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terça-feira, junho 29, 2004

Mar Mulher 

Olhei a praia
que se estendia
areia a meus pés
pés descalços
passos idos
desde lá longe
donde me caminho

A doçura da água
salgada
que me olha
me diz a calma
com seu azul verde
que me reflecte
o terno marulhar

Água calma
mar mulher
que me diz
em todo o esplendor
com seus olhos
verdes d’ água
vem comigo

Pedro Rodrigues de Miguel

Fim de tarde 

Fim de tarde
bruma de vida
quando meu coração anoitece
junto de ti
e me lembra
o toque suave da pele
que se encontra
como calor da vida

Esperança
como xipefo aceso
é teu corpo
que brilha
lá no longe
no mais perto de mim
porto de abrigo
em que me desencontro

Suave ternura
sombra de acácia
que me acalma
me ilumina a vida
quando o desespero
sem tino nem jeito
me abala
e só tu
me trazes a paz

Pedro Rodrigues de Miguel

segunda-feira, junho 28, 2004

Silêncio 

Diz o meu nome
mesmo que em silêncio
para que eu o ouça fundo
para que o escute
sem a pronúncia
dos teus lábios
mas com o dizer da alma
que me bate no peito
e corre
dentro de mim

Diz o nome
o nome que me trocas
que me faz ser
mais eu por dentro
que me cresce
quando teus lábios me tocam
no silêncio
que diz mais alto
o que nenhuma palavra
diz tão bem

Olha meus olhos
brílhamos
como só tu sabes
deixa-me correr a lágrima
de te ouvir
em tão puro silêncio
lágrima de vida
que deixo correr
em ti
como dádiva perene
quando chamas
e dizes
meu nome

Pedro Rodrigues de Miguel

Gosto que me confunde... 

Olhei-a
Vi-lhe os olhos
cerrados
nos cirros
e nimbos do sono
Os lábios doces
calmos
sonholentos
o nariz adunco
num respirar de sono
leve
Os cabelos soltos
de ouro corados
atirados
num gesto
para trás

Que doce pensar
o meu olhar
daquela face calma
Sono solto!
... e eu a olhar!
Toquei-lhe
de leve
a loura guedelha
como quem quer
não querer acordá-la

Que lhe vai na mente
em tão doce pensar
quando não se pensa
Ao longe
o trinar constante
dos Nocturnos de Chopin
confundiam-se-lhe

Amor
não é o toque
seco
do gostar
É gostar
desse toque de sentir
ver o outro
e disso gostar

E lá continuavam
os Nocturnos
na tarde de luz e Sol
na penumbra do quarto

Gosto de a ver
assim
gosto dela assim
gosto de ver dela
assim
E é neste gosto
que me confunde
que julgo encontrar
o Amor

Pedro Rodrigues de Miguel

sábado, junho 26, 2004

Caminho 

Corro
no meu passo disforme
pelo caminho
dos meus Afectos
dos meus Sentidos
que me leva
além
longe no etéreo
no teu sentir

Percorro
longe no tempo
teu corpo
no espaço
que me faz livre
como gaivota
no céu
no espaço infindo
que me leva
a ti

Discorro
meus pensamentos
meu sonhar
teus sonhos
teus sonos
teus encantos mil
que beijo
como se teus doces lábios
se encontrassem
aqui

Pedro Rodrigues de Miguel

sexta-feira, junho 25, 2004

Kumbe ou memórias no tempo 

Comemora-se hoje o Dia da Independência de Moçambique.
Deixo aqui uma pequena estória, escrita há já algum tempo, que ofereci a alguém que muito Amo como amo o meu País.

