece que ficou esfregada com uma mistura de urtigas e hortelã-pimenta. Não sei com’é que há quem use daquilo todos os dias!
Ena pá, grande marca, parece que foste agrafado! Era o meu primo Armando a apontar-me as costas. Agora percebo aquela dor fina com que acordei. O filho da puta do lençol devia ter um daqueles agrafes gigantes, p’ra não deixar cair o caixão, que se colou e enterrou na carne dos lombos... mais especificamente nas cruzes! Porra de dor, levou mais de sete dias a sarar. Contingências de um indigente. Devia apresentar queixa na Inspecção Geral das Actividades Económicas. Assim como assim achei melhor ‘tar calado e um dia destes contar o episódio ao padre Vítor Melícias. Espero que seja sensível a estas situações degradantes. Decerto também não gostaria que aquele crucifixo que usa na lapela se lhe enterrasse na pele. Pois não! Apesar que ele agora anda um pouco afastado e só aparece naquelas festas onde também costuma estar aquele ranhoso daquele professor, o Machado qualquer coisa, qu’antes falava muito da sida.
Pois, já me disseram q’um gajo pode apanhar sida nos balneários. Assim como assim lavo sempre muito bem os pés. Apesar da dificuldade em dobrar os joelhos depois de uma noite nos cartões e a banhada de água gelada no pelo. Também me disseram que se pode ficar com pé de atleta. Eu não, com certeza... com a alimentação que tenho! E também não ‘tou a ver o Carlos Lopes ou a Aurora Cunha nos balneários só p’ra ficarem com pé de atleta. Deve haver outras maneiras de o conseguir.
Quando ‘tava a acabar de tomar banho ouvi o meu primo Armando a dizer, Ludovina, meu amor, sei lá onde puseste o Theramed...! Então é isso, Ludovina meu amor! É assim que ele a leva à certa. O melhor é sair pelo soleno não vá ela dar pelo hálito. Sim, que não ‘tou p’ra ser apanhado e quero usar o Theramed, daqui p’ra diante, todos os dias como aquelas gajas finas que passam férias todo o ano. Eu é que precisava de férias desta vida de indigente.
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!
Quiz
Acordei muito bem disposto. Seis e vinte da manhã, o Sol já raiara. Só uma pequena dor fina nas costas me incomodava. Os lençóis da funerária de Morais Soares eram um aconchego. Maravilha! Deviam ser do caixão d’ algum finório. Estou mesmo a imaginar o janeca, perninha estendida, sete palmos abaixo de terra. E eu aqui, mais o meu primo Armando, a curtir a luz do dia. É muito bom viver. Ainda mais quando sentimos o aroma do mogno de um sobretudo de madeira e temos a feliz sensação de que alguém já bateu a bota e não fomos nós. Felizardos que nós somos!
E lá estava o meu primo Armando, remelento, na sua bonita camisa de manga curta escandinava. Eh pá, hoje é dia de banho! Banhos públicos, ai ninas! Quarta-feira é quarta-feira! Dia aguardado p’ra tirar o sarro e o bedum acumulado. Encontro marcado com a água fria, o Quitoso e a Ludovina, ou como diz o meu primo Armando, a Senhora Enfermeira Ludovina Simões, que ele é tu lá tu cá com ela. Aquilo da água fria não é brincadeira nenhuma, apesar de à entrada se poder ler o letreiro “Banhos Quentes”. Banhos quentes a puta que os pariu, tão quentes como a frieza da puta da Ludovina que, nos olha como se fôssemos uma colmeia de piolhos. Vá lá piolhosos, toca a baixar a nuca. E ai daquele que respingar. O Pereira há uns tempos armou-se em cuco... levou uma porrada com o frasco de Quitoso nos tomates que nem foi preciso pedir segunda vez. Baixou logo a nuca... e os joelhos, o engraçadinho! Se não me engano foi a primeira e a única vez que sorri com algum afago p‘rá Ludovina. Até a tratei por Senhora Enfermeira, nesse dia! Não, só p’ra ver o Pereira a amouchar...
Às quarta-feiras também temos direito a lâminas p’ra desfazer a barba. Primeiro a barba, seus badalhocos! A Ludovina é de Rio Tinto, perto do Porto, e uma pronúncia e língua afiada pior que a do Major Valentão. Só em ombros é que é mais larga e usa umas socas, p’raí tamanho quarenta e dois, que se um gajo leva com uma nos cornos fica logo a falar sozinho.
O pior é que depois o Quitoso escorre e arde comó caraças em cima da pele arranhada de desfazer a barba. As giletes são descartáveis mas a Ludovina põe-lhes o nosso nome e temos que as usar durante três meses. Estamos no fim de um período e aquela merda já não corta, arranca! É fodido e o Quitoso ainda arde mais. A todos não que o meu primo Armando, sei eu lá como, consegue giletes novas de quinze em quinze dias. Leva a Ludovina à certa com as falinhas mansas dele. E a puta da velha toda langonhosa, a ouvi-lo. Velha sim, qu’ela já tem p’raí quarenta e sete anos ou mais. E bem estragadinhos!
Só depois é que vem a cena do sabão macaco. Quero tudo a fazer espuma! Fazer espuma, fazer espuma... cabra dos diabos! Com’é que podemos fazer espuma com aquela merda que mais parece pedra pomes que sabão e ainda por cima com a merda da água de Lisboa que não deve fazer espuma nem com o mais fino gel de banho?! Por falar em gel deixem-me fazer aqui um pequeno parêntesis. Hoje encontrei ma embalagem de Theramed 2 em 1 lá no balneário. Certamente algum cabrão que se esqueceu dela, fanada em algum chino ali perto. Deu um jeito do caralho... ao menos lavei a dentuça. Bem, aquilo é mais piorreia e dentes podres que dentadura, mas...
Adiante. Eu lavo sempre o imbigo com o indicador, zaque-zaque-zaque de um lado p’ró outro. O meu primo Armando é que tem a mania que é fino e lava com o mindinho. É como tirar o bedum das orelhas, é o mesmo! Quer-se dizer, a gente lava mas aquilo continua a cheirar mal na mesma. Hoje só não sinto o cheiro porque fiquei com o hálito do Theramed 2 em 1. A boca parece que ficou esfregada com uma mistura de urtigas e hortelã-pimenta. Não sei com’é que há quem use daquilo todos os dias!
Ena pá, grande marca, parece que foste agrafado! Era o meu primo Armando a apontar-me as costas. Agora percebo aquela dor fina com que acordei. O filho da puta do lençol devia ter um daqueles agrafes gigantes, p’ra não deixar cair o caixão, que se colou e enterrou na carne dos lombos... mais especificamente nas cruzes! Porra de dor, levou mais de sete dias a sarar. Contingências de um indigente. Devia apresentar queixa na Inspecção Geral das Actividades Económicas. Assim como assim achei melhor ‘tar calado e um dia destes contar o episódio ao padre Vítor Melícias. Espero que seja sensível a estas situações degradantes. Decerto também não gostaria que aquele crucifixo que usa na lapela se lhe enterrasse na pele. Pois não! Apesar que ele agora anda um pouco afastado e só aparece naquelas festas onde também costuma estar aquele ranhoso daquele professor, o Machado qualquer coisa, qu’antes falava muito da sida.
Pois, já me disseram q’um gajo pode apanhar sida nos balneários. Assim como assim lavo sempre muito bem os pés. Apesar da dificuldade em dobrar os joelhos depois de uma noite nos cartões e a banhada de água gelada no pelo. Também me disseram que se pode ficar com pé de atleta. Eu não, com certeza... com a alimentação que tenho! E também não ‘tou a ver o Carlos Lopes ou a Aurora Cunha nos balneários só p’ra ficarem com pé de atleta. Deve haver outras maneiras de o conseguir.
Quando ‘tava a acabar de tomar banho ouvi o meu primo Armando a dizer, Ludovina, meu amor, sei lá onde puseste o Theramed...! Então é isso, Ludovina meu amor! É assim que ele a leva à certa. O melhor é sair pelo soleno não vá ela dar pelo hálito. Sim, que não ‘tou p’ra ser apanhado e quero usar o Theramed, daqui p’ra diante, todos os dias como aquelas gajas finas que passam férias todo o ano. Eu é que precisava de férias desta vida de indigente.
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!
Quiz
Sábado, Maio 08, 2004
Os Indigentes
Mistura Fina
E lá fui eu mais o meu primo Armando. Noite fora… e a noite é muito triste. Nem sei como é que um indigente como eu consegue escrever coisas destas. Mas ainda fiz a 4ª classe na escola pública. Sim, que sou indigente mas não sou nenhum analfabeto. E o Sr. Ramos, o meu professor primário, não se ensaiava nada em nos arrear umas canadas nas pernas nuas, de calções, ou umas palmatoadas até a gente aprender. Parece-me que era um método bastante cruento mas eficaz para evitar o insucesso escolar. Ali era assim. Não havia opção entre sucesso e insucesso. Levávamos um enchurro de porrada que perdíamos logo a vontade de gatar no exame da 4ª classe. Mais, três erros no ditado e já estávamos à pega.
Deve ter sido por esta exigência que eu tive de me baldar a estudar p’rá catequese. Sim, que a minha mãe queria que eu fosse todos os Sábados para a capela lá do sítio aprender os mandamentos e a lei de Deus. Eu até não me importava porque a catequista era muito nova e muito minha amiga e estava sempre a dar-me miminhos no cabelo. Acho eu, agora, que devia ser por na altura me achar um indigente, como agora se diz. Não, não me venham cá com essa história da pedofilia que isso é uma coisa recente inventada por aqueles queques da Casa Pia. Certo, certo, é que isso não me valeu de nada… chumbei logo no exame p’rá primeira comunhão. O padre disse que eu era um autêntico anormal só porque lhe disse que os “pecados da carne” era não se poder comer carne à Sexta-feira. Ora bolas, então o que é que havia de ser?! Mas eu já estava habituado. Também a minha mãe já dizia que eu era um anormal. Vai p’rá catequese que assim não andas por aí a fazer maldades. Ou seja, a catequese era mais um castigo que uma obrigação. Mais sorte teve o meu primo Armando que ainda passou no exame da comunhão solene… não lhe adiantou a ponta de um corno que depois não tinha dinheiro para a fatiota, a vela e o laço. Bem feito p’ra não se armar em tanso!
Adiante! Lá fomos noite fora. A nossa tendência p’rás igrejas continua a perseguir-nos ao longo da vida. Dirigimo-nos p’rá Igreja dos Anjos, direitinhos a uma reunião de alcoólicos anónimos. P’ráqueles tansos basta dizer que somos alcoólicos p’ra termos direito ao cafezinho. É a isso que vamos. Café à borla e umas bolachinhas. Alcoólicos! Tesos com’á merda desconfio que se um copo de água na pastelaria não fosse de borla até à sede morríamos. O único problema é termos que aguentar aquelas lamechas todas p’ra termos direito a um ou dois copos de plástico de café. ‘Tá bem! Pelo menos sabe bem p’ra desmoer a janta e a fruta tocada.
Depois lá temos que aguentar aquele blá-blá-blá do somos impotentes perante o álcool… vão chamar impotentes à puta que os pariu! Indigente… agora impotente!?
O meu primo Armando lá tem jeito p’ra conseguir o terceiro copo de café. Também conhece as “companheiras” todas! É companheira para aqui, companheira para ali, até já parece a Sopa dos Anjos onde todos nos tratamos por companheiros. Todos, todos, não! Que o filho da puta do Pereira, o das pernas grandes, não devia ter direito a tal tratamento. O cabrão passa o dia a apanhar beatas apagadas da rua, depois junta o tabaco todo e enrola-o em mortalha que nos vende. Chama-lhe “Mistura Fina”. Que raio de nome que ele foi inventar. Rapa-nos o dinheiro todo que vamos juntando com o arrumar dos carros. E ainda tem a lata de dizer que se não fizesse aquilo mais o tráfico de panfletos no Intendente, a coisa que mais gostava de ser era Guarda Fiscal. O filho da puta até que nem é burro. Ladrão por ladrão…!
Ao menos nos alcoólicos anónimos podemo-nos desforrar. Fumar um SG ou um Marlboro sem complicações que os “companheiros” são todos delicados. Ó companheiro, ´tamos aqui é p’ra nos ajudarmos uns aos outros. E lá vai mais um cigarrito à borla. Que bem que sabe. Melhor que nos tempos da escola primária, na escola municipal, em que tínhamos que apanhar as periscas do professor da 2ª classe, ainda acesas, e ir mandar uma passas p’rá cagadeira p’ra matar o vício. O vício não, que naquela altura não era vício. Era p’ra matar a fome do pão duro roído com uma malga de cevada cedo pela manhã. Era muito triste a vida de uma criança criada num barraco… divisão única! Hoje em dia eram capazes de lhe chamar Tê-zero. Nome pomposo p’ró barraco em que tínhamos sempre que adormecer antes dos pais senão, levávamos no focinho. Vá-se lá saber porquê?! Bem, isto nos dias em que o companheiro da minha mãe aparecia lá por casa e dizia: hoje venho esvaziá-los! Nunca percebi o que é que ele vinha esvaziar. Não trazia nenhum saco nem nunca deixou lá em casa fosse o que fosse! Ah, a não ser a ameaça de um enchurro de porrada se eu não adormecesse depressa. Eu fingia, pois não! Ainda o cheguei a ouvir, ó Maria vira p’ra cá a melancia. Quantas vezes me apeteceu dizer que também queria uma fatia, mas… bem tinha que aguentar pela manhã pelo pão dura e pela cevada que nessa altura, de melancia, nem as cascas. Porra, comer cascas e tudo… a fome é negra!
Lá acabou a reunião e fomos buscar as placas de cartão, os lençóis como lhes chamamos, p’ra mais uma noite de aconchego numa entrada vazia.
Bem… e hoje a gente fica-se por aqui…!
Quiz
E lá fui eu mais o meu primo Armando. Noite fora… e a noite é muito triste. Nem sei como é que um indigente como eu consegue escrever coisas destas. Mas ainda fiz a 4ª classe na escola pública. Sim, que sou indigente mas não sou nenhum analfabeto. E o Sr. Ramos, o meu professor primário, não se ensaiava nada em nos arrear umas canadas nas pernas nuas, de calções, ou umas palmatoadas até a gente aprender. Parece-me que era um método bastante cruento mas eficaz para evitar o insucesso escolar. Ali era assim. Não havia opção entre sucesso e insucesso. Levávamos um enchurro de porrada que perdíamos logo a vontade de gatar no exame da 4ª classe. Mais, três erros no ditado e já estávamos à pega.
Deve ter sido por esta exigência que eu tive de me baldar a estudar p’rá catequese. Sim, que a minha mãe queria que eu fosse todos os Sábados para a capela lá do sítio aprender os mandamentos e a lei de Deus. Eu até não me importava porque a catequista era muito nova e muito minha amiga e estava sempre a dar-me miminhos no cabelo. Acho eu, agora, que devia ser por na altura me achar um indigente, como agora se diz. Não, não me venham cá com essa história da pedofilia que isso é uma coisa recente inventada por aqueles queques da Casa Pia. Certo, certo, é que isso não me valeu de nada… chumbei logo no exame p’rá primeira comunhão. O padre disse que eu era um autêntico anormal só porque lhe disse que os “pecados da carne” era não se poder comer carne à Sexta-feira. Ora bolas, então o que é que havia de ser?! Mas eu já estava habituado. Também a minha mãe já dizia que eu era um anormal. Vai p’rá catequese que assim não andas por aí a fazer maldades. Ou seja, a catequese era mais um castigo que uma obrigação. Mais sorte teve o meu primo Armando que ainda passou no exame da comunhão solene… não lhe adiantou a ponta de um corno que depois não tinha dinheiro para a fatiota, a vela e o laço. Bem feito p’ra não se armar em tanso!
Adiante! Lá fomos noite fora. A nossa tendência p’rás igrejas continua a perseguir-nos ao longo da vida. Dirigimo-nos p’rá Igreja dos Anjos, direitinhos a uma reunião de alcoólicos anónimos. P’ráqueles tansos basta dizer que somos alcoólicos p’ra termos direito ao cafezinho. É a isso que vamos. Café à borla e umas bolachinhas. Alcoólicos! Tesos com’á merda desconfio que se um copo de água na pastelaria não fosse de borla até à sede morríamos. O único problema é termos que aguentar aquelas lamechas todas p’ra termos direito a um ou dois copos de plástico de café. ‘Tá bem! Pelo menos sabe bem p’ra desmoer a janta e a fruta tocada.
Depois lá temos que aguentar aquele blá-blá-blá do somos impotentes perante o álcool… vão chamar impotentes à puta que os pariu! Indigente… agora impotente!?
O meu primo Armando lá tem jeito p’ra conseguir o terceiro copo de café. Também conhece as “companheiras” todas! É companheira para aqui, companheira para ali, até já parece a Sopa dos Anjos onde todos nos tratamos por companheiros. Todos, todos, não! Que o filho da puta do Pereira, o das pernas grandes, não devia ter direito a tal tratamento. O cabrão passa o dia a apanhar beatas apagadas da rua, depois junta o tabaco todo e enrola-o em mortalha que nos vende. Chama-lhe “Mistura Fina”. Que raio de nome que ele foi inventar. Rapa-nos o dinheiro todo que vamos juntando com o arrumar dos carros. E ainda tem a lata de dizer que se não fizesse aquilo mais o tráfico de panfletos no Intendente, a coisa que mais gostava de ser era Guarda Fiscal. O filho da puta até que nem é burro. Ladrão por ladrão…!
Ao menos nos alcoólicos anónimos podemo-nos desforrar. Fumar um SG ou um Marlboro sem complicações que os “companheiros” são todos delicados. Ó companheiro, ´tamos aqui é p’ra nos ajudarmos uns aos outros. E lá vai mais um cigarrito à borla. Que bem que sabe. Melhor que nos tempos da escola primária, na escola municipal, em que tínhamos que apanhar as periscas do professor da 2ª classe, ainda acesas, e ir mandar uma passas p’rá cagadeira p’ra matar o vício. O vício não, que naquela altura não era vício. Era p’ra matar a fome do pão duro roído com uma malga de cevada cedo pela manhã. Era muito triste a vida de uma criança criada num barraco… divisão única! Hoje em dia eram capazes de lhe chamar Tê-zero. Nome pomposo p’ró barraco em que tínhamos sempre que adormecer antes dos pais senão, levávamos no focinho. Vá-se lá saber porquê?! Bem, isto nos dias em que o companheiro da minha mãe aparecia lá por casa e dizia: hoje venho esvaziá-los! Nunca percebi o que é que ele vinha esvaziar. Não trazia nenhum saco nem nunca deixou lá em casa fosse o que fosse! Ah, a não ser a ameaça de um enchurro de porrada se eu não adormecesse depressa. Eu fingia, pois não! Ainda o cheguei a ouvir, ó Maria vira p’ra cá a melancia. Quantas vezes me apeteceu dizer que também queria uma fatia, mas… bem tinha que aguentar pela manhã pelo pão dura e pela cevada que nessa altura, de melancia, nem as cascas. Porra, comer cascas e tudo… a fome é negra!
Lá acabou a reunião e fomos buscar as placas de cartão, os lençóis como lhes chamamos, p’ra mais uma noite de aconchego numa entrada vazia.
Bem… e hoje a gente fica-se por aqui…!
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Quinta-feira, Maio 06, 2004
Cire… era uma vez (III)
Aquele Inverno era um Inverno que chovia chuva fria e amarga. Cire perdera-se dos seus mais directos e a fome mordia-lhe as entranhas. Nunca tivera tanta fome e tanto frio. Frio na alma e no corpo. Fome da paz das palavras doces e de algo que lhe acalentasse a barriga. Nem do Seu Segredo sabia. O vento uivava como chicotes nos ramos nus dos castanheiros já despidos de seus ouriços. Escorriam água que fugia para o chão em enchurrada. Lama, pedras, frio, água, solidão, tudo se juntava num inferno de raiva e natureza bruta. Cire tremia de frio, de medo e da incerteza que a todos abarca quando tudo parece perdido. Foi então que algo mudou em toda esta paisagem de Dante. Começou por ser um som diferente. Sim, apenas isso, diferente. Algo que não se coadunava com os gritos ferozes da Mãe Natureza. Parecia humano. Ou antes, de rato. Era como que um sussurro que se foi tornando mais forte, mais audível. Era um chamado, um grito de angústia. Os olhos turvos da chuva fizeram um esforço e correram o lodaçal e o mar de fúria. Arrastou-se na direcção que pensou certa. Rastejou e foi arrastado. Bateu numa pedra e estancou. O som vinha-lhe agora nítido e perto. Lançou a mão mínima e frágil e deu-se conta de um pêlo húmido que não era seu. Fez um esforço e puxou. Arrastou enquanto pode, o que pode e não pode, sem saber bem para onde. Pareceram-lhe horas a fim. O instinto deu-lhe as forças que não tinha. Encaminhou-o pelo caminho certo que ele próprio desconhecia. Arrastava consigo o corpo inerte que não sabia. Não foi fácil aquele primeiro encontro com Ruhtra.
Quando deu por si, encontrava-se perto da gateira que tão bem conhecia. E não estava só. Tinha um corpo frágil a seu lado. Parecia maldade. Perdera tudo e todos (até o Seu Segredo?) e salvara alguém que não lhe dizia nada. Arrastou-a mais para dentro. A cave fria, e agora inóspita, era só sua. Só sua e de mais ninguém. A verdade nua e crua. Era dono do nada e da imensidão das suas memórias. E agora, como se lhe não bastasse ter de lutar por si, contra o nada, tinha aquele corpo a seu lado para lhe lembrar que outros iguais tinham existido. Foi um inferno aquele Inverno. Deu-lhe o canto mais quente. Deixou sobrar para si as palhas húmidas que as secas poucas eram. Dividiu grão a grão o pouco que tinha de guarda. Chegou a mentir a si próprio dizendo que já comera a sua parte. Sentiu momentos de angústia e até ódio por aquele ser que lhe tirava o pouco que tinha... sem, no entanto, nada nem nunca lho pedir. E às vezes sentia-se grato e o ódio tornava-se amor. Era isso: o seu consolo era dar o que sempre pretendera para si. Aprendera a dar. Jamais seria a criança inocente que todos protegem. Sentiu as lágrimas amargas e a alegria, a fome e o conforto, o frio e o calor da alma. Berrou, berrou aos quatro ventos que podia viver sem dor no meio do sofrimento, que podia sofrer sem dor no meio de tanta vida. Ruhtra não fora, na verdade, o milagre enviado à sua vida sem sentido, fora antes o espinho que lhe faltava para se sentir completo, o estímulo da porta do templo de Delfos, o tudo ou nada do conhece-te-a-ti-próprio.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quando deu por si, encontrava-se perto da gateira que tão bem conhecia. E não estava só. Tinha um corpo frágil a seu lado. Parecia maldade. Perdera tudo e todos (até o Seu Segredo?) e salvara alguém que não lhe dizia nada. Arrastou-a mais para dentro. A cave fria, e agora inóspita, era só sua. Só sua e de mais ninguém. A verdade nua e crua. Era dono do nada e da imensidão das suas memórias. E agora, como se lhe não bastasse ter de lutar por si, contra o nada, tinha aquele corpo a seu lado para lhe lembrar que outros iguais tinham existido. Foi um inferno aquele Inverno. Deu-lhe o canto mais quente. Deixou sobrar para si as palhas húmidas que as secas poucas eram. Dividiu grão a grão o pouco que tinha de guarda. Chegou a mentir a si próprio dizendo que já comera a sua parte. Sentiu momentos de angústia e até ódio por aquele ser que lhe tirava o pouco que tinha... sem, no entanto, nada nem nunca lho pedir. E às vezes sentia-se grato e o ódio tornava-se amor. Era isso: o seu consolo era dar o que sempre pretendera para si. Aprendera a dar. Jamais seria a criança inocente que todos protegem. Sentiu as lágrimas amargas e a alegria, a fome e o conforto, o frio e o calor da alma. Berrou, berrou aos quatro ventos que podia viver sem dor no meio do sofrimento, que podia sofrer sem dor no meio de tanta vida. Ruhtra não fora, na verdade, o milagre enviado à sua vida sem sentido, fora antes o espinho que lhe faltava para se sentir completo, o estímulo da porta do templo de Delfos, o tudo ou nada do conhece-te-a-ti-próprio.
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Maio 03, 2004
Perder-te nos sentidos...
Alcácer esperava-nos à hora do almoço. O branco caiado da igreja velha brilhava ao Sol. Corremos em passo lento a calçada velha da rua interior. Um vai-e-vem, adiante e atrás, com um pousar de olhos na inocência de montras de lojas que já não existem. E os estendais, pau erguido e a roupa a corar.
Escrevo isto com uma melancolia, sem azedume ou lamento, que me afaga o mais íntimo que há em mim. Sinto-lhe a mão que me acompanha neste deambular. Sinto o ar sonolento da vila no pico do Sol. É uma vila calma que agrada, Sado a correr, ponte velha do outro lado como tela de van Gogh… é isso que me lembra!
Sentei-me à mesa, hora passada. Olhei-lhe os olhos ternos e compreendi-lhe o estender de mão. Foi um toque suave que me disse mais que imensas palavras. A refeição passou depressa por entre o robalo e o borrego ensopado. Fumei um cigarro que me soube a calmaria.
Dirigimo-nos à estrada. Um milhafre siou de repente, uma cegonha lá do alto mirou-nos enquanto os pinheiros mansos nos acompanharam caminho fora em direcção a uma praia calma, perdida entre aromas a pinho e maresia.
Praia da Comporta. Uma língua de traves de madeira, em forma de passadiço leva-nos ao cimo da duna. O mar em frente faz-se calmo. Um barracão envidraçado na frente, oferece-nos umas espreguiçadeiras cómodas em que repousamos o corpo. O sol bate e uma brisa leve e morna afaga-nos os corpos. Olho-a de soslaio e noto-lhe o ar sereno que lhe brilha nos olhos verdes e nos lábios sorridentes. Sorvo um café aromático que me dispõe enquanto ela prefere um sumo de ananás mergulhado em gelo.
O ar quente convida à modorra. Ela tem um sorriso e encosta-me a cabeça no obro. Um ar de sonolência envolve-a e adormece. Há um gosto que me enternece de a ver assim. Afago-lhe os cabelos sem a acordar. A idade entorpece-me e reganha-me a inocência. Gosto de a olhar assim. De a ver na plenitude do sono que a embala.
Olho o mar calmo e sonho-a, acordado. Aquela tarde faz-se-me calma e acalma-me o desassossego da vida. Algumas gaivotas esvoaçam, algumas como que paradas no tempo fingindo confundir-me os pensamentos. De repente, sinto-lhe o acordar e um beijo ao de leve na face. Há sabores que se ganham, há tanto perdidos. Trinca um pouco de chocolate de que sinto o gosto num terno encostar de lábios. São lábios doces de cacau gostados que me enternecem. Sou um rapazinho sem emenda.
O marulhar das ondas confunde-se com o aroma acanelado das farófias. Ela gosta. Uma neblina, ao longe, parece prolongar a Serra da Arrábida. Há em tudo isto um gosto imenso. A natureza envolve-nos enquanto as mãos se tocam e os dedos se entrelaçam. Deixo-me espraiar neste gostar.
A tarde finda num Sol poente, envergonhado de se fugir. Voltamos.
Há tardes que não se perdem da memória. Há momentos que se ganham de tão curtos. Cai a noite que nos ilumina e perco-me em pensamentos e desmemórias que não são mais que um perder-te nos sentidos.
Pedro Rodrigues de Miguel
Escrevo isto com uma melancolia, sem azedume ou lamento, que me afaga o mais íntimo que há em mim. Sinto-lhe a mão que me acompanha neste deambular. Sinto o ar sonolento da vila no pico do Sol. É uma vila calma que agrada, Sado a correr, ponte velha do outro lado como tela de van Gogh… é isso que me lembra!
Sentei-me à mesa, hora passada. Olhei-lhe os olhos ternos e compreendi-lhe o estender de mão. Foi um toque suave que me disse mais que imensas palavras. A refeição passou depressa por entre o robalo e o borrego ensopado. Fumei um cigarro que me soube a calmaria.
Dirigimo-nos à estrada. Um milhafre siou de repente, uma cegonha lá do alto mirou-nos enquanto os pinheiros mansos nos acompanharam caminho fora em direcção a uma praia calma, perdida entre aromas a pinho e maresia.
Praia da Comporta. Uma língua de traves de madeira, em forma de passadiço leva-nos ao cimo da duna. O mar em frente faz-se calmo. Um barracão envidraçado na frente, oferece-nos umas espreguiçadeiras cómodas em que repousamos o corpo. O sol bate e uma brisa leve e morna afaga-nos os corpos. Olho-a de soslaio e noto-lhe o ar sereno que lhe brilha nos olhos verdes e nos lábios sorridentes. Sorvo um café aromático que me dispõe enquanto ela prefere um sumo de ananás mergulhado em gelo.
O ar quente convida à modorra. Ela tem um sorriso e encosta-me a cabeça no obro. Um ar de sonolência envolve-a e adormece. Há um gosto que me enternece de a ver assim. Afago-lhe os cabelos sem a acordar. A idade entorpece-me e reganha-me a inocência. Gosto de a olhar assim. De a ver na plenitude do sono que a embala.
Olho o mar calmo e sonho-a, acordado. Aquela tarde faz-se-me calma e acalma-me o desassossego da vida. Algumas gaivotas esvoaçam, algumas como que paradas no tempo fingindo confundir-me os pensamentos. De repente, sinto-lhe o acordar e um beijo ao de leve na face. Há sabores que se ganham, há tanto perdidos. Trinca um pouco de chocolate de que sinto o gosto num terno encostar de lábios. São lábios doces de cacau gostados que me enternecem. Sou um rapazinho sem emenda.
O marulhar das ondas confunde-se com o aroma acanelado das farófias. Ela gosta. Uma neblina, ao longe, parece prolongar a Serra da Arrábida. Há em tudo isto um gosto imenso. A natureza envolve-nos enquanto as mãos se tocam e os dedos se entrelaçam. Deixo-me espraiar neste gostar.
A tarde finda num Sol poente, envergonhado de se fugir. Voltamos.
Há tardes que não se perdem da memória. Há momentos que se ganham de tão curtos. Cai a noite que nos ilumina e perco-me em pensamentos e desmemórias que não são mais que um perder-te nos sentidos.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Abril 29, 2004
Cire… era uma vez (II)
Agora Cire estava grato a Gregório e bem o entendia. Olhava à sua frente e aquelas quatro bolinhas pretas eram a certeza da sua própria origem. Ratos davam ratos e as histórias das ervilhas e das leitugas também se aplicavam a ratos! E quanto mais olhava mais acreditava que todos somos um pouco de tudo e só assim fazemos um todo. Pouco lhe interessava que fosse puro ou impuro. Noé morria à vista de quatro bolinhas pretas. Lembrava-se do que tantas vezes lhe tinham tentado ensinar na escola: “De todos os animais puros levarás contigo sete pares, o macho e a fêmea; dos animais que não são puros, levarás um par, o macho e a sua fêmea; das aves do céu, também sete pares, macho e fêmea, a fim de conservares a raça delas viva sobre a terra. Porque dentro de sete dias, vou mandar chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei na superfície de toda a terra todos os seres viventes que Eu fiz. E Noé cumpriu tudo quanto o Senhor lhe ordenara” (Gn 7, 2-5). E sem saber muito bem porquê, sem dominar o seu pensamento, surgia-lhe logo de imediato a figura terna de Mark Twain. Talvez porque uma coisa lhe fazia lembrar outra: “ Primeiro, Deus criou os idiotas. Isto foi só para praticar. Depois criou as Autoridades Escolares”.
Naquelas duas semanas o Sol brilhara como nunca na vida de Cire. Não era só a alegria da Primavera. Era verdadeiramente a Primavera de toda a sua alegria. O brilho de seus olhos era o brilho do Sol e da Lua. Era a alegria louca do Amor pela sua amada Ruhtra. Tinha enfim alguém a quem contar as suas próprias histórias. Até podia ser Inverno que para si o Sol continuaria a brilhar. O afã, os mil e um trabalhos, as canseiras, o corre-corre, tudo lhe era grato porque corria por um pouco de si próprio.
Lembrou-se da sua infância e da fome. De tudo de bom e de mau que lhe havia acontecido. Das histórias à lareira, dos Invernos duros e frios, do aconchego de sua Mãe, das brincadeiras no campo, de como crescera ausente do mundo, de como se perdera na imensidão do nada, de tanto sofrer, de tanta labuta, das pedras das fisgas, do veneno, da alegria de ser feliz sem saber porquê, do medo, de um dia encontrar Ruhtra... de um dia ser feliz e outro não. Vida de rato.
Agora olhava o mundo e sonhava os tempos passados. Conhecera Ruhtra num longo Inverno em que lhe parecia já não ter razão a vida. Não que lhe quisesse pôr termo. Nisso nunca pensara. Nem precisava de fugir da ideia que ela, pura e simplesmente, não lhe vinha à ideia. Só que não achava razão na vida. Parecia não saber muito bem para que servia. São coisas que acontecem e não sabemos bem explicar. Ruthra não lhe aparecera como que por encanto, não fora um acaso feliz, não fora o milagre enviado à sua vida sem sentido. Pelo contrário.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Naquelas duas semanas o Sol brilhara como nunca na vida de Cire. Não era só a alegria da Primavera. Era verdadeiramente a Primavera de toda a sua alegria. O brilho de seus olhos era o brilho do Sol e da Lua. Era a alegria louca do Amor pela sua amada Ruhtra. Tinha enfim alguém a quem contar as suas próprias histórias. Até podia ser Inverno que para si o Sol continuaria a brilhar. O afã, os mil e um trabalhos, as canseiras, o corre-corre, tudo lhe era grato porque corria por um pouco de si próprio.
Lembrou-se da sua infância e da fome. De tudo de bom e de mau que lhe havia acontecido. Das histórias à lareira, dos Invernos duros e frios, do aconchego de sua Mãe, das brincadeiras no campo, de como crescera ausente do mundo, de como se perdera na imensidão do nada, de tanto sofrer, de tanta labuta, das pedras das fisgas, do veneno, da alegria de ser feliz sem saber porquê, do medo, de um dia encontrar Ruhtra... de um dia ser feliz e outro não. Vida de rato.
Agora olhava o mundo e sonhava os tempos passados. Conhecera Ruhtra num longo Inverno em que lhe parecia já não ter razão a vida. Não que lhe quisesse pôr termo. Nisso nunca pensara. Nem precisava de fugir da ideia que ela, pura e simplesmente, não lhe vinha à ideia. Só que não achava razão na vida. Parecia não saber muito bem para que servia. São coisas que acontecem e não sabemos bem explicar. Ruthra não lhe aparecera como que por encanto, não fora um acaso feliz, não fora o milagre enviado à sua vida sem sentido. Pelo contrário.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Abril 28, 2004
Manhã de sonho
Manhã de sono. Manhã de sono. Acordei tarde nas horas. No dia anterior a festa em casa do Aires. A irmã fazia anos, sete ou oito, lembro lá. E nós aproveitamos. Finalistas de liceu.
Acordo agora, já tarde. Não tinha aulas ao primeiro tempo das quintas-feiras. Chego tarde, atrasado, ao liceu. Já passa das nove. Burburinho na aula da Mariana Manso. OPAN! Que tinha acontecido qualquer coisa, ninguém sabia.
Na noite anterior, tarde, volto a casa de madrugada., de volta da casa do Aires. Nem smbra de bófias no Marquês. Coisa estranha. Bagunça naquela aula, com aquela professora? Não percebo! Sento-me. Eh pá, será uma revolução outra vez? Golpe das Caldas ainda fresco na memória.
Tinha dormido sozinho na casa. Sem rádio ou televisão. Apenas o despertador mecânico. Mecânico levanto-me, já tarde, despertador sem dar horas. Porquê? A festa do Aires. Pois, não o liguei. Visto-me à pressa e corro pela quelha que me leva ao liceu.
Termina a aula, intervalo grande. Só carros a chegarem ao liceu. Os papás aflitos. Afinal houve mesmo uma revolução lá em baixo. E o lembrar da Faculdade de Ciências ainda arder, ainda na memória.
Corro à sala de rádio do liceu. Ensonado, estremunhado, confuso. Vejo o Vítor, o Vítor meirinho.
— Vamos lá, pá, houve ma revolução.
E berramos aos altifalantes do liceu.
— Malta, houve uma revolução.
Entra o reitor, seus malandros, não têm vergonha!
— Ave de rapina, homem das cavernas...
... grita-lhe o Vítor.
Virou-nos as costas. Ficamos a olhar um para o outro. E agora? Agora a média, a dispensa a todas as disciplinas, a dispensa da Aptidão...
— Porra, se esta merda não vai para a frente!
— ‘Tamos lixados.
Faz-se longe a memória da nossa terra. Moçambique lá longe e nós aqui. E agora?
O reitor não voltou. Não houve mais aulas. No dia seguinte ainda a luta. Mas houve mesmo uma revolução. A Revolução resultou. Dispensamos a tudo. O dia passou.
E nós aqui e agora à espera da Revolução!
Pedro Rodrigues de Miguel
Acordo agora, já tarde. Não tinha aulas ao primeiro tempo das quintas-feiras. Chego tarde, atrasado, ao liceu. Já passa das nove. Burburinho na aula da Mariana Manso. OPAN! Que tinha acontecido qualquer coisa, ninguém sabia.
Na noite anterior, tarde, volto a casa de madrugada., de volta da casa do Aires. Nem smbra de bófias no Marquês. Coisa estranha. Bagunça naquela aula, com aquela professora? Não percebo! Sento-me. Eh pá, será uma revolução outra vez? Golpe das Caldas ainda fresco na memória.
Tinha dormido sozinho na casa. Sem rádio ou televisão. Apenas o despertador mecânico. Mecânico levanto-me, já tarde, despertador sem dar horas. Porquê? A festa do Aires. Pois, não o liguei. Visto-me à pressa e corro pela quelha que me leva ao liceu.
Termina a aula, intervalo grande. Só carros a chegarem ao liceu. Os papás aflitos. Afinal houve mesmo uma revolução lá em baixo. E o lembrar da Faculdade de Ciências ainda arder, ainda na memória.
Corro à sala de rádio do liceu. Ensonado, estremunhado, confuso. Vejo o Vítor, o Vítor meirinho.
— Vamos lá, pá, houve ma revolução.
E berramos aos altifalantes do liceu.
— Malta, houve uma revolução.
Entra o reitor, seus malandros, não têm vergonha!
— Ave de rapina, homem das cavernas...
... grita-lhe o Vítor.
Virou-nos as costas. Ficamos a olhar um para o outro. E agora? Agora a média, a dispensa a todas as disciplinas, a dispensa da Aptidão...
— Porra, se esta merda não vai para a frente!
— ‘Tamos lixados.
Faz-se longe a memória da nossa terra. Moçambique lá longe e nós aqui. E agora?
O reitor não voltou. Não houve mais aulas. No dia seguinte ainda a luta. Mas houve mesmo uma revolução. A Revolução resultou. Dispensamos a tudo. O dia passou.
E nós aqui e agora à espera da Revolução!
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Abril 26, 2004
Poema lembrado
Mas se ainda nem me sei perder,
Como me poderei encontrar?!
Perdi a esperança no porvir?
O jeito de me encontrar!
Sei lá, olhei em volta…
Acredita, diz-me Ela
Que é minha Lua
Como Sol em noite escura.
Redoma que se abriu
No gesto doce de um beijo,
No olhar verde da esperança.
Gesto sentido,
Doce carinho, encontro de mãos,
Retrato a preto e branco
Que se faz colorido.
Enlevo de vida,
Acordar de um sono sonhado
Que me perdeu, encontrado,
Na imensidão do Amor.
(Poema a Alguém, escrito a lápis pautado)
Pedro Rodrigues de Miguel
Como me poderei encontrar?!
Perdi a esperança no porvir?
O jeito de me encontrar!
Sei lá, olhei em volta…
Acredita, diz-me Ela
Que é minha Lua
Como Sol em noite escura.
Redoma que se abriu
No gesto doce de um beijo,
No olhar verde da esperança.
Gesto sentido,
Doce carinho, encontro de mãos,
Retrato a preto e branco
Que se faz colorido.
Enlevo de vida,
Acordar de um sono sonhado
Que me perdeu, encontrado,
Na imensidão do Amor.
(Poema a Alguém, escrito a lápis pautado)
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Abril 21, 2004
Cire… era uma vez (I)
O Sol brilhava intenso e arquejava por sobre a erva lenta e verde, mimava os musgos que se abraçavam para lhe fugir e se esconder na sombra, adamava os frutos jovens que por ora fingiam crescer, dourava o alto das espigas que se espojavam em miríades de pequenos grãos, entrava pelas frestas das janelas e brincava nos chãos de soalho nu como notas soltas de uma sinfonia sem fim, dava vida e vigor às infusas verde garrafa que amadureciam o néctar tânico dando ao doce hemático as cores do arco-íris, calcorreava os calhaus rolados do regato levando à sua frente as gotas frescas e límpidas da água corrente, fazia, enfim, um pouco de vida em tudo o que tocava. Eram momentos de felicidade a que nenhum ser se podia furtar. Eram momentos em que a vida corria como que só de felicidade fosse feita. E Cire não fugia a essa felicidade que tanto queria. Corria desenfreado de um lado para o outro como se quisesse correr contra a vida que tanto amava. Cada canto e recanto, que há muito conhecia, eram como se de novo lhe aparecessem. Sentia-se mais jovem na sua própria juventude.
Finalmente acreditava naquele monge de Heinzendorf. Afinal não eram lérias apenas sobre ervilhas e leitugas... também se aplicavam a ratos! Um antepassado seu falara-lhe de um velho da família que vivera há muito, muito tempo, num mosteiro em Brünn e conhecera um jovem monge, um tal Gregório, que decidira contar vezes sem conta quantas vezes podia contar as mesmas coisas nas flores da ervilheira. Cire não percebia bem o interesse que poderiam ter as flores da ervilheira para a felicidade de um rato. Não percebia na altura e até duvidava. Também muitos, como lhe dissera o seu tio-avô, duvidaram do homenzinho de Brünn. Duvidaram ou um pouco mais ― acharam por bem calá-lo, que isso de ervilhas e leitugas era uma história de pouca sanidade. De mais a mais, pelas mesmas alturas, lá para os lados de Down House, um outro homenzinho, de Shrewsbury, resolvera pôr em dúvida a originalidade das origens. Tinha tido a ousadia, só porque um dia resolvera viajar num tal Beagle, de duvidar Da Origem das Espécies. Fizera estourar, esfumar na poeira dos tempos, o catastrofismo da Arca de Noé. Pôs lado a lado todos os macacos e tantos outros bichos, arrepiou caminho ao dualismo, fez com que cada um de nós fosse mais bicho e mais homem, deixou que o monge Gregório fosse a sua própria prova e deu-lhe luz e alma.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Finalmente acreditava naquele monge de Heinzendorf. Afinal não eram lérias apenas sobre ervilhas e leitugas... também se aplicavam a ratos! Um antepassado seu falara-lhe de um velho da família que vivera há muito, muito tempo, num mosteiro em Brünn e conhecera um jovem monge, um tal Gregório, que decidira contar vezes sem conta quantas vezes podia contar as mesmas coisas nas flores da ervilheira. Cire não percebia bem o interesse que poderiam ter as flores da ervilheira para a felicidade de um rato. Não percebia na altura e até duvidava. Também muitos, como lhe dissera o seu tio-avô, duvidaram do homenzinho de Brünn. Duvidaram ou um pouco mais ― acharam por bem calá-lo, que isso de ervilhas e leitugas era uma história de pouca sanidade. De mais a mais, pelas mesmas alturas, lá para os lados de Down House, um outro homenzinho, de Shrewsbury, resolvera pôr em dúvida a originalidade das origens. Tinha tido a ousadia, só porque um dia resolvera viajar num tal Beagle, de duvidar Da Origem das Espécies. Fizera estourar, esfumar na poeira dos tempos, o catastrofismo da Arca de Noé. Pôs lado a lado todos os macacos e tantos outros bichos, arrepiou caminho ao dualismo, fez com que cada um de nós fosse mais bicho e mais homem, deixou que o monge Gregório fosse a sua própria prova e deu-lhe luz e alma.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Abril 18, 2004
Com a Música no Coração
Quarto, quase Lua cheia. Bom presságio. Nota-se um esboço de dia. Há um cinza-azul quase laranja que refulge lá no fundo. Olho o rio de cima, verde-vidro, espelho de água. Intocável, impassível, profundo. Curvas em remanso de areal que se me confundem com o som profundo de um Capricci de Paganini.
Passa as Devesas e o meu corpo pede-me um fechar de olhos. Deixo-me ir naquele Maestoso seguido de Agitato que me calma o pensar. Passo pelo sonho. Deixo-me ir naquela imagem que se me ficou de casas lindas, dos vintes, da Aguda e da Granja.
Espera!... hão-de pedir-to quando chegar a primavera. E ouço Vivaldi. Logo de seguida Méditation de Massenet. Doce pensar naquele doce compassar quaternário. Há uma harpa lá no fundo que me deseja uma paz imensa que o violino transcende nas mãos de Nigel Kennedy. Ah, se tu soubesses como é doce o teu ensonhar.
Agora há um rio que corre ao lado, sei lá qual. Segue por entre canaviais. Um cheiro acre atinge-me as narinas mas não me desperta da letargia funda, desse recanto, onde me deixas só contigo. Como se Bruch quisesse trazer-te a mim, tão de leve que teus passos se confundem com o meu pensar e te prendesses toda nos meus braços…
… Quando me lembra:… o eco dos teus passos… o teu riso de fonte…
Papoilas dispersas, vermelhas, vejo-as agora. Ladeiam o caminho. Papoilas mansas descomprometidas de opióides. Mas sinto o sono. Um sono comprometido com o Nocturno em mi bemol. Frédéric adormece-me.
Vejo o velho casario que estende o olhar longe, lá para o mar.
Há uma ternura em todo o meu sentir. É medo. É insegurança. E não saber dar.
Amor não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção, como dizia Antoine de Saint-Exupéry.
Volto a mim com uma paz de espírito que nunca antes senti. Sem ti. Contigo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Passa as Devesas e o meu corpo pede-me um fechar de olhos. Deixo-me ir naquele Maestoso seguido de Agitato que me calma o pensar. Passo pelo sonho. Deixo-me ir naquela imagem que se me ficou de casas lindas, dos vintes, da Aguda e da Granja.
Espera!... hão-de pedir-to quando chegar a primavera. E ouço Vivaldi. Logo de seguida Méditation de Massenet. Doce pensar naquele doce compassar quaternário. Há uma harpa lá no fundo que me deseja uma paz imensa que o violino transcende nas mãos de Nigel Kennedy. Ah, se tu soubesses como é doce o teu ensonhar.
Agora há um rio que corre ao lado, sei lá qual. Segue por entre canaviais. Um cheiro acre atinge-me as narinas mas não me desperta da letargia funda, desse recanto, onde me deixas só contigo. Como se Bruch quisesse trazer-te a mim, tão de leve que teus passos se confundem com o meu pensar e te prendesses toda nos meus braços…
… Quando me lembra:… o eco dos teus passos… o teu riso de fonte…
Papoilas dispersas, vermelhas, vejo-as agora. Ladeiam o caminho. Papoilas mansas descomprometidas de opióides. Mas sinto o sono. Um sono comprometido com o Nocturno em mi bemol. Frédéric adormece-me.
Vejo o velho casario que estende o olhar longe, lá para o mar.
Há uma ternura em todo o meu sentir. É medo. É insegurança. E não saber dar.
Amor não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção, como dizia Antoine de Saint-Exupéry.
Volto a mim com uma paz de espírito que nunca antes senti. Sem ti. Contigo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Abril 16, 2004
O meu Diário
Férias da Páscoa
O meu pai está cada vez pior. No outro dia estávamos a ver um jogo de futebol na televisão e diz «eh pá, vista?... um golo igualzinho ao de há um bocado»! Dãããããã… brolho! Era a repetição. Nem topou! Não percebe puto de futebol. Só hóquei, só hóquei. Mas aí é melhor eu estar calado que já estou farto de levar nas orelhas…
Agora convenceu-se de uma nova: que tenho que tocar três (três…!) horas de violino por dia. Deve estar choné… também com a idade que tem! Quando diz, na brincadeira, que tem Alzaimer ou Altzaimer ou lá o que é, eu começo é a acreditar que é verdade. Olhem só: três horas de violino por dia! Não deve estar bom da cuca de certeza.
Mas há qualquer coisa que se tem andado a modificar nele. Há, há! Já desalapa mais do sofá e anda mais agitado. Chama camelo a tudo e a todos… eu sou o bombo da festa, para não variar!
Até lhe pegou a mania da Internet!
No outro dia mostrei-lhe o site do Humortadela. Agora não para de ir para lá ver os bonecos, as músicas e os joguinhos. Parece um puto! E eu estou a dizer “um puto” não é um pré-adolescente como eu. Levanta-se cedíssimo e vai para a net, não sei fazer o quê. Ainda anteontem acordei às sete horas e ele já lá estava.
— Oh meu camelo, já aqui estou desde as seis e meia — e eu com isso, nem lhe tinha perguntado nada.