Súbito, como todo o sempre, o Sol namaachou. Noite estrelosa aquela, aguardável e saborosa como manga com sal de Siriri, o baniano do bazar. Sempre era assim nos dias de vir em casa de seus tios lá na Malhangalene. Uma, duas vezes por semana, era lá o serão.
Era noite de Pedro não ensonar.
Sua infância lhe corria ao lado da meninice. Desentendia. Os longos cabelos louros e o doce sorriso nos lábios destraduziam. Sua dor funda. Em casa, tudo lhe barulhava. Sentia-se perder pai e pátria!
Mas naquelas noites, quando seus pequenos pés lhe caminhavam e a capulana das acácias lhe envolvia os passos para aquela casa da Malhangalene, só então Pedro se aprontava de alegrias por dentro.
A casa ficava numa esquina, num canto adormecido de um mundo de fantasia dos confins do tempo. Lá dentro tudo lhe encantava. Os seus olhos de criança sentiam os xicuembo de cada um dos pequenos nada. A nota desafinada do piano, a trela do cão no corredor, o cheiro negro e duro da umbila. Mas local que gostava mesmo era sombreira de porta. Lueira de porta que era noite de serão.
Passava ali tempo infindo, catando estrela, olhando a negritude do infirmamento.
Muro ao lado havia uma papaieira que largava seu cheiro acre no ar se misturando ao doce inebrilhante dos maracujás. E era naquele ambiente de feitiço, sentado ao lado do tio, que se sentia ñwana, olhando todos aqueles pontos no céu estreluzindo.
― Tio, porque as estrelas estão tão longe?
― Perto, mufana, perto.
Gargalhou, lacómico. Sempre assim foi. Resposta simples e sorrisenta. Noite no céu é como noite na Catembe com suas tremeluzinhas.
― Só porque a gente não chega, não tem que estar longe.
― Mas...
― Kumbe, mufana.
― Se?
― Se...!
Sempre lhe falava com aquele entrecortar de xironga que se lhe foi adentrando como sua língua mãeterna.
Pedro se adentrava em suas poucas memórias, tão pequenininhas. Olhava no mundo. Se aconchava no quente de se lembrar. Se pedia um esforço de sentir que nascia outra vez. Queria não se perder. Errar é próprio do homem que é ser errante. Vaguear na lembrança é viver por dentro. Vida é um rio que corre para o longe e molha a margem. A margem nos fica à margem, corre ao lado. Mas nos fica a lembrança das mangueiras e do matope.
Que bom que é sentir, mais tarde, o quente do destino. Olhar no longe e querer estar tão perto. Triste é viver com o mesmo sem vontade com que rasgamos o ventre a nossa mãe. Desmemoriamos. Ficamos presos à solta.
Me lembro dele. Quantas vezes uma lágrima presumida. Parecia buscar a solidão como aconchego do mundo. Do mundo e do tempo que fugia como o rio. Não sei que se lhe fez das lembranças, dessa doce herança. Lembrar é esquecer o presente. É querer o passado no presente. Pedro se vivia o seu mundo, criava seu destino. Olhava à volta e sentia cada momento. Queria sentir a vida nos seus sentidos. O cheiro da terra, o aroma dos cajueiros, as flores vermelhas das acácias que lhe enchiam os olhos. E ver as gentes que os outros não viam. Deixar-se ficar naquela idade. Visitar o que ninguém ouvia, correr as imagens que os outros não escutavam. Tocar o tempo, molhar os pés na margem.
Um dia tudo se longeou. E Pedro se perdeu no sempre do tempo. O tempo lhe envolvia e desencontrava memórias. Era como noite de cacimbo. Tudo estava lá e desconseguia de ver. Nessas noites, da outra margem, nem xilunguinè luz. O escuro esfria. Pedro se agarra às palmas das próprias mãos. Se segura. Há tanto que perdeu seu tempo, parece que a noite não acaba mais. O cacimbo se lhe mistura nos olhos. São suas lágrimas que fazem a névoa, é o cacimbo que chora. Já não sorrisa mais.
Perder o tempo é perder a vida. Já não vejo nele o sorriso do mufana. Sei que se procura. Vejo-lhe as mãos entre os cabelos como quando menino. Os olhos fechados procuram o escuro como se a noite lhe pudesse trazer o dia. Um xipefo que fosse, que lhe iluminasse o tempo. Molhar os pés no rio, sentir a margem. Há uma dor funda que lhe esconde o olhar. E tudo se esconde nesse olhar do tempo. Procura o que mais não tem. Olha a distância já sem vontade. Adormece nos seus próprios sonhos. Abraça o que tem por dentro e sente o nada. Já muito longe lhe vai o olhar a outra margem. Vejo-o só na imensidão do tempo que procura. Aconchega-se no vazio. Procura os próprios passos.
Procura no tempo a soleira da porta da casa da Malhangalene. Quer-se sentar lá outra vez. Mas a memória está tão longe. Já não vê os aromas, não escuta as imagens, não sente os passos. Sente-se adormecer, ensonar. A casa está deserta das suas lembranças. Tudo está triste em suas memórias. E aquele cacimbo. A cada momento uma imagem fugaz, só isso. Agarra de novo as palmas das mãos. Segura-se seguro que a manhã chegará. Talvez o sol chegue e o cacimbo se vá. Se o sol chegar, lá do fundo da Xefina. Se o mar deixar. Se deixar correr as lágrimas e lhes sentir o sal. Talvez nelas esteja o sal que traz o mar que deixa vir o sol. Se um dia a memória deixar ele vai deixar-se na memória. Se um dia puder agarrar uma estrela vai deixá-la brilhar dentro de si. Se um dia a noite lhe trouxer o infinito vai correr atrás dele. Se a memória deixar...
Kumbe!

Pedro Rodrigues de Miguel

terça-feira, junho 22, 2004

Tu, Minha Vida 

Ousada madrugada
como ave que grita
do alto da luz
da Lua
e me ilumina
o caminho certo
em que me perco

Luz do dia
espelho de água
banhado de Sol
que grita
do alto da luz
a palavra que me segue
o sussurro que me serve

Noite de Lua
que espelha o Sol
e se despe
como tu diante de mim
como a primeira vez
que teu corpo tocou
meu corpo sem fim

Pedro Rodrigues de Miguel

domingo, junho 20, 2004

Perder-me 

Diz-me
minha fonte de segredo
porque a loucura me leva
por tão profundo Amor

Diz-me
sussurra-me ao ouvido
a palavra vã
que esse doce pulsar
não me deixa ouvir

Diz-me
diz-me tu
chama meu nome
como só tu sabes
e me enganas o chamar

Diz-me
porque sonho
na penumbra do quarto
tuas carícias
tão ternas e belas
que me embalam o sonhar

Diz-me
com teus olhos doces
as palavras que me faltam
os gestos que perdi
para só em ti
me poder perder

Pedro Rodrigues de Miguel

terça-feira, junho 15, 2004

Os Indigentes 

Província 98

Estou a olhar p’ra um copo de cervejinha fresca, um fino como a gente lá lhe chama, uma imperial como dizem aqui. Com o dinheiro que tenho bem que vou continuar a olhar a não ser que consiga cravar alguém. Às vezes é assim, entramos num boteco qualquer só p’ra admirar as bebidas, ou antes, os outros a beber. Que sede qu’isto me faz. Devemos ser masoquistas p’ra entrar em esquemas destes. Mas o meu primo Armando diz qu’isto faz bem à alma. Que bem que faz, porra! Faz mas é uma sede qu’a gente já nem sabe a quantas anda. Um gajo quase que lhe sente o sabor. Deve ser a isto que aqueles tansos dos alcoólicos anónimos chamam de bebedeira seca. E bem seca!
Isto depois dos banhos públicos, dos “banhos quentes”, até vinha a calhar. Nunca mais chega a altura de voltar p’ró Porto, ao menos lá conseguia uma cervejinha na crava, de certeza. Tenho que convencer o meu primo Armando, até porque tínhamos uma hipótese de entrar p’ró programa Porto Feliz. Que felicidade do caraças!... só se for p’ró Rui Rio e toda aquela maralha que anda a encher os bolsos à nossa custa. Todos de fatiota, gravatinha.... e nós sempre a penar! Esquece meu, esquece.
Os dias passam e continuamos os mesmos indigentes. Indigentes, que raio de palavra qu’a doutora Georgina, a tal assistente social da Junta de Freguesia, havia de inventar. Vá lá, vá lá... antes éramos os filhos da puta dos sem abrigo. Já não é mau que não se refiram à nossa mãezinha sem razão.
O meu primo Armando resolveu pedir uma garrafinha, daquelas de plástico de água, com óleo de fritura. Ele diz que é do melhor p’ra proteger a pele das intempéries e do sol. Se é ou não, não sei, mas que ficamos a tolher a peixe frito, ai lá isso ficamos. E na verdade o peixe frito aguenta-se muito bem naquelas coisas de vidro, e cheia de moscas, lá nos botecos. O peixe frito fica com uma pele muito resistente. Não há nada que o estrague. Mas a minha pele também é muito resistente, ou como diz o meu primo Armando, é pele de drogaria. E deve ser verdade. Nem sarna se lhe pega. Olha eu com sarna e, a coçar-me todo, ‘tá quieto ó macaquinho que ‘tava logo à pega com a Ludovina no próximo banho. Em vez de me pôr Quitoso na cabeça, obrigava-me a tomar banho de imersão em Quitoso. Porra! Faz-me lembrar a outra que tinha estado a fazer coisas com a mão ao namorado e o padre mandou-a ficar com a mão meia hora dentro de água benta. Quando a amiga chegou para se confessar, desistiu antes que o padre a pusesse o dia inteiro de molho.