Estava a ver as notícias do Público. Deve estar completamente biruta para ir ler o jornal àquela hora. Eu tenho cá uma ideia, mas…
Baixei as minhas notas no Conservatório. Ainda gostava de saber como é que os profes fazem as avaliações. Deve ser ao calhas! Ou jogam aos Metaltaz e conforme ganham ou perdem assim dão as notas. Aqui já concordo com o meu pai: esses gajos do Conservatório são todos uns camelos!
Até me senti melhor.
— Há excepções! —esta não percebi.
Mas ele, às vezes, tem assim umas coisas.
Hoje estive a ler o Clockwork Orange. Aquele Stanley, a falar, é pior que o Adelino que é um colega meu que já tem quinze anos e ainda anda no 6º ano. Vive no bairro da Fábrica do Sabão e também diz montes de asneiras… mesmo na aula!
Eu não sou burro nenhum mas não posso acreditar numa coisa que pensei. Quando estava a ver o blogue do Stanley notei que comenta muitas notícias do Público e faz sempre aquilo logo de manhã. Chegou-me a passar pela cabeça: será que o meu pai é o Stanley?! Mas não pode ser. O meu pai não diz aquelas asneiras todas. Fica-se pelos “camelos” e pouco mais. Sim, que o meu pai não é nenhum malcriadão. Às vezes chama tonta a não sei quem, mas isso é ele a falar sozinho.
O resto das férias foram fixes. Tive um torneio em Sintra e trouxe de lá uma bonita medalha. Ah!... e o meu pai comprou-me umas rodas novas para os patins… anda um mãos largas! Não percebo como é que às vezes lhe dá para estes mimos. O Pedro também foi e foram dois dias fixes.
Bem, está na hora que começo a ficar com sono.
João
O meu pai está cada vez pior. No outro dia estávamos a ver um jogo de futebol na televisão e diz «eh pá, vista?... um golo igualzinho ao de há um bocado»! Dãããããã… brolho! Era a repetição. Nem topou! Não percebe puto de futebol. Só hóquei, só hóquei. Mas aí é melhor eu estar calado que já estou farto de levar nas orelhas…
Agora convenceu-se de uma nova: que tenho que tocar três (três…!) horas de violino por dia. Deve estar choné… também com a idade que tem! Quando diz, na brincadeira, que tem Alzaimer ou Altzaimer ou lá o que é, eu começo é a acreditar que é verdade. Olhem só: três horas de violino por dia! Não deve estar bom da cuca de certeza.
Mas há qualquer coisa que se tem andado a modificar nele. Há, há! Já desalapa mais do sofá e anda mais agitado. Chama camelo a tudo e a todos… eu sou o bombo da festa, para não variar!
Até lhe pegou a mania da Internet!
No outro dia mostrei-lhe o site do Humortadela. Agora não para de ir para lá ver os bonecos, as músicas e os joguinhos. Parece um puto! E eu estou a dizer “um puto” não é um pré-adolescente como eu. Levanta-se cedíssimo e vai para a net, não sei fazer o quê. Ainda anteontem acordei às sete horas e ele já lá estava.
— Oh meu camelo, já aqui estou desde as seis e meia — e eu com isso, nem lhe tinha perguntado nada.
Estava a ver as notícias do Público. Deve estar completamente biruta para ir ler o jornal àquela hora. Eu tenho cá uma ideia, mas…
Baixei as minhas notas no Conservatório. Ainda gostava de saber como é que os profes fazem as avaliações. Deve ser ao calhas! Ou jogam aos Metaltaz e conforme ganham ou perdem assim dão as notas. Aqui já concordo com o meu pai: esses gajos do Conservatório são todos uns camelos!
Até me senti melhor.
— Há excepções! —esta não percebi.
Mas ele, às vezes, tem assim umas coisas.
Hoje estive a ler o Clockwork Orange. Aquele Stanley, a falar, é pior que o Adelino que é um colega meu que já tem quinze anos e ainda anda no 6º ano. Vive no bairro da Fábrica do Sabão e também diz montes de asneiras… mesmo na aula!
Eu não sou burro nenhum mas não posso acreditar numa coisa que pensei. Quando estava a ver o blogue do Stanley notei que comenta muitas notícias do Público e faz sempre aquilo logo de manhã. Chegou-me a passar pela cabeça: será que o meu pai é o Stanley?! Mas não pode ser. O meu pai não diz aquelas asneiras todas. Fica-se pelos “camelos” e pouco mais. Sim, que o meu pai não é nenhum malcriadão. Às vezes chama tonta a não sei quem, mas isso é ele a falar sozinho.
O resto das férias foram fixes. Tive um torneio em Sintra e trouxe de lá uma bonita medalha. Ah!... e o meu pai comprou-me umas rodas novas para os patins… anda um mãos largas! Não percebo como é que às vezes lhe dá para estes mimos. O Pedro também foi e foram dois dias fixes.
Bem, está na hora que começo a ficar com sono.
João
Os Indigentes
A sopa dos Anjos
Lá descemos nós, eu mais o meu primo Armando, a Avenida Almirante Reis em direcção à igreja dos Anjos. Bem, não era bem p’rá igreja mas em frente, p’rá Sopa dos Anjos que a gente ia. A puta da bicha já ‘tava grande comó caralho mas também ninguém nos mandou chegar atrasados mais de cinco minutos… é na merda que dá arrumar mais um carrito junto ao cemitério do Alto de S. João àquela hora. Mas o meu primo Armando dizia que o cabrão que tinha batido a bota era um gajo de nota e que um gajo havia de arranjar algum que desse p’ra um maço de tabaco. Ficamos fodidos que o caralho do pinoca do Bê-éme só nos deu 10 cêntimos, o grande filho da puta. Às tantas ainda queria troco!
Bem, eu como só ‘tou de visita a Lisboa ainda ‘tava mais fodido porque não tinha a merda do cartão de livre trânsito— novidade agora — que permite a um gajo ir à janta, às 18.30 em ponto à sopa dos Anjos. O meu primo Armando disse logo, que esquece que não há problema nenhum, eu entro e depois passo pela gateira o cartão e tu também entras, depois vais ter comigo senão o Sr. Carvalho começa logo a desconfiar. O que vale é que o cartão, com fotografia de perfil, “sem óculos e qualquer apêndice piloso” conforme diz a Dra. Georgina, que é a assistente social da Junta de Freguesia de Arroios, serve p’ra todo o bacano que tenha cara de estúpido como eu e mais o meu primo Armando.
O meu primo Armando, hoje, ‘tava todo jeitoso com a camisa nova que foi receber à junta de freguesia… às flores e de manga curta, com uma mancha de ferrugem no ombro esquerdo, vestida por cima das duas camisolas de lã que já lhe conheço há meses. Camisa de manga curta nesta época de frio…! Filha da puta de ideia que os gajos da junta têm. O meu primo Armando diz que devemos ser humildes e agradecer e até explicou que aquela mancha de ferrugem é dos atilhos de arame de apertar os fardos de roupa usada, enviados dos países escandinavos por uma associação humanitário de auxílio a pobres e sem-abrigo de países do terceiro mundo. Nunca percebi como é que aqueles cabrões daqueles países tão frios têm tanta roupa de manga curta.
O meu primo Armando lá entrou quando chegou a vez dele. Depois passou o cartão pela gateira e foi a minha vez de entrar. Notei que o cartão dizia: “Indigente”. Perguntei ao meu primo Armando o que é que raio era aquilo. Ele disse que também não sabia mas que tinha sido ideia da Dra. Georgina da Junta de Freguesia de Arroios. Ele diz que a Dra. Georgina é uma gaja boa como milho mas burra que nem um soco e com um grande par de mamas mas que não deve saber fazer uso delas porque deve ter uma falta de peso do caralho porque fode a cabeça a toda a gente todos os dias. Só esta última do “Indigente” obrigou o meu primo Armando a arranjar três (sim, três…!) atestados de pobreza assinados e carimbados por comerciantes locais. Como ele diz, foram mais as vezes que o mandaram p’rá puta que o pariu do que as vezes que lhe arranjaram o filho da puta do carimbo.
Adiante. Lá nos sentamos p’ra comer a sopa de couve lombarda. ‘Tava azeda mas é natural porque hoje é Domingo e a couve esteve ao monte, pelo menos três dias, porque a última e mais recente apreensão da Inspecção Económica foi na quinta-feira que aqueles cabrões não trabalham à sexta p’ra não foder o esquema aos restaurantes. Nunca percebi mas sempre que lá fui era sopa de couve lombarda. Lá estava o Sr. Carvalho e a D. Carlota que são o “pessoal do stafe”, pelo menos é assim que eles se dizem. Nós preferimos dizer que o Carvalho é “um topa a tudo” (…até as laranjas melhorzinhas o filho da puta leva p’ra casa!). O meu primo Armando só me disse que estávamos fodidos é se chegava o Pereira. Lá rapamos a tigela de alumínio, ou aço inox ou lá que caralho é aquilo, com um bocado de pão. Isto tem duas vantagens: comemos mais sopa e a malga fica devidamente escorrido p’ra depois nos podermos servir do peixe. É que não dão o peixe a quem não comer a sopa toda! O peixe também é das apreensões da Inspecção Económica mas há quem diga que fica pelo menos cinco dias na doca de Alcântara nos armazéns da guarda da Guarda Fiscal… sei eu lá p’ra quê!? Isto tem a vantagem de um gajo não ter que se preocupar com as espinhas que já vêm meio desfeitas. Foi aí que chegou o Pereira e foi aí que eu percebi porque é que estávamos fodidos se ele chegasse. O filho da puta tem mais de dois metros e p’ra se sentar afasta o banco corrido (sim que ali não há cadeiras individuais…! Não queriam mais nada, como diz o Sr. Carvalho) e ficamos todos a mais de meio metro da mesa. Foi aqui, e por causa desta merda, que o meu primo Armando ficou com uma nódoa de gordura na camisa nova de manga curta vinda dos países escandinavos. É fodido, principalmente se pensarmos que isto tudo de deve àquele cabrão ter umas pernas enormes. Eu por acaso não me caguei com o molho (óleo de fritar com cheiro a ranço…!) porque resolvi chupá-lo todo com miolo de pão.
Na fruta é que a gente se safa. O meu primo Armando dá-se muito com a D. Carlota e ela arranja-lhe sempre fruta da menos tocada. Às vezes tem bicho, mas isso acontece, ou como diz o Sr. Carvalho “comeide que são proteínas”!
No fim fomos dar uma volta p’ra estender as pernas e procurar um sítio onde deitar os “lençóis” (placas de cartão novinhas em folha…!) que arranjamos logo de manhã na funerária ao fundo da Morais Soares. É que aquilo tem a vantagem de ter logo a medida certinha dum gajo! Mas isto agora ‘tá difícil que os filhos da puta dos monhés e dos chinocas põem grades em tudo o que é loja de trezentos e fodem-nos a vida que não encontramos um recanto adequado facilmente.
Bem…e hoje a gente fica-se por aqui…!
Quiz
Lá descemos nós, eu mais o meu primo Armando, a Avenida Almirante Reis em direcção à igreja dos Anjos. Bem, não era bem p’rá igreja mas em frente, p’rá Sopa dos Anjos que a gente ia. A puta da bicha já ‘tava grande comó caralho mas também ninguém nos mandou chegar atrasados mais de cinco minutos… é na merda que dá arrumar mais um carrito junto ao cemitério do Alto de S. João àquela hora. Mas o meu primo Armando dizia que o cabrão que tinha batido a bota era um gajo de nota e que um gajo havia de arranjar algum que desse p’ra um maço de tabaco. Ficamos fodidos que o caralho do pinoca do Bê-éme só nos deu 10 cêntimos, o grande filho da puta. Às tantas ainda queria troco!
Bem, eu como só ‘tou de visita a Lisboa ainda ‘tava mais fodido porque não tinha a merda do cartão de livre trânsito— novidade agora — que permite a um gajo ir à janta, às 18.30 em ponto à sopa dos Anjos. O meu primo Armando disse logo, que esquece que não há problema nenhum, eu entro e depois passo pela gateira o cartão e tu também entras, depois vais ter comigo senão o Sr. Carvalho começa logo a desconfiar. O que vale é que o cartão, com fotografia de perfil, “sem óculos e qualquer apêndice piloso” conforme diz a Dra. Georgina, que é a assistente social da Junta de Freguesia de Arroios, serve p’ra todo o bacano que tenha cara de estúpido como eu e mais o meu primo Armando.
O meu primo Armando, hoje, ‘tava todo jeitoso com a camisa nova que foi receber à junta de freguesia… às flores e de manga curta, com uma mancha de ferrugem no ombro esquerdo, vestida por cima das duas camisolas de lã que já lhe conheço há meses. Camisa de manga curta nesta época de frio…! Filha da puta de ideia que os gajos da junta têm. O meu primo Armando diz que devemos ser humildes e agradecer e até explicou que aquela mancha de ferrugem é dos atilhos de arame de apertar os fardos de roupa usada, enviados dos países escandinavos por uma associação humanitário de auxílio a pobres e sem-abrigo de países do terceiro mundo. Nunca percebi como é que aqueles cabrões daqueles países tão frios têm tanta roupa de manga curta.
O meu primo Armando lá entrou quando chegou a vez dele. Depois passou o cartão pela gateira e foi a minha vez de entrar. Notei que o cartão dizia: “Indigente”. Perguntei ao meu primo Armando o que é que raio era aquilo. Ele disse que também não sabia mas que tinha sido ideia da Dra. Georgina da Junta de Freguesia de Arroios. Ele diz que a Dra. Georgina é uma gaja boa como milho mas burra que nem um soco e com um grande par de mamas mas que não deve saber fazer uso delas porque deve ter uma falta de peso do caralho porque fode a cabeça a toda a gente todos os dias. Só esta última do “Indigente” obrigou o meu primo Armando a arranjar três (sim, três…!) atestados de pobreza assinados e carimbados por comerciantes locais. Como ele diz, foram mais as vezes que o mandaram p’rá puta que o pariu do que as vezes que lhe arranjaram o filho da puta do carimbo.
Adiante. Lá nos sentamos p’ra comer a sopa de couve lombarda. ‘Tava azeda mas é natural porque hoje é Domingo e a couve esteve ao monte, pelo menos três dias, porque a última e mais recente apreensão da Inspecção Económica foi na quinta-feira que aqueles cabrões não trabalham à sexta p’ra não foder o esquema aos restaurantes. Nunca percebi mas sempre que lá fui era sopa de couve lombarda. Lá estava o Sr. Carvalho e a D. Carlota que são o “pessoal do stafe”, pelo menos é assim que eles se dizem. Nós preferimos dizer que o Carvalho é “um topa a tudo” (…até as laranjas melhorzinhas o filho da puta leva p’ra casa!). O meu primo Armando só me disse que estávamos fodidos é se chegava o Pereira. Lá rapamos a tigela de alumínio, ou aço inox ou lá que caralho é aquilo, com um bocado de pão. Isto tem duas vantagens: comemos mais sopa e a malga fica devidamente escorrido p’ra depois nos podermos servir do peixe. É que não dão o peixe a quem não comer a sopa toda! O peixe também é das apreensões da Inspecção Económica mas há quem diga que fica pelo menos cinco dias na doca de Alcântara nos armazéns da guarda da Guarda Fiscal… sei eu lá p’ra quê!? Isto tem a vantagem de um gajo não ter que se preocupar com as espinhas que já vêm meio desfeitas. Foi aí que chegou o Pereira e foi aí que eu percebi porque é que estávamos fodidos se ele chegasse. O filho da puta tem mais de dois metros e p’ra se sentar afasta o banco corrido (sim que ali não há cadeiras individuais…! Não queriam mais nada, como diz o Sr. Carvalho) e ficamos todos a mais de meio metro da mesa. Foi aqui, e por causa desta merda, que o meu primo Armando ficou com uma nódoa de gordura na camisa nova de manga curta vinda dos países escandinavos. É fodido, principalmente se pensarmos que isto tudo de deve àquele cabrão ter umas pernas enormes. Eu por acaso não me caguei com o molho (óleo de fritar com cheiro a ranço…!) porque resolvi chupá-lo todo com miolo de pão.
Na fruta é que a gente se safa. O meu primo Armando dá-se muito com a D. Carlota e ela arranja-lhe sempre fruta da menos tocada. Às vezes tem bicho, mas isso acontece, ou como diz o Sr. Carvalho “comeide que são proteínas”!
No fim fomos dar uma volta p’ra estender as pernas e procurar um sítio onde deitar os “lençóis” (placas de cartão novinhas em folha…!) que arranjamos logo de manhã na funerária ao fundo da Morais Soares. É que aquilo tem a vantagem de ter logo a medida certinha dum gajo! Mas isto agora ‘tá difícil que os filhos da puta dos monhés e dos chinocas põem grades em tudo o que é loja de trezentos e fodem-nos a vida que não encontramos um recanto adequado facilmente.
Bem…e hoje a gente fica-se por aqui…!
Quiz
Quinta-feira, Abril 15, 2004
O meu Voto em Branco
O país percorrido por um coro de imbecilidades. Um tardar do pensamento que arrasa as capacidades de quem pensa. Uma falta de lucidez!
A obra de Saramago — e ele já negou ter feito qualquer apelo — lança o país num estertor de indignidades. Na verdade, há muito senhor que “não leu o livro que eu escrevi” como ele afirmou no Porto. E mesmo que ele tivesse apelado ao voto em branco não vejo onde encontrar essa expressão de hostilidade à democracia. Muito menos o posso ver, num país, onde vegeta ainda uma protodemocracia, para não dizer um criptofascismo.
Milito nas teses de um estado de Direito, melhor, num Estado de Direito democrático, e não “no estado de direito” que muitos pretendem como seu. O seu direito de dar, fornecer, liberdade, progresso e democracia: como se alguma destas coisas se desse. Não distinguem voto em branco de abstenção. Mesmo assim, o voto em branco é a nódoa que mancha a alva toalha, o melhor pano. Que diriam do voto em branco útil…. Seria o arrear da mesa, o destronar dos comensais. A Ceia dos cardeais da púrpura demagógica (… e não democrática!) seria o seu próprio Inferno de Dante.
Eu próprio voto em branco frequentemente. Vou lá. Entro no jogo porque se quero combater tenho que estar presente no campo de batalha, seja lá ele qual for. O voto em branco não é um dirimir de responsabilidades, um afastar-me da culpa dos outros, é sim uma participação activa nem que seja para dizer que estou contra todas as candidaturas, que rejeito o próprio mecanismo eleitoral.
Vital Moreira chega a tratá-lo como “função democraticamente virtuosa”. Aplaudo-lhe o sentido mas nego-lhe a simplificação. Nem o voto nem a Democracia têm seja o que for de virtuoso. Quero um voto e uma Democracia na prática e não na virtude. Virtude têm os santos e os monges, mas não me pretendo recolhido a um convento! Isto seria, para mim, por demais populista!
É o mesmo Professor que afirma que o voto em branco “ainda” significa utilizar instrumentos democráticos… não, é na realidade um instrumento democrático, não “ainda”, “quase”. É, na realidade, um instrumento de cidadania democrática e de democracia representativa, mas esta vê-se nas comunas e nos municípios, nos Homens e não nas formações políticas. Esta, será por demais conveniente a um consentâneo com a república burguesa que no nosso país foi o protótipo da república fascista e, agora a república “dos bananas”.
O voto em branco é uma atitude deliberada. Não é apenas um dizer NÃO às opções políticas existentes ou aos esquemas partidários “disponíveis”. É dizer SIM, dizer que ainda há quem tenha e assuma a liberdade de pensar. E está ali. Cumpre o seu dever cívico. Não foge, não se esconde, não se alheia.
— Porque não uma opção “em Branco”?
Sim, um quadradinho para colocar a cruz. E definitivamente deixarem cadeiras livres, vazias, no parlamento, expressão exacta desse pensar. Depois, queria ver as “maiorias absolutas”, plenipotenciárias, as soluções de compromisso! Queria ver a certas maiorias, como a de Cavaco Silva de cinquenta e tal por cento, mas a que não corresponde mais de trinta e um por cento do eleitorado, a arrogarem-se os abusos cometidos.
Neste momento, tendo o voto em branco o mesmo valor contabilístico e eleitoral da abstenção, até será seguro, e equívoco, apelar ao voto em branco por parte de quem não quer ver a abstenção subir como deslegitimação democrática. É o caso do primeiro-ministro ao “tentar pôr fim” ao contencioso criado há uma dúzia de anos com José Saramago. É uma jogada de fundo, e dos fundos, de quem tem trejeito soviético e fascista. É a posição de um porco bolchevique, um partidário do “partido da maioria”.
Eu não combato a “democracia eleitoral”, combato sim a arruaça, o equívoco e a não legitimação de “um voto em branco” útil, consequente, efectivo, legitimado e com direito a expressão parlamentar se os movimentos libertários sempre pugnaram pela participação activa da população — dentro do esquema de liberdade absoluta de expressão — não será por certo ao Professor Vital Moreira que cabe apontar o dedo a movimentos anarquistas como instigadores das eleições como uma “farsa”, logo ele que foi defensor acérrimo de um sistema em que as eleições eram, na realidade, uma farsa!
Dê-se ao voto em branco a sua dignidade ou seja, e para isso, contabilize-se e aceite-se essa forma de manifestação activa e democrática. Se assim for, a abstenção por certo decairá e será dada uma maior dignidade à expressão eleitoral dos cidadãos e à Democracia como valor inalienável.
Assim, deixam de ter o Anátema do Voto em Branco.
Pedro Rodrigues de Miguel
A obra de Saramago — e ele já negou ter feito qualquer apelo — lança o país num estertor de indignidades. Na verdade, há muito senhor que “não leu o livro que eu escrevi” como ele afirmou no Porto. E mesmo que ele tivesse apelado ao voto em branco não vejo onde encontrar essa expressão de hostilidade à democracia. Muito menos o posso ver, num país, onde vegeta ainda uma protodemocracia, para não dizer um criptofascismo.
Milito nas teses de um estado de Direito, melhor, num Estado de Direito democrático, e não “no estado de direito” que muitos pretendem como seu. O seu direito de dar, fornecer, liberdade, progresso e democracia: como se alguma destas coisas se desse. Não distinguem voto em branco de abstenção. Mesmo assim, o voto em branco é a nódoa que mancha a alva toalha, o melhor pano. Que diriam do voto em branco útil…. Seria o arrear da mesa, o destronar dos comensais. A Ceia dos cardeais da púrpura demagógica (… e não democrática!) seria o seu próprio Inferno de Dante.
Eu próprio voto em branco frequentemente. Vou lá. Entro no jogo porque se quero combater tenho que estar presente no campo de batalha, seja lá ele qual for. O voto em branco não é um dirimir de responsabilidades, um afastar-me da culpa dos outros, é sim uma participação activa nem que seja para dizer que estou contra todas as candidaturas, que rejeito o próprio mecanismo eleitoral.
Vital Moreira chega a tratá-lo como “função democraticamente virtuosa”. Aplaudo-lhe o sentido mas nego-lhe a simplificação. Nem o voto nem a Democracia têm seja o que for de virtuoso. Quero um voto e uma Democracia na prática e não na virtude. Virtude têm os santos e os monges, mas não me pretendo recolhido a um convento! Isto seria, para mim, por demais populista!
É o mesmo Professor que afirma que o voto em branco “ainda” significa utilizar instrumentos democráticos… não, é na realidade um instrumento democrático, não “ainda”, “quase”. É, na realidade, um instrumento de cidadania democrática e de democracia representativa, mas esta vê-se nas comunas e nos municípios, nos Homens e não nas formações políticas. Esta, será por demais conveniente a um consentâneo com a república burguesa que no nosso país foi o protótipo da república fascista e, agora a república “dos bananas”.
O voto em branco é uma atitude deliberada. Não é apenas um dizer NÃO às opções políticas existentes ou aos esquemas partidários “disponíveis”. É dizer SIM, dizer que ainda há quem tenha e assuma a liberdade de pensar. E está ali. Cumpre o seu dever cívico. Não foge, não se esconde, não se alheia.
— Porque não uma opção “em Branco”?
Sim, um quadradinho para colocar a cruz. E definitivamente deixarem cadeiras livres, vazias, no parlamento, expressão exacta desse pensar. Depois, queria ver as “maiorias absolutas”, plenipotenciárias, as soluções de compromisso! Queria ver a certas maiorias, como a de Cavaco Silva de cinquenta e tal por cento, mas a que não corresponde mais de trinta e um por cento do eleitorado, a arrogarem-se os abusos cometidos.
Neste momento, tendo o voto em branco o mesmo valor contabilístico e eleitoral da abstenção, até será seguro, e equívoco, apelar ao voto em branco por parte de quem não quer ver a abstenção subir como deslegitimação democrática. É o caso do primeiro-ministro ao “tentar pôr fim” ao contencioso criado há uma dúzia de anos com José Saramago. É uma jogada de fundo, e dos fundos, de quem tem trejeito soviético e fascista. É a posição de um porco bolchevique, um partidário do “partido da maioria”.
Eu não combato a “democracia eleitoral”, combato sim a arruaça, o equívoco e a não legitimação de “um voto em branco” útil, consequente, efectivo, legitimado e com direito a expressão parlamentar se os movimentos libertários sempre pugnaram pela participação activa da população — dentro do esquema de liberdade absoluta de expressão — não será por certo ao Professor Vital Moreira que cabe apontar o dedo a movimentos anarquistas como instigadores das eleições como uma “farsa”, logo ele que foi defensor acérrimo de um sistema em que as eleições eram, na realidade, uma farsa!
Dê-se ao voto em branco a sua dignidade ou seja, e para isso, contabilize-se e aceite-se essa forma de manifestação activa e democrática. Se assim for, a abstenção por certo decairá e será dada uma maior dignidade à expressão eleitoral dos cidadãos e à Democracia como valor inalienável.
Assim, deixam de ter o Anátema do Voto em Branco.
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Abril 13, 2004
Samuel Beckett
A 13 de Abril de 1906, nasce Samuel Barclay Beckett em Cooldrinach, região de Foxrock, Condado de Dublin
...this place, if I could describe this
place, portray it, I've tried, I feel no
place, no place around me, there's no
end to me, I don't know what it is, it
isn't flesh, it doesn't end, it's like air...
The Unnamable
...ouço o Nocturno de Chopin, opus póstumo em Dó sustenido menor!
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Abril 11, 2004
Praia das Maçãs
Manhã cedo. Passeio os olhos pelo areal. Praia das Maçãs. Um vulto longe, canas ao alto, atravessa. O Sol aquece-me. O vento é vago, afaga-me leve. Há línguas estrangeiras que se confundem no passar das gentes. As rochas, ao fundo, entram num mar tão calmo, espuma escorrida à procura da praia. Sei que preciso disto, desta calma que cala fundo. Há tanto tempo que não me sentia assim.
A calma vem-me de ontem, uma conversa longa. Há quanto tempo!
Hoje. Desço Sintra, carris borda da estrada, arvoredo em todo o longe, verde que me entra. Deixo uma mensagem. Cuido o meu sentir. E o verde olha-me, olhar calmo, como um alguém que se aproxima. Há um cheiro em tudo que me adoça o sentimento. Perco-me nos versos de Sophia, num deserto sem água, numa noite sem lua, num país sem nome ou numa terra nua; por mais que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua…
Porque me lembra de ti?!
Sorvo o café amargo, como sempre, que a mim me sabe doce. Há reflexos na negra arábica. Pouso a chávena, puxo um cigarro. Maldita mania! Mas queixo-me de quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje. E calmo inalo uma fumaça daquele Virgínia. Viver com o mesmo sem vontade com que rasguei o ventre a minha Mãe? Não, não posso acreditar em Régio. Deixei-me a ouvir-te e isso é mais do que eu podia ter pedido a alguém. Transpareço-me na paisagem, natureza morta, viva. O meu futuro é hoje. A frase ecoa-me, num doce pensar.
Olho de novo a praia. Debruado de espuma, rendas rectilíneas que se esmeram, contínuas, repetidas, ondas rasas que me enchem de alegria no seu doce marulhar…
… porquê?
Ouço-lhe o encanto de quem fala comigo. Perco-me naquele imenso que é não me sentir sozinho. E o Sol. Sempre o Sol que me aquece o corpo. Sei lá se aquecido por quem. Atiro frases ao papel. Sinto um gosto, sei-lhe o gosto. Escrevinhar. Sinto-lhe o longe e a distância. Quantas vezes rascunho o mesmo, para mim. Sinto. Gosto deste sentir, deste marulhar em mim.
Volto de novo, àquela Praia das Maçãs, repetida vezes sem conta por Lobo Antunes. O salino cheiro inunda-me as narinas. É como um sal da vida que se nos entra. Um hebdomadário de emoções. Um Canto que nos aquece o ser e o estar. A mesa de madeira, tão pouco segura, não me incomoda o correr da mão. É assim que gosto, é assim que quero, não pensar quando corro o que discorro no longo do papel. Deixar-me sentir. Há uma mão que me guia o punho. Vejo-lhe o gesto terno, as unhas finas, o toque suave. Uma voz ao longe, de tom ligeiramente áspero, mas que se encanta nas palavras. Se escrevo já não é por mim. Tenho alguém que me escreve.
Deixo-lhe espaço. Deixo-lhe a Liberdade de ser e dizer. E ouço-a. Ouvir é difícil e tento aprender. Apreender. Sentir-me no outro. Tomo-me conta. Tem cuidado contigo, diz-me.
… de novo um cigarro. Preocupa-me o quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje!
Pedro Rodrigues de Miguel
A calma vem-me de ontem, uma conversa longa. Há quanto tempo!
Hoje. Desço Sintra, carris borda da estrada, arvoredo em todo o longe, verde que me entra. Deixo uma mensagem. Cuido o meu sentir. E o verde olha-me, olhar calmo, como um alguém que se aproxima. Há um cheiro em tudo que me adoça o sentimento. Perco-me nos versos de Sophia, num deserto sem água, numa noite sem lua, num país sem nome ou numa terra nua; por mais que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua…
Porque me lembra de ti?!
Sorvo o café amargo, como sempre, que a mim me sabe doce. Há reflexos na negra arábica. Pouso a chávena, puxo um cigarro. Maldita mania! Mas queixo-me de quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje. E calmo inalo uma fumaça daquele Virgínia. Viver com o mesmo sem vontade com que rasguei o ventre a minha Mãe? Não, não posso acreditar em Régio. Deixei-me a ouvir-te e isso é mais do que eu podia ter pedido a alguém. Transpareço-me na paisagem, natureza morta, viva. O meu futuro é hoje. A frase ecoa-me, num doce pensar.
Olho de novo a praia. Debruado de espuma, rendas rectilíneas que se esmeram, contínuas, repetidas, ondas rasas que me enchem de alegria no seu doce marulhar…
… porquê?
Ouço-lhe o encanto de quem fala comigo. Perco-me naquele imenso que é não me sentir sozinho. E o Sol. Sempre o Sol que me aquece o corpo. Sei lá se aquecido por quem. Atiro frases ao papel. Sinto um gosto, sei-lhe o gosto. Escrevinhar. Sinto-lhe o longe e a distância. Quantas vezes rascunho o mesmo, para mim. Sinto. Gosto deste sentir, deste marulhar em mim.
Volto de novo, àquela Praia das Maçãs, repetida vezes sem conta por Lobo Antunes. O salino cheiro inunda-me as narinas. É como um sal da vida que se nos entra. Um hebdomadário de emoções. Um Canto que nos aquece o ser e o estar. A mesa de madeira, tão pouco segura, não me incomoda o correr da mão. É assim que gosto, é assim que quero, não pensar quando corro o que discorro no longo do papel. Deixar-me sentir. Há uma mão que me guia o punho. Vejo-lhe o gesto terno, as unhas finas, o toque suave. Uma voz ao longe, de tom ligeiramente áspero, mas que se encanta nas palavras. Se escrevo já não é por mim. Tenho alguém que me escreve.
Deixo-lhe espaço. Deixo-lhe a Liberdade de ser e dizer. E ouço-a. Ouvir é difícil e tento aprender. Apreender. Sentir-me no outro. Tomo-me conta. Tem cuidado contigo, diz-me.
… de novo um cigarro. Preocupa-me o quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje!
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Abril 08, 2004
Um passeio pelas Palavras
Os dias passam lentos, subtis. Como se de nada fossem feitos. Aventuro-me, manhã cedo, por entre um emaranhado de floresta e jardins. Sinto uma solidão acolhedora que me abraça com aromas de carqueja e pinho e sons de melros atrevidos. Os meus pés pisam o caminho com um sabor de terra húmida. Exorto o espaço livre e verde que me envolve. Um laranjal a meio, laranjas já perdidas nesta época. Sobra o cheiro que me inebria.
De repente um espaço livre. O Sol toca-me, com um fulgor cintilante, os olhos até agora protegidos pelos braços longos das copas. Um touro Barrosão pasta. Ovelhas, cabras, bodes, vacas soltas e um cavalo de tiro, espalham-se. Ao fundo o palheiro, os curros e a guarita do cavalo. Aproximo-me. Há aromas que sobressaem. Ao lado a casa do quinteiro, estilo senhorial, chaminé imensa, as alfaias perdidas a um recanto.
Sinto que a necessidade do lápis se me afia. Sento as jeans numa laje de granito. Perco-me. Sinto o cheiro do papel e da grafite emadeirada. Encontro a minha solidão mas não estou sozinho. Uma imagem feminina aflora-me, fugaz, mas não quero perder o correr da linha. Sei lá. Não escrevo, deixo que a mão corra o papel, traço hipnótico, guiada por um sentimento que me corre a alma.
A imagem perturba-se-me. Vejo a paisagem à minha frente como um tracismo de van Gogh. Há uma paleta de cores que me inundam a palavra. É assim que não escrevo, escrevinho os traços largos que a Natureza me dá. De novo aquela imagem feminina. Deixo-a ficar ali ao lado. Pode-me ser útil. Afinal, «escrevi, escrevo, sigo a caneta, indo para onde ela me leva; que mais me resta agora?» como dizia Coetzee.
Sim, não me resta mais nada. Ou sei lá bem se resta. Nem procuro a arte que escrever é. É um limbo, um local no etéreo. Não escrevo para gostarem de mim, escrevo para gostar de mim. Lembro de novo John M., que feios estamos a ficar, à força de não conseguirmos estar de bem connosco próprios.
Escrever é uma arte, que me perdoem os artistas. Escrevo-me. Como se um tormento contínuo me impelisse. Deixo no vago aquilo que me apetece e aguardo. Guardo em mim o enigma que escondo por trás da escrita. Aos outros fica a face, em mim o sentimento. É com ele que guio meus passos no dia-a-dia, minha mão livre, o que quero pensar!
Pedro Rodrigues de Miguel
De repente um espaço livre. O Sol toca-me, com um fulgor cintilante, os olhos até agora protegidos pelos braços longos das copas. Um touro Barrosão pasta. Ovelhas, cabras, bodes, vacas soltas e um cavalo de tiro, espalham-se. Ao fundo o palheiro, os curros e a guarita do cavalo. Aproximo-me. Há aromas que sobressaem. Ao lado a casa do quinteiro, estilo senhorial, chaminé imensa, as alfaias perdidas a um recanto.
Sinto que a necessidade do lápis se me afia. Sento as jeans numa laje de granito. Perco-me. Sinto o cheiro do papel e da grafite emadeirada. Encontro a minha solidão mas não estou sozinho. Uma imagem feminina aflora-me, fugaz, mas não quero perder o correr da linha. Sei lá. Não escrevo, deixo que a mão corra o papel, traço hipnótico, guiada por um sentimento que me corre a alma.
A imagem perturba-se-me. Vejo a paisagem à minha frente como um tracismo de van Gogh. Há uma paleta de cores que me inundam a palavra. É assim que não escrevo, escrevinho os traços largos que a Natureza me dá. De novo aquela imagem feminina. Deixo-a ficar ali ao lado. Pode-me ser útil. Afinal, «escrevi, escrevo, sigo a caneta, indo para onde ela me leva; que mais me resta agora?» como dizia Coetzee.
Sim, não me resta mais nada. Ou sei lá bem se resta. Nem procuro a arte que escrever é. É um limbo, um local no etéreo. Não escrevo para gostarem de mim, escrevo para gostar de mim. Lembro de novo John M., que feios estamos a ficar, à força de não conseguirmos estar de bem connosco próprios.
Escrever é uma arte, que me perdoem os artistas. Escrevo-me. Como se um tormento contínuo me impelisse. Deixo no vago aquilo que me apetece e aguardo. Guardo em mim o enigma que escondo por trás da escrita. Aos outros fica a face, em mim o sentimento. É com ele que guio meus passos no dia-a-dia, minha mão livre, o que quero pensar!
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Abril 05, 2004
Lembrando Agostinho da Silva
Faz ontem anos que o Professor Agostinho da Silva nos deixou de falar na sua voz pausada e grave. Era o Dia de Páscoa de 1994.
A mim toca-me ainda aquele conversar, aquela utopia provocatória, quase demoníaca — como lhe chamou Eduardo Lourenço — aquele anarquismo quase profético, das suas “Conversas Vadias”. É nelas que conheço mais frente a frente o autor de “Aproximações”, a paganização subtil, o agnóstico — que como eu via os ateus como crentes — o herói da Contra-Cultura.
Agostinho da Silva nasceu no Porto, faz quase cem anos, e viajou mundo, deixando uma marca profunda na cultura e linguística portuguesas. É ele que faz a aproximação de África — é ele que chama a Moçambique a Porta de África, onde repousa sua Mãe — o Brasil e o Oriente. O seu pensar, o seu discurso, emboitado e imbuído de um Iberismo afoito, exsuda uma simplicidade atroz mas confrangedora. É neste mesmo Iberismo, sem mágoa ou ressentimento, que compreende uma das mais profundas pulsões — a paixão. É aqui que o filólogo entende o coração e corazon peninsulares, como um coeur e um cuore, francês e italiano, em tamanho grande no seu aumentativo… em dupla função.
Na sua “Última Conversa”, passada a livro, falada e convivida apenas cinco meses antes da sua morte, lembra-nos o seu doutoramento em Raiva e uma licenciatura em Liberdade; frisa bem o seu «ódio à estupidez» e lembra que «alfabetizar hoje uma pessoa não é apenas mostrar-lhe como se escreve isto ou aquilo».
É ele que me ensina que paixão é estar dominado por isto ou aquilo. É ser, não ter. É uma questão de “paciência” e de gosto. E não esquece no seu discurso o amor, algo de mais terreno, de mais activo, mas sempre um viver “por” e não “para”.
Quando confrontado com a solidão sai-se com um «sinto-me sempre acompanhado, mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva…». É do desenrolar deste tema que eu tomo a ideia das “Três Solidões”. Na verdade, Agostinho da Silva fala-nos de solidão como um sentir-se sozinho, sem ninguém, na falta de companheiros, camaradas e colegas. Companhia, que deriva de panis, pão, vem de «comer o pão juntamente com outro». Companheira é assim aquela com quem partilhamos o pão, as coisas. Camarada, que vem de camera — abóbada, câmara, quarto — é aquela que dorme no mesmo aposento, com que partilhamos o mesmo tecto, a vida, o dia-a-dia. Colega, com o seu étimo legis — lei — é com quem partilhamos a mesma lei, os mesmos princípios.
Foi o Professor Agostinho da Silva que me permitiu este sentir das coisas, sentir as coisas, perceber a solidão, perceber o viver sem estar sozinho, procurar no mundo o que ainda me falta. Como ele diz, e eu bem o sinto, «eu não escolhi nenhuma (solidão), só que elas às vezes parece que combinaram e aparecem todas ao mesmo tempo!». Mas recordo que ele lembra que, como dizia Camões no Cântico IX — que eu também li proibido — a pessoa só está presa no tempo e no espaço quando não é criador. A criatividade deriva do tempo e do espaço e devemos aprender duas coisas: «aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largos por dentro, para o mundo poder entrar».
É assim que me lembro deste amante de «Calvin e aquele tigre», deste verdadeiro universitário, no sentido mais eclético de Universidade, unidade na diversidade.
Pedro Rodrigues de Miguel
A mim toca-me ainda aquele conversar, aquela utopia provocatória, quase demoníaca — como lhe chamou Eduardo Lourenço — aquele anarquismo quase profético, das suas “Conversas Vadias”. É nelas que conheço mais frente a frente o autor de “Aproximações”, a paganização subtil, o agnóstico — que como eu via os ateus como crentes — o herói da Contra-Cultura.
Agostinho da Silva nasceu no Porto, faz quase cem anos, e viajou mundo, deixando uma marca profunda na cultura e linguística portuguesas. É ele que faz a aproximação de África — é ele que chama a Moçambique a Porta de África, onde repousa sua Mãe — o Brasil e o Oriente. O seu pensar, o seu discurso, emboitado e imbuído de um Iberismo afoito, exsuda uma simplicidade atroz mas confrangedora. É neste mesmo Iberismo, sem mágoa ou ressentimento, que compreende uma das mais profundas pulsões — a paixão. É aqui que o filólogo entende o coração e corazon peninsulares, como um coeur e um cuore, francês e italiano, em tamanho grande no seu aumentativo… em dupla função.
Na sua “Última Conversa”, passada a livro, falada e convivida apenas cinco meses antes da sua morte, lembra-nos o seu doutoramento em Raiva e uma licenciatura em Liberdade; frisa bem o seu «ódio à estupidez» e lembra que «alfabetizar hoje uma pessoa não é apenas mostrar-lhe como se escreve isto ou aquilo».
É ele que me ensina que paixão é estar dominado por isto ou aquilo. É ser, não ter. É uma questão de “paciência” e de gosto. E não esquece no seu discurso o amor, algo de mais terreno, de mais activo, mas sempre um viver “por” e não “para”.
Quando confrontado com a solidão sai-se com um «sinto-me sempre acompanhado, mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva…». É do desenrolar deste tema que eu tomo a ideia das “Três Solidões”. Na verdade, Agostinho da Silva fala-nos de solidão como um sentir-se sozinho, sem ninguém, na falta de companheiros, camaradas e colegas. Companhia, que deriva de panis, pão, vem de «comer o pão juntamente com outro». Companheira é assim aquela com quem partilhamos o pão, as coisas. Camarada, que vem de camera — abóbada, câmara, quarto — é aquela que dorme no mesmo aposento, com que partilhamos o mesmo tecto, a vida, o dia-a-dia. Colega, com o seu étimo legis — lei — é com quem partilhamos a mesma lei, os mesmos princípios.
Foi o Professor Agostinho da Silva que me permitiu este sentir das coisas, sentir as coisas, perceber a solidão, perceber o viver sem estar sozinho, procurar no mundo o que ainda me falta. Como ele diz, e eu bem o sinto, «eu não escolhi nenhuma (solidão), só que elas às vezes parece que combinaram e aparecem todas ao mesmo tempo!». Mas recordo que ele lembra que, como dizia Camões no Cântico IX — que eu também li proibido — a pessoa só está presa no tempo e no espaço quando não é criador. A criatividade deriva do tempo e do espaço e devemos aprender duas coisas: «aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largos por dentro, para o mundo poder entrar».
É assim que me lembro deste amante de «Calvin e aquele tigre», deste verdadeiro universitário, no sentido mais eclético de Universidade, unidade na diversidade.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Abril 04, 2004
Ribeira pintada
Desperdiço o tempo à beira rio. Os rabelos a olharem-me e a amortecerem-me o pensamento. Estou do outro lado, ponte passada, sem tempo nem longe contado. Olho o rio que corre, sujo nas margens. O vento norte corre frio.
Há que tempos não visito aquele ambiente fluvial. Tenho a Sandeman ali ao lado. Entro e olho em volta. Os densímetros, os alcoolímetros, as vinhas, as castas — Tinta Roriz, a Touriga Francesa e a Nacional, o Tinto Cão — os pesos e as medidas, as fotos do trabalhar — a escava, a enxertia, a redra — os tonéis em metros cúbicos e galões. O ar suave anestesia. Uma sensação de bem estar, como fora do mundo. Não faço a visita guiada. Contento-me a ver papeis antigos, notas de despesa, talões, folhas de remessa. O tempo passa e encobre-me o tempo e o porvir. Hora de fecho. Saio, já porta fechada. Parece que me deixaram ficar por complacência com a minha ilusão. Sou um menino que se encanta.
Cá fora o sol é frio. O “Pirata” na doca. Sonho-me um passeio ao Pinhão, talvez Barca d’Alva. O ar fresco acorda-me. Acorda Pedro, acorda.
A esplanada do tasco à borda da rua chama-me. Peço o café e sento-me. A robusta quente aquece-me. Fumo um cigarro com gosto. O fumo inebria-me e mistura-se ao café amargo, tomado sempre sem açúcar. Sabe-me bem, pronto!
Estou noutro mundo, longe do todo e do tudo. O amargo na boca é o meu doce de pensar. Deixo-me ficar. Só isso. Ficar com a Ribeira Velha, em frente, à vista. Calma-me os olhos, os sentidos. É esparramar o olhar por um todo de cor e luz. Não vejo cada coisa, cada casa. Vejo uma tela de tons que me inebrilham. Deixo-me ficar. Copio a Ribeira de um sopro do nada, copio a Ribeira de uma imagem apagada. Sinto o quadro que se me pinta a meus olhos, fechados, nos olhos do pensar. Esbruma-se, esfuma-se.
São momentos de vida que não quero perder. São momentos que quero sentir sem sentidos. Ficar ali. Deixar-me entrar uma calma que não encontro fora de horas. Olhar, viver, o que esqueço no dia-a-dia.
Pedro Rodrigues de Miguel
Há que tempos não visito aquele ambiente fluvial. Tenho a Sandeman ali ao lado. Entro e olho em volta. Os densímetros, os alcoolímetros, as vinhas, as castas — Tinta Roriz, a Touriga Francesa e a Nacional, o Tinto Cão — os pesos e as medidas, as fotos do trabalhar — a escava, a enxertia, a redra — os tonéis em metros cúbicos e galões. O ar suave anestesia. Uma sensação de bem estar, como fora do mundo. Não faço a visita guiada. Contento-me a ver papeis antigos, notas de despesa, talões, folhas de remessa. O tempo passa e encobre-me o tempo e o porvir. Hora de fecho. Saio, já porta fechada. Parece que me deixaram ficar por complacência com a minha ilusão. Sou um menino que se encanta.
Cá fora o sol é frio. O “Pirata” na doca. Sonho-me um passeio ao Pinhão, talvez Barca d’Alva. O ar fresco acorda-me. Acorda Pedro, acorda.
A esplanada do tasco à borda da rua chama-me. Peço o café e sento-me. A robusta quente aquece-me. Fumo um cigarro com gosto. O fumo inebria-me e mistura-se ao café amargo, tomado sempre sem açúcar. Sabe-me bem, pronto!
Estou noutro mundo, longe do todo e do tudo. O amargo na boca é o meu doce de pensar. Deixo-me ficar. Só isso. Ficar com a Ribeira Velha, em frente, à vista. Calma-me os olhos, os sentidos. É esparramar o olhar por um todo de cor e luz. Não vejo cada coisa, cada casa. Vejo uma tela de tons que me inebrilham. Deixo-me ficar. Copio a Ribeira de um sopro do nada, copio a Ribeira de uma imagem apagada. Sinto o quadro que se me pinta a meus olhos, fechados, nos olhos do pensar. Esbruma-se, esfuma-se.
São momentos de vida que não quero perder. São momentos que quero sentir sem sentidos. Ficar ali. Deixar-me entrar uma calma que não encontro fora de horas. Olhar, viver, o que esqueço no dia-a-dia.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Abril 01, 2004
A noite (III)
O mundo girava soturno na noite escura. Lá longe, no firmamento, uma estrela solta brilhava de vez em quando por entre as nuvens, a lembrar a alguns olhos mais serenos que a imensidão do tudo não se perdera. E sempre que a estrela brilhava, brilhavam os olhos do velho que no alpendre da casa de madeira, na cadeira de baloiço e envolto na manta puída, baforando o cheiro doce do cachimbo, afagava em si um quente lembrar. Só ele sabia sentir quão bom era ver aquela estrela e sentir-lhe o lembrar da liberdade na imensidão do escuro. Sempre que via a estrela era como se a sua doce esposa volta-se do além para seu lado, afagar-lhe a mão e perder-lhe a solidão, era como voltar à infância e ao carinho da sua velha Mãe, sentir o aroma das fragrâncias das flores dos campos e a liberdade das corridas e tropelias, do gosto das maçãs vermelhas trincadas e trocadas entre os garotos, das histórias de embalar no quente aconchego da lareira, na sopa de chouriço à mesa, no pão escuro e acre que adoçava as entranhas, no mel de odor de melissa e funcho, no doce desprender da vida. Que bom era ver a estrela e sonhar de novo o passado. Sentia um arrepio e mergulhava dentro de si deixando-se perder no mais fundo das memórias.