E lá metemos nós os pezinhos ao caminho. Os pezinhos é uma forma de dizer: as Naique! Sim, mais uma oferta dos serviços sociais da Junta de Freguesia de Arroios e, porque não dizer, da Dra. Georgina. Hoje resolvemos ir ao Parque das Nações. O meu primo Armando chama-lhe a Província 98 e diz que deve haver lá muita gente que passa férias todo o ano. Eu cá comecei logo a pensar: também devem lavar os dentes com Theramed 2 em 1. Pois não! Férias por um dia precisava eu, desta vida de indigente.
Francamente não percebo porqu’é qu’aquilo é zona de gente fina. Meio deserto e as coisas ao abandono. O Pavilhão do Futuro até já descasca. Grande futuro qu’aquilo deve ter se ninguém lhe botar a mão. As calçadas, meio levantadas, fazem inveja à Mouraria e ao Bairro Alto, juntos e ao vivo. Obras e basqueiro por todo o lado. A administração daquela merda deve ser gerida por indigentes. Ainda por cima era dia de jogo! Porra, mas vai tudo buzinar p’ráli?!
Gostei foi das paragens de autocarros, onde os autocarros não podem entrar nem sair porque estão bloqueadas por mecos. Grande coisa!
Mais, aquilo é uma desorganização do caraças... os sinais ninguém os entende! Ora vejamos. Ruela fora resolvemos ficar na pedincha à entrada do Vasco da Gama, mesmo à vista do pavilhão, junto a um mascato todo ferrugento, cheio de pontas e uns dez metros de altura, que ninguém deve saber o que é nem p’ró que serve. Ambiente péssimo! Além de ninguém largar um cêntimo, que seja, aparecem logo dois bófias a chatear. Que não podemos estar ali, qu’isto aqui não é sítio p’rá pedincha, qu’isto é tudo gente séria. Gente séria, e nós?! Somos o quê?! De mais a mais o mono ouviu logo: mas que merda é esta? Os sinais já não servem p’ra nada? Eu bem digo qu’aquela merda dos sinais é tudo uma grande desorganização. Pois, e aquele sinalzinho ali além? ‘Tá lá bem escrito: Zona Pedonal! Ora, Zona Pedonal não é o sítio onde se pode pedir? Sim, zona pedonal deve ser zona p’ra pedir! Ignorantes! Ignorantes, nós? Estes filhos da puta dos bófias estão cada vez mais estúpidos. Além de não saberem o que é uma zona pedonal ainda confundem ignorantes com indigentes. Indigente é um gajo que necessita de pedir, ignorante é um gajo que necessita de ignorar. Ora, eu estava mesmo com vontade de ignorar a ordem daqueles cabrões mas, o meu primo Armando, sempre falinhas mansas, lá conseguiu dar a volta à coisa e ainda se pôs na ladainha com os bófias. Delicadamente perguntou-lhes se não podíamos construir um barraco por ali perto! Podem, podem... lá p’rós lados de Vila Franca!
Não achei a resposta muito delicada mas, o meu primo Armando, até a julgou bastante inteligente.
Lá desandamos dali e botamos os chanatos a caminho, a caminho de Vila Franca...
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!