Era assim o velho Barnabé, o homem só da velha casa de madeira. Ali vivia desde há muito, muito tempo — casa virada para a imensidão do nada. Vivera as alegrias da vida com amor e desejo, acreditara que tudo seria melhor, perdera as esperanças e, por fim, ali ficara no seu recanto perdido aguardando que as suas memórias o pudessem consolar. Mas havia uma força funda que sempre o animara. Acreditava que jamais lhe tirariam o pensamento, aquilo que lhe ia na alma, a vontade de pensar. Recolhera-se para que lhe não tirassem aquele ouro que lhe ia na alma e que não queria perder. Vira tudo pela vida fora e sempre se dera ao desejo de ver os outros mais felizes. Era um homem simples que o trabalho árduo moldara e que as agruras da vida jamais dobraram. Tinha um sentir amargo mas uma doçura extrema no contacto. Acreditara quando aparecera o Partido que tudo seria melhor. Finalmente, homens e animais poderiam dar as mãos e fazer um mundo melhor. Era crédulo e a sua ingenuidade terna fazia-o sentir-se bem ao sentir o bem dos outros. Mas o tempo foi passando e os Senhores ficaram cada vez mais Senhores, os Ratos cada vez mais ratos e os Porcos cada vez mais porcos. E o velho Barnabé não queria crer no que os seus olhos viam. Era ingénuo mas não perdera o olhar. Fugiu ao medo e à vergonha de ter que acreditar no que os seus olhos viam. Deixou-se ficar, lá longe de tudo, na sua velha casa de madeira. E a cada noite que passava, voltava ao alpendre e deliciava os olhos já velhos na imensidão do mundo das estrelas.
A noite era um eco surdo dos desejos mais íntimos de cada um. Era um momento para esquecer o dia e o trabalho sujo e árduo, era um momento de traições e das mais altruístas amizades, era um momento para afogar no álcool as mágoas e as dores do dia a dia, era um momento de silêncio concubino e de palavras soltas e rápidas que fugiam doces e amargas de lábios que não se moviam. A noite era um eco que afagava a alma de cada um como podia. Mas o velho Barnabé não se escondia na noite. Abria-se a ela com todo o amor de quem quer o infinito. Deixava-se sentir o doce aroma do milho que bordejava a casa, o fresco do musgo da cancela há muito escancarada, o ruído do noitibó e o tacto sedoso da neblina que lhe tocava a pele escura. Voava no tempo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Era assim o velho Barnabé, o homem só da velha casa de madeira. Ali vivia desde há muito, muito tempo — casa virada para a imensidão do nada. Vivera as alegrias da vida com amor e desejo, acreditara que tudo seria melhor, perdera as esperanças e, por fim, ali ficara no seu recanto perdido aguardando que as suas memórias o pudessem consolar. Mas havia uma força funda que sempre o animara. Acreditava que jamais lhe tirariam o pensamento, aquilo que lhe ia na alma, a vontade de pensar. Recolhera-se para que lhe não tirassem aquele ouro que lhe ia na alma e que não queria perder. Vira tudo pela vida fora e sempre se dera ao desejo de ver os outros mais felizes. Era um homem simples que o trabalho árduo moldara e que as agruras da vida jamais dobraram. Tinha um sentir amargo mas uma doçura extrema no contacto. Acreditara quando aparecera o Partido que tudo seria melhor. Finalmente, homens e animais poderiam dar as mãos e fazer um mundo melhor. Era crédulo e a sua ingenuidade terna fazia-o sentir-se bem ao sentir o bem dos outros. Mas o tempo foi passando e os Senhores ficaram cada vez mais Senhores, os Ratos cada vez mais ratos e os Porcos cada vez mais porcos. E o velho Barnabé não queria crer no que os seus olhos viam. Era ingénuo mas não perdera o olhar. Fugiu ao medo e à vergonha de ter que acreditar no que os seus olhos viam. Deixou-se ficar, lá longe de tudo, na sua velha casa de madeira. E a cada noite que passava, voltava ao alpendre e deliciava os olhos já velhos na imensidão do mundo das estrelas.
A noite era um eco surdo dos desejos mais íntimos de cada um. Era um momento para esquecer o dia e o trabalho sujo e árduo, era um momento de traições e das mais altruístas amizades, era um momento para afogar no álcool as mágoas e as dores do dia a dia, era um momento de silêncio concubino e de palavras soltas e rápidas que fugiam doces e amargas de lábios que não se moviam. A noite era um eco que afagava a alma de cada um como podia. Mas o velho Barnabé não se escondia na noite. Abria-se a ela com todo o amor de quem quer o infinito. Deixava-se sentir o doce aroma do milho que bordejava a casa, o fresco do musgo da cancela há muito escancarada, o ruído do noitibó e o tacto sedoso da neblina que lhe tocava a pele escura. Voava no tempo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Março 29, 2004
A noite (II)
Começava a cair uma neblina espessa. A noite tomava um cheiro acre que se expandia na luz difusa da bruma. Ouvia-se aqui e ali passos corrediços que se perdiam na noite e no medo. Não eram passos autênticos mas antes sons esparsos que ressoavam na calçada como que fugidos ao medo, como que fugidos a si próprios. A noite era um burburinho de mazelas entrecortado de ideias fugidas por entre lábios que sussurravam vontades e iras, queixumes e raivas, desejos e vinganças. Há muito que tudo começara e o tempo fizera esquecer da história a realidade enquanto a cobardia e a mesquinhez se encarregaram de destruir o mínimo de auto-estima. Em cada beco, em cada esquina, em cada rua, em cada gaiola monstra de betão, quedavam-se restos de vida amontoados que viviam vegetando perdidos na imensidão do nada, sem ideias, sem alma, sem vontade, sem querer, sem porvir. Eram destroços de carne perdidos que viviam à míngua dos restos do seu benemérito Estado, dos seus beneméritos Governantes, dos Porcos, dos Ratos, dos arrogantes, dos traidores, dos que lhes sugavam o sangue e as ideias, dos que lhes concediam a liberdade, dos que lhes concediam a educação, dos que lhes impunham a ordem e a lei. Sim, que já nem Liberdade tinham, que a Educação já se perdera na bruma dos tempos e o Direito e a Justiça já não se lia em lado algum que não convinha.
Perdera-se há muito a noção de respeito e o bem querer ao próximo. Até os filhos vadios, solitários, que ninguém queria, perdidos na podridão do mundo, bulhavam e escouceavam pela esmola que pediam a bem ou a mal. Os Porcos passeavam-se, nas suas fardas cinza de arma e bastão à cinta, fazendo a sua lei como senhores demoníacos de outro mundo. Eram os pequenos do poder. Eram os últimos na escala de quem mandava e faziam a todo o momento alarde da sua condição. Eram o freio e a vontade do poder que mordia na turba anónima. Comiam as notas gordas do lenocínio, os cifrões amargos do tráfico do pó que esbulhava os desgraçados já mais que perdidos, o dinheiro sujo das influências e da denúncia dos seus iguais. E os Ratos, os bufos que escutavam o alheio para colar nos ouvidos dos Senhores as pequenas Liberdades de cada um. Eram a enxúndia do poder, os que mordiam pela calada delatando os amigos e os vizinhos. Viviam longe, do lado de lá da cidade, lá perto de onde os Senhores viviam. Comiam com o dinheiro do mal e da tortura. Eram os basbaques e os lacaios que engordavam à sombra do seu próprio mal. Eram jóias da estupidez e da virtude de bem servir o Estado e o Partido.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Perdera-se há muito a noção de respeito e o bem querer ao próximo. Até os filhos vadios, solitários, que ninguém queria, perdidos na podridão do mundo, bulhavam e escouceavam pela esmola que pediam a bem ou a mal. Os Porcos passeavam-se, nas suas fardas cinza de arma e bastão à cinta, fazendo a sua lei como senhores demoníacos de outro mundo. Eram os pequenos do poder. Eram os últimos na escala de quem mandava e faziam a todo o momento alarde da sua condição. Eram o freio e a vontade do poder que mordia na turba anónima. Comiam as notas gordas do lenocínio, os cifrões amargos do tráfico do pó que esbulhava os desgraçados já mais que perdidos, o dinheiro sujo das influências e da denúncia dos seus iguais. E os Ratos, os bufos que escutavam o alheio para colar nos ouvidos dos Senhores as pequenas Liberdades de cada um. Eram a enxúndia do poder, os que mordiam pela calada delatando os amigos e os vizinhos. Viviam longe, do lado de lá da cidade, lá perto de onde os Senhores viviam. Comiam com o dinheiro do mal e da tortura. Eram os basbaques e os lacaios que engordavam à sombra do seu próprio mal. Eram jóias da estupidez e da virtude de bem servir o Estado e o Partido.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Março 26, 2004
A noite (I)
O brilho do Sol deixara, por fim, de manchar a plenitude nocturna do Universo. A noite fria e límpida, entrecortada por uma Lua crescente e minaz, corria calma e acompanhava timidamente os passos do relógio da torre. As cores dos becos cresciam espelhadas na humidade entranhada. Os baldes de lixo, gordurosos e sebentos, vomitavam para o pavimento os restos das suas entranhas. A noite era uma imagem de história aos quadradinhos. Um negro azulado ecoava por todos os cantos como comendo tudo e todos. O tijolo das paredes era uma ténue sombra do seu esplendor de outrora, fazendo lembrar a pele seca e mumificada de um cadáver perdido no deserto. Gotas largas, de água forte, escorriam das paredes em manchas perenes carregadas de solidão. Ao fundo, no breu, a luz tosca de uma vela perdia-se por uma janela mal definida. Sentia-se um correr contínuo de água suja, enquanto o seu feder fazia um eco fundo num bueiro, algures, como tentáculos de um polvo pessonhento e viscoso que a tudo se agarra. O frio atingia os ossos tão fundo como a solidão e o cheiro nauseabundo que de tudo exalava mordia no nariz, mais forte que pó de coca. E os minutos contavam-se por horas a cada noite que passava... lenta e amarga. Passos apressados cortavam de quando em quando o silêncio como se fugissem da própria vida. Era um local calmo, podre e nojento onde a pobreza — irmã do medo e da angústia cobarde — reinava e se enterrava em cada espaço, em cada ser, como garra afiada em carne flácida. Era um mundo estranho que vivia na míngua de fome, na solidão atroz em que se perde a vontade e nas grilhetas, há tanto apertadas, que se perdera já o fio à própria dignidade.
Lá mais além, longe, junto a uma esquina, imaginava-se o halo morno e amarelecido de um lampião de ferro forjado que o tempo fazia desmaiado. Os seus vidros foscos e enegrecidos escondiam a luz, com vergonha, que se derramava sobre as pedras da calçada. Do passeio sobravam uns restos toscos que a luz estranha do lampião tornava ainda mais desoladores. Um lance de escadas subia pelo edifício de três andares acima. À entrada uma pichagem audaz pensava “Abaixo a fome - mate o seu porco” numa ironia infantil de raiva mal contida. Sentia-se recente e o vermelho duro da tinta ainda fresca saltava aos olhos, ora sim ora não, ao som cadenciado do néon velho da placa de Hotel da esquina em frente. Era uma pensão miserável, uma espelunca de cheiro bolorento, que se alimentava do vai-e-vem constante de mulheres que arrastavam atrás de si toda a escumalha. Cediam-se a troco dos restos da míngua do mês que ainda sobrassem no fundo dos bolsos sujos do suor das mãos. Vendiam o que ninguém comprava. Eram o caixote do lixo do esperma e da fúria que cada um vertia para fugir à solidão do próprio lar. A meretriz de rosto cansado, “baton rouge” espalhado na beiça, beata ao canto da boca e cabelo de um louro velho mal pintado deixou-se encostada ao corrimão. Era uma mulher já gasta na juventude dos seus poucos anos, que o olhar perdido e desencantado da vida, por entre o rimel barato que lhes escondia o fulgor antigo, lembrava um palimpsesto perdido há muito nos fundos de um museu esquecido. A vida não augurava nada de bom a ninguém. Vivia-se com o mesmo sem encanto com que se morria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Lá mais além, longe, junto a uma esquina, imaginava-se o halo morno e amarelecido de um lampião de ferro forjado que o tempo fazia desmaiado. Os seus vidros foscos e enegrecidos escondiam a luz, com vergonha, que se derramava sobre as pedras da calçada. Do passeio sobravam uns restos toscos que a luz estranha do lampião tornava ainda mais desoladores. Um lance de escadas subia pelo edifício de três andares acima. À entrada uma pichagem audaz pensava “Abaixo a fome - mate o seu porco” numa ironia infantil de raiva mal contida. Sentia-se recente e o vermelho duro da tinta ainda fresca saltava aos olhos, ora sim ora não, ao som cadenciado do néon velho da placa de Hotel da esquina em frente. Era uma pensão miserável, uma espelunca de cheiro bolorento, que se alimentava do vai-e-vem constante de mulheres que arrastavam atrás de si toda a escumalha. Cediam-se a troco dos restos da míngua do mês que ainda sobrassem no fundo dos bolsos sujos do suor das mãos. Vendiam o que ninguém comprava. Eram o caixote do lixo do esperma e da fúria que cada um vertia para fugir à solidão do próprio lar. A meretriz de rosto cansado, “baton rouge” espalhado na beiça, beata ao canto da boca e cabelo de um louro velho mal pintado deixou-se encostada ao corrimão. Era uma mulher já gasta na juventude dos seus poucos anos, que o olhar perdido e desencantado da vida, por entre o rimel barato que lhes escondia o fulgor antigo, lembrava um palimpsesto perdido há muito nos fundos de um museu esquecido. A vida não augurava nada de bom a ninguém. Vivia-se com o mesmo sem encanto com que se morria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Março 25, 2004
Y’ a kwini? (Onde vais?)
Lembro, sim.
Já vai longe no longo ― lhe conto eu ― mas desse tempo não dá para desmemoriar. Era fim de tarde, desse de praia oca de gente, areia se espraiando desaguada, deixando a Xefina ao alcance de pé ― a pé de se pisar!
Me olhei ali. O sol se poenteava, no outro lado, copiando cada riscadinho das palmeiras que se caminham ao longo da praia. Aí que tudo aconteceu. Chão ante chão uma névoa se foi adentrando. As ilhas e o Índico se esfumaram e xilunguiné, na distância, se esbrumou.
No poente, lá no qual o sol se namaacha, nem sombra daquela cacimbada sem dia nem hora marcada. O sol se brilhava em bola de fogo. Aquele sítio só dele pertencia e eu me buscava aí. Tudo se apagava em volta, para luzir em minha frente a cor forte do calor que me abraçaria para sempre. Agora lhe compreendo esse nome de Costa do Sol. A gente se encontra aí. Tomei meu rumo, meu desnorte. Achei meus pontos cordiais.
Faz tanto tempo, quase não tinha idade. E nessa idade em que nada se cria, nada se perde e tudo se transtorna, esse dia foi como visita de xipocué.
Naquele dia me morri? E alguém se destina morrer? Ninguém se destina nascer. Ser ninhado não foi meu querer. Cada um nasce onde é seu próprio destino. Ser parido é ocaso do acaso. É em meio de vivência que cada qual nasce em si mesmo. A gente se destina. É nessa estrada sem berma que se constrói o caminho e se escolhe o destino.
Tomei rumo na areia e me caminhei. Pés descalços. Passos atrás deixados. Cada vai e vem das águas lhes apagando. A memória se esvanecendo para tomar rumo novo. No fim do cabo só me olhava no poente.
Não me requisitem tempo que tempo se sobra. Para tempo temos sempre lugar. Muitas vezes não encontramos é o lugar do tempo. É assim minha vida em que o tempo corre. Corre a meu lado mas longe do lugar. As coisas se me lembram, se assim posso dizer.
Percorro agora um lugar chamado longe.
Y’ a kwini?
Pedro Rodrigues de Miguel
Já vai longe no longo ― lhe conto eu ― mas desse tempo não dá para desmemoriar. Era fim de tarde, desse de praia oca de gente, areia se espraiando desaguada, deixando a Xefina ao alcance de pé ― a pé de se pisar!
Me olhei ali. O sol se poenteava, no outro lado, copiando cada riscadinho das palmeiras que se caminham ao longo da praia. Aí que tudo aconteceu. Chão ante chão uma névoa se foi adentrando. As ilhas e o Índico se esfumaram e xilunguiné, na distância, se esbrumou.
No poente, lá no qual o sol se namaacha, nem sombra daquela cacimbada sem dia nem hora marcada. O sol se brilhava em bola de fogo. Aquele sítio só dele pertencia e eu me buscava aí. Tudo se apagava em volta, para luzir em minha frente a cor forte do calor que me abraçaria para sempre. Agora lhe compreendo esse nome de Costa do Sol. A gente se encontra aí. Tomei meu rumo, meu desnorte. Achei meus pontos cordiais.
Faz tanto tempo, quase não tinha idade. E nessa idade em que nada se cria, nada se perde e tudo se transtorna, esse dia foi como visita de xipocué.
Naquele dia me morri? E alguém se destina morrer? Ninguém se destina nascer. Ser ninhado não foi meu querer. Cada um nasce onde é seu próprio destino. Ser parido é ocaso do acaso. É em meio de vivência que cada qual nasce em si mesmo. A gente se destina. É nessa estrada sem berma que se constrói o caminho e se escolhe o destino.
Tomei rumo na areia e me caminhei. Pés descalços. Passos atrás deixados. Cada vai e vem das águas lhes apagando. A memória se esvanecendo para tomar rumo novo. No fim do cabo só me olhava no poente.
Não me requisitem tempo que tempo se sobra. Para tempo temos sempre lugar. Muitas vezes não encontramos é o lugar do tempo. É assim minha vida em que o tempo corre. Corre a meu lado mas longe do lugar. As coisas se me lembram, se assim posso dizer.
Percorro agora um lugar chamado longe.
Y’ a kwini?
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Março 24, 2004
Rui Knopfli e a Moçambicanidade
Conheci Rui Knopfli no início dos anos setenta, era eu aluno do Liceu. Não vivia longe de minha casa, um pouco adiante para lá de uma álea de acácias. Não nos separava o longe ou a distância mas a idade. Depois, por uns tempos, perdi-lhe o rasto. Viria a falecer, em Lisboa, no dia de Natal de 1997.
Dirigiu o jornal onde se iniciou Mia Couto. O seus moçambicanismos tornaram-lhe a obra ilustre. Como diz Nelson Saúte, a sua poesia constitui, indubitavelmente, um dos edifícios fundadores da literatura moçambicana moderna. Deve-se-lhe em grande medida o facto de Moçambique possuir uma tradição literária eclética e cosmopolita, sobretudo no campo da poesia.
Prefiro-lhe a esparsa prosa como “Lumina”, que me deu, a mim e a tantos outros, o sentido e a necessidade da moçambicanidade, esse sentido que me mantém indubitavelmente agarrado à língua ronga.
Deixo, no entanto, um dos poemas que mais me toca, publicado na obra a que deu o nome irónico e tão exemplarmente actual de “O País dos Outros”.
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando."
Naturalidade in O País dos Outros, 1959
Pedro Rodrigues de Miguel
Dirigiu o jornal onde se iniciou Mia Couto. O seus moçambicanismos tornaram-lhe a obra ilustre. Como diz Nelson Saúte, a sua poesia constitui, indubitavelmente, um dos edifícios fundadores da literatura moçambicana moderna. Deve-se-lhe em grande medida o facto de Moçambique possuir uma tradição literária eclética e cosmopolita, sobretudo no campo da poesia.
Prefiro-lhe a esparsa prosa como “Lumina”, que me deu, a mim e a tantos outros, o sentido e a necessidade da moçambicanidade, esse sentido que me mantém indubitavelmente agarrado à língua ronga.
Deixo, no entanto, um dos poemas que mais me toca, publicado na obra a que deu o nome irónico e tão exemplarmente actual de “O País dos Outros”.
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando."
Naturalidade in O País dos Outros, 1959
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Março 23, 2004
A Crónica
Que bom. Que alegria sentir essa pequenina felicidade no meio do escuro em que me encontro. Sentir o êxtase desse pacto de sangue que fiz com as crónicas do Lobo Antunes — de quem nunca li uma obra, como se de um apóstata se tratasse. Sempre lhe admirei as crónicas, na Visão, mas a de hoje calou-me fundo. Está ali o que eu sinto vontade de atirar cá para fora e não consigo.
Como ele, sinto que é a minha parte das trevas que escreve, não eu. E quando escrevo quero apenas libertar-me do que escrevo, jorrar o que sinto para o papel corrido pela caneta. Escrevinho, não escrevo.
Ah, António, que alegria sentir que alguém sente o mesmo que ainda ontem afirmei: desadmirar Pessoa! Finalmente outra alma não bajula o ícone posto à pressa no altar.
Que bom é saber que mais alguém quer “deixar tudo” e teme o tempo. Temo o tempo e a razão. O mesmo medo do corredor escuro quando, ainda criança, ia buscar os chinelos a meu pai. Saber que não está lá nada e temer, tremer! E fugir à pressa para a luz.
Essa luz que me apareceu nesta crónica de agora. Esse terrível, desesperado e feliz silêncio. Ler o silêncio com Eine Kleine Nachtmusic no fundo. A Felicidade a sair-me — não a entrar — pelos olhos que correm a página seco creme. Esparramada no papel. Meu Deus, como tu dizes — eu, um agnóstico a admirar a interjeição — parece-me que estou a principiar e o tempo a fugir.
Onde está a voz, a alma gémea, que me cicia ao ouvido os contos que me deixam contar? Porque não sinto uma mão amiga que me toque e me diga, na leve carícia, “vem por aqui”. E eu não tenho que olhar com ironia e cansaços…
Sinto um pequeno brilho cloretado nos olhos. Corre-me algo pela face como a Cire. Espero que venha longe aquela dor surda, o pequenino sopro que me fuja. Escrever é como um espelho de água, uma miragem, um nada. E se sinto que me falta o dom que me fuja o orgulho e possa ler a miragem de outro alguém.
Já não peço nada à vida.
Talvez um beijo, uns lábios doces, uma mão que se me estende.
E escrevinhar de onde em quando. E deixá-lo a alguém, dar tudo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Como ele, sinto que é a minha parte das trevas que escreve, não eu. E quando escrevo quero apenas libertar-me do que escrevo, jorrar o que sinto para o papel corrido pela caneta. Escrevinho, não escrevo.
Ah, António, que alegria sentir que alguém sente o mesmo que ainda ontem afirmei: desadmirar Pessoa! Finalmente outra alma não bajula o ícone posto à pressa no altar.
Que bom é saber que mais alguém quer “deixar tudo” e teme o tempo. Temo o tempo e a razão. O mesmo medo do corredor escuro quando, ainda criança, ia buscar os chinelos a meu pai. Saber que não está lá nada e temer, tremer! E fugir à pressa para a luz.
Essa luz que me apareceu nesta crónica de agora. Esse terrível, desesperado e feliz silêncio. Ler o silêncio com Eine Kleine Nachtmusic no fundo. A Felicidade a sair-me — não a entrar — pelos olhos que correm a página seco creme. Esparramada no papel. Meu Deus, como tu dizes — eu, um agnóstico a admirar a interjeição — parece-me que estou a principiar e o tempo a fugir.
Onde está a voz, a alma gémea, que me cicia ao ouvido os contos que me deixam contar? Porque não sinto uma mão amiga que me toque e me diga, na leve carícia, “vem por aqui”. E eu não tenho que olhar com ironia e cansaços…
Sinto um pequeno brilho cloretado nos olhos. Corre-me algo pela face como a Cire. Espero que venha longe aquela dor surda, o pequenino sopro que me fuja. Escrever é como um espelho de água, uma miragem, um nada. E se sinto que me falta o dom que me fuja o orgulho e possa ler a miragem de outro alguém.
Já não peço nada à vida.
Talvez um beijo, uns lábios doces, uma mão que se me estende.
E escrevinhar de onde em quando. E deixá-lo a alguém, dar tudo.
Pedro Rodrigues de Miguel
Justiça e Paz ou… o 11 de Março e os Criminosos de Guerra
Aquela manhã sangrenta de 11 de Março parecia-me um despropósito. Logo às primeiras notícias algo não me batia. A insistente tese da ETA confundia-me. Com o correr do dia algo me irritava. Parecia-me fartar de ouvir as mesmas informações. Era como já não pudesse ouvir falar mais de Santa Eugénia, Atocha ou El Pozo. Não, francamente, algo em mim se negava. Eu não queria acreditar naquelas vozes de fundo repetitivas. Fartava-se-me os comunicados oficiais, fáceis e sempre os mesmos. O nome da ETA repetia-se, mas havia qualquer coisa em mim que se negava a acreditar. Era sangue demais.
Estou à vontade para o dizer porque nunca acreditei na ETA. Nem sequer lhe reconheço qualquer valor ou razão histórica. Carlos V já vai há tempo demais! Mas o apontar fácil de dedo começava a enojar-me. Nem via qualquer tipicidade no ataque. O dia correu e uma náusea funda calava dentro de mim. Como um vulgar ladrão, de súbito, a noite caiu. O hospital mergulhou na artificialidade das luzes de néon.
Seriam umas oito horas da noite quando o Quiz me foi visitar. Falamos do falar. E havia uma raiva que explodia em mim. Saiu-me — Quiz, não foi a ETA! Olhou para mim incrédulo. Parecia-lhe a negação de mim próprio, dos meus princípios. Eu negava-me a acreditar! Rebateu. Não sei o que se me passava pela cabeça. Devia haver no meu olhar um brilho que o confundia. Quiz, não me chateies a cabeça!
Ficou ali a olhar-me como quem se extasia perante um monstro. Eu, o amigo dele, assumia o sangue com a naturalidade de um terrorista. Não Quiz, não foi a ETA, repeti. É sangue a mais, Quiz. Já não consigo ouvir esses gajos a repetirem sempre a mesma coisa. é fácil demais.
É. As coisas não batiam certo. Ataques múltiplos e simultâneos. Dirigidos a civis. Sangue a jorros. Tinham perdido o tino? Não, a ETA não era. E eu acreditava no meu próprio crer. Não era não acreditar que fosse a ETA. Era acreditar que não era. Quiz! Foi uma organização terrorista islâmica! Ele olhou-me como quem olha um louco. Eu que nunca tinha perdoado a ETA clamava a sua inocência?! Ouve lá, estás bem? Saltou-te a tampa? Saíste dos carretos? Porra Quiz, já te disse que não me chateies a cabeça. Há mãos sujas de sangue para além dos gajos que meteram as bombas. Esse filho da puta do Aznar está banhado no sangue das vítimas. Quiuz, o gajo é um criminoso de guerra. Esse cabrão, como o Durão, alinhou numa guerra ilegítima para satisfazer os seus próprios interesses. Ele e o Durão são criminosos de guerra. Não vale a pena chorar as vítimas. Devemos é chorar a insanidade desses dois senhorzecos da guerra. Se há culpados, um deles é o Aznar. Esse gajo tem as mãos mais sujas que um carniceiro, esse gajo é que é o carniceiro. É mais culpado que o tipo que lá colocou as cargas.
Ele não queria acreditar no que ouvia. Eu apontava um dedo. E não apontava à ETA. Já nem apontava a qualquer outra organização terrorista. Eu não podia estar bom da cabeça. Parecia que só eu me acreditava. Parecia enlouquecer! Dei-lhe um abraço. Começava a ter medo de mim próprio. Nascia uma raiva calada dentro de mim. O coração descompassava-se-me. Srá que eu acreditava na minha própria razão? Enlouquecia.
O dia seguinte traria a notícia terrível!
Balatazar Garzon há muito devia ter dado ordem de prisão a José Maria Aznar e entregue o “caudillo” ao Tribunal Criminal Internacional. A Justiça seria feita e talvez assim o derramamento de sangue tivesse sido evitado. Durão devia ter seguido o mesmo caminho. O saqueador da Faculdade de Direito torna-se agora um criminoso de guerra também. Estava tudo nas mãos de Souto Moura. E não tinham que ter pruridos. Não se tratam de criminosos de delito comum mas sim de criminosos de guerra. A pena máxima exigida, dentro dos nossos critérios legais, de vinte e cinco anos deveria ter sido usada sem possibilidade de recurso a liberdade condicional. Refuto totalmente a pena de morte ou a prisão perpétua. Nunca as aceitei, nem mesmo para criminosos de guerra desta índole. Talvez assim se tivesse evitado o ataque.
Os Iberos pagaram todos naquele dia.
Aznar mostrou a sua cobardia. Jamais disse fosse o que fosse acerca do assunto. Escondeu-se atrás das saias da ignomínia. Nem uma palavra mesmo depois de se ter descoberto os suspeitos. Durão, o ladrãozeco cobarde, segui-lhe os passos. Nem uma palavra. Tudo assenta, como dizia Júlio Henriques no posfácio de “Recordando a Guerra de Espanha” de Orwell, na organização e difusão da mentira e na impraticabilidade dos debates de fundo.
Daí para cá deixei de ler e ouvir o que fosse sobre o caso. Esses dois canalhas não me merecem o mínimo respeito ou consideração. A não haver Justiça e mesmo sendo totalmente contra a pena de morte, relembro que nunca fui contra a legítima defesa. O abate de um cão raivoso nunca enojou ninguém.
A mortandade foi por demais arrepiante.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Março 21, 2004
Cire
Está bem, o Quiz convenceu-me. Estive doente e desde já quero deixar bem explícito que não fiquei “zangado” com ele; a revolta estava dentro de mim. Afinal, quem consegue ficar chateado com um tipo como ele?! Mas para já não me apetece falar da tal conversa, do 11 de Março nem do raio que o parta. Isso deixo para mais tarde… mas prometo que falarei. De mais a mais não tenho premonições!
Mas aquela do enquanto há vida há esperança é outra das “máximas” que nunca me convenceu. Acredito, sim, que “enquanto há Esperança há Vida”. E aqui estou eu… um bem haja para todos.
Quando há três dias cheguei a casa tinha uma mensagem no telemóvel: “Abandonaste os blog? Estamos com saudades, principalmente do Pedro… bjs”.
Em especial para ela — ela sabe quem é — deixo algo que me faz sentir bem. As pobres palavras de um capítulo de umas porcarias que desde há muito tenho andado a escrevinhar. Digamos antes, a deixar o lápis correr o papel que de escrever não percebo puto.
Aqui ficam.
Cire cofiou, mais uma vez, as vibrissas com denodo. Já se lhe tornara um hábito. Era um movimento repetitivo que lhe afagava mais a alma que os pêlos. Olhava para trás nos tempos e sentia-se grato, apesar de Ruhtra lhe continuar a roer a memória.
Lembrou-se de Alberto, de quem lhe falara um tio avô longínquo, da América, fugido de barco da Alemanha. Lembrou-se quando pensou quão longa pode ser a vida em tão curto tempo... tão curto para eles, como o Alberto. Como lhe contara o tio avô longínquo, Alberto era um homenzinho bizarro que, numa repartiçãozita de patentes, sem mais que fazer, se pusera a pensar no tempo e na forma de o dobrar. Dobrar mesmo, entortar, encurvar, vê-lo de outra maneira que não a maneira como os outros o viam. Um homenzinho tão bizarro que até havia fugido do seu país natal porque lá não gostavam muito da forma do seu nariz. Bizarro!
Contara-lhe o tio avô longínquo que o degredo começara no Natal de trinta e dois. Alberto deixava para trás as raízes mas pensava que um homem feliz está demasiado contente com o presente para pensar muito sobre o futuro. Preferia pensar em homenzinhos que caem de telhados, e não se apercebem bem do seu próprio peso, ou interrogar-se se a Lua só existiria realmente quando olhamos para ela. Por vezes pensava mais longe, mas aí o tio avô, que também fugira de barco da Alemanha, deixava de lhe acompanhar o raciocínio. Certa vez Alberto pensara qualquer coisa nestes termos:
W =∫ K'x' d x' = m ∫o y3 υ d υ = mc2 (y - 1)
Era para todos os efeitos complicado de mais para o velho tio... talvez não o fosse para outras pessoas a quem a idade ainda tanto não pesasse! Uns tempos mais tarde Alberto simplificara as coisas, clarificara as ideias, discernira de outra forma e disse aquilo tudo de uma maneira bem mais simples:
E = mc2
O velho tio avô continuou a não perceber, mas achara bem mais fácil!
Cire gostava de se lembrar das histórias que lhe tinham contado ao longo da vida. Era bom saber que havia homens como Alberto, deixar-se embalar nas suas memórias, cobiçar um pouco tudo aquilo que estava um pouco mais longe que o imediato e ouvir as suas vozes enevoadas pelo tempo. Eram histórias de lareira, ou talvez não fossem. Mas o amargo da vida fugia um pouco e o coração sentia-se afagado. Era bom, era doce, reconfortante, e o tempo parecia correr mais fácil.
Ouvira muitas histórias a esse seu tio e a muitos outros velhos antepassados, amigos e familiares. Mas naquele momento as histórias de Alberto zurziam-lhe os ouvidos mais que as outras, tomavam-lhe e toldavam-lhe os pensamentos, sem no entanto o confundir.
Era como se o tivesse à sua frente naquele momento. Os olhos lassos, de cocker, a longa alva guedelha, os lábios cobertos do farto bigode... a imagem fazia-se-lhe, calma, enquanto sentia como que se um túnel de tempo se estreita-se em turbilhão. Havia tons de azul prússia raiado de vermelho forte com estouros de amarelo cintilante. Na verdade, quando olhamos para trás, para o passado do nosso presente, sentimos uma vertigem que nunca percebemos se estamos a ser traídos pela nossa memória ou se nos enganamos por desejo.
Cire sabia, porque ouvia falar, e tudo o que se falava e dizia tinha que em absoluto ser verdade, ou pelo menos não estar muito longe dela, que a sua eternidade estava, por certo, garantida... ainda tinha Rialb. Mas isso é outra história. A certeza mais certa que tinha da sua eternidade não era por certo o Céu dos ratos... até porque os ratos não têm Céu, e pronto! O que ele tinha certeza era que, tal como outros lhe haviam ficado na memória pelas memórias que lhe deixaram, também ele se podia perpetuar, eternizar, manter vivo na memória de outros e até no seu corpo... seu corpo deles, dos outros! Ou de outro, pelo menos, de Rialb. Ou não era ele sangue de seu sangue, vida de sua vida, o perpetuar eterno do seu corpo, de um pouco do seu viver? Afinal o que são os filhos? No mínimo um espermatozóide com autodeterminação... com autodeterminação mas com todo o assumir de uma vivência anterior que lhe é arquétipo e de que eles são a lembrança perene. Era isso que Alberto lhe fazia recordar mais vivamente. Alberto e os outros que o prosseguiam. Prosseguiam ou precederam, perseguiam ou pereceram, tanto fazia. De todos lhe tinham falado com carinho e Amor. Rutherford, Plank, Newton, Thomson, Hawking, Feynman, Wheeler, Gehrig, Weinberg, Penrose, Dirac, Aristóteles, Kepler, Copérnico, Olbers, Hubble, Maxwell, Michelson, Morley, Lorentz, Poincaré, Wright, Herschel, Wilson, Penzias, Friedman, Peebles, Gamon, Dicke, Doppler, Bondi, Hoyle, Gold, Lifshitz, Khalatnikov, Heisenberg, Schrodinger, Mott, Pauli, Salam, Rubbia, Glashow, Eddington, Chandrasekhar, Oppenheimer, Schwarzchild, Israel, Kerr, Robinson, Carter, Schmidt, Bell, Hewish, Thorn, Zeldovich, Starobinshy, Porter, Weekes, Taylor, Appleton, Bethe, Alpher, Linde, Albrecht, Steinhardt, Scherk, Scharz... Bem, uma pessoa também não se pode lembrar de todos de uma só vez!
Mas o certo é que todos olharam para o Universo, mais para longe do que os olhos podem ou querem ver. Isso, querem ver. Porque às vezes podem e não querem. E a nossa eternidade é mais uma questão de querer do que poder. Era isso que Cire sentia quando se dava tempo de olhar um pouco mais para si próprio, de se incomodar um pouco mais consigo, como gostava de pensar. Para ele a eternidade era o vão abissal que a todos nós pertence. Eterno é podermos pensar que jamais morremos, mesmo quando morremos. É deixar algo para os outros do pouco que é nosso. É poder fazer inveja, com tão pouco, àqueles que se julgam no direito de possuir muito. Porque esses nada possuem senão o ódio que cá deixam. São os políticos, os todo-poderosos, os messias, os inúteis, os iníquos, os bufos, os traidores dos seus próprios concidadãos, a escória, os filhos da puta (afora os que honradamente podem, por acaso, ter nascido de Mãe puta), os a quem ou a morte leva ou só levam a morte onde vão.
Cire espreitou por entre as grades da gateira térrea para o escuro lá longe no céu errante. Deixou os olhos fugirem tão longe quanto podiam e sentia-se feliz. Não era feliz, feliz. Era antes feliz como que em paz consigo próprio, com o pretérito, o momento e o porvir. Sentia que valera a pena a sua tão longa, tão pequena vida. E lembrava-se de Alberto, e de todos os outros que não esquecia - esquecera-se de um, mas de propósito. Esquecia-se sempre dele quando dele se queria lembrar no fim. É que lhe era uma figura assaz grata. Um dos que lhe dera a hipótese ― até a ele, um simples Mus musculo ― de ver um Mundo bem maior. Gostava de se lembrar dele no fim porque adormecia melhor.
O voo onírico atirou-o para alturas do carnaval de 1564. Nascia nas margens do Arno, perto da Piazza del Duomo, mais um menino sob os auspícios do sucessor de Carafa. Carafa, o Gian Pietro, o monstro Paulo dos sermo generalis. Paulo em nome de Paulo. O III e o IV da trilogia que o VI encerraria com o nome maldito de Congregação para a Doutrina da Fé. Um eufemismo violento que na altura pairava por sobre tudo e todos com o epíteto arrogante de Santo Ofício.
O filho de Vincenzo cresceu por terras de Vallombroso e de novo voltou a Pisa e depois, já por força de razões, a Pádua. Em certa altura lembrou-se de um Diálogo Sobre as Marés que os lacaios de Carafa renomearam de Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo. Escrevia e pensava porque não lhe agradava a ideia aristotélica de que nada novo podia aparecer, sequer imaginar-se, nas abóbadas celestes. Assim, deleitou-se com as manchas solares, os satélites de Júpiter, crateras e vales lunares ou as fases de Vénus. Mas não lhe perdoariam a ousadia. Já na época existiam timoneiros que não gostavam que lhes dirigissem o barco... nem se permitiam encalhar em águas algarvias. Quiseram que se penitenciasse perante montes de banha e estrume de púrpura vestidos. Nunca lhe perdoaram. Esperava-o a prisão perpétua. Por clemência hipócrita encerraram-no em casa até ao fim de seus dias.
Não morreu sem deixar à eternidade um Discurso Sobre Duas Novas Ciências. Passariam mais de três séculos e meio até lhe reconhecerem razão. Mas é difícil ressuscitar passado tanto tempo. Como dizia George Bernard Shaw, o que há de errado com padres e papas é que em vez de serem apóstolos e santos, não são mais que empíricos que dizem “eu sei” em vez de “estou a aprender” e pedem credulidade e inércia tal como o homem sensato pede cepticismo e actividade. Não que lhe tenha feito alguma diferença caminhar com orelhas de burro por entre suas iniquidades cardinalícias, que se lhe tenha perturbado o génio por viver acorrentado, que se tenha tornado um pária ou associal, que menos amor houvera à verdade, sequer que menos respeito lhe hajam merecido os seus iguais, todos os Homens... que lhes tenha sido ingrato e escondido para si, só para si, o que soube mais! Mas morrer na ingratidão é tornar o etéreo sempre triste e ougar por liberdade. É ser e não ser. É meio viver enquanto os outros, à volta, nadam na ignorância e deixam num homem a sensação de vazio, de pecado, por dever e não poder dar mais a seus semelhantes.
Toda esta mortalha de restos de azedume envolvia Cire àquelas horas da noite, daquela noite fria e sem luar. Os sonhos corriam-lhe lentos e tristes, amargurados, por se lembrar daqueles episódios que tão fundo lhe magoavam a alma. Era um lembrar presente, como que obrigado por algo mais forte que a força do querer. Eram velhas histórias que ouvira e lhe fluíam como se da própria consciência se tratasse. Velhos contos que aprendera a venerar e se lhe fizeram lei pela vida fora. Verdadeiros Códigos, Honra, Amor pela Verdade. Tudo o que lhe fizera sentido à vida. Vivera na admiração dessas histórias de homenzinhos, da mesma espécie dos que tanto mal lhe haviam feito. Mas era esse o seu Código. Era Bíblia, Talmude, Corão, Wu Ching, Shih Shu, Avestá, Analectos, Filactérias, Veda, Tripitaka, Midrash, Tora, Talmud, Masora, Lotus Sutra, Mishna, Kojiki, Nihongi, Yegishiki, Tao-Te-Ching, era todos eles e nenhum.
Uma pequena lágrima brilhou de alegria nos olhos de Cire, correu-lhe a face sem que sentisse, misturou-se no sonho, calmou-lhe o âmago, calcorreou-lhe os lábios e deu-lhe de beber, calou-lhe a sede da vida e deixou-se volatilizar por um último pequenino sopro que lhe fugia das narinas. Houve uma dor surda no Mundo que ninguém sentiu. Cire estava calmo porque chegara a vez da sua Eternidade. Tinha, enfim, cumprido os seus dias, chegara a vez de também ser lembrado. Corria célere para os braços dos antepassados, algures, lá longe na imensidão do eterno... que os ratos não têm Céu!
E Cire voou, voou para lá longe e certo que não devemos morrer ignorantes porque já chega a ignorância com que morremos! Porque somos um paradoxo!
Pedro Rodrigues de Miguel
Mas aquela do enquanto há vida há esperança é outra das “máximas” que nunca me convenceu. Acredito, sim, que “enquanto há Esperança há Vida”. E aqui estou eu… um bem haja para todos.
Quando há três dias cheguei a casa tinha uma mensagem no telemóvel: “Abandonaste os blog? Estamos com saudades, principalmente do Pedro… bjs”.
Em especial para ela — ela sabe quem é — deixo algo que me faz sentir bem. As pobres palavras de um capítulo de umas porcarias que desde há muito tenho andado a escrevinhar. Digamos antes, a deixar o lápis correr o papel que de escrever não percebo puto.
Aqui ficam.
Cire cofiou, mais uma vez, as vibrissas com denodo. Já se lhe tornara um hábito. Era um movimento repetitivo que lhe afagava mais a alma que os pêlos. Olhava para trás nos tempos e sentia-se grato, apesar de Ruhtra lhe continuar a roer a memória.
Lembrou-se de Alberto, de quem lhe falara um tio avô longínquo, da América, fugido de barco da Alemanha. Lembrou-se quando pensou quão longa pode ser a vida em tão curto tempo... tão curto para eles, como o Alberto. Como lhe contara o tio avô longínquo, Alberto era um homenzinho bizarro que, numa repartiçãozita de patentes, sem mais que fazer, se pusera a pensar no tempo e na forma de o dobrar. Dobrar mesmo, entortar, encurvar, vê-lo de outra maneira que não a maneira como os outros o viam. Um homenzinho tão bizarro que até havia fugido do seu país natal porque lá não gostavam muito da forma do seu nariz. Bizarro!
Contara-lhe o tio avô longínquo que o degredo começara no Natal de trinta e dois. Alberto deixava para trás as raízes mas pensava que um homem feliz está demasiado contente com o presente para pensar muito sobre o futuro. Preferia pensar em homenzinhos que caem de telhados, e não se apercebem bem do seu próprio peso, ou interrogar-se se a Lua só existiria realmente quando olhamos para ela. Por vezes pensava mais longe, mas aí o tio avô, que também fugira de barco da Alemanha, deixava de lhe acompanhar o raciocínio. Certa vez Alberto pensara qualquer coisa nestes termos:
W =∫ K'x' d x' = m ∫o y3 υ d υ = mc2 (y - 1)
Era para todos os efeitos complicado de mais para o velho tio... talvez não o fosse para outras pessoas a quem a idade ainda tanto não pesasse! Uns tempos mais tarde Alberto simplificara as coisas, clarificara as ideias, discernira de outra forma e disse aquilo tudo de uma maneira bem mais simples:
E = mc2
O velho tio avô continuou a não perceber, mas achara bem mais fácil!
Cire gostava de se lembrar das histórias que lhe tinham contado ao longo da vida. Era bom saber que havia homens como Alberto, deixar-se embalar nas suas memórias, cobiçar um pouco tudo aquilo que estava um pouco mais longe que o imediato e ouvir as suas vozes enevoadas pelo tempo. Eram histórias de lareira, ou talvez não fossem. Mas o amargo da vida fugia um pouco e o coração sentia-se afagado. Era bom, era doce, reconfortante, e o tempo parecia correr mais fácil.
Ouvira muitas histórias a esse seu tio e a muitos outros velhos antepassados, amigos e familiares. Mas naquele momento as histórias de Alberto zurziam-lhe os ouvidos mais que as outras, tomavam-lhe e toldavam-lhe os pensamentos, sem no entanto o confundir.
Era como se o tivesse à sua frente naquele momento. Os olhos lassos, de cocker, a longa alva guedelha, os lábios cobertos do farto bigode... a imagem fazia-se-lhe, calma, enquanto sentia como que se um túnel de tempo se estreita-se em turbilhão. Havia tons de azul prússia raiado de vermelho forte com estouros de amarelo cintilante. Na verdade, quando olhamos para trás, para o passado do nosso presente, sentimos uma vertigem que nunca percebemos se estamos a ser traídos pela nossa memória ou se nos enganamos por desejo.
Cire sabia, porque ouvia falar, e tudo o que se falava e dizia tinha que em absoluto ser verdade, ou pelo menos não estar muito longe dela, que a sua eternidade estava, por certo, garantida... ainda tinha Rialb. Mas isso é outra história. A certeza mais certa que tinha da sua eternidade não era por certo o Céu dos ratos... até porque os ratos não têm Céu, e pronto! O que ele tinha certeza era que, tal como outros lhe haviam ficado na memória pelas memórias que lhe deixaram, também ele se podia perpetuar, eternizar, manter vivo na memória de outros e até no seu corpo... seu corpo deles, dos outros! Ou de outro, pelo menos, de Rialb. Ou não era ele sangue de seu sangue, vida de sua vida, o perpetuar eterno do seu corpo, de um pouco do seu viver? Afinal o que são os filhos? No mínimo um espermatozóide com autodeterminação... com autodeterminação mas com todo o assumir de uma vivência anterior que lhe é arquétipo e de que eles são a lembrança perene. Era isso que Alberto lhe fazia recordar mais vivamente. Alberto e os outros que o prosseguiam. Prosseguiam ou precederam, perseguiam ou pereceram, tanto fazia. De todos lhe tinham falado com carinho e Amor. Rutherford, Plank, Newton, Thomson, Hawking, Feynman, Wheeler, Gehrig, Weinberg, Penrose, Dirac, Aristóteles, Kepler, Copérnico, Olbers, Hubble, Maxwell, Michelson, Morley, Lorentz, Poincaré, Wright, Herschel, Wilson, Penzias, Friedman, Peebles, Gamon, Dicke, Doppler, Bondi, Hoyle, Gold, Lifshitz, Khalatnikov, Heisenberg, Schrodinger, Mott, Pauli, Salam, Rubbia, Glashow, Eddington, Chandrasekhar, Oppenheimer, Schwarzchild, Israel, Kerr, Robinson, Carter, Schmidt, Bell, Hewish, Thorn, Zeldovich, Starobinshy, Porter, Weekes, Taylor, Appleton, Bethe, Alpher, Linde, Albrecht, Steinhardt, Scherk, Scharz... Bem, uma pessoa também não se pode lembrar de todos de uma só vez!
Mas o certo é que todos olharam para o Universo, mais para longe do que os olhos podem ou querem ver. Isso, querem ver. Porque às vezes podem e não querem. E a nossa eternidade é mais uma questão de querer do que poder. Era isso que Cire sentia quando se dava tempo de olhar um pouco mais para si próprio, de se incomodar um pouco mais consigo, como gostava de pensar. Para ele a eternidade era o vão abissal que a todos nós pertence. Eterno é podermos pensar que jamais morremos, mesmo quando morremos. É deixar algo para os outros do pouco que é nosso. É poder fazer inveja, com tão pouco, àqueles que se julgam no direito de possuir muito. Porque esses nada possuem senão o ódio que cá deixam. São os políticos, os todo-poderosos, os messias, os inúteis, os iníquos, os bufos, os traidores dos seus próprios concidadãos, a escória, os filhos da puta (afora os que honradamente podem, por acaso, ter nascido de Mãe puta), os a quem ou a morte leva ou só levam a morte onde vão.
Cire espreitou por entre as grades da gateira térrea para o escuro lá longe no céu errante. Deixou os olhos fugirem tão longe quanto podiam e sentia-se feliz. Não era feliz, feliz. Era antes feliz como que em paz consigo próprio, com o pretérito, o momento e o porvir. Sentia que valera a pena a sua tão longa, tão pequena vida. E lembrava-se de Alberto, e de todos os outros que não esquecia - esquecera-se de um, mas de propósito. Esquecia-se sempre dele quando dele se queria lembrar no fim. É que lhe era uma figura assaz grata. Um dos que lhe dera a hipótese ― até a ele, um simples Mus musculo ― de ver um Mundo bem maior. Gostava de se lembrar dele no fim porque adormecia melhor.
O voo onírico atirou-o para alturas do carnaval de 1564. Nascia nas margens do Arno, perto da Piazza del Duomo, mais um menino sob os auspícios do sucessor de Carafa. Carafa, o Gian Pietro, o monstro Paulo dos sermo generalis. Paulo em nome de Paulo. O III e o IV da trilogia que o VI encerraria com o nome maldito de Congregação para a Doutrina da Fé. Um eufemismo violento que na altura pairava por sobre tudo e todos com o epíteto arrogante de Santo Ofício.
O filho de Vincenzo cresceu por terras de Vallombroso e de novo voltou a Pisa e depois, já por força de razões, a Pádua. Em certa altura lembrou-se de um Diálogo Sobre as Marés que os lacaios de Carafa renomearam de Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo. Escrevia e pensava porque não lhe agradava a ideia aristotélica de que nada novo podia aparecer, sequer imaginar-se, nas abóbadas celestes. Assim, deleitou-se com as manchas solares, os satélites de Júpiter, crateras e vales lunares ou as fases de Vénus. Mas não lhe perdoariam a ousadia. Já na época existiam timoneiros que não gostavam que lhes dirigissem o barco... nem se permitiam encalhar em águas algarvias. Quiseram que se penitenciasse perante montes de banha e estrume de púrpura vestidos. Nunca lhe perdoaram. Esperava-o a prisão perpétua. Por clemência hipócrita encerraram-no em casa até ao fim de seus dias.
Não morreu sem deixar à eternidade um Discurso Sobre Duas Novas Ciências. Passariam mais de três séculos e meio até lhe reconhecerem razão. Mas é difícil ressuscitar passado tanto tempo. Como dizia George Bernard Shaw, o que há de errado com padres e papas é que em vez de serem apóstolos e santos, não são mais que empíricos que dizem “eu sei” em vez de “estou a aprender” e pedem credulidade e inércia tal como o homem sensato pede cepticismo e actividade. Não que lhe tenha feito alguma diferença caminhar com orelhas de burro por entre suas iniquidades cardinalícias, que se lhe tenha perturbado o génio por viver acorrentado, que se tenha tornado um pária ou associal, que menos amor houvera à verdade, sequer que menos respeito lhe hajam merecido os seus iguais, todos os Homens... que lhes tenha sido ingrato e escondido para si, só para si, o que soube mais! Mas morrer na ingratidão é tornar o etéreo sempre triste e ougar por liberdade. É ser e não ser. É meio viver enquanto os outros, à volta, nadam na ignorância e deixam num homem a sensação de vazio, de pecado, por dever e não poder dar mais a seus semelhantes.
Toda esta mortalha de restos de azedume envolvia Cire àquelas horas da noite, daquela noite fria e sem luar. Os sonhos corriam-lhe lentos e tristes, amargurados, por se lembrar daqueles episódios que tão fundo lhe magoavam a alma. Era um lembrar presente, como que obrigado por algo mais forte que a força do querer. Eram velhas histórias que ouvira e lhe fluíam como se da própria consciência se tratasse. Velhos contos que aprendera a venerar e se lhe fizeram lei pela vida fora. Verdadeiros Códigos, Honra, Amor pela Verdade. Tudo o que lhe fizera sentido à vida. Vivera na admiração dessas histórias de homenzinhos, da mesma espécie dos que tanto mal lhe haviam feito. Mas era esse o seu Código. Era Bíblia, Talmude, Corão, Wu Ching, Shih Shu, Avestá, Analectos, Filactérias, Veda, Tripitaka, Midrash, Tora, Talmud, Masora, Lotus Sutra, Mishna, Kojiki, Nihongi, Yegishiki, Tao-Te-Ching, era todos eles e nenhum.
Uma pequena lágrima brilhou de alegria nos olhos de Cire, correu-lhe a face sem que sentisse, misturou-se no sonho, calmou-lhe o âmago, calcorreou-lhe os lábios e deu-lhe de beber, calou-lhe a sede da vida e deixou-se volatilizar por um último pequenino sopro que lhe fugia das narinas. Houve uma dor surda no Mundo que ninguém sentiu. Cire estava calmo porque chegara a vez da sua Eternidade. Tinha, enfim, cumprido os seus dias, chegara a vez de também ser lembrado. Corria célere para os braços dos antepassados, algures, lá longe na imensidão do eterno... que os ratos não têm Céu!
E Cire voou, voou para lá longe e certo que não devemos morrer ignorantes porque já chega a ignorância com que morremos! Porque somos um paradoxo!
Pedro Rodrigues de Miguel
Não… porquê?
Não, não temos escrito nada!
Não é falta de vontade, muito menos falta de respeito por todos os nossos tantos Amigos. É uma questão de consideração e respeito pelo estado de saúde do Pedro e assim resolvemos que nenhum de nós publicasse, fosse o que fosse, até que ele nos pudesse trazer as suas palavras.
Ao fim da tarde, já cair da noite, de 11 de Março visitei-o. A lucidez e premonição dele, que viria a confirmar, admirou-me. Chegou mesmo a ficar “zangado” comigo! “Não me dês cabo da cabeça, Quiz”.
Abria-se a caixa de Pandora. Não tinha perdido o gesto. Olhava para a minha estupidez, e de tantos outros nós, com aquele brilho nos olhos com que sempre o conheci.
Tinha razão, ou pelo menos os factos vieram a dar-lhe razão, confesso. Internado, e sei lá eu como a sentir-se por dentro, não tinha deixado de seguir os acontecimentos daquele dia. Não se perdoava nem permitia a “razão” fácil do aparente. Senti-lhe o Diabo no corpo, senti-lhe a dor de não ver à sua volta o fácil, o óbvio. Nem a dor que lhe iria na alma e no corpo lhe permitia fugir ao pensar!
Já teve alta e visitá-lo-ei esta tarde em casa. Acredito que dará voz a essa nossa conversa — ou pelo menos assim eu gostava — e que em breve aqui o teremos de novo a escrever. Acredito que muitos de nós estarão naquela casa quando eu lá for. Até a mim já me apetece senti-lo de volta e sei que virá.
A todos os nossos Amigos, em especial aos da ARPE, e a tantos outros os meus pedidos de desculpa por tão longa interrupção. Mas compreendam que nem eu mesmo tinha vontade ou coragem de publicar enquanto ele não melhorasse; ao “fedelho” foi fácil de fazer ver o mesmo.
Logo à tarde convencê-lo-ei a voltar para o meio de nós. Assim a Vontade lhe queira. Mas creio estar certo que não demorará.
Espero ver-lhe de novo aquele brilho nos olhos. E porque não hei-de esperar?
Afinal, enquanto há vida há esperança! E eu quero viver na esperança de cedo lhe sentir de novo a palavra, o gosto de lhe ouvir o pensamento.
Como ele diria, “um grande Abraço” a todos.
Quiz
Não é falta de vontade, muito menos falta de respeito por todos os nossos tantos Amigos. É uma questão de consideração e respeito pelo estado de saúde do Pedro e assim resolvemos que nenhum de nós publicasse, fosse o que fosse, até que ele nos pudesse trazer as suas palavras.
Ao fim da tarde, já cair da noite, de 11 de Março visitei-o. A lucidez e premonição dele, que viria a confirmar, admirou-me. Chegou mesmo a ficar “zangado” comigo! “Não me dês cabo da cabeça, Quiz”.
Abria-se a caixa de Pandora. Não tinha perdido o gesto. Olhava para a minha estupidez, e de tantos outros nós, com aquele brilho nos olhos com que sempre o conheci.
Tinha razão, ou pelo menos os factos vieram a dar-lhe razão, confesso. Internado, e sei lá eu como a sentir-se por dentro, não tinha deixado de seguir os acontecimentos daquele dia. Não se perdoava nem permitia a “razão” fácil do aparente. Senti-lhe o Diabo no corpo, senti-lhe a dor de não ver à sua volta o fácil, o óbvio. Nem a dor que lhe iria na alma e no corpo lhe permitia fugir ao pensar!
Já teve alta e visitá-lo-ei esta tarde em casa. Acredito que dará voz a essa nossa conversa — ou pelo menos assim eu gostava — e que em breve aqui o teremos de novo a escrever. Acredito que muitos de nós estarão naquela casa quando eu lá for. Até a mim já me apetece senti-lo de volta e sei que virá.
A todos os nossos Amigos, em especial aos da ARPE, e a tantos outros os meus pedidos de desculpa por tão longa interrupção. Mas compreendam que nem eu mesmo tinha vontade ou coragem de publicar enquanto ele não melhorasse; ao “fedelho” foi fácil de fazer ver o mesmo.
Logo à tarde convencê-lo-ei a voltar para o meio de nós. Assim a Vontade lhe queira. Mas creio estar certo que não demorará.
Espero ver-lhe de novo aquele brilho nos olhos. E porque não hei-de esperar?
Afinal, enquanto há vida há esperança! E eu quero viver na esperança de cedo lhe sentir de novo a palavra, o gosto de lhe ouvir o pensamento.
Como ele diria, “um grande Abraço” a todos.
Quiz
Domingo, Fevereiro 15, 2004
World Press Photo
Pode-se ver a foto vencedora no site da World Press Photo.
Jean-Marc Bouju , da France - The Associated Press foi o fotógrafo laureado com esta excelente imagem de um pai Iraquiano que acarinha o seu filho num centro de reagrupamento de Prisioneiros de Guerra, em Najaf, a 31 de Março de 2003.
A imagem é um todo. Deixo estas palavras...
«Desde o princípio que os homens se serviram de Deus para justificar o injustificável»
Salman Rushdie in Os Versículos Satânicos
Quiz
Jean-Marc Bouju , da France - The Associated Press foi o fotógrafo laureado com esta excelente imagem de um pai Iraquiano que acarinha o seu filho num centro de reagrupamento de Prisioneiros de Guerra, em Najaf, a 31 de Março de 2003.
A imagem é um todo. Deixo estas palavras...
«Desde o princípio que os homens se serviram de Deus para justificar o injustificável»
Salman Rushdie in Os Versículos Satânicos
Quiz
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
O alfarrabista
Tenho visto por aí fora uma zurzidela danada num tal de Zépêpê. Parece que o senhor se entretém a arrimar com livralhada, senão opúsculos, para cima da mesa e… lá vai disto! Ora, cada um trata os livros como quer — digo eu! — e pelos vistos, não ouse o uso tornar-se costume, sublimar pulsões. Tempos que já lá vão!
Não tenho tempo nem paciência para ficar especado ao estroboscópio, é certo, mas por vezes a coisa acontece. Outras ouço ou leio alhures que esta ou aquela obra se passeou pelo tampo como se de literatura de cordel se tratasse. E são Obras!
Agora já não estamos a falar do monte de papel, do livro, mas do Livro. Fingir que faz para dizer que disse, melhor fora que estivesse quieto e calado. Como soi dizer-se: quedo e mudo!
Pois no outro dia, alguns dias lá vão, o hirsuto senhor, desbragou-se. Mostrou um livro de capa azul do mesmo autor do Big Brother «que todos conhecem por causa do concurso». Falou dumas minas de carvão… e está feito! Fiquei atónito. A não ser que o dito senhor pretenda a todo o custo desenvolver uma versão kitch ou minimal de uma outra concorrente!
Que quase ninguém sabe o que é o Big Brother, já eu sei. De «1984» escuso de me preocupar a saber. Mas o respeito por Orwell e a tão recente publicação de três das suas obras implicaria, pelo menos — valha-nos a consciência — um pouco mais de deferência (…aqui escuso-me a dizer consciência, que pelos vistos foi falha!).
Na verdade, a Antígona editou a 13 de Novembro passado três obras deste autor. Duas são, na verdade, reedições — apesar de esgotadas há muito — Recordando a Guerra Espanhola e Na Penúria em Paris e Londres, enquanto a outra aparece pela primeira vez em português, O Caminho de Wigan Pier.
Recordando a Guerra Espanhola é uma colectânea de textos, quase um diário de guerra, retirados de The Collected Essays e publicados em periódicos vários como o New English Weekly e o New Road, tendo um posfácio de Júlio Henriques que aconselho vivamente a ser lido no início.
Na Penúria em Paris e Londres é um abeirar-se da pobreza mas também da dignidade de todos os seres humanos, um refutar «como certas pessoas pensam que têm todo o direito de nos dirigir sermões e de nos fazer ouvir as suas rezas mal os nossos rendimentos descem abaixo de certo nível».
O Caminho de Wigan Pier descreve a miséria do desemprego e dos «trabalhos forçados» e deixa-nos surgir um Orwell «comprometido com a língua enquanto cúmplice da verdade» como disse Christopher Hitchens.
Se O Triunfo dos Porcos e 1984 tornaram Orwell conhecido, é-lhe reconhecido em O Caminho de Wigan Pier e Na Penúria em Paris e Londres o seu espírito libertário, onde revela toda a sua força e pujança.
Pedro Rodrigues de Miguel
Não tenho tempo nem paciência para ficar especado ao estroboscópio, é certo, mas por vezes a coisa acontece. Outras ouço ou leio alhures que esta ou aquela obra se passeou pelo tampo como se de literatura de cordel se tratasse. E são Obras!
Agora já não estamos a falar do monte de papel, do livro, mas do Livro. Fingir que faz para dizer que disse, melhor fora que estivesse quieto e calado. Como soi dizer-se: quedo e mudo!
Pois no outro dia, alguns dias lá vão, o hirsuto senhor, desbragou-se. Mostrou um livro de capa azul do mesmo autor do Big Brother «que todos conhecem por causa do concurso». Falou dumas minas de carvão… e está feito! Fiquei atónito. A não ser que o dito senhor pretenda a todo o custo desenvolver uma versão kitch ou minimal de uma outra concorrente!
Que quase ninguém sabe o que é o Big Brother, já eu sei. De «1984» escuso de me preocupar a saber. Mas o respeito por Orwell e a tão recente publicação de três das suas obras implicaria, pelo menos — valha-nos a consciência — um pouco mais de deferência (…aqui escuso-me a dizer consciência, que pelos vistos foi falha!).
Na verdade, a Antígona editou a 13 de Novembro passado três obras deste autor. Duas são, na verdade, reedições — apesar de esgotadas há muito — Recordando a Guerra Espanhola e Na Penúria em Paris e Londres, enquanto a outra aparece pela primeira vez em português, O Caminho de Wigan Pier.
Recordando a Guerra Espanhola é uma colectânea de textos, quase um diário de guerra, retirados de The Collected Essays e publicados em periódicos vários como o New English Weekly e o New Road, tendo um posfácio de Júlio Henriques que aconselho vivamente a ser lido no início.
Na Penúria em Paris e Londres é um abeirar-se da pobreza mas também da dignidade de todos os seres humanos, um refutar «como certas pessoas pensam que têm todo o direito de nos dirigir sermões e de nos fazer ouvir as suas rezas mal os nossos rendimentos descem abaixo de certo nível».
O Caminho de Wigan Pier descreve a miséria do desemprego e dos «trabalhos forçados» e deixa-nos surgir um Orwell «comprometido com a língua enquanto cúmplice da verdade» como disse Christopher Hitchens.
Se O Triunfo dos Porcos e 1984 tornaram Orwell conhecido, é-lhe reconhecido em O Caminho de Wigan Pier e Na Penúria em Paris e Londres o seu espírito libertário, onde revela toda a sua força e pujança.
Pedro Rodrigues de Miguel
Sábado, Fevereiro 07, 2004
O meu Diário 14
Tenho andado um pouco nervoso, mas agora estou mais calmo.
Deve ser do chá!
Eu conto a história. Tive audição no Conservatório anteontem. Tinha que apresentar duas peças de Mackay. Fartei-me de estudar e de ensaiar nos últimos quinze dias. Até que a minha mãe me disse que me ia dar chá de camomila. Depois resolveu dar-me chá de cidreira. Isto foi no outro Sábado (não foi no passado). No Domingo dormi até às 11 horas. O chá dá mesmo resultado!
Até o meu pai disse «estás a ver como resulta, meu camelo?!».
E também me disse que se não ensaiasse todos os dias, duas vezes por dia, quem me dava o chá era ele! Não percebi que diferença é que fazia em ser ele a dar-me ou a minha mãe, mas está bem!
Quando entrei para a audição fiquei com muito calor e a transpirar. Depois até parece que deixei de ouvir tudo à minha volta excepto o piano que me acompanhava. Quando acabou, a professora Suzanna Lidegran, que é a minha tutora, disse que estava tudo bem, que tinha feito tudo muito direitinho. Ainda bem. Tinha passado a tarde a beber chá!
Tive outro problema. Umas pequenas manchinhas que me apareceram na pele da cara. O meu pai levou-me a uma dermatologista — que é o médico da pele (o dermatologista amigo dele está para fora). Ela disse que não tinha importância, que era só um eczema. O meu pai disse que já sabia: que só me levou lá para a minha mãe lhe deixar de dar cabo da cabeça! Afinal para quem era a consulta? Aproveitei e falei daquelas borbulhas que me aparecem de vez em quando na testa. Foi logo: ó meu filho, isso ainda é muito cedo para a tua idade! Não percebi. Mas isto agora há idade para ter borbulhas na testa? Boa!
Passou-me uma receita de dois cremes. Dizia: Dermatologia e Venereologia. Perguntei ao meu pai o que era aquilo. Disse-me que eram doenças do “coiso”. Então perguntei-lhe se aquelas Senhoras todas que lá estavam na sala também tinham doenças da “coisa”. Disse que não, que isso era tratado pelos ginecologistas. Que grande confusão. Desisti logo de perguntar se os ginecologistas também tratam da pele das Senhoras. Às vezes é melhor estar calado!
Hoje à noite o meu pai estava irritado. Diz que a “porcaria” (ele usou outra palavra) do governo quer inventar uma nova disciplina nas escolas. Ele e o Quiz estavam um autêntico pandemónio. Que se o governo nem ministros educados tem quer agora vir educar os filhos dos outros. Diziam uma quantidade de palavrões. Eu não percebi muito daquilo mas eles devem ter razão. Onde é que vão arranjar professores para essa tal disciplina de Educação para a Saúde? Para mim que estou em Ensino Articulado nem um professor de Ginástica conseguem arranjar. Tenho que lá ir a meio da tarde. E na outra tarde não posso ir. E a lei protege-me (quer dizer, dizem que protege!). E a professora deu-me um 3 porque diz que «não tem tempo para me avaliar».
Ou como diz o meu pai: «a gaja é parva ou quê? Dar um 3 a um Atleta Federado em regime de competição?! Esta é que precisava de educação sexual, precisava que a ……!» (não posso escrever aqui a palavra que ele disse!).
Hoje também estava cá o Pedro. Sempre calmo. Maningue calmo, como ele diz. Em muitas coisas faz-me lembrar o meu pai. A maneira de olhar, a maneira de se sentar no sofá, a maneira de se entenderem. Já notei que conseguem passar imenso tempo juntos, calados, sem dizerem nada e ao mesmo tempo a dizerem quase tudo um ao outro, sem falarem. Conhecem-se há muitos, muitos anos, como nas histórias.
No meio daquela confusão toda de hoje, o Pedro, sem desalapar do sofá, só disse:
Se no governo houvesse pessoas educadas, tinham a educação de não pretender educar ninguém!
Está a ficar tarde, estou a ficar com sono. Vou tomar o meu chá… e vou dormir!
João
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
Ami-lambu mi-huma psi-hlobyen *
Já no Xipamanine e pela Mavalane se poenta o dia, já a Lua se xefina alta do outro lado, na Polana. Teu xipefo luz de lá longe, como halakawuma que se me fala, me inebrilha. Tua morte, Tatana, lá na terra de mbuno é Inseparação, que esta maneira de não estarmos juntos mais nos insepara.
Foste massaroca que todos comemos, quinhenta de amendoim, saguate que ficou em todos nós. De Knopfli até mim, dos que partiram e dos que chegam, Albasine e Muhlanga, Mia e Ba Ka Khosa, teu Xigubo não esquece. Teus escritos, desses que versejas em Brado Africano, quem deslembra? São como aroma de maracujá, cacimbo da madrugada, sumaúma em vasto capim, febre que se adentra em meu corpo.
Caminho agora meus pés no matope da vida, sinto teus passos doces em palavras soltas — Hamina, Fanisse, Karingana, Babalaze — dessas que vêm lá do zinco, do caniço e ouço o tambor lá longe gritar na Lua cheia ecoando a canção da força da vida.
* Os rios saem de fontes
José João Craveirinha nasceu a 28 de Maio de 1922 em Maputo e faleceu em Joanesburgo a 6 de Fevereiro de 2003
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Fevereiro 03, 2004
O Conselho de Guardiães
Mais uma petição, esta a pedir novo referendo sobre o aborto, foi entregue a 28 passado na Assembleia da República. A petição, de per si, é legítima mas o referendo…!
Vão perguntar o quê a quem? Perguntar à ignorância do povo, impregnado da moral, da religião, do analfabetismo, do caciquismo, que vote pela manutenção da penalização e criminalização do aborto?
Vejam, há referendos que não se fazem!
Não se pergunta ao povo se deve haver pena de morte ou prisão perpétua: não há, ponto final!
O aborto, ninguém dele gosta. Nem a Mulher nem quem o faz. Mas a interrupção da gravidez é um problema clínico, um problema de saúde, um problema de bem estar físico, psíquico e social do indivíduo que só a ele e a quem o pratica interessa. A moral , a religião e a política são terceiros. Pois bem, não referendem nada!
Para acabar com um “crime” abjecto não é preciso um referendo. O referendo interessa a quem quer perpetuar esse “crime”.
Mas é preciso acabar com a panaceia. E não aponto o dedo aos que por incapacidade de raciocínio querem manter a situação. Olhemos em volta e vejamos os quantos que se esqueceram da sua própria dignidade. Se esqueceram de si próprios. Se argumentam na obediência.
Luís Ferreira «votaria a favor da despenalização se não existisse o compromisso com o presidente do partido». Com ele tantos outros. Natália, Jorge Nuno, Gonçalo, Montalvão, Arménio… «há ainda que contar com muitas vozes que, nesta situação, preferem manter-se caladas». O silêncio dos inocentes.
A que consciência obedecem estas vozes? Que dirão às Mulheres condenadas? Se ao “crime” corresponde a pena — e a pena tem como fim a reabilitação — esta visa o quê? Vejo apenas a punição, o castigo, a vingança. Não vejo estes objectivos no preâmbulo do Código. Não há nada a reabilitar porque não se reabilita a dor nem o sentimento de dificuldade de uma Mulher. Preferem usar os meus impostos a alimentar uma Mulher na prisão a auxiliá-la em Liberdade? Pois não! Que neste mísero país se ela parir vai trazer ao mundo mais uma “Ana Maria” que não tem onde deixar… vai “abandonar” e vai parar à prisão na mesma!
A que consciência obedecem estas vozes? Em que acreditam? A quem são leais? Será que subscreveram alguma espécie de artigo 28º…
«… acreditar e praticar o Islão, acreditar no sistema sagrado da revolução Islâmica e manifestar a sua lealdade para com o magistério do doutor da lei»?
Serão eles o Conselho de Guardiães?
Pedro Rodrigues de Miguel
Vão perguntar o quê a quem? Perguntar à ignorância do povo, impregnado da moral, da religião, do analfabetismo, do caciquismo, que vote pela manutenção da penalização e criminalização do aborto?
Vejam, há referendos que não se fazem!
Não se pergunta ao povo se deve haver pena de morte ou prisão perpétua: não há, ponto final!
O aborto, ninguém dele gosta. Nem a Mulher nem quem o faz. Mas a interrupção da gravidez é um problema clínico, um problema de saúde, um problema de bem estar físico, psíquico e social do indivíduo que só a ele e a quem o pratica interessa. A moral , a religião e a política são terceiros. Pois bem, não referendem nada!
Para acabar com um “crime” abjecto não é preciso um referendo. O referendo interessa a quem quer perpetuar esse “crime”.
Mas é preciso acabar com a panaceia. E não aponto o dedo aos que por incapacidade de raciocínio querem manter a situação. Olhemos em volta e vejamos os quantos que se esqueceram da sua própria dignidade. Se esqueceram de si próprios. Se argumentam na obediência.
Luís Ferreira «votaria a favor da despenalização se não existisse o compromisso com o presidente do partido». Com ele tantos outros. Natália, Jorge Nuno, Gonçalo, Montalvão, Arménio… «há ainda que contar com muitas vozes que, nesta situação, preferem manter-se caladas». O silêncio dos inocentes.
A que consciência obedecem estas vozes? Que dirão às Mulheres condenadas? Se ao “crime” corresponde a pena — e a pena tem como fim a reabilitação — esta visa o quê? Vejo apenas a punição, o castigo, a vingança. Não vejo estes objectivos no preâmbulo do Código. Não há nada a reabilitar porque não se reabilita a dor nem o sentimento de dificuldade de uma Mulher. Preferem usar os meus impostos a alimentar uma Mulher na prisão a auxiliá-la em Liberdade? Pois não! Que neste mísero país se ela parir vai trazer ao mundo mais uma “Ana Maria” que não tem onde deixar… vai “abandonar” e vai parar à prisão na mesma!
A que consciência obedecem estas vozes? Em que acreditam? A quem são leais? Será que subscreveram alguma espécie de artigo 28º…
«… acreditar e praticar o Islão, acreditar no sistema sagrado da revolução Islâmica e manifestar a sua lealdade para com o magistério do doutor da lei»?
Serão eles o Conselho de Guardiães?
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004
Filho de deus e do Diabo
Chegou-me — caiu! — esparramou-se diante de mim uma petição despropositada, inconsequente… mas chegou!
Há coisas que acontecem. Um povo que perdeu a capacidade de reivindicar, nem reivindica… pede! Infelizmente pede mal. Pede a esmola ao avaro. Francamente!
Que me interessa a mim a riqueza dos ricos se à minha volta se espalha, se espelha, a miséria dos pobres? O meu direito — já nem é dever — é lutar pelo que é meu e do meu igual, não de ironizar com petições que raiam a caricatura da caridade.
Sim, caridade! Possa V. Exa. Dignar-se abdicar dos direitos que agora usufrui e lhe concede grande e choruda reforma! Ora bolas, há coisa que não se pedem. De mais a mais, como dizia Coetzee, último Nobel e meu trópico vizinho, os que aceitam a caridade desprezam-na e os que a dão, dão com o coração cheio de desespero. Por cá, parece que a mão continua estendida, ora pronada mendigando, ora supinando-se para o beija-mão. Ainda há muito quem se ajoelhe!
Vejam um exemplo. Há pouco houve uma greve de médicos. Terminou. Tão breve e súbito como o seu começo. Os médicos Internos Complementares foram esquecidos, as suas reivindicações exauridas. Os seus pares e confrades, sindicatos de testa baixa, deixaram estes pares e confrades de lado. “Igualdade” a quanto obrigas… alguns são mais iguais que os outros. Mas alguns pares e confrades não aderiram à greve: ah, eu estou na exclusividade e esses “gajos” (os outros!) não estão e…! E…??! E os Internos Complementares, que não podem estar na exclusividade (seja lá isso o que for…!) tramaram-se.
Mas agora já são todos Funcionários Públicos. Já querem todos a união. Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade… Mas, o que agora se quer é um pedido de todos os portugueses.
O pedido é justo! É justo aquilo que peço para mim, aquilo que sempre pedi, aquilo porque luto, a força com que luto. Mas “pedir” que tirem aos outros para sublimar o meu ego? Para me sentir bem tenho à disposição a violência, tenho o desespero dos poderosos: não trair o meu semelhante!
Acabar com os meninos de bandeirinhas nas escolas, as recepções dos corta-fitas, as ruas de procissão, andor e opas, a peixeirada dos beijinhos, os salazarentos estigmas que ficaram.
Uma petição é um acto de legitimidade de um povo que visa consequências dignas. Não é uma iniquidade inconsequente.
Esta, parece-me mais jocosa e arrogante que o pacto germano-soviético, que a traição da aliança entre franquistas e socialistas unificados. Apenas uma forma de dizer: daí lavo as minhas mãos.
Eu não me importo de ter as mãos sujas, ser filho do Amor que existe entre deus e o Diabo, mas trazer a consciência limpa e vestir as minhas próprias roupas.
Pedro Rodrigues de Miguel
Há coisas que acontecem. Um povo que perdeu a capacidade de reivindicar, nem reivindica… pede! Infelizmente pede mal. Pede a esmola ao avaro. Francamente!
Que me interessa a mim a riqueza dos ricos se à minha volta se espalha, se espelha, a miséria dos pobres? O meu direito — já nem é dever — é lutar pelo que é meu e do meu igual, não de ironizar com petições que raiam a caricatura da caridade.
Sim, caridade! Possa V. Exa. Dignar-se abdicar dos direitos que agora usufrui e lhe concede grande e choruda reforma! Ora bolas, há coisa que não se pedem. De mais a mais, como dizia Coetzee, último Nobel e meu trópico vizinho, os que aceitam a caridade desprezam-na e os que a dão, dão com o coração cheio de desespero. Por cá, parece que a mão continua estendida, ora pronada mendigando, ora supinando-se para o beija-mão. Ainda há muito quem se ajoelhe!
Vejam um exemplo. Há pouco houve uma greve de médicos. Terminou. Tão breve e súbito como o seu começo. Os médicos Internos Complementares foram esquecidos, as suas reivindicações exauridas. Os seus pares e confrades, sindicatos de testa baixa, deixaram estes pares e confrades de lado. “Igualdade” a quanto obrigas… alguns são mais iguais que os outros. Mas alguns pares e confrades não aderiram à greve: ah, eu estou na exclusividade e esses “gajos” (os outros!) não estão e…! E…??! E os Internos Complementares, que não podem estar na exclusividade (seja lá isso o que for…!) tramaram-se.
Mas agora já são todos Funcionários Públicos. Já querem todos a união. Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade… Mas, o que agora se quer é um pedido de todos os portugueses.
O pedido é justo! É justo aquilo que peço para mim, aquilo que sempre pedi, aquilo porque luto, a força com que luto. Mas “pedir” que tirem aos outros para sublimar o meu ego? Para me sentir bem tenho à disposição a violência, tenho o desespero dos poderosos: não trair o meu semelhante!
Acabar com os meninos de bandeirinhas nas escolas, as recepções dos corta-fitas, as ruas de procissão, andor e opas, a peixeirada dos beijinhos, os salazarentos estigmas que ficaram.
Uma petição é um acto de legitimidade de um povo que visa consequências dignas. Não é uma iniquidade inconsequente.
Esta, parece-me mais jocosa e arrogante que o pacto germano-soviético, que a traição da aliança entre franquistas e socialistas unificados. Apenas uma forma de dizer: daí lavo as minhas mãos.
Eu não me importo de ter as mãos sujas, ser filho do Amor que existe entre deus e o Diabo, mas trazer a consciência limpa e vestir as minhas próprias roupas.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Janeiro 25, 2004
O meu Diário 13
Eh, eh fixe o post do Pedro. Giras as fotografias. Não percebo é quase nada do que lá está, muito menos dos poemas em inglês.
A miúda é gira. Fui perguntar ao meu pai se a conhecia.
«Ó meu grande camelo, não sabes fazer contas?»
Fiquei logo banzado.
«A tipa podia ser tua avó. Fazia agora 61 anos.»
Pois. Bem que eu tinha prometido nunca mais chamar Senhora, menina ou o diabo a mais nenhuma. Minha avó!
Mas há coisa que parecem mágicas: esta conseguiu fazer o meu pai desalapar do sofá! É milagre!
Mostrou-me um monte de discos, até alguns CD.
Estive a ouvir um bocadinho. Porque é que alguns deles me fazem chorar?
Vou juntar o nome dela àqueles outros de quem já gosto.
Minha avó! Está bem, está! Estou mesmo a ver a minha avó a curtir uma de rock. Já agora de viola baixo na mão. Nem bombo sabe tocar!
Agora começo a perceber quando o meu pai me diz «sorte a tua que não tenho idade para ser teu pai… tenho é idade para ser teu avô!». Depois não quer que lhe chame velhote.
Mostrou-me um livro cheio de poemas e fotografias da tal Janis Joplin. Curtida. Em algumas estava bem bonita. Usava uns óculos… ri-me que me fartei! Tinha uma maneira de vestir! Quando me disserem que ando de fralda de fora e isto e mais aquilo e que ando numa vergonha e estou todo “desmazelado” (como diz a minha mãe), vou buscar o livro e já lhe conto: ando muito direitinho e desmazelada é a Sofia lá da escola! Ou então a minha mãe é uma cota e esta tal Janis Joplin passou-lhe ao lado!
Quanto a música é excepcional. Quando percebi que ela é bem mais velha que o meu pai fiquei a pensar: como é que uma pessoa tão velha faz música tão moderna? Tem lá uma música sem instrumentação que é o máximo. Acho que se chama Mercedes e fala também de um Porsche. O meu pai diz que ela teve mesmo um Porsche todo pintalgado. Sim, pintalgado, foi o que ele disse. Não é pintalgato como naquele livro que o Mia me deu. O Mia sabe escrever. Mas o meu pai também troca as coisas como o Mia…!
Continuando. Hei-de falar na tal música ao meu professor de Formação Musical. À minha mãe, não. Com ela só discuto a coisa do vestir. Acho que estou a ficar independente. Há coisas que não discuto com desentendidos.
Desentendido estou a ficar eu que estou a ficar com sono.
João
A miúda é gira. Fui perguntar ao meu pai se a conhecia.
«Ó meu grande camelo, não sabes fazer contas?»
Fiquei logo banzado.
«A tipa podia ser tua avó. Fazia agora 61 anos.»
Pois. Bem que eu tinha prometido nunca mais chamar Senhora, menina ou o diabo a mais nenhuma. Minha avó!
Mas há coisa que parecem mágicas: esta conseguiu fazer o meu pai desalapar do sofá! É milagre!
Mostrou-me um monte de discos, até alguns CD.
Estive a ouvir um bocadinho. Porque é que alguns deles me fazem chorar?
Vou juntar o nome dela àqueles outros de quem já gosto.
Minha avó! Está bem, está! Estou mesmo a ver a minha avó a curtir uma de rock. Já agora de viola baixo na mão. Nem bombo sabe tocar!
Agora começo a perceber quando o meu pai me diz «sorte a tua que não tenho idade para ser teu pai… tenho é idade para ser teu avô!». Depois não quer que lhe chame velhote.
Mostrou-me um livro cheio de poemas e fotografias da tal Janis Joplin. Curtida. Em algumas estava bem bonita. Usava uns óculos… ri-me que me fartei! Tinha uma maneira de vestir! Quando me disserem que ando de fralda de fora e isto e mais aquilo e que ando numa vergonha e estou todo “desmazelado” (como diz a minha mãe), vou buscar o livro e já lhe conto: ando muito direitinho e desmazelada é a Sofia lá da escola! Ou então a minha mãe é uma cota e esta tal Janis Joplin passou-lhe ao lado!
Quanto a música é excepcional. Quando percebi que ela é bem mais velha que o meu pai fiquei a pensar: como é que uma pessoa tão velha faz música tão moderna? Tem lá uma música sem instrumentação que é o máximo. Acho que se chama Mercedes e fala também de um Porsche. O meu pai diz que ela teve mesmo um Porsche todo pintalgado. Sim, pintalgado, foi o que ele disse. Não é pintalgato como naquele livro que o Mia me deu. O Mia sabe escrever. Mas o meu pai também troca as coisas como o Mia…!
Continuando. Hei-de falar na tal música ao meu professor de Formação Musical. À minha mãe, não. Com ela só discuto a coisa do vestir. Acho que estou a ficar independente. Há coisas que não discuto com desentendidos.
Desentendido estou a ficar eu que estou a ficar com sono.
João
Pérola Branca no meu caminho

Janeiro de 1967: três actuações consecutivas no Matrix.
A 4 de Junho do ano anterior tinham chegado a San Francisco.
Um ano antes nem sabiam quem eram. Peter aprendia a tocar baixo. Procuravam um guitarra e apareceu David, mas tem menos de 21 anos. Não é certo. Certo também não fica Chuck Jones na bateria. Esse ano de Junho de 65 a Junho de 66 é uma confusão. Até o nome é um acaso.
Poderiam ter-se chamado Tom Swift and The Electric Grandmother, The Greenleaf Boys, The Acapulco Singers… surge o consenso e tornam-se nos Big brother & The Holding Company à custa de uma manhã, sem nada que fazer, a jogar Monopólio.
No mês anterior à partida para San Francisco, nova ideia: aceitar uma mulher como vocalista. A coisa tinha resultado com os Jefferson Airplanes e os Great Society. Está na hora de admitir “uma garota que cante”. Vão buscar uma velha conhecida de Chet a Austin.
Menos de uma semana depois da sua chegada a luz brilha, enfim, para os Big Brother. Avalon Ballroom, St. Francis Hotel, Califórnia Hall, Fillmore.
Após esse Janeiro de 67 é a explosão. A ligação da jovem a Country Joe McDonald, que veremos em Woodstock com a maravilhosa “Vietnam”. Tudo acontece.
Amazing Grace / High Heel Sneackers Medley no Matrix, Golden Sheaf Bakery, Tribal Stomp, Invisible Circus, Winterland, Carousel Ballroom e Monterey Pop ao lado de Byrds, Jimi Hendrix, Mamas & Papas, Blues Project.
´aqui que a jovem brilha, tornando-se a figura principal ao lado do Jimi Hendrix.
Seguem-se Golden Gate Park, Denver, Holywood Bowl, Peacock Country Club, Dance Califórnia Hall.
Em Abril de 68 o grupo teme um “ataque de estrelismo” por parted a jovem. Mas o êxito prolonga-se, agora com o nome dela incluído no grupo. New generation de Nova Iorque, Anaheim Convention em LA, Hollywood Palace, Winterland, Newport Folk Festival, Fillmore East, Singer Bowl, Palace of Fine Arts Festival.
Em Setembro a separação. Em Dezembro estão formados os Kozmic Blues. O ano de 1969 será de êxitos também.
Em Janeiro de 70 os Kozmic Blues dissolvem-se. Em Abril está de novo reunida aos Big Brother. Muitos e novos êxitos até ao supremo Pearl iniciado em Setembro.
3 de Outubro de 1970
… dia premonitório. Ouve a base instrumental da última música programada para o álbum Pearl, a composição de Nick Gravenites, Buried Alive in the Blues…
This dumb brick wall ain’t heard a word
That I’ve said,
I’m buried alive in the blues
I’m buried alive, somebody help me, in the blues
I beg for mercy, I pray for rain,
I can’t be the one to accept all this blame,
Something here’s trying to pollute my brain,
I’m buried alive in the blues.
It’s real hard you know, it’s real hard being buried alive
It’s real hard being buried alive
…não passará da 1:40 da madrugada do dia seguinte.
A menina que nascera às 9:45 daquela manhã de 19 de Janeiro de 1943 no St. Mary de Port Arthur.
Um baque fundo bate-me o peito. Lembro o quarto virado ao sol quente do norte. Os três posters enormes — Clapton, Hendrix, Joplin. Sentado no bordo da cama, olho o chão na ingenuidade da minha juventude. Dois jamais voltarão.
Janis Lyn, deixaste-me…
Busted flat in Baton Rouge, waiting for a train
And I's feeling nearly as faded as my jeans.
Bobby thumbed a diesel down just before it rained,
It rode us all the way to New Orleans.
I pulled my harpoon out of my dirty red bandanna,
I was playing soft while Bobby sang the blues.
Windshield wipers slapping time, I was holding Bobby's hand in mine,
We sang every song that driver knew.
Freedom is just another word for nothing left to lose,
Nothing don't mean nothing honey if it ain't free, now now.
And feeling good was easy, Lord, when he sang the blues,
You know feeling good was good enough for me,
Good enough for me and my Bobby McGee.
From the Kentucky coal mines to the California sun,
Hey, Bobby shared the secrets of my soul.
Through all kinds of weather, through everything that we done,
Hey Bobby baby kept me from the cold.
One day up near Salinas, Lord, I let him slip away,
He's looking for that home and I hope he finds it,
But I'd trade all of my tomorrows for one single yesterday
To be holding Bobby's body next to mine.
Freedom is just another word for nothing left to lose,
Nothing, that's all that Bobby left me, yeah,
But feeling good was easy, Lord, when he sang the blues,
Hey, feeling good was good enough for me, hmm hmm,
Good enough for me and my Bobby McGee.
La la la, la la la la, la la la, la la la la
La la la la la Bobby McGee.
La la la la la, la la la la la
La la la la la, Bobby McGee, la.
La La la, la la la la la la,
La La la la la la la la la, hey now Bobby now Bobby McGee yeah.
Na na na na na na na na, na na na na na na na na na na na
Hey now Bobby now, Bobby McGee, yeah.
Lord, I'm calling my lover, calling my man,
I said I'm calling my lover just the best I can,
C'mon, where is Bobby now, where is Bobby McGee, yeah,
Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lord
Hey, hey, hey, Bobby McGee, Lord!
Yeah! Whew!
Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lord
Hey, hey, hey, Bobby McGee.
Sim, sentir-se bem era fácil, quando Ela cantava os Blues
Sabes, sentir-me bem era suficiente para mim
Mas eu trocaria os meus amanhãs por um último ontem
Para poder abraçá-La
Where is Janis now?
Where is Janis Lyn?
Onde estás minha Pérola Branca?
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
A Gripe dos Frangos
Assusta-me. Francamente, assusta-me. Pior. Irritam-me esses frangos de pigarro na goela. Alguns… alguns, fartam-me.
Sete náufragos no Golfo do México. Fogem à grilheta. Ah! Bem-aventurados! Dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Mas a sede de Liberdade esgota-se às mãos dos carrascos. Dos habituados à pena de morte. Dos Senhores do apertheid. Dos salvadores da fé de um deus que a todos intruja.
Assustam-me. Estou farto. Estou farto de ver condenados sem culpa formada. Atirados para o lodo e miséria das suas próprias masmorras por fé em quem os condena.
Assustam-me. Estou farto. Estou farto dos lacaios que por cá se ajoelham. Nunca hão-de morrer de pé! Pobre Zapata!
Estou farto dos rostos, sem rosto, que zumbem a toda a volta. Das moscas varejas, dos que traem. Dos que vendem a honra, adentro de portas, na traição do semelhante. Estou farto!
Assustam-me. Ferem-me o sentido. Barbeiros, talhantes, legistas, governantes, querubins e serafins… semelhantes! Sei lá eu bem! Aqueles que traem os seus dignos pares! Aqueles que espalham a indignidade dos milhares… dos cifrões, aldrabões!
Aqueles que de alta gola, fina cartola… ai, pescoço que só serve à degola!
Assustam-me. Estou farto. A epidemia graça. A desgraça alastra. A pobreza da riqueza nas mãos dos pobres de espírito. O espírito roubado a quem já nem trabalha com agrado. O Amor perdido. O trabalho enganado.
Assustam-me. Estou farto. Não há nada que os mate?!
Quiz
Sete náufragos no Golfo do México. Fogem à grilheta. Ah! Bem-aventurados! Dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Mas a sede de Liberdade esgota-se às mãos dos carrascos. Dos habituados à pena de morte. Dos Senhores do apertheid. Dos salvadores da fé de um deus que a todos intruja.
Assustam-me. Estou farto. Estou farto de ver condenados sem culpa formada. Atirados para o lodo e miséria das suas próprias masmorras por fé em quem os condena.
Assustam-me. Estou farto. Estou farto dos lacaios que por cá se ajoelham. Nunca hão-de morrer de pé! Pobre Zapata!
Estou farto dos rostos, sem rosto, que zumbem a toda a volta. Das moscas varejas, dos que traem. Dos que vendem a honra, adentro de portas, na traição do semelhante. Estou farto!
Assustam-me. Ferem-me o sentido. Barbeiros, talhantes, legistas, governantes, querubins e serafins… semelhantes! Sei lá eu bem! Aqueles que traem os seus dignos pares! Aqueles que espalham a indignidade dos milhares… dos cifrões, aldrabões!
Aqueles que de alta gola, fina cartola… ai, pescoço que só serve à degola!
Assustam-me. Estou farto. A epidemia graça. A desgraça alastra. A pobreza da riqueza nas mãos dos pobres de espírito. O espírito roubado a quem já nem trabalha com agrado. O Amor perdido. O trabalho enganado.
Assustam-me. Estou farto. Não há nada que os mate?!
Quiz
Domingo, Janeiro 18, 2004
Desobediência Civil… in memorian IX (Fim)
Sei que a maior parte dos homens tem ideias diferentes das minhas, mas aqueles que se dedicam profissionalmente ao estudo destes e doutros assuntos semelhantes não me merecem mais respeito. Os estadistas e os legisladores, estando como estão colocados no interior das instituições, nunca conseguem olhar para elas de forma nítida e clara. A verdade do legista não é a Verdade, é a consistência, ou mesmo uma conveniência consistente. A Verdade está sempre de acordo consigo própria e o seu principal objectivo não é alcançar uma justiça que às vezes é apenas um conluio com a injustiça.
Quem não conhece as fontes puras da verdade, quem não quer subir a corrente até aos pontos mais altos, fica-se pela Bíblia e pela Constituição, bebendo respeitosa e humildemente o que delas se pode extrair. Mas quem avistou já os locais donde vem a corrente que alimenta esse lago e essa lagoa, encolhe os ombros e prossegue a viagem até ás nascentes.
A autoridade do governo, é ainda impura. Ela não pode ter sobre a minha pessoa e a minha propriedade qualquer direito a não ser o que eu lhe conceda. Será a democracia, yal como a conhecemos, o último melhoramento possível do acto de governar? Não será possível dar-se mais um passo no reconhecimento e na organização dos direitos do homem? Não haverá Estado realmente livre e esclarecido, enquanto o Estado não reconhecer o indivíduo como poder superior e independente (do qual deriva todo o poder e a autoridade que o Estado detém) e enquanto não o tratar como tal. Dá-me prazer imaginar um Estado que possa finalmente fazer inteira justiça aos homens e tratar os indivíduos com respeito, como os vizinhos entre si. Sem se convencer de que atentam contra a sua tranquilidade os homens que dele se distanciam, os que não se intrometem nos problemas dele, os que não se deixam dominar por ele, os que cumprem todos os deveres da boa vizinhança e da boa camaradagem. Um Estado que fosse capaz de produzir esse fruto e concordasse em deixá-lo cair no chão assim que ele estivesse maduro abriria caminho a um outro Estado ainda mais perfeito e glorioso, que eu por sinal também já imaginei, mas que ainda não encontrei em parte alguma.
Nem eu! Henry David Thoreau viveu em meados do século XIX tendo-se oposto frontalmente à Constituição esclavagista e negado ao pagamento de impostos que subsidiassem a guerra contra o México, que levou à conquista, anexação e expansão do poder esclavagista aos territórios hispânicos do Texas, Califórnia e Novo México… jamais devolvidos! Disse mesmo que o fez «ainda que isso ponha em perigo a existência dos Estados Unidos».
A História repete-se de tempos a tempos. Afora e adentro fronteiras!
Afinal, o desprezo pela lei pode ser um sintoma de sanidade. Afinal, a Lei e a Ordem de nada valem. A Lei nem sempre é legítima e a Ordem não é senão uma desculpa de todo e qualquer poder para o uso e exercício da repressão. Estão muito longe do Direito e da Justiça.
Sem mais comentário, deixo-lhe aqui esta minha homenagem.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quem não conhece as fontes puras da verdade, quem não quer subir a corrente até aos pontos mais altos, fica-se pela Bíblia e pela Constituição, bebendo respeitosa e humildemente o que delas se pode extrair. Mas quem avistou já os locais donde vem a corrente que alimenta esse lago e essa lagoa, encolhe os ombros e prossegue a viagem até ás nascentes.
A autoridade do governo, é ainda impura. Ela não pode ter sobre a minha pessoa e a minha propriedade qualquer direito a não ser o que eu lhe conceda. Será a democracia, yal como a conhecemos, o último melhoramento possível do acto de governar? Não será possível dar-se mais um passo no reconhecimento e na organização dos direitos do homem? Não haverá Estado realmente livre e esclarecido, enquanto o Estado não reconhecer o indivíduo como poder superior e independente (do qual deriva todo o poder e a autoridade que o Estado detém) e enquanto não o tratar como tal. Dá-me prazer imaginar um Estado que possa finalmente fazer inteira justiça aos homens e tratar os indivíduos com respeito, como os vizinhos entre si. Sem se convencer de que atentam contra a sua tranquilidade os homens que dele se distanciam, os que não se intrometem nos problemas dele, os que não se deixam dominar por ele, os que cumprem todos os deveres da boa vizinhança e da boa camaradagem. Um Estado que fosse capaz de produzir esse fruto e concordasse em deixá-lo cair no chão assim que ele estivesse maduro abriria caminho a um outro Estado ainda mais perfeito e glorioso, que eu por sinal também já imaginei, mas que ainda não encontrei em parte alguma.
Nem eu! Henry David Thoreau viveu em meados do século XIX tendo-se oposto frontalmente à Constituição esclavagista e negado ao pagamento de impostos que subsidiassem a guerra contra o México, que levou à conquista, anexação e expansão do poder esclavagista aos territórios hispânicos do Texas, Califórnia e Novo México… jamais devolvidos! Disse mesmo que o fez «ainda que isso ponha em perigo a existência dos Estados Unidos».
A História repete-se de tempos a tempos. Afora e adentro fronteiras!
Afinal, o desprezo pela lei pode ser um sintoma de sanidade. Afinal, a Lei e a Ordem de nada valem. A Lei nem sempre é legítima e a Ordem não é senão uma desculpa de todo e qualquer poder para o uso e exercício da repressão. Estão muito longe do Direito e da Justiça.
Sem mais comentário, deixo-lhe aqui esta minha homenagem.
Pedro Rodrigues de Miguel
O meu Diário 12
Trabalho acabado. Fui à Internet como a Setôra de História mandou. Tudo perfeitinho. Quando tudo está bem alguma coisa tem que correr mal. «Já acabaste o teu plágio?». Sei lá o que é isso! Nem tudo corre mal. Apesar da frase, como sempre, ter começado por “Ó meu camelo…” não acabou a mandar-me ao dicionário.