Quiz

Encontro 

Percorro teu corpo
em meu desencontro
como madrugada que sobe no dia
como Sol poente
que se namaacha

Percorro teu corpo
escrita que se escrevinha
como capulana
que cobre o sentir
como doce pensar
que se me sente

Percorro teu corpo
livre ao luar
como cacimbo
que me afaga o peito
como chuva quente
que molha a terra

Percorro teu corpo
encontro de halakavuma
como palavra
que se me repete
como sentido pensar
que percorre meu corpo

Pedro Rodrigues de Miguel

sexta-feira, junho 11, 2004

Lembrando-me de ti... 

Regresso

Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende

Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que adormecemos

Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro

Mia Couto, Bilene, Janeiro de 1981


Confidência

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto, Agosto 1979

Pedro Rodrigues de Miguel

quarta-feira, junho 09, 2004

Gosto que me confunde... 

Olhei-a. Vi-lhe os olhos cerrados, nos cirros e nimbos do sono. Os lábios doces, calmos, sonholentos. O nariz adunco num respirar de sono leve. Os cabelos soltos, de ouro corados, atirados, num gesto para trás. Que doce pensar o meu olhar daquela face calma.
Sono solto!.... e eu a olhar!
Toquei-lhe de leve a loura guedelha como quem quer não querer acordá-la.
Que lhe vai na mente em tão doce pensar quando não se pensa. Ao longe o trinar constante dos Nocturnos de Chopin. Confundiam-se-lhe.
Amor não é o toque seco do gostar. É gostar desse toque de sentir, ver o outro e disso gostar.
E lá continuavam os Nocturnos na tarde de luz e Sol, na penumbra do quarto.
Gosto de a ver assim, gosto dela assim, gosto de ver dela assim. E é neste gosto que me confunde que julgo encontrar o Amor.