A explicação começou por uma tal Clara Pinto Correia. Sei lá quem é! É uma tipa que copiava umas coisas, mandava para uma revista como se fossem dela e foi parar ao olho da rua! As coisas na net estão lá e pertencem às pessoas que as escreveram. Podemos ler, podemos interpretar, podemos usar mas não podemos copiar e apresentar como nossas. A ideia saiu-me brilhante.
— Fazemos um resumo e depois apresentamos o trabalho lá na Escola.
— Ora aí está.
E aí desabou o chorrilho de, quem sentado no seu sofá, se encontra na “melhor posição” para não se preocupar com ais nada.
— A culpa é dos professores que vos instigam ao plágio. É fácil dizer “vão à net, ao sítio tal, copiam e apresentam o trabalho”. Agora é moda. Se é isto que vos ensinam ganhavam mais, e mais aprendiam a guardar gado num pardieiro. Mas neste país tudo copia: alunos, professores, faculdades, doutoramentos, mestrados e o raio que os parta. E o pior é que copiam mal. Também, deixa lá: a escola não foi feita para educar, foi feita para ensinar… e mal!
Sabem uma coisa?! desta vez gostei da lição. Também não percebo a piada de passar o tempo em casa a copiar da net só para dizer que se fez um trabalho sobre isto ou aquilo.
E também não percebo porque é que ofereceram ao Conselho Directivo (parece que foi lá do ministério ou quê, e para todas as Escolas) um computador portátil dos melhores… nós é que precisamos de levar material para casa, não é o Conselho Directivo. Ou eles vão trabalhar para casa?! Pois, está quieto, ó macaquinho! Só se for por causa do leitor/gravador de DVD. Precisam de ver filmes! Boa!
Começo a acreditar na Setôra de Ciências que é mais velha que as outras — ou dito de outra maneira, tem mais experiência:
— Se este miúdo utilizasse mais a inteligência que tem, ia longe!
Ia, ia. Ia até ao Japão ou à Coreia do Norte que fica mesmo do outro lado do mundo, disse eu ao meu pai.
— Ó meu grande camelo, do outro lado do mundo é a Nova Zelândia.
— Ou isso…
— Ou isso?! Sabes a diferença entre a Nova Zelândia e a Coreia do Norte? Na Nova Zelândia vivem à custa de carneiros e na Coreia do Norte vivem como carneiros. Vê lá se aprendes.
Fiquei a pensar. Pensar faz bem, já diz o meu pai.
Acho que vou sonhar com isto.
João
A explicação começou por uma tal Clara Pinto Correia. Sei lá quem é! É uma tipa que copiava umas coisas, mandava para uma revista como se fossem dela e foi parar ao olho da rua! As coisas na net estão lá e pertencem às pessoas que as escreveram. Podemos ler, podemos interpretar, podemos usar mas não podemos copiar e apresentar como nossas. A ideia saiu-me brilhante.
— Fazemos um resumo e depois apresentamos o trabalho lá na Escola.
— Ora aí está.
E aí desabou o chorrilho de, quem sentado no seu sofá, se encontra na “melhor posição” para não se preocupar com ais nada.
— A culpa é dos professores que vos instigam ao plágio. É fácil dizer “vão à net, ao sítio tal, copiam e apresentam o trabalho”. Agora é moda. Se é isto que vos ensinam ganhavam mais, e mais aprendiam a guardar gado num pardieiro. Mas neste país tudo copia: alunos, professores, faculdades, doutoramentos, mestrados e o raio que os parta. E o pior é que copiam mal. Também, deixa lá: a escola não foi feita para educar, foi feita para ensinar… e mal!
Sabem uma coisa?! desta vez gostei da lição. Também não percebo a piada de passar o tempo em casa a copiar da net só para dizer que se fez um trabalho sobre isto ou aquilo.
E também não percebo porque é que ofereceram ao Conselho Directivo (parece que foi lá do ministério ou quê, e para todas as Escolas) um computador portátil dos melhores… nós é que precisamos de levar material para casa, não é o Conselho Directivo. Ou eles vão trabalhar para casa?! Pois, está quieto, ó macaquinho! Só se for por causa do leitor/gravador de DVD. Precisam de ver filmes! Boa!
Começo a acreditar na Setôra de Ciências que é mais velha que as outras — ou dito de outra maneira, tem mais experiência:
— Se este miúdo utilizasse mais a inteligência que tem, ia longe!
Ia, ia. Ia até ao Japão ou à Coreia do Norte que fica mesmo do outro lado do mundo, disse eu ao meu pai.
— Ó meu grande camelo, do outro lado do mundo é a Nova Zelândia.
— Ou isso…
— Ou isso?! Sabes a diferença entre a Nova Zelândia e a Coreia do Norte? Na Nova Zelândia vivem à custa de carneiros e na Coreia do Norte vivem como carneiros. Vê lá se aprendes.
Fiquei a pensar. Pensar faz bem, já diz o meu pai.
Acho que vou sonhar com isto.
João
B – logo existo
É. Tem-se parado. O fedelho lá tem escrito. Arrumações, trocar computador, tempo perdido, confusões… tudo isso! Desculpas!
Um blogue não vive de desculpas mas do dever para consigo próprio. Do gosto de escrever. Do deixar aos outros um pouco de si mesmo. De se manter porque há Amigos.
E os Amigos visitam. Visitam e esperam, meia dúzia de letras, mais ou menos assíduas, boas ou más — cada um gosta do que quer — mas ali!
O Pedro está a terminar o “In Memorian” sobre o Thoreau. Já falta pouco. Pedi-lhe que começasse a publicar algo dele — apenas umas experiências efémeras como os “contos de natal”. E houve quem gostasse!
Mas é teimoso como um burro. Não sei se o meu pedido chega.
As coisas não estão fáceis. Sinto nos ouvidos as palavras do pai do fedelho:
— Grandes camelos!
Quiz
Um blogue não vive de desculpas mas do dever para consigo próprio. Do gosto de escrever. Do deixar aos outros um pouco de si mesmo. De se manter porque há Amigos.
E os Amigos visitam. Visitam e esperam, meia dúzia de letras, mais ou menos assíduas, boas ou más — cada um gosta do que quer — mas ali!
O Pedro está a terminar o “In Memorian” sobre o Thoreau. Já falta pouco. Pedi-lhe que começasse a publicar algo dele — apenas umas experiências efémeras como os “contos de natal”. E houve quem gostasse!
Mas é teimoso como um burro. Não sei se o meu pedido chega.
As coisas não estão fáceis. Sinto nos ouvidos as palavras do pai do fedelho:
— Grandes camelos!
Quiz
Terça-feira, Janeiro 13, 2004
O meu Diário 11
Acabaram as férias e o Quiz lembrou-me que não tenho escrito. Lembrou-me, não. Chagou-me o juízo que é como ele costuma dizer. O tempo também não sobra para tudo. Mas assim até tenho mais coisa para dizer.
Notas. Só tristezas. Tudo 3 e 4. O pior foi a Educação Física. Tive 3 porque a Setôra diz que “não teve tempo para me avaliar”. O meu pai diz que não compreende para que é que “esses camelos têm reuniões e conselhos de turma; para comer queques e falar das quecas?!” (não sei o que quer dizer!). Mas o meu pai tem razão, de certeza. Aleijei-me na Escola e por culpa da Escola, perdi montes de tempo a recuperar da fractura do meu braço, a Escola não fez nada para mudar as regras de segurança (diz que não tem dinheiro…!), não pude ir a todas as aulas de Educação Física, só me foi atribuído o Ensino Articulado já no fim do período e… e tenho um título de Campeão Distrital! E tenho um 3 (três) a Educação Física? A gaja é parva?!
Pior. Ameaçou-me de dar negativa. Fez isso no dia em que tinha exame de Formação Musical no Conservatório. Saí à 1.30, almocei, fiquei a pensar que ia faltar a Educação Física (e na negativa…), fui muito nervoso para o Conservatório, exame às 4.00… Conclusão: tive 11 à disciplina que mais gosto! Porra. Como diz o meu pai: o Ensino Articulado é feito para os Alunos ou para as senhoras professoras?
Depois admiram-se dos gunas. Gunas são aqueles miúdos que na escola fumam, baldam-se às aulas e chamam nomes às Setôras. É bem feito!
Coisas boas: tive 15 a Classe de Conjunto e 16 a Violino.
Outra coisa boa: jogo com o Porto — empate a 3. Nada mau. Na 1ª mão, em casa, tínhamos ganho 5-4. Fixe! Caso arrumado!
Falemos de outra coisa.
Parece que sou bruxo! Eu bem que tinha falado no meu Diário 4. É melhor que o Neil Young mude o nome ao blogue. As coisas pela Terra do Nunca com o Michael Jackson não andam lá muito bem! Acho que o melhor é começar a dar razão ao meu pai: os senhores da Televisão e outros assim não andam lá muito bem vistos e começam a ir para a gaiola que é um mimo!
Fui escolhido para o coro do Conservatório. Tivemos o Concerto de Reis na Igreja da Trindade. O meu pai foi ver. E eu vi o meu pai com uma lágrima quando uma amiga minha cantava. Fui-lhe dizer (ao meu pai). «És idiota ou quê? Era do fumo das velas» Pois! Depois saiu-lhe aquela forma esquisita que ele tem de elogiar «Palmira, Lina, que raio de nomes hão-de escolher sempre para as nossas melhores vozes! Parece nome de sopeira!»
Fiquei um pouco embasbacado e antes que me mandasse ao dicionário:
— Sim, meu camelo, ou não sabes quem é Palmira Troufa?
— Não…
— Idiota. E não sabes como se chama essa tua colega, essa voz maravilhosa, que cantou a Avé Maria de Mendelssohn?
— Ah?!
— Lina Cardoso.
Bem, vou-me deitar que estou com sono.
João
Notas. Só tristezas. Tudo 3 e 4. O pior foi a Educação Física. Tive 3 porque a Setôra diz que “não teve tempo para me avaliar”. O meu pai diz que não compreende para que é que “esses camelos têm reuniões e conselhos de turma; para comer queques e falar das quecas?!” (não sei o que quer dizer!). Mas o meu pai tem razão, de certeza. Aleijei-me na Escola e por culpa da Escola, perdi montes de tempo a recuperar da fractura do meu braço, a Escola não fez nada para mudar as regras de segurança (diz que não tem dinheiro…!), não pude ir a todas as aulas de Educação Física, só me foi atribuído o Ensino Articulado já no fim do período e… e tenho um título de Campeão Distrital! E tenho um 3 (três) a Educação Física? A gaja é parva?!
Pior. Ameaçou-me de dar negativa. Fez isso no dia em que tinha exame de Formação Musical no Conservatório. Saí à 1.30, almocei, fiquei a pensar que ia faltar a Educação Física (e na negativa…), fui muito nervoso para o Conservatório, exame às 4.00… Conclusão: tive 11 à disciplina que mais gosto! Porra. Como diz o meu pai: o Ensino Articulado é feito para os Alunos ou para as senhoras professoras?
Depois admiram-se dos gunas. Gunas são aqueles miúdos que na escola fumam, baldam-se às aulas e chamam nomes às Setôras. É bem feito!
Coisas boas: tive 15 a Classe de Conjunto e 16 a Violino.
Outra coisa boa: jogo com o Porto — empate a 3. Nada mau. Na 1ª mão, em casa, tínhamos ganho 5-4. Fixe! Caso arrumado!
Falemos de outra coisa.
Parece que sou bruxo! Eu bem que tinha falado no meu Diário 4. É melhor que o Neil Young mude o nome ao blogue. As coisas pela Terra do Nunca com o Michael Jackson não andam lá muito bem! Acho que o melhor é começar a dar razão ao meu pai: os senhores da Televisão e outros assim não andam lá muito bem vistos e começam a ir para a gaiola que é um mimo!
Fui escolhido para o coro do Conservatório. Tivemos o Concerto de Reis na Igreja da Trindade. O meu pai foi ver. E eu vi o meu pai com uma lágrima quando uma amiga minha cantava. Fui-lhe dizer (ao meu pai). «És idiota ou quê? Era do fumo das velas» Pois! Depois saiu-lhe aquela forma esquisita que ele tem de elogiar «Palmira, Lina, que raio de nomes hão-de escolher sempre para as nossas melhores vozes! Parece nome de sopeira!»
Fiquei um pouco embasbacado e antes que me mandasse ao dicionário:
— Sim, meu camelo, ou não sabes quem é Palmira Troufa?
— Não…
— Idiota. E não sabes como se chama essa tua colega, essa voz maravilhosa, que cantou a Avé Maria de Mendelssohn?
— Ah?!
— Lina Cardoso.
Bem, vou-me deitar que estou com sono.
João
Sábado, Janeiro 10, 2004
A morte da tarde
Saio. Atiro meus passos. Vagueio. Sinto a calçada nua debaixo dos pés. Há quanto tempo não sinto as ruas, soltas, ao fim da tarde. Cedofeita corrida por passos apresados. O ar gélido aperta os ombros e parece atirar os olhos para o chão.
Sete da tarde. Luzes nas montras, portas fechadas. Quem passa apressa-se. Um ou outro boteco aberto. Não há que comprar e tudo ali tão perto. Se há quem compre foge apressado. Olho para trás. A rua sumiu, nem vivalma. Que linda rua, que feio esgar. O sumpto das sacadas antigas inundadas da nova geração das marcas do consumo. Olho o céu negro entre as frestas dos telhados, o mesmo de sempre. Os sonhos não mudam.
Deixo que os passos me levem sem que os pés se atropelem. Dou comigo na Praça. O Soldado, morto vencido, iluminado. Tudo à volta é luz. Há muito não via a Praça bonita. Quiosque ao canto, vermelho pintado, em contraste. Mas a Praça bonita está tão feia. Morta, deserta, sem gente. Mataram a Praça, mataram as gentes. E tudo aquilo, Praça e Rua, é local de peões, sítio de passeio, esperança perdida agora habitada pelos fantasmas da minha imaginação.
Volto atrás e olho abaixo. Travessa do Carregal, tão feia agora. Pejada de latões de lixo. Quantas vezes a desci, manhã cedo, raiar da aurora, Instituto à espera, facas afiadas. Ah, como lembro esse tempo, o corpo exangue à espera sobre a mármore fria. Descer a Travessa, fazer-lhe a curva junto ao velho e bonito Conservatório. E a porta e o cheiro da Guarda.
Subi a quelha que leva aos Mártires. Como nunca lhe reparei o encanto? Margarides… olhei para dentro, por dentro. Pão-de-ló. Tudo num amarelo ranço, balcão mármore. E a balança? Enorme, na banca tão curta. Uma gaveta aberta cospe uns sacos de plástico que destoam. O pé direito, alto, leva-me os olhos às ripas finas do tecto com sanca janelada a abarrotar de barros do doce. Na janela, cubinhos e tigelas de marmelada. Uma mosca pousada.
Já nos Mártires. Olho o número dez esmaltado. Livraria Académica, compra e vende livros usados. Duas janelas, por cima, vasos floridos a ornamentar e telha nova na dobra do telhado. A montra, as montras, cada uma do lado da porta. Lá dentro um alinhar de lombadas de couro debruado a dourados. Nas montras de tudo um pouco. Saramago, Carrilho, Azulejos de Portugal, Monumentos Históricos, Serralves. Livros velhos. Olho em frente. Tudo morto e apagado. A tabacaria da esquina ainda luz.
Desço de novo a quelha. Três negros — que a gente não chama pretos! — bula-bulam em alegria. Vestem de lixeiros. São os únicos que vi rir até agora. O riso parece querer acompanhar o bater alegre do galgar das galochas. Uma marrabenta em noite de frio que me alegra a alma. Xipocué dança comigo. Traz-me aromas.
Entro de novo em Cedofeita e divergimos. As luzes continuam. A tarde acaba. A cidade foge.
A cidade morre ao fim da tarde, é o fim da cidade na morte da tarde!
Pedro Rodrigues de Miguel
Sete da tarde. Luzes nas montras, portas fechadas. Quem passa apressa-se. Um ou outro boteco aberto. Não há que comprar e tudo ali tão perto. Se há quem compre foge apressado. Olho para trás. A rua sumiu, nem vivalma. Que linda rua, que feio esgar. O sumpto das sacadas antigas inundadas da nova geração das marcas do consumo. Olho o céu negro entre as frestas dos telhados, o mesmo de sempre. Os sonhos não mudam.
Deixo que os passos me levem sem que os pés se atropelem. Dou comigo na Praça. O Soldado, morto vencido, iluminado. Tudo à volta é luz. Há muito não via a Praça bonita. Quiosque ao canto, vermelho pintado, em contraste. Mas a Praça bonita está tão feia. Morta, deserta, sem gente. Mataram a Praça, mataram as gentes. E tudo aquilo, Praça e Rua, é local de peões, sítio de passeio, esperança perdida agora habitada pelos fantasmas da minha imaginação.
Volto atrás e olho abaixo. Travessa do Carregal, tão feia agora. Pejada de latões de lixo. Quantas vezes a desci, manhã cedo, raiar da aurora, Instituto à espera, facas afiadas. Ah, como lembro esse tempo, o corpo exangue à espera sobre a mármore fria. Descer a Travessa, fazer-lhe a curva junto ao velho e bonito Conservatório. E a porta e o cheiro da Guarda.
Subi a quelha que leva aos Mártires. Como nunca lhe reparei o encanto? Margarides… olhei para dentro, por dentro. Pão-de-ló. Tudo num amarelo ranço, balcão mármore. E a balança? Enorme, na banca tão curta. Uma gaveta aberta cospe uns sacos de plástico que destoam. O pé direito, alto, leva-me os olhos às ripas finas do tecto com sanca janelada a abarrotar de barros do doce. Na janela, cubinhos e tigelas de marmelada. Uma mosca pousada.
Já nos Mártires. Olho o número dez esmaltado. Livraria Académica, compra e vende livros usados. Duas janelas, por cima, vasos floridos a ornamentar e telha nova na dobra do telhado. A montra, as montras, cada uma do lado da porta. Lá dentro um alinhar de lombadas de couro debruado a dourados. Nas montras de tudo um pouco. Saramago, Carrilho, Azulejos de Portugal, Monumentos Históricos, Serralves. Livros velhos. Olho em frente. Tudo morto e apagado. A tabacaria da esquina ainda luz.
Desço de novo a quelha. Três negros — que a gente não chama pretos! — bula-bulam em alegria. Vestem de lixeiros. São os únicos que vi rir até agora. O riso parece querer acompanhar o bater alegre do galgar das galochas. Uma marrabenta em noite de frio que me alegra a alma. Xipocué dança comigo. Traz-me aromas.
Entro de novo em Cedofeita e divergimos. As luzes continuam. A tarde acaba. A cidade foge.
A cidade morre ao fim da tarde, é o fim da cidade na morte da tarde!
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
Desobediência Civil… in memorian VIII
Pouco tenho atirado ao papel.
Fará este ano 125 anos que nasceu, e 85 que foi assassinado, aquele que preferiu «morrer de pé a viver de joelhos».
Desde hoje, os meninos do México têm o seu ícone nas salas de aula, pela mão da espanhola Mónica Roibal. Num olhar de soslaio parece sussurrar
Mientras los pueblos luchen por gobernarse a sí mísmos, Zapata vivirá.
Prometo, para breve, a dignidade que Emiliano merece.
Continuo, assim, a resumir a obra de Thoreau que já lhe vinha na peugada.
Nunca me recusei a pagar o imposto sobre as estradas, porque é meu desejo ser tão bom vizinho quanto mau súbdito; quanto a manter escolas, contribuo com a tarefa de educar os meus concidadãos. Não me recuso a pagar um imposto determinado e com fim certo. O que eu não quero é prestar fidelidade ao Estado. O que eu, serena mas efectivamente, pretendo é declarar guerra ao Estado, à minha maneira, continuando embora a servir-me dele e a extrair dele todas as vantagens possíveis, como é costume nestes casos.
Às vezes penso: este povo é bem intencionado, mas ignorante.
Não é meu desejo travar combate com qualquer homem ou nação. Posso até dizer que faço esforços para me conformar com as leis desta terra. Estou pronto a agir segundo os ditames dessas leis. Mas, ao fazê-lo, tenho motivos para suspeitar de mim próprio; e, todos os anos, quando o cobrador de impostos me aparece à porta, eu coloco-me na disposição de passar em revista os actos e as posições do governo nacional e estadual e o espírito das pessoas, a ver se descubro razões para obedecer.
Vista de um ponto de vista banal, a Constituição é boa, apesar de todos os seus erros; as leis e os tribunais merecem todo o respeito; até o próprio Estado e o governo americanos são, em muitos aspectos, coisas admiráveis, raras, pelas quais devemos estar agradecidos; merecem o que muita gente ilustre sobre ele tem escrito. Mas, de um ponto de vista um tudo-nada superior, são como eu os descrevi. E, erguendo-nos ainda um pouco mais alto, quem poderá dizer que eles são dignos de ser olhados ou sequer da mínima consideração? Se um homem é livre, quando pensa, quando imagina, quando fantasia, dando existência a coisas que não existem, não há governante, não há reformador que possa colocar-lhe travões.
Pedro Rodrigues de Miguel
Fará este ano 125 anos que nasceu, e 85 que foi assassinado, aquele que preferiu «morrer de pé a viver de joelhos».
Desde hoje, os meninos do México têm o seu ícone nas salas de aula, pela mão da espanhola Mónica Roibal. Num olhar de soslaio parece sussurrar
Mientras los pueblos luchen por gobernarse a sí mísmos, Zapata vivirá.
Prometo, para breve, a dignidade que Emiliano merece.
Continuo, assim, a resumir a obra de Thoreau que já lhe vinha na peugada.
Nunca me recusei a pagar o imposto sobre as estradas, porque é meu desejo ser tão bom vizinho quanto mau súbdito; quanto a manter escolas, contribuo com a tarefa de educar os meus concidadãos. Não me recuso a pagar um imposto determinado e com fim certo. O que eu não quero é prestar fidelidade ao Estado. O que eu, serena mas efectivamente, pretendo é declarar guerra ao Estado, à minha maneira, continuando embora a servir-me dele e a extrair dele todas as vantagens possíveis, como é costume nestes casos.
Às vezes penso: este povo é bem intencionado, mas ignorante.
Não é meu desejo travar combate com qualquer homem ou nação. Posso até dizer que faço esforços para me conformar com as leis desta terra. Estou pronto a agir segundo os ditames dessas leis. Mas, ao fazê-lo, tenho motivos para suspeitar de mim próprio; e, todos os anos, quando o cobrador de impostos me aparece à porta, eu coloco-me na disposição de passar em revista os actos e as posições do governo nacional e estadual e o espírito das pessoas, a ver se descubro razões para obedecer.
Vista de um ponto de vista banal, a Constituição é boa, apesar de todos os seus erros; as leis e os tribunais merecem todo o respeito; até o próprio Estado e o governo americanos são, em muitos aspectos, coisas admiráveis, raras, pelas quais devemos estar agradecidos; merecem o que muita gente ilustre sobre ele tem escrito. Mas, de um ponto de vista um tudo-nada superior, são como eu os descrevi. E, erguendo-nos ainda um pouco mais alto, quem poderá dizer que eles são dignos de ser olhados ou sequer da mínima consideração? Se um homem é livre, quando pensa, quando imagina, quando fantasia, dando existência a coisas que não existem, não há governante, não há reformador que possa colocar-lhe travões.
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Janeiro 05, 2004
Ano Novo e as Elites
Ano Novo, vida nova… acredito tanto nisto como naquela da excepção confirmar a regra — coisa para idiotas!
Isto tem estado tudo uma bagunça, a tralha toda virada às avessas, sem computador ou quase… bem!
O Anarca deu a ideia das Elites. Tema óptimo para começar o ano.
Aqui fica, dedicado a todos os nossos Amigos.
A beneficência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma
Donathien Alphonse François, Marquis de Sade
Quiz
Isto tem estado tudo uma bagunça, a tralha toda virada às avessas, sem computador ou quase… bem!
O Anarca deu a ideia das Elites. Tema óptimo para começar o ano.
Aqui fica, dedicado a todos os nossos Amigos.
A beneficência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma
Donathien Alphonse François, Marquis de Sade
Quiz
Domingo, Janeiro 04, 2004
Desobediência Civil… in memorian VII
Há seis anos que não pago impostos. Por causa disso, fui preso uma vez, passei uma noite na cadeia. Não pude deixar de me espantar com a parvoíce duma instituição que me tratava como se eu fosse apenas um montão de carne, sangue e ossos que importava manter bem fechados. Compreendi que ela tinha finalmente chegado à conclusão de que não me podia dar melhor uso e que nunca tinha pensado em aproveitar de outra forma os meus serviços. Vi que o Estado era um deficiente mental, incapaz de fazer a distinção entre amigos e adversários. Perdi desde então o pouco respeito que lhe guardava e passei a ter pena dele.
Assim, o Estado nunca agride o sentido moral ou intelectual de um homem, mas somente o corpo e os sentidos. Não possui uma inteligência superior, nem honradez, dispõem apenas de mais força física. Eu não nasci para ser forçado.
«O teu dinheiro ou a vida», porque hei-de eu ter pressa em lhe entregar o dinheiro? È possível que ele fique apertado, sem saber o que fazer. Eu é que não posso ajudá-lo. Ele que se ajude a si próprio; é o que eu faço.
Quando saí da cadeia (alguém intercedeu e pagou o tal imposto), não me pareceu ver grandes mudanças em relação à vida normal. Vi com muita clareza o Estado em que vivia. Vi até que ponto podia confiar nos meus vizinhos e amigos; vi que a amizade deles era só para o tempo da prosperidade; que o objectivo deles não era a prática da justiça; que, nos seus actos de sacrifício em prol da humanidade, jamais arriscaram as suas pessoas e os seus bens.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Assim, o Estado nunca agride o sentido moral ou intelectual de um homem, mas somente o corpo e os sentidos. Não possui uma inteligência superior, nem honradez, dispõem apenas de mais força física. Eu não nasci para ser forçado.
«O teu dinheiro ou a vida», porque hei-de eu ter pressa em lhe entregar o dinheiro? È possível que ele fique apertado, sem saber o que fazer. Eu é que não posso ajudá-lo. Ele que se ajude a si próprio; é o que eu faço.
Quando saí da cadeia (alguém intercedeu e pagou o tal imposto), não me pareceu ver grandes mudanças em relação à vida normal. Vi com muita clareza o Estado em que vivia. Vi até que ponto podia confiar nos meus vizinhos e amigos; vi que a amizade deles era só para o tempo da prosperidade; que o objectivo deles não era a prática da justiça; que, nos seus actos de sacrifício em prol da humanidade, jamais arriscaram as suas pessoas e os seus bens.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
Do outro lado do Natal — uma estória real
As ruínas da velha fábrica ainda se levantam como um monte de ferro velho, lata torcida e betão horrorizando a paisagem que caminha lenta até à praia. A rua atrás suja e semi-nua alberga velhos pavilhões e alguns casebres. A curta distância vive a cidade nova.
Onde tudo se confunde vive a vida. É o chão do medo, o dia a dia. Os arrumadores de carros lutam, sete cães a um osso. Mordem na canela. Lutam pelo medo, pelo pão, pela amarela. É gente sem princípio nem fim. Ar esquálido. E o cão acompanha-os, escanzelado, tão miserável como os donos. Sente-se-lhe o medo até no latir, no rosnar de rabo entre as pernas. Miserável resto. Mas tão dócil.
“Aqui, aqui, ó chefe” à sombra dos choupos e plátanos das ruas tão paralelas entre si. Sempre, sempre, todos os dias. Lá vem o carro da bófia, lá se vão as pernas lestas, quando podem. Jeans coçadas, nikes ruças.
Olhos midriáticos. Comem o que podem, o que o apetite lhes deixa. Mas não esquecem o bicho. O cão é um rafeiro, talvez semelhante àquele do Junqueiro mas no fim tão diferente. “Olha ó bicho, dá-lhe de comer, ou julgas que também num é gente?!”.
Um dia aconteceu. É tudo um repente. Não sabem como. “Narciso”, o cão de Matosinhos, é atropelado. Não há sangue, o gemido é surdo, os olhos continuam meigos. As mãos ásperas tornam-se doces, as pernas trôpegas tornam-se céleres, a voz rouca ouve-se carinhosa. Não erram o caminho, conhecem as ruas. Aparece a parede de tijolo burro, a fábrica de frigoríficos e a Clínica Veterinária.
“O bicho foi atropelado”. É assim que Maria conhece os três magarefes que lhe entram porta dentro. Vinte anos como Médica Veterinária não a deixam assustada com o rompante da visita. Já nada a assusta. Os olhos brilhantes de ébano na tez morena olham os arrumadores sem medo, mas sem desafio.
As mãos já percorrem o abdómen do bicho. Agora a coxo-femural… isto está mal! Pior ainda “não temos dinheiro para pagar, Doutora!”. As mãos dóceis mas precisas, veias dorsais marcadas, não tremeram um milímetro.
“Deixem ficar”. Mais complicações. Mais gastos para a clínica. Mas era parte de um dever que assumira para consigo e a sociedade. Era aquilo que se escondia por trás daquela mulher aparentemente frágil mas de palavra decidida. Era aquilo que a fizera cirurgiã, era assim que encarava a vida. Era assim que voltava para casa para encarar a tarefa de partilhar a vida com quatro filhos.
Despiu-se, lavou-se, equipou-se, operou. Tudo correu bem. Todos os dias, duas vezes por dia, lá estavam os arrumadores à porta da clínica a saber do “Narciso”. Estava tudo bem, estava melhor, ia ficar bem, que não se preocupassem. Todos os dias. Cinco dias. E no dia final lá foram. E no dia final não pagaram, como prometeram. Lá foram!
Hoje é Véspera de Natal. Merda de dia. Maria não é de impropérios, mas pensa-os. As pessoas não podiam ir às compras? os bichos tinham que ficar todos doentes, hoje? gatos com coriza, tártaro de última hora, hemorróidas na cadela, ao papagaio só cresce o bico hoje, até o sapo da Amazónia tinha uma alergia… boa! Pensava nas duas meninas e nos dois rapazes. E no António à espera. Também era mulher. Também se tinha casado. Também era Mãe. Também tinha Natal. Também…
Maldito dia a que faltava tempo para tudo. Estava frio e às cinco da tarde a negritude já se estendia ao firmamento. O dia ainda se tornava mais feio. Deixou-se cair num sofá a um canto da clínica. Extenuada, derreada, quase… quase com vontade de voltar a ser criança, a ter o seu Pai Natal, a ter o direito ao seu carinho!
— Dra. Maria, deixaram isto ali na recepção para si, peço desculpa, esqueci-me e é capaz de ser urgente.
Ora bolas. Só faltava esta. A empregada esqueceu-se até à última da hora de um recado. Abriu o envelope, ansiosa. Surgiu brilho e cor. Os dedos puxaram um postal de Natal, daqueles com pintinhas brilhantes. Uma paisagem com um Pai Natal e um cão. Por trás “Obrigado Doutora por tudo o que fez pelo Narciso. Nunca a esqueceremos. Um Feliz Natal e Bom Ano Novo”.
Duas lágrimas rolaram nas faces cheias de alegria.
Maria voltava a ser criança, tinha o seu Pai Natal e recebia o seu carinho!
Por questões de protecção da identidade o nome do Animal foi propositadamente modificado.
Dedico esta estória ao João “o pré-adolescente” que quer ser Médico Veterinário; a todos os Médicos Veterinários por quem nutro especial respeito e admiração; a George Stilwell com quem aprendi que é possível escrever estórias sobre veterinária; a Desmond Morris com quem aprendi que é possível gostar ainda mais de animais e aprender-lhes o comportamento; e a Konrad Lorenz pelo definitivo contributo na Etologia e Psicologia Comparada e que me ensinou que posso aprender muito do Homem olhando mais para os Animais.
Pedro Rodrigues de Miguel
Onde tudo se confunde vive a vida. É o chão do medo, o dia a dia. Os arrumadores de carros lutam, sete cães a um osso. Mordem na canela. Lutam pelo medo, pelo pão, pela amarela. É gente sem princípio nem fim. Ar esquálido. E o cão acompanha-os, escanzelado, tão miserável como os donos. Sente-se-lhe o medo até no latir, no rosnar de rabo entre as pernas. Miserável resto. Mas tão dócil.
“Aqui, aqui, ó chefe” à sombra dos choupos e plátanos das ruas tão paralelas entre si. Sempre, sempre, todos os dias. Lá vem o carro da bófia, lá se vão as pernas lestas, quando podem. Jeans coçadas, nikes ruças.
Olhos midriáticos. Comem o que podem, o que o apetite lhes deixa. Mas não esquecem o bicho. O cão é um rafeiro, talvez semelhante àquele do Junqueiro mas no fim tão diferente. “Olha ó bicho, dá-lhe de comer, ou julgas que também num é gente?!”.
Um dia aconteceu. É tudo um repente. Não sabem como. “Narciso”, o cão de Matosinhos, é atropelado. Não há sangue, o gemido é surdo, os olhos continuam meigos. As mãos ásperas tornam-se doces, as pernas trôpegas tornam-se céleres, a voz rouca ouve-se carinhosa. Não erram o caminho, conhecem as ruas. Aparece a parede de tijolo burro, a fábrica de frigoríficos e a Clínica Veterinária.
“O bicho foi atropelado”. É assim que Maria conhece os três magarefes que lhe entram porta dentro. Vinte anos como Médica Veterinária não a deixam assustada com o rompante da visita. Já nada a assusta. Os olhos brilhantes de ébano na tez morena olham os arrumadores sem medo, mas sem desafio.
As mãos já percorrem o abdómen do bicho. Agora a coxo-femural… isto está mal! Pior ainda “não temos dinheiro para pagar, Doutora!”. As mãos dóceis mas precisas, veias dorsais marcadas, não tremeram um milímetro.
“Deixem ficar”. Mais complicações. Mais gastos para a clínica. Mas era parte de um dever que assumira para consigo e a sociedade. Era aquilo que se escondia por trás daquela mulher aparentemente frágil mas de palavra decidida. Era aquilo que a fizera cirurgiã, era assim que encarava a vida. Era assim que voltava para casa para encarar a tarefa de partilhar a vida com quatro filhos.
Despiu-se, lavou-se, equipou-se, operou. Tudo correu bem. Todos os dias, duas vezes por dia, lá estavam os arrumadores à porta da clínica a saber do “Narciso”. Estava tudo bem, estava melhor, ia ficar bem, que não se preocupassem. Todos os dias. Cinco dias. E no dia final lá foram. E no dia final não pagaram, como prometeram. Lá foram!
Hoje é Véspera de Natal. Merda de dia. Maria não é de impropérios, mas pensa-os. As pessoas não podiam ir às compras? os bichos tinham que ficar todos doentes, hoje? gatos com coriza, tártaro de última hora, hemorróidas na cadela, ao papagaio só cresce o bico hoje, até o sapo da Amazónia tinha uma alergia… boa! Pensava nas duas meninas e nos dois rapazes. E no António à espera. Também era mulher. Também se tinha casado. Também era Mãe. Também tinha Natal. Também…
Maldito dia a que faltava tempo para tudo. Estava frio e às cinco da tarde a negritude já se estendia ao firmamento. O dia ainda se tornava mais feio. Deixou-se cair num sofá a um canto da clínica. Extenuada, derreada, quase… quase com vontade de voltar a ser criança, a ter o seu Pai Natal, a ter o direito ao seu carinho!
— Dra. Maria, deixaram isto ali na recepção para si, peço desculpa, esqueci-me e é capaz de ser urgente.
Ora bolas. Só faltava esta. A empregada esqueceu-se até à última da hora de um recado. Abriu o envelope, ansiosa. Surgiu brilho e cor. Os dedos puxaram um postal de Natal, daqueles com pintinhas brilhantes. Uma paisagem com um Pai Natal e um cão. Por trás “Obrigado Doutora por tudo o que fez pelo Narciso. Nunca a esqueceremos. Um Feliz Natal e Bom Ano Novo”.
Duas lágrimas rolaram nas faces cheias de alegria.
Maria voltava a ser criança, tinha o seu Pai Natal e recebia o seu carinho!
Por questões de protecção da identidade o nome do Animal foi propositadamente modificado.
Dedico esta estória ao João “o pré-adolescente” que quer ser Médico Veterinário; a todos os Médicos Veterinários por quem nutro especial respeito e admiração; a George Stilwell com quem aprendi que é possível escrever estórias sobre veterinária; a Desmond Morris com quem aprendi que é possível gostar ainda mais de animais e aprender-lhes o comportamento; e a Konrad Lorenz pelo definitivo contributo na Etologia e Psicologia Comparada e que me ensinou que posso aprender muito do Homem olhando mais para os Animais.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Dezembro 21, 2003
Um Conto de Natal
A noite não tarda e o céu brilha argêntico. A poeira e a neblina inundam o morno ar. Há um frio leve agudo que se instala. O bairro pobre, antes rico, misera.
Ruínas, estragos, detritos.
Risadas de crianças confundem o ar.
Como é estranho o céu visto de baixo.
Bagdad, a bela, dos mil sonhos! Mil e uma noites de encanto e desejo. Prendas que se ouvem para além do querer.
Cire mergulha do infinito do céu. O sol brilha! Como é diferente a terra vista do céu. Fogo laranja a oeste. Azul metal, raios purpúreos, alguns, já a nascente.
Há um súbito impacto, quase imperceptível. Cirros e nimbos que se confundem, confundem Cire. Minaretes que se avistam. E a bela Bagdad!
Paff! Oh! É sempre assim… estas aterragens de improviso na poeira.
— Porcaria de cidades!...
17:48, 22 de Dezembro do Ano da Graça de… que lhe interessa a data, a Cire. Risadas de criança confundem o ar.
Aproxima-se das crianças, míseros bonecos. Olha-se no pelo luzidio. Acautela-se.
Mustafa, Rashida, Muhammad, Fatimah. Curdo, cristã, maometano, judia. Escolhido, sábia, glorificado, acostumada. Juntos brincam no meio do lixo e destroços. Juntos jogam a sua maior alegria: a sua infância.
Cire, olha-os. Vê-lhes nos olhos a imensidão do mundo. Não lhes descobre diferenças. Antes, aquela antiga lembrança, o seu pequeno Rialb, a sua prenda… a sua perda! Maldita lágrima que sempre lhe corre a face.
Olha de novo a alegria das crianças, no meio da miséria. Vê-lhes os olhos bons e as diabruras. Sente-lhes o brincar com os restos da guerra e da morte. Até ele já morreu, faz tempo. Agora só voltou!
Voltou para ver o mundo que deixou, as memórias que viveu. Sente uma agonia, por dentro.
Ele sempre soube o que muitos não sabiam.
Ele sempre olhou, mesmo quando os olhos já não viam.
Ele sempre escutou, mesmo quando os ouvidos já não ouviam.
E do outro lado do Mundo, do outro lado da miséria, é Natal!
Natal!
Pedro Rodrigues de Miguel
Ruínas, estragos, detritos.
Risadas de crianças confundem o ar.
Como é estranho o céu visto de baixo.
Bagdad, a bela, dos mil sonhos! Mil e uma noites de encanto e desejo. Prendas que se ouvem para além do querer.
Cire mergulha do infinito do céu. O sol brilha! Como é diferente a terra vista do céu. Fogo laranja a oeste. Azul metal, raios purpúreos, alguns, já a nascente.
Há um súbito impacto, quase imperceptível. Cirros e nimbos que se confundem, confundem Cire. Minaretes que se avistam. E a bela Bagdad!
Paff! Oh! É sempre assim… estas aterragens de improviso na poeira.
— Porcaria de cidades!...
17:48, 22 de Dezembro do Ano da Graça de… que lhe interessa a data, a Cire. Risadas de criança confundem o ar.
Aproxima-se das crianças, míseros bonecos. Olha-se no pelo luzidio. Acautela-se.
Mustafa, Rashida, Muhammad, Fatimah. Curdo, cristã, maometano, judia. Escolhido, sábia, glorificado, acostumada. Juntos brincam no meio do lixo e destroços. Juntos jogam a sua maior alegria: a sua infância.
Cire, olha-os. Vê-lhes nos olhos a imensidão do mundo. Não lhes descobre diferenças. Antes, aquela antiga lembrança, o seu pequeno Rialb, a sua prenda… a sua perda! Maldita lágrima que sempre lhe corre a face.
Olha de novo a alegria das crianças, no meio da miséria. Vê-lhes os olhos bons e as diabruras. Sente-lhes o brincar com os restos da guerra e da morte. Até ele já morreu, faz tempo. Agora só voltou!
Voltou para ver o mundo que deixou, as memórias que viveu. Sente uma agonia, por dentro.
Ele sempre soube o que muitos não sabiam.
Ele sempre olhou, mesmo quando os olhos já não viam.
Ele sempre escutou, mesmo quando os ouvidos já não ouviam.
E do outro lado do Mundo, do outro lado da miséria, é Natal!
Natal!
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
Da discussão nasce a luz
... e bem podiam apagar as luzes da Assembleia que sempre poupavam energia!
Os comentários mais jocosos gosto de deixá-los para mim... não me importo!
Do Pedro sei que há papel velho a monte sobre o assunto... não há-de faltar!
Os nossos Amigos comentam e eu gostei: Joe, Anarca, Animal, Alvino & Ca. Lda. Aguardo pelas tempestades!
O aspecto gráfico deliciou-me, deu-me gozo... e trabalho! Mas gostei; o Duffy e o Bugs estão um primor!
Mas a Ética e a Verdade não são para ficar na gaveta... está lá: espaço cedido!
Um jagunço da praça tem-se andado a animar com esta nossa coisa dos blogues. Palavra puxa bujarda e porque não?... escreve lá no nosso e eu digo-te como se faz uma coisa destas. Não tem nada que saber! Afinal os telefones servem para alguma coisa.
E já anda por aí... a julgar pelo que vi e pelo nome que escolheu deve ser um rapazinho cheio de pruridos!
E olhem que eu tinha-o em conta de menino atilado!
Salvé o 19 do 12... anda mais um "aborto" à solta
Quiz
Os comentários mais jocosos gosto de deixá-los para mim... não me importo!
Do Pedro sei que há papel velho a monte sobre o assunto... não há-de faltar!
Os nossos Amigos comentam e eu gostei: Joe, Anarca, Animal, Alvino & Ca. Lda. Aguardo pelas tempestades!
O aspecto gráfico deliciou-me, deu-me gozo... e trabalho! Mas gostei; o Duffy e o Bugs estão um primor!
Mas a Ética e a Verdade não são para ficar na gaveta... está lá: espaço cedido!
Um jagunço da praça tem-se andado a animar com esta nossa coisa dos blogues. Palavra puxa bujarda e porque não?... escreve lá no nosso e eu digo-te como se faz uma coisa destas. Não tem nada que saber! Afinal os telefones servem para alguma coisa.
E já anda por aí... a julgar pelo que vi e pelo nome que escolheu deve ser um rapazinho cheio de pruridos!
E olhem que eu tinha-o em conta de menino atilado!
Salvé o 19 do 12... anda mais um "aborto" à solta
Quiz
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Concurso do Ano
PSD dividido sobre o aborto
Eh pá! …eu não sou má língua, ´tá bem… mas se isto vai a votos a coisa vai ficar renhida!
Lá no governo, quem vai ganhar o título de “Aborto do Ano”?
também cedemos espaço! Quiz
Eh pá! …eu não sou má língua, ´tá bem… mas se isto vai a votos a coisa vai ficar renhida!
Lá no governo, quem vai ganhar o título de “Aborto do Ano”?
também cedemos espaço! Quiz
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
Desobediência Civil… in memorian VI

Olho nos olhos dos outro e sinto o riso amargo que me rói por dentro. Sinto a dor que me dói e a vontade… ah, a vontade de lhes cuspir a cara, cuspir-lhes o nojo nos olhos! Cegos que não querem ver. Traidores que se vendem a si próprios no Templo da Servidão da venda do corpo pelo soldo do mês. Servos lacaios, esbirros de Estado, proxenetas do próximo, servidores do servil. Pobres coitados que prostituem o corpo — e a alma — atrás do balcão de qualquer pública repartição.
Esperam sentados pela vil reforma, esperam — coitados! — de hemorróidas entalados… e o fel à tona, nos gritos, horrendos feridos, que vomitam desauridos.
Um laço bonito, um sisal entrançado, uma volta à volta do auro pescoço, a volta por cima do ulmeiro em flor… não era vingança, era gesto de Amor.
E o meu prazer de continuar Thoreau
O meu encontro directo, cara a cara, com o governo, acontece uma vez por ano, não mais, quando me aparece o cobrador de impostos. É com o meu vizinho cobrador de impostos que eu me avisto (porque, afinal de contas é com homens que luto, não com pergaminhos), com o meu vizinho que voluntariamente escolheu ser agente do governo. Como tomará ele consciência do que é e do que faz enquanto agente do governo, ou enquanto homem, se não for obrigado a optar entre tratar-me (a mim seu vizinho, por quem ele tem a máxima consideração) como seu vizinho e pessoa de bem ou como doido e desordeiro?
Com um governo que prende alguém injustamente, o lugar do homem justo é na prisão. É nesse chão isolado, mas afinal livre e honroso, que o Estado planta aqueles que não estão com ele mas contra ele. A prisão é, num estado esclavagista, o único local onde um homem livre pode morar com honra. Votar não é só meter na urna um bocado de papel, há que tornar o voto plenamente eficaz. Uma minoria fica desarmada quando se conforma com a maioria; deixa afinal de ser minoria. Mas torna-se irresistível quando exerce pressão com todo o seu peso. Se a alternativa for meter todos os justos na prisão ou acabar com a guerra e com a escravatura, nenhum Estado hesitará na escolha. Se houver este ano mil homens que não paguem os impostos, o Estado terá de tomar medidas violentas e cruéis, para os obrigar a pagar, fica capacitado para cometer violências e derramar sangue inocente. Será, por definição, uma revolução pacífica, se é que tal coisa é possível. Se um cobrador de impostos ou qualquer funcionário público me perguntar, como um deles já me perguntou: «Mas o que é que eu vou fazer?», eu responderei: «Se deseja realmente fazer alguma coisa, renuncie ao cargo». Quando o súbdito nega a fidelidade e o funcionário renuncia ao cargo, a revolução estará completa.
Seja como for, incorrer no castigo, por desobedecer ao Estado, custa menos do que obedecer-lhe. Obedecer é como confessar que nada valho.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
A Ceia dos Cordiais
Depois da ceia ela pegava no livro e lia-me passagens sobre Moisés, que tinha sido encontrado num cesto de juncos; e eu estava em pulgas para saber tudo a respeito dele.; aos poucos a viúva foi-me dando a saber que esse Moisés já tinha morrido há uma data de tempo; assim deixei de interessar-me por ele porque não perco tempo com gente morta.
Não tardei a sentir vontade de fumar e pedi licença à viúva. Mas ela não consentiu. Dizia que era um vício e que eu devia tentar deixar de praticá-lo, porque me fazia mal. Há muitas pessoas assim. Não sabem nada a respeito de uma coisa mas isso não as impede de difamá-la. Aí estava ela que se preocupava com esse Moisés, que não lhe era nada e não podia já servir para nada, visto que morrera mas, como vossemecês vêm, dizia cobras e lagartos de uma coisa que me causava prazer. E isso apesar dela tomar rapé; mas como era ela que o tomava, não via mal nenhum nisso.
Seguia-se depois uma hora chata como tudo, e eu sentia-me cheio de impaciência. A Miss Warton, dizia: « Não ponhas os pés em cima, Huckleberry» e «não mastigues assim, Huckleberry… senta-te direito» Pouco depois voltava à carga:«Não abras a boca e não te espreguices dessa maneira, Huckleberry… porque não tentas adquirir boas maneiras?» Falava-me então do lugar para onde vão os maus e eu dizia que quem me dera estar lá. Ela ficava furiosa, embora eu não dissesse aquilo para ofender. Tudo o que eu queria era estar fora daquela casa.; qualquer sítio me servia, para variar. A velha observava-me que era um pecado dizer o que eu tinha dito; que ela o não diria por nada deste mundo; que ela tencionava viver de modo a ir depois para o lugar reservado aos bons. Bem, eu não via nenhuma vantagem em ir para onde ela tencionava ir, portanto decidi imediatamente que nada faria nesse sentido. Mas nunca declarei a minha intenção porque só serviria para armar sarilho e eu não ganharia nada com isso.
Mark Twain in As Aventuras de Huckleberry Finn
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Dezembro 11, 2003
Desobediência Civil… in memorian V
das leis injustas
As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais? No geral, os homens sujeitos a governos como o nosso, julgam que é seu dever esperarem até haver uma maioria que possa alterar as leis. Estão convencidos de que, se resistirem, o remédio será pior que a moléstia. Mas o culpado pelo remédio ser pior do que a moléstia é o próprio governo. Porque não estimula os cidadãos para que estejam alerta, lhe apontem as faltas e o obriguem a actuar melhor?
Se a injustiça é parte integrante do inevitável atrito produzido pela máquina governamental, que seja! É até possível que um dia venha a tornar-se mais suave… A máquina vai acabar por se estragar com o uso; mas se a natureza desse mecanismo exigir que nos tornemos agentes da injustiça, não hesito em afirmar que a lei deverá ser transgredida. Há que produzir um outro atrito que faça parar a máquina. Tenho de evitar, dê por onde der, submeter-me ao erro que condeno.
Um homem não tem obrigações de fazer tudo, tem de fazer somente alguma coisa; mas, por não ser capaz de fazer tudo, não é necessário que cometa erros.
Além do mais, um homem mais justo que os seus vizinhos já constitui só por si maioria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais? No geral, os homens sujeitos a governos como o nosso, julgam que é seu dever esperarem até haver uma maioria que possa alterar as leis. Estão convencidos de que, se resistirem, o remédio será pior que a moléstia. Mas o culpado pelo remédio ser pior do que a moléstia é o próprio governo. Porque não estimula os cidadãos para que estejam alerta, lhe apontem as faltas e o obriguem a actuar melhor?
Se a injustiça é parte integrante do inevitável atrito produzido pela máquina governamental, que seja! É até possível que um dia venha a tornar-se mais suave… A máquina vai acabar por se estragar com o uso; mas se a natureza desse mecanismo exigir que nos tornemos agentes da injustiça, não hesito em afirmar que a lei deverá ser transgredida. Há que produzir um outro atrito que faça parar a máquina. Tenho de evitar, dê por onde der, submeter-me ao erro que condeno.
Um homem não tem obrigações de fazer tudo, tem de fazer somente alguma coisa; mas, por não ser capaz de fazer tudo, não é necessário que cometa erros.
Além do mais, um homem mais justo que os seus vizinhos já constitui só por si maioria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Dezembro 09, 2003
Desobediência Civil… in memorian IV
A virtude
Não me interessa combater inimigos distantes, interessa-me dar luta aos meus próprio vizinhos, que apoiam e defendem os que estão longe e que sem este apoio seriam inofensivos… as minorias não são materialmente mais sábias ou melhores do que as maiorias, O que mais importa não é haver muitos tão bons como nós, importa, sim, que haja algures alguma bondade absoluta. Por cada homem virtuoso, há novecentos e noventa e nove apoiantes da virtude.
Votar é uma espécie de jogo. Estão em jogo as questões morais, o certo e o errado. Tudo isto acompanhado de apostas. Voto, porventura, no que acho mais justo. Mas pouco me importa que a justiça saia vencedora. Prefiro que a maioria decida. Pode-se votar pelo que é justo sem se fazer nada pela justiça. Expresso apenas de forma pública e débil o meu desejo de que vença a justiça. Um homem sábio não pode deixar a justiça à mercê da sorte nem desejar que ela se imponha através do poder da maioria. Há muito pouca virtude nos actos das massas humanas.
É evidente que nenhum homem tem obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem.
Em nome da Ordem e do governo, todos estamos de acordo em prestar homenagem e dar apoio à nossa própria cobardia. O erro, para se espalhar e para dominar, requer a mais desinteressada virtude.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Não me interessa combater inimigos distantes, interessa-me dar luta aos meus próprio vizinhos, que apoiam e defendem os que estão longe e que sem este apoio seriam inofensivos… as minorias não são materialmente mais sábias ou melhores do que as maiorias, O que mais importa não é haver muitos tão bons como nós, importa, sim, que haja algures alguma bondade absoluta. Por cada homem virtuoso, há novecentos e noventa e nove apoiantes da virtude.
Votar é uma espécie de jogo. Estão em jogo as questões morais, o certo e o errado. Tudo isto acompanhado de apostas. Voto, porventura, no que acho mais justo. Mas pouco me importa que a justiça saia vencedora. Prefiro que a maioria decida. Pode-se votar pelo que é justo sem se fazer nada pela justiça. Expresso apenas de forma pública e débil o meu desejo de que vença a justiça. Um homem sábio não pode deixar a justiça à mercê da sorte nem desejar que ela se imponha através do poder da maioria. Há muito pouca virtude nos actos das massas humanas.
É evidente que nenhum homem tem obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem.
Em nome da Ordem e do governo, todos estamos de acordo em prestar homenagem e dar apoio à nossa própria cobardia. O erro, para se espalhar e para dominar, requer a mais desinteressada virtude.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
December, 8th 5:00 P.M.
— Is that all you want?
— Thanks, John.
…
— Mr. Lennon…?!
— ?
— Shot, shot … shot, … shot, shot!
— I’m shot, I’m shot.
Dakota Apartments Building, N.Y., 5:00 P.M. (Eastern Time)
Dec 8th 1980
E ele se esvoou negro, no alto, noite fria e luzes como rastos de água gélida por entre nada no escuro.
Minh’ alma
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise.
De novo… vrooumm! Ciou, flecha que corta o negro cristalino e de olhar doce.
Encanta-te, John…
Free As A Bird,
It's the next best thing to be
Free as a bird.
Home
Home and dry
Like a homing bird I fly,
As a bird on wing
Whatever happened to the life that we once knew
Can we really live without each other?
Where did we lose the touch
That seemed to mean so much?
It always made me feel so....
Free — as a bird,
It's the next best thing to be
Free as a bird.
Home
Home and dry
Like a homing bird I fly — as bird on wing
Whatever happened to the life that we once knew
It Always made me feel so
Free
Free as a bird
It's the next best thing to be
Free as a bird
Free as a bird
Free as a bird
Pousa-me agora no ombro — sinto o quente pulsar — sou já ele, gélido, no ar…
Voz bela, acalmo, sinto ensonar…
Now it's time to say good night
Good night Sleep tight
Now the sun turns out his light
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Close your eyes and I'll close mine
Good night Sleep tight
Now the moon begins to shine
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Close your eyes and I'll close mine
Good night Sleep tight
Now the sun turns out his light
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Good night Good night Everybody
Everybody everywhere
Good night.
E encontro...
Toda esta mortalha de restos de azedume envolvia Cire àquelas horas da noite, daquela noite fria e sem luar. Os sonhos corriam-lhe lentos e tristes, amargurados, por se lembrar daqueles episódios que tão fundo lhe magoavam a alma. Era um lembrar presente, como que obrigado por algo mais forte que a força do querer. Eram velhas histórias que ouvira e lhe fluíam como se da própria consciência se tratasse. Velhos contos que aprendera a venerar e se lhe fizeram lei pela vida fora. Verdadeiros Códigos, Honra, Amor pela Verdade. Tudo o que lhe fizera sentido à vida. Vivera na admiração dessas histórias de homenzinhos, da mesma espécie dos que tanto mal lhe haviam feito. Mas era esse o seu Código. Era Bíblia, Talmude, Corão, Wu Ching, Shih Shu, Avestá, Analectos, Filactérias, Veda, Tripitaka, Midrash, Tora, Talmud, Masora, Lotus Sutra, Mishna, Kojiki, Nihongi, Yegishiki, Tao-Te-Ching, era todos eles e nenhum.
Uma pequena lágrima brilhou de alegria nos olhos de Cire, correu-lhe a face sem que sentisse, misturou-se no sonho, calmou-lhe o âmago, calcorreou-lhe os lábios e deu-lhe de beber, calou-lhe a sede da vida e deixou-se volatilizar por um último pequenino sopro que lhe fugia das narinas. Houve uma dor surda no Mundo que ninguém sentiu. Cire estava calmo porque chegara a vez da sua Eternidade. Tinha, enfim, cumprido os seus dias, chegara a vez de também ser lembrado. Corria célere para os braços dos antepassados, algures, lá longe na imensidão do eterno... que os ratos não têm Céu!
E Cire voou, voou para lá longe e certo que não devemos morrer ignorantes porque já chega a ignorância com que morremos!
(in “Cire”, excerto)
… e as palavras de Lennon
“…We're more popular than Jesus now; I don't know which will go first — rock 'n' roll or Christianity.”
— Bye, John…
— Is that all you want?
— Thanks, John.
Pedro Rodrigues de Miguel
Sábado, Dezembro 06, 2003
O meu Diário 10
Tenho andado preocupado. Aproxima-se o fim do período e lá vêm as notas. E este período tenho que ter melhores notas que nos períodos dos anos anteriores… não sei como! É uma teoria que ainda me têm que explicar. É sempre a mesma coisa: no próximo período as notas têm que ser melhores! ‘Tá bem, ‘tá! Um dia rebenta a escala!
Pois, no tempo do meu pai tudo era mais fácil, pelo menos as notas iam até vinte, sempre dava mais hipóteses… digo eu.
Bem, não deve ser o pior problema do mundo. Ainda há pouco o Quiz estava a falar com o meu pai sobre uma amiga da net… acho que também é dos Blogues — uma tal de Zazie. Um problema qualquer com o gás. Compreendo-a perfeitamente. É que eu, todos os dias tenho problemas com o gás: fecha a porcaria da água que já estes aí há tempo demais… ou julgas que o gás é de borla?! Todos os dias. Pois é Zazie, estamos os dois no mesmo barco. Quem me dera que estivéssemos os dois na mesma canoa!
Mas continuando. Não percebi muito bem a não ser o meu pai a dizer ao Quiz: esses gajos são todos uns camelos (deu-lhes outros nomes também e mandou, se não me engano, cumprimentos para a Mãe de um deles…) e era de lhes fechar a porta por dentro e atirar a chave pela janela… e eles atrás! O resultado é tanto mais eficaz quanto mais alto estiver situado o andar.
O meu pai tem destas coisas. Gosta sempre de pensar em termos Físicos e Matemáticos. Eu também.
Zazie. Posso-te chamar assim, não posso? Vou-te dizer uma verdade: eu nunca tinha ido ver o teu Blogue. É mesmo fixe e gostei muito! Tem quadros e fotografias bonitas. Olha, aquele do Don Giovanni. Não sei quem é o tal Alexandre que o pintou mas sei quem é o Mozart… e sei que Don Giovanni é do Mozart. Temos lá um poster no Conservatório. E gostei daquela fotografia do gato no sofá. Olha que estou a ser verdadeiro, não é só sincero. O meu pai é que me costuma dizer: sê verdadeiro, meu filho, sê verdadeiro — depois diz uma asneira, posso dizer?! — sinceras são as nossas mulheres, verdadeiras são as pê-u-tê-ás que não têm nada a perder. Ele lá sabe. Diz que sincero é um eufemismo. Sei lá eu o que é isso…
Mas, já me esquecia… ele lembrou-se de um amigo nosso, cá de casa, que nasceu e viveu muitos anos aí em Lisboa. Certo dia teve um pequeno acidente de carro e a companhia nunca mais lhe resolvia o problema. A certa altura esse nosso amigo retirou o carro da Marca e pô-lo na garagem de um amigo e ex-colega de escola primária (de onde nunca tinha passado…!) — o Cesário Chapeiro, do Casal Ventoso. Remédio santo. Vai lá o perito e em menos de meia hora tudo resolvido a contento… até o arranhão da porta do outro lado já fazia parte do mesmo acidente. Diz o meu pai: é que o Cesário Chapeiro do Casal Ventoso explica mesmo bem as coisas!
Zazie! O meu pai acha que deves contratar um amigo dele: o Alcino Picheleiro, com sede e oficina no Casal Ventoso. Depois quando os outros dois Senhores aparecerem, dás-lhes a morada do Alcino Picheleiro, eles vão lá de livre e expressa vontade, ele vai-lhes explicar tudo muito bem e… logo, logo nesse dia vais ter gás. E logo, logo nesse dia alguém vai começar a barafustar contigo se ficares muito tempo no banho a gastar água e gás…
Um Grande Beijo para ti e bons sonhos que está na altura de pensarmos nas prendas que queremos no Natal.
Vou dormir.
João
Pois, no tempo do meu pai tudo era mais fácil, pelo menos as notas iam até vinte, sempre dava mais hipóteses… digo eu.
Bem, não deve ser o pior problema do mundo. Ainda há pouco o Quiz estava a falar com o meu pai sobre uma amiga da net… acho que também é dos Blogues — uma tal de Zazie. Um problema qualquer com o gás. Compreendo-a perfeitamente. É que eu, todos os dias tenho problemas com o gás: fecha a porcaria da água que já estes aí há tempo demais… ou julgas que o gás é de borla?! Todos os dias. Pois é Zazie, estamos os dois no mesmo barco. Quem me dera que estivéssemos os dois na mesma canoa!
Mas continuando. Não percebi muito bem a não ser o meu pai a dizer ao Quiz: esses gajos são todos uns camelos (deu-lhes outros nomes também e mandou, se não me engano, cumprimentos para a Mãe de um deles…) e era de lhes fechar a porta por dentro e atirar a chave pela janela… e eles atrás! O resultado é tanto mais eficaz quanto mais alto estiver situado o andar.
O meu pai tem destas coisas. Gosta sempre de pensar em termos Físicos e Matemáticos. Eu também.
Zazie. Posso-te chamar assim, não posso? Vou-te dizer uma verdade: eu nunca tinha ido ver o teu Blogue. É mesmo fixe e gostei muito! Tem quadros e fotografias bonitas. Olha, aquele do Don Giovanni. Não sei quem é o tal Alexandre que o pintou mas sei quem é o Mozart… e sei que Don Giovanni é do Mozart. Temos lá um poster no Conservatório. E gostei daquela fotografia do gato no sofá. Olha que estou a ser verdadeiro, não é só sincero. O meu pai é que me costuma dizer: sê verdadeiro, meu filho, sê verdadeiro — depois diz uma asneira, posso dizer?! — sinceras são as nossas mulheres, verdadeiras são as pê-u-tê-ás que não têm nada a perder. Ele lá sabe. Diz que sincero é um eufemismo. Sei lá eu o que é isso…
Mas, já me esquecia… ele lembrou-se de um amigo nosso, cá de casa, que nasceu e viveu muitos anos aí em Lisboa. Certo dia teve um pequeno acidente de carro e a companhia nunca mais lhe resolvia o problema. A certa altura esse nosso amigo retirou o carro da Marca e pô-lo na garagem de um amigo e ex-colega de escola primária (de onde nunca tinha passado…!) — o Cesário Chapeiro, do Casal Ventoso. Remédio santo. Vai lá o perito e em menos de meia hora tudo resolvido a contento… até o arranhão da porta do outro lado já fazia parte do mesmo acidente. Diz o meu pai: é que o Cesário Chapeiro do Casal Ventoso explica mesmo bem as coisas!
Zazie! O meu pai acha que deves contratar um amigo dele: o Alcino Picheleiro, com sede e oficina no Casal Ventoso. Depois quando os outros dois Senhores aparecerem, dás-lhes a morada do Alcino Picheleiro, eles vão lá de livre e expressa vontade, ele vai-lhes explicar tudo muito bem e… logo, logo nesse dia vais ter gás. E logo, logo nesse dia alguém vai começar a barafustar contigo se ficares muito tempo no banho a gastar água e gás…
Um Grande Beijo para ti e bons sonhos que está na altura de pensarmos nas prendas que queremos no Natal.
Vou dormir.
João
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
Escuta, Zé Ninguém
Carta Aberta... a quem?!
Senhor ministro.
Bom dia. Não sei porque lhe digo “bom dia” em dia tem chuviscoso, mas digo. O senhor também diz muitas coisas e, quanto saiba, não se coarcta de as dizer. É um boçal, como diz minha Mãezinha.
Desculpe lá: o senhor foi eleito por quem? É que eu me lembre… ah, ou julga-se “um eleito”? Foi convidado… a falar! novos hospitais, organização disto e daquilo, o senhor sabe tudo, e mais as listas e os “utentes” e os “seus genéricos”, a música canta-me aos olhos
Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão
Faz me lembrar… ai não digas, está calado, que ao outro também ele calou. Julga que sim? Não tem vergonha? Não é pela idade, é pela dignidade…
O jornal na retrete
Ao outro dia no emprego
Sorrir ao chefe não é frete
Por um pouco de sossego
Eu cá não me meto em nada
É mais fácil ser assim
Mantenho a boca calada
Desde que esteja bem para mim
Quero lá saber dos outros
Se aqui se mata e esfola
Issa não é da minha conta
Só leio reader's digest e a bola
… julga que somos todos assim? todos palhaços de pasquim? todos carneiros, todos boiada, rameiras da noite travestidas de nada?!
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Quem é o seu mestre? Será ele mau ou maoista, tão bom da vista que deu o golpe, a golpada, só com um olhar…!?
Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado.
Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram
Ai senhor ministro, senhor ministro, que a brincar é que a gente se entende. A brincar com o fogo? A dinamite? Já vi mãos esfaceladas, corpos queimados, entranhadas evisceradas, corpos nus todos iguais… sabe quão iguais são os corpos nus por dentro? Sangue, pus e esfacelos, ossos fracturas e esquírolas, gritos raivas e desesperos… tudo vi! E vosselência?!
Não, por certo não viu.
Então não me venha pedir desaires
“Vem por aqui!” — dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “Vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Dê a si próprio uma oportunidade
… bata a porta, porta traseira — cabeça entre os ombros de mansinho — lance fora a chave e saia pé ante pé, pela calada da noite, sem que ninguém note, porque
… há lazaretos para os coléricos, manicómios para os loucos, prisões para os delinquentes, mas não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos!...
saia agora, Obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Senhor ministro.
Bom dia. Não sei porque lhe digo “bom dia” em dia tem chuviscoso, mas digo. O senhor também diz muitas coisas e, quanto saiba, não se coarcta de as dizer. É um boçal, como diz minha Mãezinha.
Desculpe lá: o senhor foi eleito por quem? É que eu me lembre… ah, ou julga-se “um eleito”? Foi convidado… a falar! novos hospitais, organização disto e daquilo, o senhor sabe tudo, e mais as listas e os “utentes” e os “seus genéricos”, a música canta-me aos olhos
Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão
Faz me lembrar… ai não digas, está calado, que ao outro também ele calou. Julga que sim? Não tem vergonha? Não é pela idade, é pela dignidade…
O jornal na retrete
Ao outro dia no emprego
Sorrir ao chefe não é frete
Por um pouco de sossego
Eu cá não me meto em nada
É mais fácil ser assim
Mantenho a boca calada
Desde que esteja bem para mim
Quero lá saber dos outros
Se aqui se mata e esfola
Issa não é da minha conta
Só leio reader's digest e a bola
… julga que somos todos assim? todos palhaços de pasquim? todos carneiros, todos boiada, rameiras da noite travestidas de nada?!
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Quem é o seu mestre? Será ele mau ou maoista, tão bom da vista que deu o golpe, a golpada, só com um olhar…!?
Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado.
Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram
Ai senhor ministro, senhor ministro, que a brincar é que a gente se entende. A brincar com o fogo? A dinamite? Já vi mãos esfaceladas, corpos queimados, entranhadas evisceradas, corpos nus todos iguais… sabe quão iguais são os corpos nus por dentro? Sangue, pus e esfacelos, ossos fracturas e esquírolas, gritos raivas e desesperos… tudo vi! E vosselência?!
Não, por certo não viu.
Então não me venha pedir desaires
“Vem por aqui!” — dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “Vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Dê a si próprio uma oportunidade
… bata a porta, porta traseira — cabeça entre os ombros de mansinho — lance fora a chave e saia pé ante pé, pela calada da noite, sem que ninguém note, porque
… há lazaretos para os coléricos, manicómios para os loucos, prisões para os delinquentes, mas não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos!...
saia agora, Obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Dezembro 01, 2003
Caminhos do Diabo III
1º de Dezembro
Deparo-me com as notícias dos Jornais ou antes… com a falta delas. O 1º de Dezembro?... feriado de nada — e a escumalha cantarola porque não tem nada que fazer. A escumalha que é o povo e os ministros, os sábios e os ignorantes, os jornais e os meninos dos blogues, que falam de tudo… e do nada. Eles são Mexias e Zés Quintela, monárquicos ou republicanos de meia tigela, que da república só aprenderam a metade, faltou-lhes a outra — a Liberdade de escolha. Esqueceram-lhe a causa, o colonialismo — “o mapa cor-de-rosa” — e a reimplantação da pena de morte (coitado do 502, homem de má sorte, de seu nome João Ferreira de Almeida, a bem da república e da moral rameira, encostado ao poste…!) mas eu, Libertário, com escolha e com princípio, que se necessário um Rei apoio — não me demito! — dou hoje a palavra a um republicano... de bom corte.
Só para lembrar que no 1º de Dezembro atiramos um gajo pela janela abaixo e hoje, podíamos atirar muitos mais…!
Sou contra a pena de morte, não sou contra a legítima defesa. Ladrões de Templos e Salteadores da Arca são corridos a chicote e açoitados em praça pública...!
Balanço patriótico
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6 000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas;
Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico, – água de poça inerte, trasbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacifico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, enfim, de índole estreita, acanhada mente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e boca para mandar…
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, – o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, – tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., – teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa…
A burguesia liberal, merceeiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, morgadinhas, judias, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como eles diziam), todo esse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores, num Alcácer Quibir esfarrapado, de feira da ladra.
A nação, como o rei, ia cair de podre.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcaças de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoísmos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de inscrições…
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante.
Fora o rei um homem, que a nacionalidade moribunda se levantaria por encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de governo. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas, – absurdo evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da majestade à ex.ª que da ex.ª ao tu. Impero eu mais no meu criado que o rei em mim. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, boca para rezar. Pelejas como as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nun’Álvares de hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico, com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias, anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso, vazando-os logo, – atascadeiro de baixezas, lodo de malandros, – pelo buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector in pace, um cano de esgoto jazigo de família.
O burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas, cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um vintém. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, justiça, Honra, Pundonor, – palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O câmbio estava ao par.
Falir um banco, que desastre! Falir uma alma... – Mas que demónio é isto de falir uma alma?
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geograficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o medo. Anda guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Porto, onde a polícia usa revólveres e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.
Receio do exército? Lisonjeá-lo... e diminuí-lo."
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1893)
…nasceu, em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850, filho do lavrador José António Junqueiro e Ana Maria Guerra, e faleceu em 7 de Julho de 1923, em Lisboa
Quiz (na ausência de Pedro Rodrigues de Miguel)
Deparo-me com as notícias dos Jornais ou antes… com a falta delas. O 1º de Dezembro?... feriado de nada — e a escumalha cantarola porque não tem nada que fazer. A escumalha que é o povo e os ministros, os sábios e os ignorantes, os jornais e os meninos dos blogues, que falam de tudo… e do nada. Eles são Mexias e Zés Quintela, monárquicos ou republicanos de meia tigela, que da república só aprenderam a metade, faltou-lhes a outra — a Liberdade de escolha. Esqueceram-lhe a causa, o colonialismo — “o mapa cor-de-rosa” — e a reimplantação da pena de morte (coitado do 502, homem de má sorte, de seu nome João Ferreira de Almeida, a bem da república e da moral rameira, encostado ao poste…!) mas eu, Libertário, com escolha e com princípio, que se necessário um Rei apoio — não me demito! — dou hoje a palavra a um republicano... de bom corte.
Só para lembrar que no 1º de Dezembro atiramos um gajo pela janela abaixo e hoje, podíamos atirar muitos mais…!
Sou contra a pena de morte, não sou contra a legítima defesa. Ladrões de Templos e Salteadores da Arca são corridos a chicote e açoitados em praça pública...!
Balanço patriótico
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6 000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas;
Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico, – água de poça inerte, trasbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacifico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, enfim, de índole estreita, acanhada mente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e boca para mandar…
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, – o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, – tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., – teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa…
A burguesia liberal, merceeiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, morgadinhas, judias, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como eles diziam), todo esse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores, num Alcácer Quibir esfarrapado, de feira da ladra.
A nação, como o rei, ia cair de podre.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcaças de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoísmos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de inscrições…
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante.
Fora o rei um homem, que a nacionalidade moribunda se levantaria por encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de governo. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas, – absurdo evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da majestade à ex.ª que da ex.ª ao tu. Impero eu mais no meu criado que o rei em mim. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, boca para rezar. Pelejas como as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nun’Álvares de hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico, com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias, anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso, vazando-os logo, – atascadeiro de baixezas, lodo de malandros, – pelo buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector in pace, um cano de esgoto jazigo de família.
O burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas, cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um vintém. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, justiça, Honra, Pundonor, – palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O câmbio estava ao par.
Falir um banco, que desastre! Falir uma alma... – Mas que demónio é isto de falir uma alma?
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geograficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o medo. Anda guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Porto, onde a polícia usa revólveres e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.
Receio do exército? Lisonjeá-lo... e diminuí-lo."
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1893)
…nasceu, em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850, filho do lavrador José António Junqueiro e Ana Maria Guerra, e faleceu em 7 de Julho de 1923, em Lisboa
Quiz (na ausência de Pedro Rodrigues de Miguel)
Sábado, Novembro 29, 2003
Puta de Vida
Não. Não estava para pôr este título. Ia chamar-lhe qualquer outra coisa mas já não tinha mais nada para chamar. Não por maledicência ou leviandade mas… porque fica bem se assim for dito.
Foi o miúdo que descobriu. Dei uma olhada de soslaio, dormi sobre a coisa e hoje passei a papel. Assim é que é ler.
E fiquei parvo!
A miúda não tem dúvidas que está viciada em blogues e não quer ser curada. Assume!
E humor! quanto baste…
E “possibilidade de decidir” que ainda se lembra do que lhe disseram, não sei de Pai Tirano se de Mãe Obtusa.
Depois sabe escrever: “segurando guarda-chuva, na outra segurando trela,… em dias mais bonitos e mais agradáveis do que o de hoje”. Ah, sim, gostei!
E sabe coisas boas da vida, tantas.
Rir baixinho, uma boa conversa, rir-se de si mesmo. Até o pleonasmo lhe fica bem: Amigos — os amigos especiais.
Recebe amigos com biscoitos feitos em casa. Quem me dera! A minha idade… afinal, ninguém sabe a minha idade!
Queria patinar sem cair. Tantos anos, eu! Mas isso não se ensina…
E vai levantar-se da cama todas as manhãs e agradecer outro belo dia.
E lembra-se do António.
E fala doutras coisas…
Para ela deixo Jorge Amado.
— Vosmicê tem muito merecimento… Tem outros que chegam aqui, só visam ganhar dinheiro, não pensam em mais nada. Vosmicê pensa em tudo, nas necessidades da terra. Pena vosmicê não ser casado.
— Por que coronel? — tomava da garrafa, quase uma obra de arte, ia servir novamente.
— Vosmicê me desculpe… Coisa fina essa bebida. Mas, para ser franco com vosmicê, prefiro uma cachacinha… Esse trago é enganador: cheiroso, açucarado, parece até bebida de mulher. E é forte como cão, embebeda sem a gente dar conta. Cachaça não, a gente sabe logo, não engana ninguém.
Não arrico e, depois de Amado, deixo na doce voz de Teolinda as palavras que Halakavuma traria por mim.
Uma parte do que colhemos é oferecido aos espíritos, porque não somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e sabemos que a natureza é maior que nós. Uma parte, por isso, volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
Isso, entre outras coisas eu aprendi com África: a pequenez do ser humano, diante da vastidão do que não é humano. Não somos nada, poeira no vento, silhuetas minúsculas, na imensidão da paisagem.
Assim como aprendi com África que a verdadeira vida é vagarosa. São os mortos que têm pressa. E os loucos.
É favor não me obrigarem a tornar a fazer um post dedicado!
Mas este valeu a pena. E sei que o Pedro, se cá estivesse, gostaria de o ter feito.
Quiz
Foi o miúdo que descobriu. Dei uma olhada de soslaio, dormi sobre a coisa e hoje passei a papel. Assim é que é ler.
E fiquei parvo!
A miúda não tem dúvidas que está viciada em blogues e não quer ser curada. Assume!
E humor! quanto baste…
E “possibilidade de decidir” que ainda se lembra do que lhe disseram, não sei de Pai Tirano se de Mãe Obtusa.
Depois sabe escrever: “segurando guarda-chuva, na outra segurando trela,… em dias mais bonitos e mais agradáveis do que o de hoje”. Ah, sim, gostei!
E sabe coisas boas da vida, tantas.
Rir baixinho, uma boa conversa, rir-se de si mesmo. Até o pleonasmo lhe fica bem: Amigos — os amigos especiais.
Recebe amigos com biscoitos feitos em casa. Quem me dera! A minha idade… afinal, ninguém sabe a minha idade!
Queria patinar sem cair. Tantos anos, eu! Mas isso não se ensina…
E vai levantar-se da cama todas as manhãs e agradecer outro belo dia.
E lembra-se do António.
E fala doutras coisas…
Para ela deixo Jorge Amado.
— Vosmicê tem muito merecimento… Tem outros que chegam aqui, só visam ganhar dinheiro, não pensam em mais nada. Vosmicê pensa em tudo, nas necessidades da terra. Pena vosmicê não ser casado.
— Por que coronel? — tomava da garrafa, quase uma obra de arte, ia servir novamente.
— Vosmicê me desculpe… Coisa fina essa bebida. Mas, para ser franco com vosmicê, prefiro uma cachacinha… Esse trago é enganador: cheiroso, açucarado, parece até bebida de mulher. E é forte como cão, embebeda sem a gente dar conta. Cachaça não, a gente sabe logo, não engana ninguém.
Não arrico e, depois de Amado, deixo na doce voz de Teolinda as palavras que Halakavuma traria por mim.
Uma parte do que colhemos é oferecido aos espíritos, porque não somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e sabemos que a natureza é maior que nós. Uma parte, por isso, volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
Isso, entre outras coisas eu aprendi com África: a pequenez do ser humano, diante da vastidão do que não é humano. Não somos nada, poeira no vento, silhuetas minúsculas, na imensidão da paisagem.
Assim como aprendi com África que a verdadeira vida é vagarosa. São os mortos que têm pressa. E os loucos.
É favor não me obrigarem a tornar a fazer um post dedicado!
Mas este valeu a pena. E sei que o Pedro, se cá estivesse, gostaria de o ter feito.
Quiz
O meu Diário 9
Hoje tenho pouco tempo porque é fim-de-semana e tenho muito que fazer. Li O Game Boy do Ricardo:
— Eu não tenho 5 anos, porra!
...é só ver Os meus Diário 2 e Diário 4 e outro post desse dia, do Quiz.
Disse ao meu pai que o Dreamscape do Ricardo Saramago se podia ter chamado “Memorial do Convento” ou “Blog segundo Jesus Cristo”. Até me senti mal quando ouvi, de enfiada: com esse nome, o camelo, também lhe podia chamar O Ano de 2003, Os Afrontamentos, Que Farei com este Blog?, O Ano da Morte de Ricardo Saramago, Jangada de Merda, Cadernos do Lazareto, Ensaio sobre a Asneira ou A Caserna.
Perguntei ao meu pai o que é uma sexshop ordinária: é um pleonasmo! Lá fui eu ao dicionário… quem me manda fazer perguntas idiotas. Fiquei a perceber. Segundo o Dicionário Editora, então, sexshop é “entra para dentro, parece-me a mim”. Esclarecido!?
Quanto ao Anarca é um tipo fixe. Está adoentado e não se deve brincar com o mal dos outros… nem chamar-lhe Ranhoso, como uma vez ouvi ao Alvino!
Yu-Gi-Oh. Ah, já estou a gostar mais. Rapidamente: há as cartas que são de três tipos — Mágicas, Monstros e Armadilhas. Há também jogos para PC e para PS2 e ainda …e ainda para Game Boy!
Olha, lá. Não havia um Senhor da Televisão que dizia muitas vezes “…e ainda!”? O meu pai diz que foi preso. Está sempre na brincadeira. Já agora também iam prender os Senhores da Televisão. Boa!
Agora, em especial para “a minha Catarina”.
A minha Outra Grande Escola
onde logo à entrada, vê-se na fotografia, há a estátua da Senhora Dona Guilhermina Suggia.
Mas eu preferi Violino!
O maior Beijo do mundo.
Já me esquecia. Descobri um blogue fixe, chamado… eh, pá e agora?!
Deve ser uma pré-adolescente!
O maior Beijo do Mundo, também!
João
— Eu não tenho 5 anos, porra!
...é só ver Os meus Diário 2 e Diário 4 e outro post desse dia, do Quiz.
Disse ao meu pai que o Dreamscape do Ricardo Saramago se podia ter chamado “Memorial do Convento” ou “Blog segundo Jesus Cristo”. Até me senti mal quando ouvi, de enfiada: com esse nome, o camelo, também lhe podia chamar O Ano de 2003, Os Afrontamentos, Que Farei com este Blog?, O Ano da Morte de Ricardo Saramago, Jangada de Merda, Cadernos do Lazareto, Ensaio sobre a Asneira ou A Caserna.
Perguntei ao meu pai o que é uma sexshop ordinária: é um pleonasmo! Lá fui eu ao dicionário… quem me manda fazer perguntas idiotas. Fiquei a perceber. Segundo o Dicionário Editora, então, sexshop é “entra para dentro, parece-me a mim”. Esclarecido!?
Quanto ao Anarca é um tipo fixe. Está adoentado e não se deve brincar com o mal dos outros… nem chamar-lhe Ranhoso, como uma vez ouvi ao Alvino!
Yu-Gi-Oh. Ah, já estou a gostar mais. Rapidamente: há as cartas que são de três tipos — Mágicas, Monstros e Armadilhas. Há também jogos para PC e para PS2 e ainda …e ainda para Game Boy!
Olha, lá. Não havia um Senhor da Televisão que dizia muitas vezes “…e ainda!”? O meu pai diz que foi preso. Está sempre na brincadeira. Já agora também iam prender os Senhores da Televisão. Boa!
Agora, em especial para “a minha Catarina”.
A minha Outra Grande Escola
onde logo à entrada, vê-se na fotografia, há a estátua da Senhora Dona Guilhermina Suggia.
Mas eu preferi Violino!
O maior Beijo do mundo.
Já me esquecia. Descobri um blogue fixe, chamado… eh, pá e agora?!
Deve ser uma pré-adolescente!
O maior Beijo do Mundo, também!
João
Quinta-feira, Novembro 27, 2003
Escuta, Zé Ninguém
Portugal é um dos 191 países signatários da Convenção de Genebra.
Em Guantanamo cerca de 600 prisioneiros encontram-se detidos há quase dois anos sem julgamento.
Portugal mantém o silêncio quando como signatário deve respeitar e fazer respeitar a Convenção? Não! Olhe-se para o “Grande Educador do Povo” lá em Bruxelas e o nosso caseiro “Salteador da Arca Perdida”… como eles dizem: o nosso amigo George!
Nunca te ouvi queixar:
[…]
Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu,
[…]
Não fujas. Tem ãnimo e contempla-te. . «Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?»? Leio esta pergunta nos teus olhos amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, directo em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quuem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?». E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-to.
[…]
Durante vinte e cinco anos tomeui a defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo; acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que conquistaste mas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência americana ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Estaline, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK — Ku-Klux-Klan. Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros.
Wilhelm Reich in Rede an dem Kleinen Mann (Verão de 1945)
Nesse mesmo Verão de 45 ouvia-se a frase: Nunca mais!
Wilhelm Reich é condenado em 25 de Maio de 1956 a dois anos de prisão. Após recurso começa a cumprir pena a 12 de Março de 1957.
Era acusado de um único crime: o FBI tinha encontrado na sua biblioteca, em 1941, duas obras — Mein Kampf de Hitler e My Life de Leon Trotsky.
Morre na penitenciária de Ludwigburg, estado da Pensilvânia, Estados Unidos, a 3 de Novembro de 1957.
Eu nasci a 2 de Setembro de 1956.
Pedro Rodrigues de Miguel
Em Guantanamo cerca de 600 prisioneiros encontram-se detidos há quase dois anos sem julgamento.
Portugal mantém o silêncio quando como signatário deve respeitar e fazer respeitar a Convenção? Não! Olhe-se para o “Grande Educador do Povo” lá em Bruxelas e o nosso caseiro “Salteador da Arca Perdida”… como eles dizem: o nosso amigo George!
Nunca te ouvi queixar:
[…]
Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu,
[…]
Não fujas. Tem ãnimo e contempla-te. . «Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?»? Leio esta pergunta nos teus olhos amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, directo em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quuem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?». E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-to.
[…]
Durante vinte e cinco anos tomeui a defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo; acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que conquistaste mas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência americana ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Estaline, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK — Ku-Klux-Klan. Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros.
Wilhelm Reich in Rede an dem Kleinen Mann (Verão de 1945)
Nesse mesmo Verão de 45 ouvia-se a frase: Nunca mais!
Wilhelm Reich é condenado em 25 de Maio de 1956 a dois anos de prisão. Após recurso começa a cumprir pena a 12 de Março de 1957.
Era acusado de um único crime: o FBI tinha encontrado na sua biblioteca, em 1941, duas obras — Mein Kampf de Hitler e My Life de Leon Trotsky.
Morre na penitenciária de Ludwigburg, estado da Pensilvânia, Estados Unidos, a 3 de Novembro de 1957.
Eu nasci a 2 de Setembro de 1956.
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Novembro 26, 2003
O meu Diário 8
Hoje sim que estou feliz. Descobri que há mais um pré-adolescente como eu na net. É o Ricardo que tem um blogue com um nome muito fixe. O blogue — e ele também, que é Saramago como aquele senhor que nós todos conhecemos e a quem chamamos “evaristo”, que é alcunha. Quando vou com a minha Mãe e passo pelo Sr. Saramago da loja da fruta nunca lhe chamo “evaristo”. Já sei que ouvia das poucas e das bonitas.
Mas, o blogue do Ricardo — gostei mesmo muito do nome. Dreamscape Weblog. Como eu gostava de chamar ao nosso. Ou então Mind Trap, ou ScatterGories ou Robotix Wasp. Vê-se logo que não é nenhum adulto. O único adulto capaz de inventar nomes destes era o Anarca. Conheces Ricardo? Vai ver o blogue dele. É tudo — The Final Cut, Funky Politics, Imperial Walls, Cock Suckers Ball, Blow Job Theory — tudo nomes fixes. Já agora tens um post mal escrito: “Gotinha you have mail”. Acho que querias dizer “Goten you have mail”, do Goten Keychain dos Dragonball. Depois corrige.
Assim já não sou o único pré-adolescente dos Weblog.
Além do Anarca o Quiz é outro adulto em quem confiar. Gozou-os de fininho com aquilo dos F-16. Quer dizer, há coisas que são verdade: sou canhoto e sou mesmo eu dentro do Falcon. Mas não fui eu quem estragou aquilo tudo! Tu também os enganaste bem com aquilo do radar: não sei como é que não perceberam que aquilo é um HUD. Muito tempo nos jogos de computador!
Os teus papéis de embrulho têm muita pinta. Estive a mostrar ao meu pai: o camelo tem mesmo pinta! No tom em que o disse, acredita que é melhor que receber o prémio Nobel. Ainda por cima não tens que ir tão longe… só para receber a porcaria de uma medalha.
Aproveitei para lhe dizer que queria ir ao Louvre: só se for a pé! De vez em quando parece que é parvo. Como se o Louvre fosse já ali na esquina. É que não posso perder tempo. Há coisas que temos que ver já ou então não vemos. Ainda outro dia estive a ver uma excursão ao Louvre (ou coisa parecida) no People&Art: tudo velhos! Com os óculos de ver ao longe não conseguiam ver ao perto, com os óculos de ver ao perto não viam nada porque estavam muito longe — por causa daquelas cordas que eles põem. Perguntei ao meu pai para que é que serviam: é para não mexer no que está quieto! Ora bolas!
O meu pai delirou com o teu post do “Portugal no seu melhor”. Daquilo do camião que caiu ao buraco. Disse que se fosse ao Rodrigues Guedes de Carvalho (trata-o por Filho do Mijão) tinha mandado o Santana Lopes ao picheleiro do Pai que até o punha a mijar fininho! Abreviei um pouco o palavreado… um pouco impróprio para os nossos blogues!
Comentou também qualquer coisa do Santana Lopes só ter experiência de cair na Buraca. Eu julgava que ele morava num dos bairros finos de Lisboa. É porque estou enganado.
Olha, estou a ficar com sono. Depois diz qualquer coisa.
João
Mas, o blogue do Ricardo — gostei mesmo muito do nome. Dreamscape Weblog. Como eu gostava de chamar ao nosso. Ou então Mind Trap, ou ScatterGories ou Robotix Wasp. Vê-se logo que não é nenhum adulto. O único adulto capaz de inventar nomes destes era o Anarca. Conheces Ricardo? Vai ver o blogue dele. É tudo — The Final Cut, Funky Politics, Imperial Walls, Cock Suckers Ball, Blow Job Theory — tudo nomes fixes. Já agora tens um post mal escrito: “Gotinha you have mail”. Acho que querias dizer “Goten you have mail”, do Goten Keychain dos Dragonball. Depois corrige.
Assim já não sou o único pré-adolescente dos Weblog.
Além do Anarca o Quiz é outro adulto em quem confiar. Gozou-os de fininho com aquilo dos F-16. Quer dizer, há coisas que são verdade: sou canhoto e sou mesmo eu dentro do Falcon. Mas não fui eu quem estragou aquilo tudo! Tu também os enganaste bem com aquilo do radar: não sei como é que não perceberam que aquilo é um HUD. Muito tempo nos jogos de computador!
Os teus papéis de embrulho têm muita pinta. Estive a mostrar ao meu pai: o camelo tem mesmo pinta! No tom em que o disse, acredita que é melhor que receber o prémio Nobel. Ainda por cima não tens que ir tão longe… só para receber a porcaria de uma medalha.
Aproveitei para lhe dizer que queria ir ao Louvre: só se for a pé! De vez em quando parece que é parvo. Como se o Louvre fosse já ali na esquina. É que não posso perder tempo. Há coisas que temos que ver já ou então não vemos. Ainda outro dia estive a ver uma excursão ao Louvre (ou coisa parecida) no People&Art: tudo velhos! Com os óculos de ver ao longe não conseguiam ver ao perto, com os óculos de ver ao perto não viam nada porque estavam muito longe — por causa daquelas cordas que eles põem. Perguntei ao meu pai para que é que serviam: é para não mexer no que está quieto! Ora bolas!
O meu pai delirou com o teu post do “Portugal no seu melhor”. Daquilo do camião que caiu ao buraco. Disse que se fosse ao Rodrigues Guedes de Carvalho (trata-o por Filho do Mijão) tinha mandado o Santana Lopes ao picheleiro do Pai que até o punha a mijar fininho! Abreviei um pouco o palavreado… um pouco impróprio para os nossos blogues!
Comentou também qualquer coisa do Santana Lopes só ter experiência de cair na Buraca. Eu julgava que ele morava num dos bairros finos de Lisboa. É porque estou enganado.
Olha, estou a ficar com sono. Depois diz qualquer coisa.
João
Terça-feira, Novembro 25, 2003
Problemas Mecânicos?
Isto ontem, andava tudo com problemas mecânicos, pela certa!
Passei lá por casa e dizia o miúdo para o pai:
— Pai, o Anarca deve ter problemas no automóvel! diz que… afinal é auto censura.
— O quê…?!
— É. Onde é que fica a Auto – Censura?
— Grande camelo!
É nisto que metem o puto. Depois vem logo o Animal com a coisa dos F-16. Mete-se onde não é chamado. Se é verdade que o Antunes está à pega, é verdade! Agora, não tem é oficina nenhuma… o Antunes é sucateiro! Grande Animal!
E a Causa das Coisas? (O MEC não tem nada a ver com isto)
O miúdo… pois! Sim, sim, o nosso, pois! Desde sempre. Porque é que julgas que era o pisca esquerdo que estava partido? O puto é canhoto!
Desde os cinco anos que os F-16 lhe servem de brinquedo. Sério. Provas?! O.K..
Um F-16, o miúdo — o próprio, o sacaninha — querem mais? Ao fim de seis anos imaginem o estado em que possa ter ficado.
Ah, que não hajam dúvidas: por baixo do cockpit pode ler-se: F-16A e o SERIAL NUMBER terminado em 47G. Todos os sticks traduzidos em português, É mesmo um dos nossos! Se quiserem saber o Serial Number e o Code Number… não posso dizer, é segredo. Também é segredo que andam lá putos de cinco anos. Também é segredo que temos F-16!
jr.1998©
Quiz
Passei lá por casa e dizia o miúdo para o pai:
— Pai, o Anarca deve ter problemas no automóvel! diz que… afinal é auto censura.
— O quê…?!
— É. Onde é que fica a Auto – Censura?
— Grande camelo!
É nisto que metem o puto. Depois vem logo o Animal com a coisa dos F-16. Mete-se onde não é chamado. Se é verdade que o Antunes está à pega, é verdade! Agora, não tem é oficina nenhuma… o Antunes é sucateiro! Grande Animal!
E a Causa das Coisas? (O MEC não tem nada a ver com isto)
O miúdo… pois! Sim, sim, o nosso, pois! Desde sempre. Porque é que julgas que era o pisca esquerdo que estava partido? O puto é canhoto!
Desde os cinco anos que os F-16 lhe servem de brinquedo. Sério. Provas?! O.K..
Um F-16, o miúdo — o próprio, o sacaninha — querem mais? Ao fim de seis anos imaginem o estado em que possa ter ficado.
Ah, que não hajam dúvidas: por baixo do cockpit pode ler-se: F-16A e o SERIAL NUMBER terminado em 47G. Todos os sticks traduzidos em português, É mesmo um dos nossos! Se quiserem saber o Serial Number e o Code Number… não posso dizer, é segredo. Também é segredo que andam lá putos de cinco anos. Também é segredo que temos F-16!
jr.1998©
Quiz
Segunda-feira, Novembro 24, 2003
Desobediência Civil… in memorian III
Razão da força
Ao fim e ao cabo, a razão prática pela qual, tendo o povo o poder na mão, o entrega a uma maioria, que o conserva durante um longo período, não é porque essa maioria tenha razão, ou porque a minoria o considere justo, mas só porque a maioria dispõe de mais força. Mas um governo em que domina sempre a maioria não pode basear-se na justiça. Não será possível haver um governo em que não sejam as maiorias mas sim a consciência a decidir do que está certo ou errado? Em que as maioria tomem apenas as decisões a que se aplica a regra da oportunidade? Terão os cidadãos, por um momento que seja, mesmo em grau ínfimo, de submeter a sua consciência ao legislador? Eu penso que devemos ser primeiro homens e só depois súbditos. Não é desejável que e cultive o respeito pela lei, tanto quanto o respeito pela justiça. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de, em todas as alturas, fazer o que julgo justo.
Que me lembre quer o estado fascista ou esta democracia — esta protodemocracia este criptofascismo — sempre berraram pela lei e pela ordem. Ora a lei nem sempre é legítima e a ordem não é senão uma desculpa de todo e qualquer poder para o uso e exercício da repressão.
Nunca a lei tornou um homem mais justo; é por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam se tornam todos os dias agentes da injustiça.
dos funcionários públicos… A maior parte dos homens serve o Estado não como homens mas fazendo dos seus corpos máquinas. Eles estão no exército constituído, na milícia, são carcereiros e polícias, são posse comitatus… Na maior parte dos casos, não fazem uso livre da inteligência ou do senso moral; um espantalho feito de pau cumpriria o mesmo objectivo. Não inspiram mais respeito do que um espantalho ou um montão de lixo. Há depois um pequeníssimo número, que inclui heróis, patriotas, mártires, reformadores no bom sentido, e que serve o estado com consciência, opondo-lhe necessariamente resistência, na maior parte dos casos, e sendo por ele considerados inimigos.
A Constituição da República Portuguesa defende que “todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão…”
Todos os homens reconhecem o direito à revolução, isto é, o direito de recusar lealdade e o de resistir ao governo quando a tirania e a ineficiência deste ultrapassam os limites do suportável. Quase todos afirmam que não é esse o caso neste momento.
Uma maioria vale apenas por aquilo que é e nada mais!
Todas as máquinas têm os seus atritos; mas quando é o atrito que cria a máquina, quando esta organiza a opressão (denegação do direito) e a pilhagem (impostos), temos que acabar com uma tal máquina.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Ao fim e ao cabo, a razão prática pela qual, tendo o povo o poder na mão, o entrega a uma maioria, que o conserva durante um longo período, não é porque essa maioria tenha razão, ou porque a minoria o considere justo, mas só porque a maioria dispõe de mais força. Mas um governo em que domina sempre a maioria não pode basear-se na justiça. Não será possível haver um governo em que não sejam as maiorias mas sim a consciência a decidir do que está certo ou errado? Em que as maioria tomem apenas as decisões a que se aplica a regra da oportunidade? Terão os cidadãos, por um momento que seja, mesmo em grau ínfimo, de submeter a sua consciência ao legislador? Eu penso que devemos ser primeiro homens e só depois súbditos. Não é desejável que e cultive o respeito pela lei, tanto quanto o respeito pela justiça. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de, em todas as alturas, fazer o que julgo justo.
Que me lembre quer o estado fascista ou esta democracia — esta protodemocracia este criptofascismo — sempre berraram pela lei e pela ordem. Ora a lei nem sempre é legítima e a ordem não é senão uma desculpa de todo e qualquer poder para o uso e exercício da repressão.
Nunca a lei tornou um homem mais justo; é por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam se tornam todos os dias agentes da injustiça.
dos funcionários públicos… A maior parte dos homens serve o Estado não como homens mas fazendo dos seus corpos máquinas. Eles estão no exército constituído, na milícia, são carcereiros e polícias, são posse comitatus… Na maior parte dos casos, não fazem uso livre da inteligência ou do senso moral; um espantalho feito de pau cumpriria o mesmo objectivo. Não inspiram mais respeito do que um espantalho ou um montão de lixo. Há depois um pequeníssimo número, que inclui heróis, patriotas, mártires, reformadores no bom sentido, e que serve o estado com consciência, opondo-lhe necessariamente resistência, na maior parte dos casos, e sendo por ele considerados inimigos.
A Constituição da República Portuguesa defende que “todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão…”
Todos os homens reconhecem o direito à revolução, isto é, o direito de recusar lealdade e o de resistir ao governo quando a tirania e a ineficiência deste ultrapassam os limites do suportável. Quase todos afirmam que não é esse o caso neste momento.