Pedro Rodrigues de Miguel

quarta-feira, maio 19, 2004

Os Indigentes 

Ludovina, meu amor

Acordei muito bem disposto. Seis e vinte da manhã, o Sol já raiara. Só uma pequena dor fina nas costas me incomodava. Os lençóis da funerária de Morais Soares eram um aconchego. Maravilha! Deviam ser do caixão d’ algum finório. Estou mesmo a imaginar o janeca, perninha estendida, sete palmos abaixo de terra. E eu aqui, mais o meu primo Armando, a curtir a luz do dia. É muito bom viver. Ainda mais quando sentimos o aroma do mogno de um sobretudo de madeira e temos a feliz sensação de que alguém já bateu a bota e não fomos nós. Felizardos que nós somos!
E lá estava o meu primo Armando, remelento, na sua bonita camisa de manga curta escandinava. Eh pá, hoje é dia de banho! Banhos públicos, ai ninas! Quarta-feira é quarta-feira! Dia aguardado p’ra tirar o sarro e o bedum acumulado. Encontro marcado com a água fria, o Quitoso e a Ludovina, ou como diz o meu primo Armando, a Senhora Enfermeira Ludovina Simões, que ele é tu lá tu cá com ela. Aquilo da água fria não é brincadeira nenhuma, apesar de à entrada se poder ler o letreiro “Banhos Quentes”. Banhos quentes a puta que os pariu, tão quentes como a frieza da puta da Ludovina que, nos olha como se fôssemos uma colmeia de piolhos. Vá lá piolhosos, toca a baixar a nuca. E ai daquele que respingar. O Pereira há uns tempos armou-se em cuco... levou uma porrada com o frasco de Quitoso nos tomates que nem foi preciso pedir segunda vez. Baixou logo a nuca... e os joelhos, o engraçadinho! Se não me engano foi a primeira e a única vez que sorri com algum afago p‘rá Ludovina. Até a tratei por Senhora Enfermeira, nesse dia! Não, só p’ra ver o Pereira a amouchar...
Às quarta-feiras também temos direito a lâminas p’ra desfazer a barba. Primeiro a barba, seus badalhocos! A Ludovina é de Rio Tinto, perto do Porto, e uma pronúncia e língua afiada pior que a do Major Valentão. Só em ombros é que é mais larga e usa umas socas, p’raí tamanho quarenta e dois, que se um gajo leva com uma nos cornos fica logo a falar sozinho.
O pior é que depois o Quitoso escorre e arde comó caraças em cima da pele arranhada de desfazer a barba. As giletes são descartáveis mas a Ludovina põe-lhes o nosso nome e temos que as usar durante três meses. Estamos no fim de um período e aquela merda já não corta, arranca! É fodido e o Quitoso ainda arde mais. A todos não que o meu primo Armando, sei eu lá como, consegue giletes novas de quinze em quinze dias. Leva a Ludovina à certa com as falinhas mansas dele. E a puta da velha toda langonhosa, a ouvi-lo. Velha sim, qu’ela já tem p’raí quarenta e sete anos ou mais. E bem estragadinhos!
Só depois é que vem a cena do sabão macaco. Quero tudo a fazer espuma! Fazer espuma, fazer espuma... cabra dos diabos! Com’é que podemos fazer espuma com aquela merda que mais parece pedra pomes que sabão e ainda por cima com a merda da água de Lisboa que não deve fazer espuma nem com o mais fino gel de banho?! Por falar em gel deixem-me fazer aqui um pequeno parêntesis. Hoje encontrei ma embalagem de Theramed 2 em 1 lá no balneário. Certamente algum cabrão que se esqueceu dela, fanada em algum chino ali perto. Deu um jeito do caralho... ao menos lavei a dentuça. Bem, aquilo é mais piorreia e dentes podres que dentadura, mas...
Adiante. Eu lavo sempre o imbigo com o indicador, zaque-zaque-zaque de um lado p’ró outro. O meu primo Armando é que tem a mania que é fino e lava com o mindinho. É como tirar o bedum das orelhas, é o mesmo! Quer-se dizer, a gente lava mas aquilo continua a cheirar mal na mesma. Hoje só não sinto o cheiro porque fiquei com o hálito do Theramed 2 em 1. A boca parece que ficou esfregada com uma mistura de urtigas e hortelã-pimenta. Não sei com’é que há quem use daquilo todos os dias!
Ena pá, grande marca, parece que foste agrafado! Era o meu primo Armando a apontar-me as costas. Agora percebo aquela dor fina com que acordei. O filho da puta do lençol devia ter um daqueles agrafes gigantes, p’ra não deixar cair o caixão, que se colou e enterrou na carne dos lombos... mais especificamente nas cruzes! Porra de dor, levou mais de sete dias a sarar. Contingências de um indigente. Devia apresentar queixa na Inspecção Geral das Actividades Económicas. Assim como assim achei melhor ‘tar calado e um dia destes contar o episódio ao padre Vítor Melícias. Espero que seja sensível a estas situações degradantes. Decerto também não gostaria que aquele crucifixo que usa na lapela se lhe enterrasse na pele. Pois não! Apesar que ele agora anda um pouco afastado e só aparece naquelas festas onde também costuma estar aquele ranhoso daquele professor, o Machado qualquer coisa, qu’antes falava muito da sida.
Pois, já me disseram q’um gajo pode apanhar sida nos balneários. Assim como assim lavo sempre muito bem os pés. Apesar da dificuldade em dobrar os joelhos depois de uma noite nos cartões e a banhada de água gelada no pelo. Também me disseram que se pode ficar com pé de atleta. Eu não, com certeza... com a alimentação que tenho! E também não ‘tou a ver o Carlos Lopes ou a Aurora Cunha nos balneários só p’ra ficarem com pé de atleta. Deve haver outras maneiras de o conseguir.
Quando ‘tava a acabar de tomar banho ouvi o meu primo Armando a dizer, Ludovina, meu amor, sei lá onde puseste o Theramed...! Então é isso, Ludovina meu amor! É assim que ele a leva à certa. O melhor é sair pelo soleno não vá ela dar pelo hálito. Sim, que não ‘tou p’ra ser apanhado e quero usar o Theramed, daqui p’ra diante, todos os dias como aquelas gajas finas que passam férias todo o ano. Eu é que precisava de férias desta vida de indigente.
Bem... e hoje a gente fica-se por aqui...!