Uma maioria vale apenas por aquilo que é e nada mais!
Todas as máquinas têm os seus atritos; mas quando é o atrito que cria a máquina, quando esta organiza a opressão (denegação do direito) e a pilhagem (impostos), temos que acabar com uma tal máquina.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Homenagem a António
Parabéns, António, por estes teus 97 anos, tão lindos que são.
Conheci-te há precisamente trinta e cinco, lá longe, tão longe — tão perto — através de um teu Amigo, o Rovisco Pais meu professor de Português.
O Rómulo, coitado, finou-se em 97. Bem que tu dizias:
«Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal
O meu livre arbítrio conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.»
Nessa altura, jovenzinho, ouvia-me a ouvir-te. Aprendia-me.
Tomava-me, tornava-me, preto no branco.
Aula fechada, diáspora, dentro do meu país, dele fora, que nele já não me queria, meu português impregnado do doce silabar xironga, língua Mãeterna.
Rovisco sibilava-nos aquele poema proibido que nos mimetisava e o outro que mimetisava Luiz.
Lágrima de Preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima para analisar.
Recolhi a lágrima
Com todo o cuidado
Num tubo de ensaio
Bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro
nem vestígios de ódio,
água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Poema da Auto-estrada
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.
Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.
Pedro Rodrigues de Miguel
Conheci-te há precisamente trinta e cinco, lá longe, tão longe — tão perto — através de um teu Amigo, o Rovisco Pais meu professor de Português.
O Rómulo, coitado, finou-se em 97. Bem que tu dizias:
«Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal
O meu livre arbítrio conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.»
Nessa altura, jovenzinho, ouvia-me a ouvir-te. Aprendia-me.
Tomava-me, tornava-me, preto no branco.
Aula fechada, diáspora, dentro do meu país, dele fora, que nele já não me queria, meu português impregnado do doce silabar xironga, língua Mãeterna.
Rovisco sibilava-nos aquele poema proibido que nos mimetisava e o outro que mimetisava Luiz.
Lágrima de Preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima para analisar.
Recolhi a lágrima
Com todo o cuidado
Num tubo de ensaio
Bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro
nem vestígios de ódio,
água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Poema da Auto-estrada
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.
Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Novembro 23, 2003
Parabéns!
Primeiro de tudo Parabéns! pelo blogue.
Acho extraordinário. Mais um “sítio para dizer” mais um blogue de “ declarar o que queremos”. Não escondo as duas referências ao nosso blogue.
Frank Zappa: é difícil não gostar, é difícil esquecer.
Como em “Amnésia Vivace”
I'll never forget your ballads
I'll never forget your rat race. In fact I might...
Oh, I suppose I'll forget you eventually
What is your name?
Nice to see you again
Ah, Zappa já deixou descendência, de certo modo à altura — Dweezil Zappa!
Aquilo dos “beijinhos do miúdo” ele respondeu: O meu Diário5… vai ver!
Terra do Nunca I'll never forget What is your name?Nice to see you again já estão no de “AaZedo” nossos Favoritos.
Outro: Estou em dívida! Nunca teria chegado a esta outra excepção — Dreamscape Weblog… obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Acho extraordinário. Mais um “sítio para dizer” mais um blogue de “ declarar o que queremos”. Não escondo as duas referências ao nosso blogue.
Frank Zappa: é difícil não gostar, é difícil esquecer.
Como em “Amnésia Vivace”
I'll never forget your ballads
I'll never forget your rat race. In fact I might...
Oh, I suppose I'll forget you eventually
What is your name?
Nice to see you again
Ah, Zappa já deixou descendência, de certo modo à altura — Dweezil Zappa!
Aquilo dos “beijinhos do miúdo” ele respondeu: O meu Diário5… vai ver!
Terra do Nunca I'll never forget What is your name?Nice to see you again já estão no de “AaZedo” nossos Favoritos.
Outro: Estou em dívida! Nunca teria chegado a esta outra excepção — Dreamscape Weblog… obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Caminhos do Diabo II
os lojistas
Estive a ler o Anarca e, na verdade, o rapaz tem capacidades que a própria capacidade desconhece.
Uma delas é a de por um pobre velho a escrever a esta hora.
É que publicou uns pequenos diamantes sobre o estado de ser e estar dos nossos “lojistas”. E eu tenho andado com vontade de abrir a boca… sobre muito peixe gordo e, principalmente, muito fedelho miúdo!
Mas tenho de discordar daquilo de não lhe parecer de “que para aprender sobre crimes se tenha de os praticar...”
Ele que deixe em paz as sexuais praxes dos nossos “Aprendizes de Bofieiros”. É que pode ter interesse.
Eu explico, com uma pequena rábula:
Passeava Manelinho, cinco anos, tenra idade, a cadelinha no jardim da praça. Dia lindo, primaveril. Já os malmequeres floriam. Laica focinhava aqui e ali, longa guedelha ao vento, sem boina marujo ao lado. A aragem morna trazia nos braços o odor doce do alecrim. Ao longe o polícia de giro não gira… fundos no fundo banco do jardim.
Acerca-se Manelinho:
— Bom dia, senhor guarda.
— Bom dia, meu menino.
— Posso-lhe pedir um favor?
— Com certeza, pois então. É para isso mesmo que vamos para o Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.
— Para onde…?
— É um sítio onde aprendemos muitas coisas.
— E podia-me fazer um favor muito grande?
— Se eu puder!
— Era capaz de mandar uma queca aqui na minha cadelinha, que a coisa que eu mais gostava de ter era… um cão polícia?!
Quiz
Estive a ler o Anarca e, na verdade, o rapaz tem capacidades que a própria capacidade desconhece.
Uma delas é a de por um pobre velho a escrever a esta hora.
É que publicou uns pequenos diamantes sobre o estado de ser e estar dos nossos “lojistas”. E eu tenho andado com vontade de abrir a boca… sobre muito peixe gordo e, principalmente, muito fedelho miúdo!
Mas tenho de discordar daquilo de não lhe parecer de “que para aprender sobre crimes se tenha de os praticar...”
Ele que deixe em paz as sexuais praxes dos nossos “Aprendizes de Bofieiros”. É que pode ter interesse.
Eu explico, com uma pequena rábula:
Passeava Manelinho, cinco anos, tenra idade, a cadelinha no jardim da praça. Dia lindo, primaveril. Já os malmequeres floriam. Laica focinhava aqui e ali, longa guedelha ao vento, sem boina marujo ao lado. A aragem morna trazia nos braços o odor doce do alecrim. Ao longe o polícia de giro não gira… fundos no fundo banco do jardim.
Acerca-se Manelinho:
— Bom dia, senhor guarda.
— Bom dia, meu menino.
— Posso-lhe pedir um favor?
— Com certeza, pois então. É para isso mesmo que vamos para o Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.
— Para onde…?
— É um sítio onde aprendemos muitas coisas.
— E podia-me fazer um favor muito grande?
— Se eu puder!
— Era capaz de mandar uma queca aqui na minha cadelinha, que a coisa que eu mais gostava de ter era… um cão polícia?!
Quiz
Desobediência Civil… in memorian II
Aceito de boamente o lema «O melhor governo é o que menos governa». O governo não deve ser mais que um expediente;
Deve apenas administrar!
O governo, que não é mais que o meio escolhido pelo povo para executar a sua vontade, acaba por ser objecto de abusos e perversões, antes de o povo actuar através dele. Mas isso não o torna menos necessário; porque as pessoas precisam de uma qualquer máquina complicada, precisam de lhe ouvir o estrondo, para satisfazerem a ideia que têm de governo. Os governos são, assim, a demonstração de como os homens impõem facilmente o seu domínio e o impõem em proveito próprio, até mesmo quando o impõem a si próprios. Só por si, o governo nunca favoreceu nenhum empreendimento, a não ser quando decide não se imiscuir no que as pessoas fazem. Não é ele que mantém o país livre. Não educa. É o carácter inerente que faz tudo o que tem sido feito; se o governo não se interpusesse. E, como já foi dito, o governo mais expediente é o que deixa os governados entregues a si próprios… é que conseguem ultrapassar os empecilhos que os legisladores continuamente lhes colocam no caminho.
Não defendo agora a ausência do governo, limito-me a exigir, no imediato, um governo melhor.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Deve apenas administrar!
O governo, que não é mais que o meio escolhido pelo povo para executar a sua vontade, acaba por ser objecto de abusos e perversões, antes de o povo actuar através dele. Mas isso não o torna menos necessário; porque as pessoas precisam de uma qualquer máquina complicada, precisam de lhe ouvir o estrondo, para satisfazerem a ideia que têm de governo. Os governos são, assim, a demonstração de como os homens impõem facilmente o seu domínio e o impõem em proveito próprio, até mesmo quando o impõem a si próprios. Só por si, o governo nunca favoreceu nenhum empreendimento, a não ser quando decide não se imiscuir no que as pessoas fazem. Não é ele que mantém o país livre. Não educa. É o carácter inerente que faz tudo o que tem sido feito; se o governo não se interpusesse. E, como já foi dito, o governo mais expediente é o que deixa os governados entregues a si próprios… é que conseguem ultrapassar os empecilhos que os legisladores continuamente lhes colocam no caminho.
Não defendo agora a ausência do governo, limito-me a exigir, no imediato, um governo melhor.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Sábado, Novembro 22, 2003
O meu Diário 7
Caldo entornado.
A Catarina fez um comentário ao meu Diário: “11 anos??...tão novinho e já usa substâncias psicoactivas ilegais?!?”. Estava à espera de quê?! Que estivesse à espera de chegar à idade dela ou do Anarca para depois fazer figuras tristes?
Pois. O que é que eles percebem do Yu-Gi-Oh? Nada! E se eu estivesse à espera quando lá chegasse estava como eles. E lógico que vou comprar aos chinocas que são bem mais baratas e servem para o mesmo. Ter das outras e depois levar para a Escola para depois sermos gamados é como o meu pai diz: dar pérolas a porcos!
Isto no meu pai também não percebo. Ele que gosta tanto de animais e depois fala nisto de dar pérolas a porcos: coitados ainda se engasgam. E o pior é se a minha Mãe sabe… ia ser do diabo! Apesar que eu desconfio que as pérolas dela também são todas dos chinocas ou então das lojas dos trezentos. Esta também não percebo: chamar a uma loja de coisas baratas, loja dos 300. Se eu tivesse 300 euros nem sabia o que fazer!
Caldo entornado outra vez.
Agora que eu encontrei uns papeis antigos do Pedro, com umas histórias maravilhosas e lhe pedi para as publicar, vieram com essas coisas intelectuais… vamos ter conversa fiada até vir a mulher do Xico, como costuma dizer o meu pai!
João
A Catarina fez um comentário ao meu Diário: “11 anos??...tão novinho e já usa substâncias psicoactivas ilegais?!?”. Estava à espera de quê?! Que estivesse à espera de chegar à idade dela ou do Anarca para depois fazer figuras tristes?
Pois. O que é que eles percebem do Yu-Gi-Oh? Nada! E se eu estivesse à espera quando lá chegasse estava como eles. E lógico que vou comprar aos chinocas que são bem mais baratas e servem para o mesmo. Ter das outras e depois levar para a Escola para depois sermos gamados é como o meu pai diz: dar pérolas a porcos!
Isto no meu pai também não percebo. Ele que gosta tanto de animais e depois fala nisto de dar pérolas a porcos: coitados ainda se engasgam. E o pior é se a minha Mãe sabe… ia ser do diabo! Apesar que eu desconfio que as pérolas dela também são todas dos chinocas ou então das lojas dos trezentos. Esta também não percebo: chamar a uma loja de coisas baratas, loja dos 300. Se eu tivesse 300 euros nem sabia o que fazer!
Caldo entornado outra vez.
Agora que eu encontrei uns papeis antigos do Pedro, com umas histórias maravilhosas e lhe pedi para as publicar, vieram com essas coisas intelectuais… vamos ter conversa fiada até vir a mulher do Xico, como costuma dizer o meu pai!
João
Desobediência Civil… in memorian I
Não há leis razoáveis… isso é um pleonasmo! A Lei é um conjunto de normas que visa o máximo bem estar de vida em sociedade. Uma lei ou é ou não é — e só o é enquanto conforme ao Direito e à Justiça.
…sendo assim, tudo o que fizermos sê-lo-á sem mérito especial por parte de quem as pratica! É-o porque nos legitimamos.
A Ética é um ramo da filosofia, considerada uma ciência social normativa, que se preocupa com as normas da conduta humana. Baseia-se em três princípios básicos de conduta, cada um deles propondo-se atingir o bem máximo: Felicidade, Dever e Perfeição.
A Desobediência Civil é a recusa na obediência à lei tomando, geralmente, a forma de resistência pacífica. Assume três propósitos básicos:
— violar a lei quando esta é considerada injusta
— chamar a atenção para a sua injustiça
— promover a sua abolição ou alteração
No século XX a Desobediência Civil teve como consequência e seu expoente máximo dois episódios:
— Independência da Índia
— Direitos Civis nos Estados Unidos
Estou a escrever em Itálico. O demais, em letra de forma, também é meu, enquanto assimilado e assumido. Fazer resumos, tirar conclusões, derivar, cruzar informações e conhecimentos… as curtas quarenta páginas do original, resumem e projectam-se em séculos de história. Desenraizado do tempo e do momento cai como lança em meio de nós e no nosso meio. Mas respeitei ao máximo o original sem por alguma forma desvirtuar o sentido, mesmo cortando muito do texto e aqui e ali voltando ao meu itálico. Respeitei mesmo a ordem dos textos. Fá-lo-ei em vários artigos. Referências, deixo para o fim que é mais prático.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
…sendo assim, tudo o que fizermos sê-lo-á sem mérito especial por parte de quem as pratica! É-o porque nos legitimamos.
A Ética é um ramo da filosofia, considerada uma ciência social normativa, que se preocupa com as normas da conduta humana. Baseia-se em três princípios básicos de conduta, cada um deles propondo-se atingir o bem máximo: Felicidade, Dever e Perfeição.
A Desobediência Civil é a recusa na obediência à lei tomando, geralmente, a forma de resistência pacífica. Assume três propósitos básicos:
— violar a lei quando esta é considerada injusta
— chamar a atenção para a sua injustiça
— promover a sua abolição ou alteração
No século XX a Desobediência Civil teve como consequência e seu expoente máximo dois episódios:
— Independência da Índia
— Direitos Civis nos Estados Unidos
Estou a escrever em Itálico. O demais, em letra de forma, também é meu, enquanto assimilado e assumido. Fazer resumos, tirar conclusões, derivar, cruzar informações e conhecimentos… as curtas quarenta páginas do original, resumem e projectam-se em séculos de história. Desenraizado do tempo e do momento cai como lança em meio de nós e no nosso meio. Mas respeitei ao máximo o original sem por alguma forma desvirtuar o sentido, mesmo cortando muito do texto e aqui e ali voltando ao meu itálico. Respeitei mesmo a ordem dos textos. Fá-lo-ei em vários artigos. Referências, deixo para o fim que é mais prático.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Asneiras...
Ah, grande sacaninha. Vejam-me só o que o diabo andou a espreitar. Vá lá que a Mãe não viu.
Também para as prendas que lhe oferecem… que “um certo Senhor” lhe oferece; e como ele não se faz rogado.
Aqui vai uma confidência. A tira do Calvin que ele perspegou à porta do quarto, há já uns tempos!
Quiz
Também para as prendas que lhe oferecem… que “um certo Senhor” lhe oferece; e como ele não se faz rogado.
Aqui vai uma confidência. A tira do Calvin que ele perspegou à porta do quarto, há já uns tempos!

Quiz
Sexta-feira, Novembro 21, 2003
O meu Diário 6
Dia feliz. O Alvino e a Catarina responderam-me. A Catarina sempre tem uma casinha e o Alvino resolveu o meu problema dos Diários diários. Afinal os diários podem ser Semanais. É como os jornais.
Vou deixar de chamar Senhor seja a quem for: já é a segunda vez! Depois mando beijinhos e não querem e, indesculpável, não mandei beijinhos para a Catarina. Deve ser uma menina bem bonita. Catarina é nome de uma pessoa bonita…!
Eu sei que o Hobbes é um tigre mas gosto de chamar gato a todos os gatos: sou como o meu pai, mas ele consegue falar com eles.
Aproveitei a sugestão do Alvino e nem esperei por nenhum adulto. Nem tenho tempo. Acabei o treino de hóquei ás 8 horas e cheguei a casa agora: estou a dar uma espreitadela antes que me chamem para jantar. É mesmo fixe e é tudo malta do hóquei. Tenho uma truce e uma coquilha iguaizinhas! E também fazemos xi-xi como eles, para as paredes, mas é só para chatear o Sr. Félix que é o senhor que tem que limpar os balneários. E só fazemos isso nos dias em que ele está chateado e não nos dá os sacos das bolas a tempo de fazermos aquecimento. Tem a mania. Bem se lixa se julga que aquilo é champô de camomila.
Os “Médicos de Saúde Pública” não são médicos, pois não? Pois não, é brincadeira. Então quero inscrever-me na tal Associação Nacional para não ter que tomar banho todos os dias —vou começar a defender os meus direitos — estar sempre a lavaras mãos, cortar as unhas, lavar os dentes e outras actividades desnecessárias.
Tenho que ir jantar.
Aproveito e vou mostrar este blogue à minha Mãe. É a minha hipótese de me libertar da opressão do sabonete.
João
Vou deixar de chamar Senhor seja a quem for: já é a segunda vez! Depois mando beijinhos e não querem e, indesculpável, não mandei beijinhos para a Catarina. Deve ser uma menina bem bonita. Catarina é nome de uma pessoa bonita…!
Eu sei que o Hobbes é um tigre mas gosto de chamar gato a todos os gatos: sou como o meu pai, mas ele consegue falar com eles.
Aproveitei a sugestão do Alvino e nem esperei por nenhum adulto. Nem tenho tempo. Acabei o treino de hóquei ás 8 horas e cheguei a casa agora: estou a dar uma espreitadela antes que me chamem para jantar. É mesmo fixe e é tudo malta do hóquei. Tenho uma truce e uma coquilha iguaizinhas! E também fazemos xi-xi como eles, para as paredes, mas é só para chatear o Sr. Félix que é o senhor que tem que limpar os balneários. E só fazemos isso nos dias em que ele está chateado e não nos dá os sacos das bolas a tempo de fazermos aquecimento. Tem a mania. Bem se lixa se julga que aquilo é champô de camomila.
Os “Médicos de Saúde Pública” não são médicos, pois não? Pois não, é brincadeira. Então quero inscrever-me na tal Associação Nacional para não ter que tomar banho todos os dias —vou começar a defender os meus direitos — estar sempre a lavaras mãos, cortar as unhas, lavar os dentes e outras actividades desnecessárias.
Tenho que ir jantar.
Aproveito e vou mostrar este blogue à minha Mãe. É a minha hipótese de me libertar da opressão do sabonete.
João
O meu Diário 5
Há dias para tudo.
Um senhor chama-me Calvin. É o máximo. E é um Sem Abrigo, ou lá como se chama, coitado! E um pouco analfabeto porque 100 é cem não é sem. Mas a Zelinha, a empregada lá da Escola, também só tem a 4ª Classe e dá erros e é a melhor pessoa que eu conheço.
Por falar em escola hoje é dia de greve dos professores: já sabia isso ontem que fomos avisados. Mas tive de zarpar da cama na mesma. Fui com a minha Mãe e passei na Escola. Os professores devem ser analfabetos. Nada de cadeados. Mas que greve é esta?
Se eu fosse sozinho e não tivesse sido avisado como é que sabia que havia greve?
Pois… lá teria que estar a Zelinha para nos dizer as coisas.
O Senhor da Terra do Capitão Gancho respondeu-me. Fixe. Só não gostou dos beijinhos. Estes adultos levam tudo tão a sério. Pronto, é uma forma de dizer! jmf@?! Sabia lá se era homem ou mulher. Às vezes dizemos beijinhos para o cão, beijinhos para o gato, beijinhos para o moleque — isto é na língua da terra do meu pai e daquele meu amigo que é Escritor e se o meu pai me apanha a dizer “na língua da terra dele” estou a levar no carolo! é muito esquisito com isso de língua, línguas dialecto, lusofonia, lusofonias, estão a ver a confusão que vai aqui nesta cabeça — e é só uma maneira de dizer. Resumindo: tenho 11 anos e meio e jogo hóquei há nove e estou federado à quatro. Sou defesa-médio e como porrada de criar bicho. Os meus ídolos são o Pedro Alves e um senhor que nunca conheci que acho que treinou o meu pai, o Fernando Adrião. Os dois jogadores mais internacionais de Portugal. Fui treinado pelo Carlos Realista (Portugal) e pelo Luís Teixidó (Espanha). Tenho que ter vergonha de quê?
Finalmente: um Diário não tem que ser diário! Eu sabia. Vejamos: disseram-me que isto vem de Web + Log = Weblog. Depois deu (We)blog e em português Blogue. Log em inglês é o registo de uma viagem como a caderneta de voo de um avião. Ora só se regista na caderneta de voo quando se vai voar. Logo não se regista todos os dias. Logo só quando o faço é que é o Diário. Logo o Diário não é todos os dias. Fui mostrar isto ao meu pai e ele diz que isto é mas é um Sofisma. Logo fiquei confundido! Nem fui ao dicionário. O Pedro deu-me uma ajuda(?!): disse que se eu usar o princípio do terceiro excluído essas coisas já não acontecem. Acho que já vi isso no blogue do Senhor Anarca. Um dia escrevo-lhe!
Voltando ao Calvin. É um dos meus heróis preferidos. Não demora a ler. É em bonecos. Tem um gato, ainda por cima grande. E aventuras todos os dias. E vem na última página, não é preciso andar à procura. Uma vez copiei da net uma tira e afixei na porta do meu quarto. A minha Mãe foi aos arames. Felizmente tive o apoio incondicional do meu pai. O Quiz disse que não era de esperar outra coisa. Gostava de publicar mas não sei como. Mesmo para os Adultos acho que era útil. O meu pai chama-lhe Terapia Cognitiva Comportamental. Eu acho que é Um Gozo do Caraças.
João
Um senhor chama-me Calvin. É o máximo. E é um Sem Abrigo, ou lá como se chama, coitado! E um pouco analfabeto porque 100 é cem não é sem. Mas a Zelinha, a empregada lá da Escola, também só tem a 4ª Classe e dá erros e é a melhor pessoa que eu conheço.
Por falar em escola hoje é dia de greve dos professores: já sabia isso ontem que fomos avisados. Mas tive de zarpar da cama na mesma. Fui com a minha Mãe e passei na Escola. Os professores devem ser analfabetos. Nada de cadeados. Mas que greve é esta?
Se eu fosse sozinho e não tivesse sido avisado como é que sabia que havia greve?
Pois… lá teria que estar a Zelinha para nos dizer as coisas.
O Senhor da Terra do Capitão Gancho respondeu-me. Fixe. Só não gostou dos beijinhos. Estes adultos levam tudo tão a sério. Pronto, é uma forma de dizer! jmf@?! Sabia lá se era homem ou mulher. Às vezes dizemos beijinhos para o cão, beijinhos para o gato, beijinhos para o moleque — isto é na língua da terra do meu pai e daquele meu amigo que é Escritor e se o meu pai me apanha a dizer “na língua da terra dele” estou a levar no carolo! é muito esquisito com isso de língua, línguas dialecto, lusofonia, lusofonias, estão a ver a confusão que vai aqui nesta cabeça — e é só uma maneira de dizer. Resumindo: tenho 11 anos e meio e jogo hóquei há nove e estou federado à quatro. Sou defesa-médio e como porrada de criar bicho. Os meus ídolos são o Pedro Alves e um senhor que nunca conheci que acho que treinou o meu pai, o Fernando Adrião. Os dois jogadores mais internacionais de Portugal. Fui treinado pelo Carlos Realista (Portugal) e pelo Luís Teixidó (Espanha). Tenho que ter vergonha de quê?
Finalmente: um Diário não tem que ser diário! Eu sabia. Vejamos: disseram-me que isto vem de Web + Log = Weblog. Depois deu (We)blog e em português Blogue. Log em inglês é o registo de uma viagem como a caderneta de voo de um avião. Ora só se regista na caderneta de voo quando se vai voar. Logo não se regista todos os dias. Logo só quando o faço é que é o Diário. Logo o Diário não é todos os dias. Fui mostrar isto ao meu pai e ele diz que isto é mas é um Sofisma. Logo fiquei confundido! Nem fui ao dicionário. O Pedro deu-me uma ajuda(?!): disse que se eu usar o princípio do terceiro excluído essas coisas já não acontecem. Acho que já vi isso no blogue do Senhor Anarca. Um dia escrevo-lhe!
Voltando ao Calvin. É um dos meus heróis preferidos. Não demora a ler. É em bonecos. Tem um gato, ainda por cima grande. E aventuras todos os dias. E vem na última página, não é preciso andar à procura. Uma vez copiei da net uma tira e afixei na porta do meu quarto. A minha Mãe foi aos arames. Felizmente tive o apoio incondicional do meu pai. O Quiz disse que não era de esperar outra coisa. Gostava de publicar mas não sei como. Mesmo para os Adultos acho que era útil. O meu pai chama-lhe Terapia Cognitiva Comportamental. Eu acho que é Um Gozo do Caraças.
João
Bom Senso
Confia no bom senso?
É tudo o que se pode fazer, confiar. Há poucas razões para pensar que as pessoas pendem instintivamente para a igualdade e para a liberdade. O mesmo indivíduo pode tornar-se um soldado das SS ou um santo. Isso depende das circunstâncias e das escolhas pessoais.
Noam Chomsky – Duas Horas de Lucidez
Acabada de criar a Associação de Radicais Pela Ética - Simplicidade e Bom Senso com princípios éticos mínimos para um convívio saudável entre primatas, ou regras básicas para nos distinguirmos de símios, invertebrados e outros bichos.
Aqui o primata adere.
Parece que é a primeira adesão… afora os antropóides “da Origem das Espécies”.
… onde é que eu já vi este Título?!
Quiz
É tudo o que se pode fazer, confiar. Há poucas razões para pensar que as pessoas pendem instintivamente para a igualdade e para a liberdade. O mesmo indivíduo pode tornar-se um soldado das SS ou um santo. Isso depende das circunstâncias e das escolhas pessoais.
Noam Chomsky – Duas Horas de Lucidez
Acabada de criar a Associação de Radicais Pela Ética - Simplicidade e Bom Senso com princípios éticos mínimos para um convívio saudável entre primatas, ou regras básicas para nos distinguirmos de símios, invertebrados e outros bichos.
Aqui o primata adere.
Parece que é a primeira adesão… afora os antropóides “da Origem das Espécies”.
… onde é que eu já vi este Título?!
Quiz
O meu Diário 4
Ontem quando fui dar um beijo ao meu pai para me ir deitar ele estava a ver um vídeo e uma senhora e um senhor estavam a falar. Dizia ela:
— E agora fumas erva… usar substâncias psicoactivas ilegais é dar um exemplo óptimo à nossa filha.
— Olha quem fala, tu que só sabes pensar em dinheiro.
O meu pai diz que aquele filme “Beleza Americana” é uma beleza. Redundante (palavra nova). E é a primeira vez nos últimos tempos que ele liga a palavra Americana com qualquer coisa parecido que seja com beleza. Estava sempre a andar para trás e para a frente para ouvir as conversas. Era para “observar as personalidades”?! que é isso?
Acho que sou parecido com o tal senhor. Também não penso muito no dinheiro. Também não tenho. E perguntei ao meu pai o que são substâncias psicoactivas: são as que alteram o comportamento! Então eu sou mesmo igual ao tal senhor. Eu uso substâncias psicoactivas ilegais. E aquele Senhor Anarca Constipado (é feio chamar-lhe Ranhoso como eu já vi) quando souber também vai querer que eu lhe arranje das minhas. É certo. Mas agora já temos caixa para comentários e ele pode aproveitar e deixar lá o pedido das ditas substâncias psicoactivas ilegais. Tenho pelo menos duas diferentes: o Fighting Robot e outra (não me lembro do nome) que alteram os efeitos e absorvem e destroem o interior, mas são ilegais (isso digo eu) porque são arranjadas nos chinocas. As que são mesmo boas vêm da América… toda a gente sabe! Excepto o meu pai.
Já há uns dias que não escrevia o meu diário. Continuo a não perceber porque é que se chama diário a uma coisa que não se escreve todos os dias. Fui ao dicionário. Diário são sempre coisas que se faz todos os dias, excepto caderno escolar. Tenho cadernos que não levo todos os dias. Até os dicionários têm erros. Vou escrever para a Porto Editora. A seguir vem Diarista e depois caguei-me a rir (desculpem) porque a palavra a seguir é Diarreia: julgava que coisas dessas não vinham no dicionário. Aproveitei e descobri que vêm uma quantidade de outras.
O dia começou mal mas também há coisas boas.
No Terra do Nunca falam de mim: puto de 10 anos! Não sou puto que já tenho mais de 10 anos tenho 11 e por isso sou pré-adolescente. Mas muito obrigado por escrever aquela coisa bonita no seu blogue.
Chamo-me João Miguel (jmr) e o Senhor (jmf) por isso temos os nomes quase iguais. Engraçado. E o nome do blogue também. Agora é que não está muito na moda. Por causa do Peter Pan, do Michael Jackson e dos… os coisos, sabe! Mas eu também gostei sempre muito mais do Capitão Gancho. Até há aquela anedota, e tudo, que ele morreu a coçar os… sabe!? Aqui não posso contar. Achei estranho aquele nome que está em cima: Neil Young. Julgava que fosse o seu nome mas não bate com as iniciais; ou então uma alcunha quando era jovem (Young, já aprendi em Inglês).
Oh meu grande idiota! – uma observação destas feita pelo meu pai quer dizer que estou redondamente enganado. Mas quando lhe vi aquele brilho nos olhos… vi que valia a pena sentar-me no sofá e ouvir:
Neil Young! ele diz aquele ei, assim arrastado. Vi-o a primeira vez em 70 no filme do Woodstock. Menos de um ano depois do festival. Ele ainda nem pertencia ao grupo – Crosby, Still, Nash and Young. Foi lá que eles se formaram, assim, de improviso.
E começou a dizer nomes, alguns nem percebi, e lembro-me de Santana e Joe Cocker. E eu a julgar que eles eram de agora. Afinal já são velhos.
Tenho que agradecer uma coisa ao Senhor (jmf): o meu pai desalapou do sofá, pegou na Mellody Folk dele, afinou as seis cordas e… tocou uma coisa chamada Harvest. Nem sabia que ele tocava assim. Será por isso que ele me dá aquelas rabecadas sobre teoria musical? Será por isso que outro dia berrava da cozinha: Mikki (ele chama-me assim), essa merda é um Lá não é um Dó – e não estava a ver o violino! Estou a ficar velho e acho que perdi anos de vida. Tenho que dar mais apoio ao meu pai. Decidi começar logo:
— Pai, se tocar todos os dias vai ver que fica como o Jimi Hendrix.
Pior a emenda que o soneto: se tivesses juízo e um pouco mais de cultura não dizias tanta asneira.
Devia ser proibido sermos sujeitos a este tipo de violência. Por acaso há agora uma Dona Dulce-qualquer-coisa que quer proibir e punir os castigos corporais. Aproveitei logo para falar com o meu pai.
Ele diz que há muitas gajas (os termos são dele) que em vez de estarem no Ministério do Trabalho deviam estar era a trabalhar, a limpar as matas, por exemplo, que bem é preciso. Há muita falta de mão-de-obra na lavoura. Assim já não tínhamos que pagar a gasolina e as portagens mais caras por causa dos incêndios. Ou então a “pôr as perninhas a correr” que já ganhavam mais uns dinheirinhos e ajudavam no PIB. Não sei o que é o PIB. Mas também não estou a ver que se as senhoras começarem todas a correr comecem a levar mais dinheiro para casa. Amanhã resolvo o caso: pergunto à Setôra de Inglês, que ainda é jovem, se acha que se pusesse as perninhas a correr se levava mais algum dinheiro para casa. E depois pergunto às Mães de alguns dos meus amigos. Pronto!
A coisa da gasolina é que… desconfio que vou ter problemas na Adolescência.
Se por causa dos incêndios vai aumentar o preço da gasolina é porque gastaram muita gasolina para queimar aquela mata toda. Ora se o meu pai diz da GNR ter ido para o Iraque que quer que eles se f…., então daqui a dois ou três anos quando eu for Adolescente, os preservativos devem estar caríssimos. E isso é que é um problema!
Voltando à Dona Dulce-qualquer-coisa e às palmadas nas crianças o meu pai nem consegue raciocinar. Disse que ela tendo sido do ministério público (aqui fiquei confundido — ela é do Trabalho ou do Público?) e depois: foi uma enfiada de asneiras que eu tive que lhe dizer que tivesse tento na língua. Aprendi com o meu avô que me começou a dizer o mesmo logo a seguir a eu entrar para a 1ª Classe. Estão a ver porquê?!
Mais calmo disse: se essa senhora desconhece a Constituição da República Portuguesa tenho pena, se não sabe da utilidade de um crime público/ semi-público/ privado mandem-na para a faculdade, se desconhece que Portugal não acolhe lei preventiva mandem-na para o Liceu para aprender o significado, se não sabe ler relatórios mandem-na para a Escola Primária, se é mais uma daquelas que confunde autonomia com independência mandem-na à p… e citou um Senhor Almirante de quem muito gostou!
Vou-me deitar.
João
— E agora fumas erva… usar substâncias psicoactivas ilegais é dar um exemplo óptimo à nossa filha.
— Olha quem fala, tu que só sabes pensar em dinheiro.
O meu pai diz que aquele filme “Beleza Americana” é uma beleza. Redundante (palavra nova). E é a primeira vez nos últimos tempos que ele liga a palavra Americana com qualquer coisa parecido que seja com beleza. Estava sempre a andar para trás e para a frente para ouvir as conversas. Era para “observar as personalidades”?! que é isso?
Acho que sou parecido com o tal senhor. Também não penso muito no dinheiro. Também não tenho. E perguntei ao meu pai o que são substâncias psicoactivas: são as que alteram o comportamento! Então eu sou mesmo igual ao tal senhor. Eu uso substâncias psicoactivas ilegais. E aquele Senhor Anarca Constipado (é feio chamar-lhe Ranhoso como eu já vi) quando souber também vai querer que eu lhe arranje das minhas. É certo. Mas agora já temos caixa para comentários e ele pode aproveitar e deixar lá o pedido das ditas substâncias psicoactivas ilegais. Tenho pelo menos duas diferentes: o Fighting Robot e outra (não me lembro do nome) que alteram os efeitos e absorvem e destroem o interior, mas são ilegais (isso digo eu) porque são arranjadas nos chinocas. As que são mesmo boas vêm da América… toda a gente sabe! Excepto o meu pai.
Já há uns dias que não escrevia o meu diário. Continuo a não perceber porque é que se chama diário a uma coisa que não se escreve todos os dias. Fui ao dicionário. Diário são sempre coisas que se faz todos os dias, excepto caderno escolar. Tenho cadernos que não levo todos os dias. Até os dicionários têm erros. Vou escrever para a Porto Editora. A seguir vem Diarista e depois caguei-me a rir (desculpem) porque a palavra a seguir é Diarreia: julgava que coisas dessas não vinham no dicionário. Aproveitei e descobri que vêm uma quantidade de outras.
O dia começou mal mas também há coisas boas.
No Terra do Nunca falam de mim: puto de 10 anos! Não sou puto que já tenho mais de 10 anos tenho 11 e por isso sou pré-adolescente. Mas muito obrigado por escrever aquela coisa bonita no seu blogue.
Chamo-me João Miguel (jmr) e o Senhor (jmf) por isso temos os nomes quase iguais. Engraçado. E o nome do blogue também. Agora é que não está muito na moda. Por causa do Peter Pan, do Michael Jackson e dos… os coisos, sabe! Mas eu também gostei sempre muito mais do Capitão Gancho. Até há aquela anedota, e tudo, que ele morreu a coçar os… sabe!? Aqui não posso contar. Achei estranho aquele nome que está em cima: Neil Young. Julgava que fosse o seu nome mas não bate com as iniciais; ou então uma alcunha quando era jovem (Young, já aprendi em Inglês).
Oh meu grande idiota! – uma observação destas feita pelo meu pai quer dizer que estou redondamente enganado. Mas quando lhe vi aquele brilho nos olhos… vi que valia a pena sentar-me no sofá e ouvir:
Neil Young! ele diz aquele ei, assim arrastado. Vi-o a primeira vez em 70 no filme do Woodstock. Menos de um ano depois do festival. Ele ainda nem pertencia ao grupo – Crosby, Still, Nash and Young. Foi lá que eles se formaram, assim, de improviso.
E começou a dizer nomes, alguns nem percebi, e lembro-me de Santana e Joe Cocker. E eu a julgar que eles eram de agora. Afinal já são velhos.
Tenho que agradecer uma coisa ao Senhor (jmf): o meu pai desalapou do sofá, pegou na Mellody Folk dele, afinou as seis cordas e… tocou uma coisa chamada Harvest. Nem sabia que ele tocava assim. Será por isso que ele me dá aquelas rabecadas sobre teoria musical? Será por isso que outro dia berrava da cozinha: Mikki (ele chama-me assim), essa merda é um Lá não é um Dó – e não estava a ver o violino! Estou a ficar velho e acho que perdi anos de vida. Tenho que dar mais apoio ao meu pai. Decidi começar logo:
— Pai, se tocar todos os dias vai ver que fica como o Jimi Hendrix.
Pior a emenda que o soneto: se tivesses juízo e um pouco mais de cultura não dizias tanta asneira.
Devia ser proibido sermos sujeitos a este tipo de violência. Por acaso há agora uma Dona Dulce-qualquer-coisa que quer proibir e punir os castigos corporais. Aproveitei logo para falar com o meu pai.
Ele diz que há muitas gajas (os termos são dele) que em vez de estarem no Ministério do Trabalho deviam estar era a trabalhar, a limpar as matas, por exemplo, que bem é preciso. Há muita falta de mão-de-obra na lavoura. Assim já não tínhamos que pagar a gasolina e as portagens mais caras por causa dos incêndios. Ou então a “pôr as perninhas a correr” que já ganhavam mais uns dinheirinhos e ajudavam no PIB. Não sei o que é o PIB. Mas também não estou a ver que se as senhoras começarem todas a correr comecem a levar mais dinheiro para casa. Amanhã resolvo o caso: pergunto à Setôra de Inglês, que ainda é jovem, se acha que se pusesse as perninhas a correr se levava mais algum dinheiro para casa. E depois pergunto às Mães de alguns dos meus amigos. Pronto!
A coisa da gasolina é que… desconfio que vou ter problemas na Adolescência.
Se por causa dos incêndios vai aumentar o preço da gasolina é porque gastaram muita gasolina para queimar aquela mata toda. Ora se o meu pai diz da GNR ter ido para o Iraque que quer que eles se f…., então daqui a dois ou três anos quando eu for Adolescente, os preservativos devem estar caríssimos. E isso é que é um problema!
Voltando à Dona Dulce-qualquer-coisa e às palmadas nas crianças o meu pai nem consegue raciocinar. Disse que ela tendo sido do ministério público (aqui fiquei confundido — ela é do Trabalho ou do Público?) e depois: foi uma enfiada de asneiras que eu tive que lhe dizer que tivesse tento na língua. Aprendi com o meu avô que me começou a dizer o mesmo logo a seguir a eu entrar para a 1ª Classe. Estão a ver porquê?!
Mais calmo disse: se essa senhora desconhece a Constituição da República Portuguesa tenho pena, se não sabe da utilidade de um crime público/ semi-público/ privado mandem-na para a faculdade, se desconhece que Portugal não acolhe lei preventiva mandem-na para o Liceu para aprender o significado, se não sabe ler relatórios mandem-na para a Escola Primária, se é mais uma daquelas que confunde autonomia com independência mandem-na à p… e citou um Senhor Almirante de quem muito gostou!
Vou-me deitar.
João
Quarta-feira, Novembro 19, 2003
Genes, Gémeos, Génios e outros Géneros II
Pego num livro ao acaso, algo que me acalme.
«— Mas porque é que não haveria de querer que.
— Não faças demasiadas perguntas. O Abade disse-me desde o início que na biblioteca não se toca…» (Umberto Eco — in O Nome da Rosa)
O velhote ainda dorme. Se me apanha num pecadilho destes… é verdade, raro respondo, seria a zombaria ad eternum! Alea jacta est.
Mas a minha Liberdade não termina onde começa a liberdade dos outros e não sei quem foi o oligofrénico — idiota, para ser mais preciso — que inventou a dita “máxima”. Nem é inédito. Sei agora que Bakunin escreveu: “a liberdade dos outros, longe de negar ou limitar a minha liberdade, é, pelo contrário, a sua premissa necessária e a sua confirmação”.
E é esta liberdade de crítica e bocas do AlVino que se torna a minha própria liberdade. Chomsky considera a liberdade de expressão um truísmo. E é. E é com esta sua “ousadia” que o atiro para os “de AaZedo” (vd. Contactos, ou lá como se chama isso na net…!).
Quanto a referências já é outra coisa. Quando publiquei o poema do Brel fi-lo apenas por gosto. E Brel, é Brel. Nem me passou pela cabeça qualquer necessidade de referência. Já se me chatearem muito, e é preciso muito, grave e especialmente, farei uma citação e respectiva referência:
P… que os pariu! (cf. Alm. Pinheiro de Azevedo, Terreiro do Paço, 9.Nov.1975)
… e cito de cor.
Copy/Past: leio em papel, escrevo em papel, a lápis a mais das vezes, passo para Word e… muito mais não sei. Sei outras coisas! Estamos combinados. É que as minhas referências estão aqui à volta em livros e mais livros e é difícil fazer “aquilo” de um livro para dentro da pantalha. Nunca tentei!
Voltando às “máximas”. Há coisa de dias ouvi na TV o Manuel Serrão a falar (… a apresentar!) «O meu Pipi» — o livro — que tinha umas asneiras, mas muito bem escrito e que a excepção confirma a regra. O Pipi ainda hoje se deve encontrar com uma oligoastenospermia, o pai Daniel a dizer “eh, o Manel lá anda”, e assim! Coitado!
Dizia o Prof. Doutor Sobrinho Simões que só um idiota pode afirmar que a excepção confirma a regra. Há mais de vinte e cinco anos. Sobrinho Simões, pai do Manuel que há pouco recebeu o Prémio Pessoa 2002. Este na altura era Assistente de Daniel Serrão, pai do idiota acima referido.
Deixo aqui o meu preito de gratidão e memória ao Prof. Doutor Manuel Sobrinho Simões, pai. Um dos Homens mais justos, escorreitos e mais mal amados e compreendidos na Universidade do Porto. Lembro só quem sempre o lembrou: Hans Krebs, Prémio Nobel da Medicina, com quem trabalhou, falecido em 1981, perguntava sempre aos amigos portugueses que o visitassem — and Manoel?!
Ainda hoje sei o Ciclo de Krebs, ensinado por Sobrinho Simões.
Isto também é liberdade.
Ainda não tive tempo para ler as duas páginas, em letra miudinha, que tirei sobre Cenas do Futuro. Mas vou ler…
Pedro Rodrigues de Miguel
«— Mas porque é que não haveria de querer que.
— Não faças demasiadas perguntas. O Abade disse-me desde o início que na biblioteca não se toca…» (Umberto Eco — in O Nome da Rosa)
O velhote ainda dorme. Se me apanha num pecadilho destes… é verdade, raro respondo, seria a zombaria ad eternum! Alea jacta est.
Mas a minha Liberdade não termina onde começa a liberdade dos outros e não sei quem foi o oligofrénico — idiota, para ser mais preciso — que inventou a dita “máxima”. Nem é inédito. Sei agora que Bakunin escreveu: “a liberdade dos outros, longe de negar ou limitar a minha liberdade, é, pelo contrário, a sua premissa necessária e a sua confirmação”.
E é esta liberdade de crítica e bocas do AlVino que se torna a minha própria liberdade. Chomsky considera a liberdade de expressão um truísmo. E é. E é com esta sua “ousadia” que o atiro para os “de AaZedo” (vd. Contactos, ou lá como se chama isso na net…!).
Quanto a referências já é outra coisa. Quando publiquei o poema do Brel fi-lo apenas por gosto. E Brel, é Brel. Nem me passou pela cabeça qualquer necessidade de referência. Já se me chatearem muito, e é preciso muito, grave e especialmente, farei uma citação e respectiva referência:
P… que os pariu! (cf. Alm. Pinheiro de Azevedo, Terreiro do Paço, 9.Nov.1975)
… e cito de cor.
Copy/Past: leio em papel, escrevo em papel, a lápis a mais das vezes, passo para Word e… muito mais não sei. Sei outras coisas! Estamos combinados. É que as minhas referências estão aqui à volta em livros e mais livros e é difícil fazer “aquilo” de um livro para dentro da pantalha. Nunca tentei!
Voltando às “máximas”. Há coisa de dias ouvi na TV o Manuel Serrão a falar (… a apresentar!) «O meu Pipi» — o livro — que tinha umas asneiras, mas muito bem escrito e que a excepção confirma a regra. O Pipi ainda hoje se deve encontrar com uma oligoastenospermia, o pai Daniel a dizer “eh, o Manel lá anda”, e assim! Coitado!
Dizia o Prof. Doutor Sobrinho Simões que só um idiota pode afirmar que a excepção confirma a regra. Há mais de vinte e cinco anos. Sobrinho Simões, pai do Manuel que há pouco recebeu o Prémio Pessoa 2002. Este na altura era Assistente de Daniel Serrão, pai do idiota acima referido.
Deixo aqui o meu preito de gratidão e memória ao Prof. Doutor Manuel Sobrinho Simões, pai. Um dos Homens mais justos, escorreitos e mais mal amados e compreendidos na Universidade do Porto. Lembro só quem sempre o lembrou: Hans Krebs, Prémio Nobel da Medicina, com quem trabalhou, falecido em 1981, perguntava sempre aos amigos portugueses que o visitassem — and Manoel?!
Ainda hoje sei o Ciclo de Krebs, ensinado por Sobrinho Simões.
Isto também é liberdade.
Ainda não tive tempo para ler as duas páginas, em letra miudinha, que tirei sobre Cenas do Futuro. Mas vou ler…
Pedro Rodrigues de Miguel
Laranja Mecânica
«A história vem de longe.
…O local era sombrio, um gabinete na cave do palácio, e imperava a regra de ouro do filtro a duas cores: quem lá fosse tinha garantida alguma informação “verde”, em “on”, passível de transmissão; mas sempre entremeada com laivos “ vermelhos”, em “off”, só para “background”, que nunca poderia passar para a opinião pública. No entretanto, os deputados da maioria recebiam instruções para dizer pouco ou quase nada. Porque Pacheco Pereira seria o divulgador por excelência, atento às conveniências do momento. E os seus “offs” não deveriam ser furados por ninguém.
O esquema falhou… Ainda o encontro experimental ia no adro […] quando um jornalista veterano da Assembleia se agastou: “Eu peço muita desculpa, mas tenho uma página de jornal para encher e não posso estar aqui a perder tempo com estas coisas.”A morte dos “briefings” estava anunciada.
Dois anos passaram…
…O desejo, cíclico, volta a atacar.»
(Ângela Silva – Público, 25.03.1993, pág. 6)
Dava seis vinténs pelo gosto que a Charlotte me proporcionou. Dava até a Lua, como diria Maugham — jogo de palavras, apenas, com o original «The Moon and sixpence» e o título em português.
Pergunta: “O que eu quero agora saber é a que filme pertence o Abrupto”.
Oh, tão fácil, mas não vem no teste.
Resposta: A Clockwork Orange (Laranja Mecânica) de Kubrick
O título controverso do filme e outros nomes no filme têm um certo significado. O título alude a:
— um "clockwork" (mecânico, artificial, robótico) ser humano ("orange" - parecido com orang-utan, criatura antropóide peluda)
— a frase Cockney do East London, "as queer as a clockwork orange" — indica algo interiormente bizarro, mas parecendo naturalmente humano e superficialmente normal.
O cartaz aponta para os temas da violência num estado policial, delinquência juvenil, control tecnológico e desumanização.
Aventuras de um jovem cujos principais interesses são a violação, a ultra-violência e Beethoven.
O Ludwig van que me desculpe.
Pedro Rodrigues de Miguel
…O local era sombrio, um gabinete na cave do palácio, e imperava a regra de ouro do filtro a duas cores: quem lá fosse tinha garantida alguma informação “verde”, em “on”, passível de transmissão; mas sempre entremeada com laivos “ vermelhos”, em “off”, só para “background”, que nunca poderia passar para a opinião pública. No entretanto, os deputados da maioria recebiam instruções para dizer pouco ou quase nada. Porque Pacheco Pereira seria o divulgador por excelência, atento às conveniências do momento. E os seus “offs” não deveriam ser furados por ninguém.
O esquema falhou… Ainda o encontro experimental ia no adro […] quando um jornalista veterano da Assembleia se agastou: “Eu peço muita desculpa, mas tenho uma página de jornal para encher e não posso estar aqui a perder tempo com estas coisas.”A morte dos “briefings” estava anunciada.
Dois anos passaram…
…O desejo, cíclico, volta a atacar.»
(Ângela Silva – Público, 25.03.1993, pág. 6)
Dava seis vinténs pelo gosto que a Charlotte me proporcionou. Dava até a Lua, como diria Maugham — jogo de palavras, apenas, com o original «The Moon and sixpence» e o título em português.
Pergunta: “O que eu quero agora saber é a que filme pertence o Abrupto”.
Oh, tão fácil, mas não vem no teste.
Resposta: A Clockwork Orange (Laranja Mecânica) de Kubrick
O título controverso do filme e outros nomes no filme têm um certo significado. O título alude a:
— um "clockwork" (mecânico, artificial, robótico) ser humano ("orange" - parecido com orang-utan, criatura antropóide peluda)
— a frase Cockney do East London, "as queer as a clockwork orange" — indica algo interiormente bizarro, mas parecendo naturalmente humano e superficialmente normal.
O cartaz aponta para os temas da violência num estado policial, delinquência juvenil, control tecnológico e desumanização.
Aventuras de um jovem cujos principais interesses são a violação, a ultra-violência e Beethoven.
O Ludwig van que me desculpe.
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Novembro 18, 2003
Genes, Gémeos, Génios e outros Géneros I
A curiosidade não é outra coisa que o choque violento e imprevisto do modo de pensar comum a todos os homens com o que cada um crê exclusivo do próprio indivíduo. Fazer rir é uma arte; é uma ciência; questão de centigramas e centigraus; observação de doses e temperaturas: o enxofre ferve a 444º; o álcool solidifica-se a 130º abaixo de zero. Se não se respeitam estas cifras, o fenómeno não se verifica: é inútil tentar; ao passo que os poetas escrevem as suas melhores coisas quando são novos, os humoristas é quando já não o são, ou seja, quando o ímpeto é substituído pela medida: Mark Twain e Tristan Bernard escreveram aos sessenta anos as suas páginas mais felizes.
… Pitigrilli dixit.
Pedro Rodrigues de Miguel
… Pitigrilli dixit.
Pedro Rodrigues de Miguel
Caminhos do Diabo I
o contrário de fé
"Pergunta: qual é o contrário de fé?
Não é a descrença. Demasiado definitiva, segura, fechada. Ela própria uma espécie de fé.
A dúvida.
…E pronto, acabaram-se os protestos, tomem lá as auréolas, voltem ao trabalho. Os anjos são fáceis de pacificar; basta transformá-los em instrumentos e eles tocam logo a música de harpa que se lhes pedir. Os seres humanos são mais duros de roer, conseguem duvidar de tudo, até da evidência dos seus próprios olhos."
Aguardei doze anos para abraçar e ouvir o Homem da fatwa mas não perderei um segundo com as cogitabundas coprolalias de uns Portas, Paulos ou Migueis, ou outros Lopes. Lembram-me as repúblicas populares e as repúblicas democráticas disto e daquilo. Quanto mais se diziam…!
Tenho por demais respeito pela Monarquia para cair no papo de aldrabões. Estou como o Pedro costuma dizer: matematicamente a coisa mais parecida com uma an-Arquia é uma mono-Arquia. E já que não posso ter uma…
O Império acabou. E agora? O Professor Agostinho da Silva explicava bem o conceito de federação de repúblicas democráticas da nossa monarquia. Mas aos republicanos e à República sempre muito conveio o conceito de democracia de Atenas, do que Atenas foi como democracia, ou seja… Coisa nenhuma! Havia uns tantos que eram homens livres e podiam governar. Mas a maioria da população era de estrangeiros e escravos que não tinham nada a ver com aquela democracia. Como aqui e agora.
Agora o nosso fedelho. É um puto excepcional. Conheço bem o pai e é pena que, como diz o miúdo, não desalape do sofá. Nunca se vai aproximar de um blogue, de certeza. Isso bem queríamos. Tem uma cultura brilhante. Mas passamos muito do tempo lá em casa, às noites, e tantas e tantas das coisas dele já aqui estão metidas. Aquilo dos “camelos” é redundante: com uma única palavra martiriza ou eleva aos píncaros! E o fedelho apanhou-lha bem. Conheci o pai toda a vida, desde bebé. Lembro-me como se ainda fora hoje, no início dos anos setenta, ele com catorze, quinze ou dezasseis anos, como o Pedro, e três grandes ícones que o acompanharam em três grandes posters junto à cama: Hendrix, Joplin e Clapton. De uma irreverência atroz! O fedelho para lá caminha. O mesmo olhar e já o mesmo desprezo por quem não perceba matemática ou física. Engraçado, ouve Hendrix ou Paganini e rejubila com os dois, faz-me lembrar o pai na mesma idade. E quer ser veterinário. O pai, bem, não desvendo. Já sei o que vou emprestar ao puto: dois livros do Morris – “Guia essencial do comportamento do gato” e “Guia essencial do comportamento do bebé”.
Já agora não cito referências, refiro citações… e não vivo de recordações, recordo vivências. Mas mesmo quando se cita tem-se a intenção de dizer. É preciso pensar, em que livro está, sei o contexto, tenho lá uma nota qualquer no bordo da página a lápis… ou saber ouvir. Foi assim que apareceu Brassens no último post. Foi o pai do fedelho que comentou, do fundo do sofá: dez anos de grilhetas e citavam tudo. O quê? perguntei. Debitou-me a quadra completa e ainda: não te esqueças de lhes lembrar que o Homem foi editor do Monde Libertaire.
E é verdade. De Brel e Brassens…
Fica a fome e a vontade de comer. Será que sou gente?!
Quiz
"Pergunta: qual é o contrário de fé?
Não é a descrença. Demasiado definitiva, segura, fechada. Ela própria uma espécie de fé.
A dúvida.
…E pronto, acabaram-se os protestos, tomem lá as auréolas, voltem ao trabalho. Os anjos são fáceis de pacificar; basta transformá-los em instrumentos e eles tocam logo a música de harpa que se lhes pedir. Os seres humanos são mais duros de roer, conseguem duvidar de tudo, até da evidência dos seus próprios olhos."
Aguardei doze anos para abraçar e ouvir o Homem da fatwa mas não perderei um segundo com as cogitabundas coprolalias de uns Portas, Paulos ou Migueis, ou outros Lopes. Lembram-me as repúblicas populares e as repúblicas democráticas disto e daquilo. Quanto mais se diziam…!
Tenho por demais respeito pela Monarquia para cair no papo de aldrabões. Estou como o Pedro costuma dizer: matematicamente a coisa mais parecida com uma an-Arquia é uma mono-Arquia. E já que não posso ter uma…
O Império acabou. E agora? O Professor Agostinho da Silva explicava bem o conceito de federação de repúblicas democráticas da nossa monarquia. Mas aos republicanos e à República sempre muito conveio o conceito de democracia de Atenas, do que Atenas foi como democracia, ou seja… Coisa nenhuma! Havia uns tantos que eram homens livres e podiam governar. Mas a maioria da população era de estrangeiros e escravos que não tinham nada a ver com aquela democracia. Como aqui e agora.
Agora o nosso fedelho. É um puto excepcional. Conheço bem o pai e é pena que, como diz o miúdo, não desalape do sofá. Nunca se vai aproximar de um blogue, de certeza. Isso bem queríamos. Tem uma cultura brilhante. Mas passamos muito do tempo lá em casa, às noites, e tantas e tantas das coisas dele já aqui estão metidas. Aquilo dos “camelos” é redundante: com uma única palavra martiriza ou eleva aos píncaros! E o fedelho apanhou-lha bem. Conheci o pai toda a vida, desde bebé. Lembro-me como se ainda fora hoje, no início dos anos setenta, ele com catorze, quinze ou dezasseis anos, como o Pedro, e três grandes ícones que o acompanharam em três grandes posters junto à cama: Hendrix, Joplin e Clapton. De uma irreverência atroz! O fedelho para lá caminha. O mesmo olhar e já o mesmo desprezo por quem não perceba matemática ou física. Engraçado, ouve Hendrix ou Paganini e rejubila com os dois, faz-me lembrar o pai na mesma idade. E quer ser veterinário. O pai, bem, não desvendo. Já sei o que vou emprestar ao puto: dois livros do Morris – “Guia essencial do comportamento do gato” e “Guia essencial do comportamento do bebé”.
Já agora não cito referências, refiro citações… e não vivo de recordações, recordo vivências. Mas mesmo quando se cita tem-se a intenção de dizer. É preciso pensar, em que livro está, sei o contexto, tenho lá uma nota qualquer no bordo da página a lápis… ou saber ouvir. Foi assim que apareceu Brassens no último post. Foi o pai do fedelho que comentou, do fundo do sofá: dez anos de grilhetas e citavam tudo. O quê? perguntei. Debitou-me a quadra completa e ainda: não te esqueças de lhes lembrar que o Homem foi editor do Monde Libertaire.
E é verdade. De Brel e Brassens…
Fica a fome e a vontade de comer. Será que sou gente?!
Quiz
Pontos nos π ‘s
Um “puto” danado espreitou e achou piada ao fedelho. Ao… é só um. O meu primeiro post atira-me para cima dos sessenta, muito para cima, e o Pedro que conheço desde sempre já caminha para meio século. Mas a idade não nos traz direitos, concede deveres e o puto é mesmo catita… se era eco passou a arauto!
E hoje que estou sem inspiração ou sentido, bastou-me este alerta, quase satânico, para me sentir.
E isso agradeço ao Intestinal* amigo!
Je ne sais pas si j'aimais cette dame
Mais je sais bien
Que pour avoir un regard de son âme
Moi, pauvre chien
J'aurais gaiement passé dix ans au bagne
Sous les verrous
Le vent qui vient à travers la montagne
Me rendra fou.
…não, não é Brel!
* digitar "Alvino" (toda a gente vai ficar a saber...!)
Quiz
E hoje que estou sem inspiração ou sentido, bastou-me este alerta, quase satânico, para me sentir.
E isso agradeço ao Intestinal* amigo!
Je ne sais pas si j'aimais cette dame
Mais je sais bien
Que pour avoir un regard de son âme
Moi, pauvre chien
J'aurais gaiement passé dix ans au bagne
Sous les verrous
Le vent qui vient à travers la montagne
Me rendra fou.
…não, não é Brel!
* digitar "Alvino" (toda a gente vai ficar a saber...!)
Quiz
Domingo, Novembro 16, 2003
O meu Diário 3
Se julgam que me enganam estão muito mal enganados. O Pedro e o Quiz foram tanto a Espanha como eu. O mais longe que foram foi para ali para os lados da Praça Velasquez porque foram às Antas, à inauguração do Estádio do Dragão. E se estiveram com algum inglês da Catalunha deve ser jogador do Barcelona mas não conheço nenhum com aquele nome. Mas que o blogue ficou bonito ficou. Eu não posso ir porque estou constipado e o meu pai não deixou. Pois. Fico a ver na televisão.
O meu pai diz que aquilo é que se devia chamar o Programa Porto Feliz e que um certo camelo devia ser levados ao sr. Ruiz-Rios da OIM (sei lá o que é isso…!) para ver se pode ser recambiado, de preferência para a Colômbia. Não sei porquê mas o nome não me é estranho.
Assim como assim hoje estou muito feliz apesar de estar constipado e de ter de estudar para o teste de História… outra vez. Bem diz o meu pai e nisso dou-lhe razão: os professores são todos uns camelos. Os horários são feitos para os professores e não para os alunos (eu tenho que ir duas vezes por semana ao fim da tarde ter aulas de ginástica, vejam bem – deve ser só para fazer o jeito à professora, a mim não é de certeza); os testes sempre, sempre, sempre – chamada avaliação contínua – só se for por causa das inspecções escolares aos professores… e depois dizem que não têm tempo para dar a matéria (faço notar que nesta altura do campeonato ainda ando a dar a matéria de História do 5º ano que não dei o ano passado e o livro do 6º está novinho em folha). Bem com isto já nem dizia porque é que estou feliz…
Inauguração do Estádio do Dragão se é que ainda não perceberam. O meu pai também está muito contente. Diz que é por causa disso e pela ida da GNR para o Iraque: são menos cento e tal camelos, assim sobra mais palha para o gado que bem é preciso. Ele tem uma filosofia muito engraçada. Por vezes.
Lembram-se dos erros de palmatória? Já fui perguntar à minha Setôra de Portugês e ela disse que são erros de ortografia muito graves. Ora bem: o meu pai veio-me perguntar por um belizor tormentor (??) e depois começou a falar dumas cartas e depois foi à net. Francamente julgava que o meu pai estava a ficar maluco. Dei uma espreitadela ao site em que ele estava a procurar as coisas. Grande confusão. E EU É QUE DOU ERROS DE PALMATÓRIA?
Dei-lhe umas explicações que ele ouviu atentamente – não tinha outro remédio – e disse que ficasse quietinho que eu respondia àquilo.
Os adultos deviam ter mais cuidado com certas coisas, por exemplo:
1. Não mexer em certas coisas
2. Em certos produtos escrever: desaconselhado a menores de 16 anos
O sítio é um blogue do Anarca constipado. Está como eu, coitado!
O senhor chama-se Piotr. Raio de nome deve ser engano. Se não é também é fácil como costuma dizer o meu pai: se fosse eu ia ao registo mudar de nome. Não sei o que é o registo mas deve ser qualquer coisa parecida com a Loja do Cidadão que existe ao lado do Estádio das Antas. Ao lado do Estádio das Antas existe tudo. Pelo menos é lá que se tira o B.I. e como o meu pai costuma dizer também nos tiram outras coisas, entre outras a própria identidade!
Vamos lá. O que o senhor do Anarca anda à procura é de certeza do Obelisk the Tormentor dos Yu-Gi-Oh. Certinho que se quiser encontrar a carta vai ter que a pagar. Já lhe mandei a mensagem. E sempre que quiser saber alguma coisa de cartas dos Yu-Gi-Oh, de Pokémon Staks ou de Medabots o melhor é perguntar a quem sabe, ou seja a pré-adolescentes como eu. Ainda esta semana recebi mais de cem Pokémons que a minha Mãe me trouxe e que um doente lhe tinha arranjado, todos dentro dos sacos nada de porcarias. O meu pai está farto de me arranjar Medabots mas eu não percebo como… o tipo deve estar a ficar viciado em Chipicao e não sei se isso não será um problema!
Amanhã pergunto à Setôra de Ciências. Já sei que ela me vai perguntar afinal o que é que o meu pai faz. E eu vou tornar a responder a mesma coisa que já não sei se é médico se é veterinário. Ela farta-se de rir. Mas é verdade. Quando chega chateado a casa repete sempre a mesma coisa: já estou farto de ver certos animais. São uns “amores” dele. Ele é que lhes chama “amores”. São a saber e cito: certo tipo de doentes, delegados de propaganda médica, funcionário públicos (ele diz que as iniciais são sugestivas, sei lá o que é que isso quer dizer) e principalmente qualquer outro médico que se venda por qualquer preço só para apanhar o lugar de outro médico… a esses ele não chama camelos!
Agora também tem falado dos farmacêuticos. Chama-lhes cáfila. Fui perguntar à Setôra de Português que me disse que é um substantivo colectivo que designa um conjunto de camelos. Percebi perfeitamente.
Agora me lembro. Outro dia ouvi-lhe esta conversa. Não sei porque é que essa cáfila não se dedica a vender pílulas contraceptivas genéricas. Dava dinheiro como lixo. Apesar de até agora não terem apresentado nenhum estudo de bioequivalência não faz mal, com a pílula a bioequivalência vê-se na rua – Vaz Serra Dixit… deve ser algum daqueles autores latinos esquisitos que ele de vez em quando lê. Ainda procurei nas páginas azuis do fim do dicionário mas não encontrei.
Estou a ficar com sono.
João
O meu pai diz que aquilo é que se devia chamar o Programa Porto Feliz e que um certo camelo devia ser levados ao sr. Ruiz-Rios da OIM (sei lá o que é isso…!) para ver se pode ser recambiado, de preferência para a Colômbia. Não sei porquê mas o nome não me é estranho.
Assim como assim hoje estou muito feliz apesar de estar constipado e de ter de estudar para o teste de História… outra vez. Bem diz o meu pai e nisso dou-lhe razão: os professores são todos uns camelos. Os horários são feitos para os professores e não para os alunos (eu tenho que ir duas vezes por semana ao fim da tarde ter aulas de ginástica, vejam bem – deve ser só para fazer o jeito à professora, a mim não é de certeza); os testes sempre, sempre, sempre – chamada avaliação contínua – só se for por causa das inspecções escolares aos professores… e depois dizem que não têm tempo para dar a matéria (faço notar que nesta altura do campeonato ainda ando a dar a matéria de História do 5º ano que não dei o ano passado e o livro do 6º está novinho em folha). Bem com isto já nem dizia porque é que estou feliz…
Inauguração do Estádio do Dragão se é que ainda não perceberam. O meu pai também está muito contente. Diz que é por causa disso e pela ida da GNR para o Iraque: são menos cento e tal camelos, assim sobra mais palha para o gado que bem é preciso. Ele tem uma filosofia muito engraçada. Por vezes.
Lembram-se dos erros de palmatória? Já fui perguntar à minha Setôra de Portugês e ela disse que são erros de ortografia muito graves. Ora bem: o meu pai veio-me perguntar por um belizor tormentor (??) e depois começou a falar dumas cartas e depois foi à net. Francamente julgava que o meu pai estava a ficar maluco. Dei uma espreitadela ao site em que ele estava a procurar as coisas. Grande confusão. E EU É QUE DOU ERROS DE PALMATÓRIA?
Dei-lhe umas explicações que ele ouviu atentamente – não tinha outro remédio – e disse que ficasse quietinho que eu respondia àquilo.
Os adultos deviam ter mais cuidado com certas coisas, por exemplo:
1. Não mexer em certas coisas
2. Em certos produtos escrever: desaconselhado a menores de 16 anos
O sítio é um blogue do Anarca constipado. Está como eu, coitado!
O senhor chama-se Piotr. Raio de nome deve ser engano. Se não é também é fácil como costuma dizer o meu pai: se fosse eu ia ao registo mudar de nome. Não sei o que é o registo mas deve ser qualquer coisa parecida com a Loja do Cidadão que existe ao lado do Estádio das Antas. Ao lado do Estádio das Antas existe tudo. Pelo menos é lá que se tira o B.I. e como o meu pai costuma dizer também nos tiram outras coisas, entre outras a própria identidade!
Vamos lá. O que o senhor do Anarca anda à procura é de certeza do Obelisk the Tormentor dos Yu-Gi-Oh. Certinho que se quiser encontrar a carta vai ter que a pagar. Já lhe mandei a mensagem. E sempre que quiser saber alguma coisa de cartas dos Yu-Gi-Oh, de Pokémon Staks ou de Medabots o melhor é perguntar a quem sabe, ou seja a pré-adolescentes como eu. Ainda esta semana recebi mais de cem Pokémons que a minha Mãe me trouxe e que um doente lhe tinha arranjado, todos dentro dos sacos nada de porcarias. O meu pai está farto de me arranjar Medabots mas eu não percebo como… o tipo deve estar a ficar viciado em Chipicao e não sei se isso não será um problema!
Amanhã pergunto à Setôra de Ciências. Já sei que ela me vai perguntar afinal o que é que o meu pai faz. E eu vou tornar a responder a mesma coisa que já não sei se é médico se é veterinário. Ela farta-se de rir. Mas é verdade. Quando chega chateado a casa repete sempre a mesma coisa: já estou farto de ver certos animais. São uns “amores” dele. Ele é que lhes chama “amores”. São a saber e cito: certo tipo de doentes, delegados de propaganda médica, funcionário públicos (ele diz que as iniciais são sugestivas, sei lá o que é que isso quer dizer) e principalmente qualquer outro médico que se venda por qualquer preço só para apanhar o lugar de outro médico… a esses ele não chama camelos!
Agora também tem falado dos farmacêuticos. Chama-lhes cáfila. Fui perguntar à Setôra de Português que me disse que é um substantivo colectivo que designa um conjunto de camelos. Percebi perfeitamente.
Agora me lembro. Outro dia ouvi-lhe esta conversa. Não sei porque é que essa cáfila não se dedica a vender pílulas contraceptivas genéricas. Dava dinheiro como lixo. Apesar de até agora não terem apresentado nenhum estudo de bioequivalência não faz mal, com a pílula a bioequivalência vê-se na rua – Vaz Serra Dixit… deve ser algum daqueles autores latinos esquisitos que ele de vez em quando lê. Ainda procurei nas páginas azuis do fim do dicionário mas não encontrei.
Estou a ficar com sono.
João
Quem não rouba nem herda, nunca tem uma merda…
Resolvemos mudar a face, o aspecto do blogue. É que isto de apresentar os textos não era coisa de nosso jeito. Deixamos ficar as mesmas moscas e o resto também… deixamos ficar tudo.
Por um felino acaso encontramos um senhor britânico de passagem pela Catalunha. Bom homem, e pela experiência destas coisas das escritas, certo seria a pessoa indicada para nos publicar… dar um quê no aspecto. Aceitamos!
Agora é ele que nos publica as coisas, ou seja, dá um toque no aspecto gráfico.
É um tipo interessante de aspecto desinteressado. Andava com uns rascunhos, a que nos deixou dar uma vista de olhos, que dizia querer chamar Quinta dos Animais. Eu por mim achei um título óptimo. Até tinha poemas. Só me lembro de uma quadra
Soon or later the day is coming,
Tyrant Man shall be overthrown
And the fruitful fields of England
Shall be trod by beasts alone.
Muito a propósito!
Quiz
Por um felino acaso encontramos um senhor britânico de passagem pela Catalunha. Bom homem, e pela experiência destas coisas das escritas, certo seria a pessoa indicada para nos publicar… dar um quê no aspecto. Aceitamos!
Agora é ele que nos publica as coisas, ou seja, dá um toque no aspecto gráfico.
É um tipo interessante de aspecto desinteressado. Andava com uns rascunhos, a que nos deixou dar uma vista de olhos, que dizia querer chamar Quinta dos Animais. Eu por mim achei um título óptimo. Até tinha poemas. Só me lembro de uma quadra
Soon or later the day is coming,
Tyrant Man shall be overthrown
And the fruitful fields of England
Shall be trod by beasts alone.
Muito a propósito!
Quiz
Sexta-feira, Novembro 14, 2003
Para Acabar de Vez com a Cultura
Não quero plagiar Woody Allen mas apenas responder ao repto mais que estimulante de ZDQ. Noto que também me dizem gato apesar de não me apontaram de fedorento, no entanto… há estúpidos de ambos os sexos, para os quais ainda têm importância os títulos de nobreza.
Iniciemos a nossa tese. Procuramos pessoa “de relevo na sociedade portuguesa”.
Comecemos pelo relevo*, ou seja, saliência, forma escultural saliente, algo que se note pela sua proeminência como sejam uns odontológicos incisivos superiores de invejar a um castor, um prognatismo mandibular de fazer birra ao próprio professor Cavaco e um par de atributos peitorais que mesmo velhos e descaídos, quando suportados por Wonderbra põem em respeito o porta-paletes do Continente. Ficamos assim com uma imagem visual sugerida, também chamada de Imagerie Mental ou Sonho Acordado, que nos servirá no futuro. Fixemos, ter relevo não é ter atributos…!
Analisemos a sociedade*, o estado dos animais que vivem normalmente em agrupamentos. E aceitemos que é da “sociedade” aquele que vive o ou do estado de certos animais que vivem normalmente agrupados, por exemplo, numa casa.
Saltemos à portuguesa*, esse pagamento anual ao padre e temos o bolo feito. Como dizia Pitigrilli, se fossemos indagar o passado de cada freira, descobriríamos quase sempre que a vocação religiosa coincide com um caso sexual fracassado.
Falta-nos a tuna*. E o que é a tuna?... vida de vadio, ociosidade!
Formulemos de novo:
P: Pessoa de relevo na sociedade portuguesa que tenha feito parte de uma tuna?
R: Teresa Guilherme
*Dicionário da Língua Portuguesa, 6ª Edição, PORTO EDITORA
Quiz
Iniciemos a nossa tese. Procuramos pessoa “de relevo na sociedade portuguesa”.
Comecemos pelo relevo*, ou seja, saliência, forma escultural saliente, algo que se note pela sua proeminência como sejam uns odontológicos incisivos superiores de invejar a um castor, um prognatismo mandibular de fazer birra ao próprio professor Cavaco e um par de atributos peitorais que mesmo velhos e descaídos, quando suportados por Wonderbra põem em respeito o porta-paletes do Continente. Ficamos assim com uma imagem visual sugerida, também chamada de Imagerie Mental ou Sonho Acordado, que nos servirá no futuro. Fixemos, ter relevo não é ter atributos…!
Analisemos a sociedade*, o estado dos animais que vivem normalmente em agrupamentos. E aceitemos que é da “sociedade” aquele que vive o ou do estado de certos animais que vivem normalmente agrupados, por exemplo, numa casa.
Saltemos à portuguesa*, esse pagamento anual ao padre e temos o bolo feito. Como dizia Pitigrilli, se fossemos indagar o passado de cada freira, descobriríamos quase sempre que a vocação religiosa coincide com um caso sexual fracassado.
Falta-nos a tuna*. E o que é a tuna?... vida de vadio, ociosidade!
Formulemos de novo:
P: Pessoa de relevo na sociedade portuguesa que tenha feito parte de uma tuna?
R: Teresa Guilherme
*Dicionário da Língua Portuguesa, 6ª Edição, PORTO EDITORA
Quiz
Quinta-feira, Novembro 13, 2003
O Vermelho e o Negro
Sem qualquer nostalgia mas apenas porque me marcou. Porque o blogue só abriu em Novembro e a 9 de Outubro, não encontro onde alguém se lembre dele. Já foi há 25 anos.
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur...
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas:
Je creus'rai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour s'ra roi
Où l'amour s'ra loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racont'rai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux:
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pourqu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épous'nt-ils pas
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je n' vais plus pleurer
Je n' vais plus parler
Je me cach'rai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laiss' moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Pedro Rodrigues de Miguel
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur...
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas:
Je creus'rai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour s'ra roi
Où l'amour s'ra loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racont'rai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux:
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pourqu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épous'nt-ils pas
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je n' vais plus pleurer
Je n' vais plus parler
Je me cach'rai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laiss' moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas, Ne me quitte pas
Pedro Rodrigues de Miguel
Quarta-feira, Novembro 12, 2003
O meu Diário 2
Começa bem. O primeiro comentário que ouvi foi: o puto dá erros de palmatória e não sabe o que é pontuação. Primeiro não sou puto sou pré adolescente. Depois erros não vi só se foi nas palavras difíceis de ciências mas essas copiei do quadro como as escreveu a Setôra de Ciências. De qualquer maneira não sei o que são erros de palmatória, ainda só aprendi os erros de sintaxe e os erros ortográficos. Na próxima aula de Português vou perguntar à Setôra o que são. Quanto à pontuação: 30 pontos finais, 4 dois pontos, 2 pontos de exclamação, 1 travessão, 2 parêntesis, 1 ponto de interrogação e 2 vírgulas. Agora é que eu digo: ponto final!
Hoje antes de ir para a escola descobri um blogue que se chama o blogue dos marretas. É fixe. De marretas não têm nada nem sei porque é que se chamam assim. Tinham lá um post que é o TÁ-SE BEM, BACANO! Eu acho que está um erro mas gosto deles na mesma principalmente dos desenhos animados que até já mandei um mail a perguntar o que são. É que escreveram Bloco de Esquerda. Deve ser engano a escrever. Já tinha ouvido falar no Blogue de Esquerda e até fiz uma busca e encontrei mas lá não falam naquilo do voto a partir dos 16 anos.
Aquilo dos charros com uma estrelinha vermelha na mortalha é que me faz confusão. Os charros sei eu o que é porque falaram na Escola Segura, em Ciências, em Matemática, em Português, na Área Projecto e até na Feira de Custóias onde há uma rulote que diz: Farturas e Charros. Nunca vi nenhum mas sei o que é. É como a menstruação. Também nunca vi nenhuma e sei o que é. O que eu não percebi foi a mortalha. Coisa desnecessária, fui perguntar ao meu pai e ouvi a resposta do costume: vai ver ao dicionário.
Mortalha – lençol ou cobertura que envolve o cadáver que vai ser sepultado
Foi como uma iluminação. Esses tipos de Esquerda ( do bloco ou do blogue ou lá que é) devem ser bruxos. É que eu fiz exame ao conservatório, fiquei em primeiro lugar e entrei e tenho direito ao Ensino Articulado. Pois a directora de turma, o conselho directivo e a DREN não quiseram saber disso para nada e tenho de andar a correr de um lado para o outro. Comentário do meu pai: esses camelos só mortos! Agora já percebo para que são as mortalhas nas escolas.
Mesmo assim o meu pai quis saber porque é que eu perguntei pelas mortalhas. Eu falei-lhe nos marretas. Parece que se deu um milagre lá em casa. O meu pai desalapou do sofá ( está a ler mais um livro esquisito chamado “Duas horas de lucidez” – espero que lhe faça bem) e disse qualquer coisa parecida com mapéte chou que não sei o que é. Quis ver o blogue dos marretas na net e tudo. Tinha um sorriso malandro na cara e ficou sempre caladinho. Depois de muito tempo assim disse: os dois velhotes eram os meus preferidos; e estes gajos de certeza que não são nenhuns camelos.
Isto no meu pai é um elogio profundo.
Tinha duas lágrimas nas faces.
Dei-lhe um beijo e fui-me deitar.
João
Hoje antes de ir para a escola descobri um blogue que se chama o blogue dos marretas. É fixe. De marretas não têm nada nem sei porque é que se chamam assim. Tinham lá um post que é o TÁ-SE BEM, BACANO! Eu acho que está um erro mas gosto deles na mesma principalmente dos desenhos animados que até já mandei um mail a perguntar o que são. É que escreveram Bloco de Esquerda. Deve ser engano a escrever. Já tinha ouvido falar no Blogue de Esquerda e até fiz uma busca e encontrei mas lá não falam naquilo do voto a partir dos 16 anos.
Aquilo dos charros com uma estrelinha vermelha na mortalha é que me faz confusão. Os charros sei eu o que é porque falaram na Escola Segura, em Ciências, em Matemática, em Português, na Área Projecto e até na Feira de Custóias onde há uma rulote que diz: Farturas e Charros. Nunca vi nenhum mas sei o que é. É como a menstruação. Também nunca vi nenhuma e sei o que é. O que eu não percebi foi a mortalha. Coisa desnecessária, fui perguntar ao meu pai e ouvi a resposta do costume: vai ver ao dicionário.
Mortalha – lençol ou cobertura que envolve o cadáver que vai ser sepultado
Foi como uma iluminação. Esses tipos de Esquerda ( do bloco ou do blogue ou lá que é) devem ser bruxos. É que eu fiz exame ao conservatório, fiquei em primeiro lugar e entrei e tenho direito ao Ensino Articulado. Pois a directora de turma, o conselho directivo e a DREN não quiseram saber disso para nada e tenho de andar a correr de um lado para o outro. Comentário do meu pai: esses camelos só mortos! Agora já percebo para que são as mortalhas nas escolas.
Mesmo assim o meu pai quis saber porque é que eu perguntei pelas mortalhas. Eu falei-lhe nos marretas. Parece que se deu um milagre lá em casa. O meu pai desalapou do sofá ( está a ler mais um livro esquisito chamado “Duas horas de lucidez” – espero que lhe faça bem) e disse qualquer coisa parecida com mapéte chou que não sei o que é. Quis ver o blogue dos marretas na net e tudo. Tinha um sorriso malandro na cara e ficou sempre caladinho. Depois de muito tempo assim disse: os dois velhotes eram os meus preferidos; e estes gajos de certeza que não são nenhuns camelos.
Isto no meu pai é um elogio profundo.
Tinha duas lágrimas nas faces.
Dei-lhe um beijo e fui-me deitar.
João
O Canto da Matemática
“O Último Teorema de Fermat”, um dos últimos grandes enigmas que fizeram as delícias e os horrores de tantos matemáticos desde 1637.
Sim, não é nada de novo.
E lembro aqui a Matemática que continua a ser um Horror da nossa sociedade, e dos nossos alunos, por via da incompetência com que continua a ser transmitida… pior, divulgada como papão!
De modo breve honro aqui os que me Educaram nela. Tive sorte.
Sei que, sempre e hoje, a escola não serve para educar, serve para informar… e mal! Mas tanto?!
Gomes Teixeira disse:
"Pode dizer-se que a Poesia é a Matemática do sentimento; a Música é
a Matemática do ouvido; a Matemática é ao mesmo tempo a Poesia e
Música da razão."
Voltemos a Fermat. O ÚLTIMO TANGO DE FERMAT combinando opereta, blues, pop, e, evidentemente, tango é um musical sobre Andrew Wiles, o matemático que espantou o mundo quando, em 1993, anunciou a solução para o famoso problema matemático colocado por Pierre de Fermat.
A decorrer de 13 a 15 de Novembro no Teatro Helena Sá e Costa… acreditem, no Porto!
Pedro Rodrigues de Miguel
Sim, não é nada de novo.
E lembro aqui a Matemática que continua a ser um Horror da nossa sociedade, e dos nossos alunos, por via da incompetência com que continua a ser transmitida… pior, divulgada como papão!
De modo breve honro aqui os que me Educaram nela. Tive sorte.
Sei que, sempre e hoje, a escola não serve para educar, serve para informar… e mal! Mas tanto?!
Gomes Teixeira disse:
"Pode dizer-se que a Poesia é a Matemática do sentimento; a Música é
a Matemática do ouvido; a Matemática é ao mesmo tempo a Poesia e
Música da razão."
Voltemos a Fermat. O ÚLTIMO TANGO DE FERMAT combinando opereta, blues, pop, e, evidentemente, tango é um musical sobre Andrew Wiles, o matemático que espantou o mundo quando, em 1993, anunciou a solução para o famoso problema matemático colocado por Pierre de Fermat.
A decorrer de 13 a 15 de Novembro no Teatro Helena Sá e Costa… acreditem, no Porto!
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Novembro 11, 2003
Armistício e outras datas
Foi à 11ª hora do 11º dia do 11º mês que foram declaradas terminadas as hostilidades. Decorria o ano de 1918. Terminaram as hostilidades mas não terminou a morte nem o desespero. Até a hora se tornou maldita para o General que em nome do Rei assinou o fim da Grande Guerra e rubricou assim a perda do título e pensão que lhe eram devidos. É que a guerra só deveria terminar às duas da tarde, assim convinha aos políticos apanhados de surpresa pelo badalar, de novo, do Big Ben.
Eram os políticos da época.
Fruta da época é sempre a melhor mas, por vezes, se não cuidada, cai podre e agoniza.
Nesta nossa época também há políticos que datas comentam. JPP argumentava há dias a abolição do feriado do 5 de Outubro por já ninguém se lembrar do seu significado e por já nada significar a sua implantação. Até concordo com a argumentação. Mais, a república burguesa nada trouxe à Liberdade, nem o voto às mulheres nem consciência à Cidadania… reimplantou a Pena de Morte e foi estrada aberta à república fascista. O que JPP esqueceu foi o mais significado de 5 de Outubro, a mais causa de ser do feriado, aquilo que Portugal não tem… o seu dia de Ser. Tocou ao de leve no 10 de Junho mas esse, coitado, já foi de tudo, de Camões, da Pátria, da Raça, de Portugal, das Comunidades ao bom sabor das politiquices do lado que vem o vento ou as más marés.
O que Portugal não deve esquecer é aquilo que os manuais de história, mais não sendo que manuais de estórias, se esquecem de lembrar: o 5 de Outubro de 1143, a data do Tratado de Zamora, o nascimento do Reino de Portugal.
Pedro Rodrigues de Miguel
Eram os políticos da época.
Fruta da época é sempre a melhor mas, por vezes, se não cuidada, cai podre e agoniza.
Nesta nossa época também há políticos que datas comentam. JPP argumentava há dias a abolição do feriado do 5 de Outubro por já ninguém se lembrar do seu significado e por já nada significar a sua implantação. Até concordo com a argumentação. Mais, a república burguesa nada trouxe à Liberdade, nem o voto às mulheres nem consciência à Cidadania… reimplantou a Pena de Morte e foi estrada aberta à república fascista. O que JPP esqueceu foi o mais significado de 5 de Outubro, a mais causa de ser do feriado, aquilo que Portugal não tem… o seu dia de Ser. Tocou ao de leve no 10 de Junho mas esse, coitado, já foi de tudo, de Camões, da Pátria, da Raça, de Portugal, das Comunidades ao bom sabor das politiquices do lado que vem o vento ou as más marés.
O que Portugal não deve esquecer é aquilo que os manuais de história, mais não sendo que manuais de estórias, se esquecem de lembrar: o 5 de Outubro de 1143, a data do Tratado de Zamora, o nascimento do Reino de Portugal.
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Novembro 10, 2003
Porto Feliz
Leio agora “Porto, sempre”, o pasquim da Câmara e o José Abreu, 71 anos, reformado, sobre o “Projecto Porto Feliz”:
“Sim, de uma forma intermitente, umas vezes dou, outras vezes não, consoante o meu estado […] quando dou, faço-o por receio de represálias que ficariam muito mais caras. […] O “Porto Feliz” é de louvar, tem muito mérito, […] tem todo o meu apreço, mas para ser honesto não posso dizer que deixo de dar completamente.”
Boa, Zé Abreu, aos 71 anos dar uma de vez em quando não é nada mau. Mas… foste tu que deste os 500.000 euros à Maria da Graça?! Olha que ela comeu-te! Às páginas tantas a tua felicidade – de vez em quando! – é como a do projecto camarário… não passa de priapismo!
Leio agora, deliro e rejubilo com as “Ideias para a cidade” da Carla, 24 anos, vendedora de equipamento informático:
“É a cidade onde nasci, é a cidade predilecta, é a cidade em que gosto de estar, de viver. Gosto da cidade como ela está, sem dúvida. Podia melhorar nas ruas e no estacionamento, acho que neste momento é das coisas mais importantes e que faz bastante falta.”
Brilhante!
É, Carla, ruas é uma coisa que faz imensa falta numa cidade. Eu que o diga: vivi numa cidade sem ruas e nem queiras saber a dificuldade que tive, anos a fio, em sair à rua. Preso em casa, renegado à solidão – ouvia o único disco que tinha, Leo Ferre! Enjoei.
Gostava de ouvir outras ideias tuas. Tens?!
… ou do presidente de câmara.
Ainda ontem o Pedro citava o Twain; isto deve ser mania:
… o presidente da câmara e sua mulher – porque havia por lá um presidente da câmara, entre outras coisas desnecessárias;…
Quiz
“Sim, de uma forma intermitente, umas vezes dou, outras vezes não, consoante o meu estado […] quando dou, faço-o por receio de represálias que ficariam muito mais caras. […] O “Porto Feliz” é de louvar, tem muito mérito, […] tem todo o meu apreço, mas para ser honesto não posso dizer que deixo de dar completamente.”
Boa, Zé Abreu, aos 71 anos dar uma de vez em quando não é nada mau. Mas… foste tu que deste os 500.000 euros à Maria da Graça?! Olha que ela comeu-te! Às páginas tantas a tua felicidade – de vez em quando! – é como a do projecto camarário… não passa de priapismo!
Leio agora, deliro e rejubilo com as “Ideias para a cidade” da Carla, 24 anos, vendedora de equipamento informático:
“É a cidade onde nasci, é a cidade predilecta, é a cidade em que gosto de estar, de viver. Gosto da cidade como ela está, sem dúvida. Podia melhorar nas ruas e no estacionamento, acho que neste momento é das coisas mais importantes e que faz bastante falta.”
Brilhante!
É, Carla, ruas é uma coisa que faz imensa falta numa cidade. Eu que o diga: vivi numa cidade sem ruas e nem queiras saber a dificuldade que tive, anos a fio, em sair à rua. Preso em casa, renegado à solidão – ouvia o único disco que tinha, Leo Ferre! Enjoei.
Gostava de ouvir outras ideias tuas. Tens?!
… ou do presidente de câmara.
Ainda ontem o Pedro citava o Twain; isto deve ser mania:
… o presidente da câmara e sua mulher – porque havia por lá um presidente da câmara, entre outras coisas desnecessárias;…
Quiz
O meu Diário
Mais um dia de aulas. Tive aula de ciências e estudamos o aparelho respiratório. A inspiração e a expiração e as diferenças nos gases e nas temperaturas. O ar que sai é mais quente que o ar que entra. A Setôra diz que é por isso que os espelhos ficam embaciados. O meu pai fez o comentário do costume: há cada camelo! Acho melhor a minha mãe deixar de me chatear quando estou a tomar banho por ficar tudo embaciado. Com certeza não queria que eu deixasse de respirar enquanto tomo banho. Também falamos da hematose que é a troca gasosa. O ar dá oxigénio e o sangue dá o dióxido de carbono. Depois falamos que na inspiração há levantamento da caixa torácica – sobe o externo e baixa o diafragma (estou a copiar) e há um aumento do volume e diminuição da pressão. Então dá-se a entrada do ar e começa a expiração. Ou melhor começava porque já não houve tempo na aula para mais nada. Foi então que a Setôra disse que a respiração é uma actividade inconsciente. Tanto tempo perdido para nada. Tenho andado preocupado com o meu pai. Quando cheguei a casa depois da aula de violino fui logo procurar um atlas. Fartei-me de procurar o Iraque junto da América. Se estão lá os americanos não percebo porque é que não encontro. Perguntei ao meu pai: procura no índice. Linda resposta. Perguntei: então é no índice ou é no atlas? Há certas explicações que me recuso a comentar aqui. Lá encontrei o Iraque. Eu bem tinha razão. É mesmo coladinho à Arábia, a terra dos camelos. O problema do meu pai é todo por causa destas coisas todas do Iraque que também deve ser uma terra de camelos e o meu pai ficou apanhado. Agora passou a chamar camelo a tudo o que se move. A última dele foi por causa das vacinas da gripe. Disse logo: pudera, os camelos dos farmacêuticos vendem vacinas sem receita médica para meter o dinheiro ao bolso e depois dizem que não há vacinas. Camelos!
Estou com sono.
João
Estou com sono.
João
Parabéns, Dr. Álvaro
Álvaro Barreirinhas, assim lhe chamávamos, faz anos.
O Dr. Álvaro Cunhal, faz 90 anos. Parabéns!
Sinceramente. Todo o ancião é respeitável mas ele granjeou os anos com uma postura inalterável.
Sabem, devo-lhe muito! E ele talvez não me tivesse perdoado um gulag qualquer, como aquele de Soljenitsyn que lia à data em que o conheci. Nunca vergou. Nem um passo no restolho. Até Marchais, Berlinguer e Carrillo lhe passaram ao lado. Diga-se, nunca modou (…escrevo bem!). Não foi na moda de muitos que hoje se empoleiram. Antes isso.
E reforçou a minha ideia de Liberdade de Expressão. Discordo de quase tudo o que diz, ou dizia, mas reconheço-lhe a total liberdade de o dizer. É essa a minha Liberdade. A mesma que me vai deixando, por vezes, voar longe deste país podre de velho que ainda vive a frase de Twain com quase século e meio:
“É por obra e graça de Deus que no nosso país temos essas três coisas preciosas e indizíveis: liberdade de expressão, liberdade de pensamento e a prudência de nunca as praticar”
Parabéns, Dr. Cunhal!
Pedro Rodrigues de Miguel
O Dr. Álvaro Cunhal, faz 90 anos. Parabéns!
Sinceramente. Todo o ancião é respeitável mas ele granjeou os anos com uma postura inalterável.
Sabem, devo-lhe muito! E ele talvez não me tivesse perdoado um gulag qualquer, como aquele de Soljenitsyn que lia à data em que o conheci. Nunca vergou. Nem um passo no restolho. Até Marchais, Berlinguer e Carrillo lhe passaram ao lado. Diga-se, nunca modou (…escrevo bem!). Não foi na moda de muitos que hoje se empoleiram. Antes isso.
E reforçou a minha ideia de Liberdade de Expressão. Discordo de quase tudo o que diz, ou dizia, mas reconheço-lhe a total liberdade de o dizer. É essa a minha Liberdade. A mesma que me vai deixando, por vezes, voar longe deste país podre de velho que ainda vive a frase de Twain com quase século e meio:
“É por obra e graça de Deus que no nosso país temos essas três coisas preciosas e indizíveis: liberdade de expressão, liberdade de pensamento e a prudência de nunca as praticar”
Parabéns, Dr. Cunhal!
Pedro Rodrigues de Miguel
No princípio...meio e fins.
E é assim que tudo começa.
10 de Novembro, uma data a comemorar... ou nem tanto, que já lá vamos! Somos três que já é um ajuntamento. O mais velho, eu, o... o Pedro (chamar-lhe Pedro, isto vai um ver se te avias a baralhar nomes!) que é o do meio e o João, o puto.
Pedro é heterónimo e João homónimo. Isto deu logo bronca. O puto só tem 11 anos, foi convidado a pôr umas borradas aqui no sítio mas afinou quando lhe disseram aquilo do homónimo. Julgou que era insulto, que não escrevia e que não escrevia mesmo, foi chateado para casa…
Bem, lá voltou mas mais furibundo que um saco de pimentos:
- Fui perguntar ao meu pai aquilo do homónimo e ainda ouvi: vai ver ao dicionário, oh anormal!
Assim como assim já não eram horas para um puto escrever fosse o que fosse, ademais ontem era Domingo e a canalha faz-se ao fresco. Logo, hoje não há diário do João. Para não ficar atazanado dissemos-lhe que ficava como o craque do blogue e que o nome dele aparecia sempre: posted by… coisa fina!
Eu sou o Quiz. PSEUDÓNIMO! Os anormais devem pensar que isto é alcunha ou coisa parecida. Já um tipo não pode ter nome de gente. ´Tá bem, não é muito comum, é estrangeirado (deixem lá que o nome do blogue também deixa muito a desejar) mas que culpa tenho eu?
Quiz é nome de gente, é o meu nome. Sei que soa estranho, mesmo jocoso ou desdenhoso mas é no que dá estes anglicismos. Vejamos:
Quiz n., pl. Quizzes 6. Obs. A person who habitually looks quizzically (i.e. questioning and mocking or supercilious) at others – Collins Concise English Dictionary
… sei lá onde me foram arranjar o nome! Também já não tenho idade para me chatear com isso. Por falar em idade: NÃO TENHO SESSENTA ANOS! Não, tenho bem mais. Mas achei piada àquele puto de trinta que outro dia dobrou a idade dele só para gozar com a malta. O finório tem que se lhe diga, sim Senhor.
E agora que começamos pelo princípio e já mostramos os meios, vamos lá aos fins. Ora os fins estão enunciados logo no princípio… isto vai ser uma barafunda! Eu escrevo o que me der na real gana, o João deve ser quando lhe apetece e o Pedro fica para cogitações mais profundas.
Já agora Parabéns: ao puto porque é um catita, um bom companheiro e merece ser estimulado… e à Ana, a irmã dele, que hoje faz 20 anos, mesmo no dia de abertura do blogue. É a minha prenda!
Quiz
10 de Novembro, uma data a comemorar... ou nem tanto, que já lá vamos! Somos três que já é um ajuntamento. O mais velho, eu, o... o Pedro (chamar-lhe Pedro, isto vai um ver se te avias a baralhar nomes!) que é o do meio e o João, o puto.
Pedro é heterónimo e João homónimo. Isto deu logo bronca. O puto só tem 11 anos, foi convidado a pôr umas borradas aqui no sítio mas afinou quando lhe disseram aquilo do homónimo. Julgou que era insulto, que não escrevia e que não escrevia mesmo, foi chateado para casa…
Bem, lá voltou mas mais furibundo que um saco de pimentos:
- Fui perguntar ao meu pai aquilo do homónimo e ainda ouvi: vai ver ao dicionário, oh anormal!
Assim como assim já não eram horas para um puto escrever fosse o que fosse, ademais ontem era Domingo e a canalha faz-se ao fresco. Logo, hoje não há diário do João. Para não ficar atazanado dissemos-lhe que ficava como o craque do blogue e que o nome dele aparecia sempre: posted by… coisa fina!
Eu sou o Quiz. PSEUDÓNIMO! Os anormais devem pensar que isto é alcunha ou coisa parecida. Já um tipo não pode ter nome de gente. ´Tá bem, não é muito comum, é estrangeirado (deixem lá que o nome do blogue também deixa muito a desejar) mas que culpa tenho eu?
Quiz é nome de gente, é o meu nome. Sei que soa estranho, mesmo jocoso ou desdenhoso mas é no que dá estes anglicismos. Vejamos:
Quiz n., pl. Quizzes 6. Obs. A person who habitually looks quizzically (i.e. questioning and mocking or supercilious) at others – Collins Concise English Dictionary
… sei lá onde me foram arranjar o nome! Também já não tenho idade para me chatear com isso. Por falar em idade: NÃO TENHO SESSENTA ANOS! Não, tenho bem mais. Mas achei piada àquele puto de trinta que outro dia dobrou a idade dele só para gozar com a malta. O finório tem que se lhe diga, sim Senhor.
E agora que começamos pelo princípio e já mostramos os meios, vamos lá aos fins. Ora os fins estão enunciados logo no princípio… isto vai ser uma barafunda! Eu escrevo o que me der na real gana, o João deve ser quando lhe apetece e o Pedro fica para cogitações mais profundas.
Já agora Parabéns: ao puto porque é um catita, um bom companheiro e merece ser estimulado… e à Ana, a irmã dele, que hoje faz 20 anos, mesmo no dia de abertura do blogue. É a minha prenda!
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