Quiz

sábado, maio 08, 2004

Os Indigentes 

Mistura Fina

E lá fui eu mais o meu primo Armando. Noite fora… e a noite é muito triste. Nem sei como é que um indigente como eu consegue escrever coisas destas. Mas ainda fiz a 4ª classe na escola pública. Sim, que sou indigente mas não sou nenhum analfabeto. E o Sr. Ramos, o meu professor primário, não se ensaiava nada em nos arrear umas canadas nas pernas nuas, de calções, ou umas palmatoadas até a gente aprender. Parece-me que era um método bastante cruento mas eficaz para evitar o insucesso escolar. Ali era assim. Não havia opção entre sucesso e insucesso. Levávamos um enchurro de porrada que perdíamos logo a vontade de gatar no exame da 4ª classe. Mais, três erros no ditado e já estávamos à pega.
Deve ter sido por esta exigência que eu tive de me baldar a estudar p’rá catequese. Sim, que a minha mãe queria que eu fosse todos os Sábados para a capela lá do sítio aprender os mandamentos e a lei de Deus. Eu até não me importava porque a catequista era muito nova e muito minha amiga e estava sempre a dar-me miminhos no cabelo. Acho eu, agora, que devia ser por na altura me achar um indigente, como agora se diz. Não, não me venham cá com essa história da pedofilia que isso é uma coisa recente inventada por aqueles queques da Casa Pia. Certo, certo, é que isso não me valeu de nada… chumbei logo no exame p’rá primeira comunhão. O padre disse que eu era um autêntico anormal só porque lhe disse que os “pecados da carne” era não se poder comer carne à Sexta-feira. Ora bolas, então o que é que havia de ser?! Mas eu já estava habituado. Também a minha mãe já dizia que eu era um anormal. Vai p’rá catequese que assim não andas por aí a fazer maldades. Ou seja, a catequese era mais um castigo que uma obrigação. Mais sorte teve o meu primo Armando que ainda passou no exame da comunhão solene… não lhe adiantou a ponta de um corno que depois não tinha dinheiro para a fatiota, a vela e o laço. Bem feito p’ra não se armar em tanso!
Adiante! Lá fomos noite fora. A nossa tendência p’rás igrejas continua a perseguir-nos ao longo da vida. Dirigimo-nos p’rá Igreja dos Anjos, direitinhos a uma reunião de alcoólicos anónimos. P’ráqueles tansos basta dizer que somos alcoólicos p’ra termos direito ao cafezinho. É a isso que vamos. Café à borla e umas bolachinhas. Alcoólicos! Tesos com’á merda desconfio que se um copo de água na pastelaria não fosse de borla até à sede morríamos. O único problema é termos que aguentar aquelas lamechas todas p’ra termos direito a um ou dois copos de plástico de café. ‘Tá bem! Pelo menos sabe bem p’ra desmoer a janta e a fruta tocada.
Depois lá temos que aguentar aquele blá-blá-blá do somos impotentes perante o álcool… vão chamar impotentes à puta que os pariu! Indigente… agora impotente!?
O meu primo Armando lá tem jeito p’ra conseguir o terceiro copo de café. Também conhece as “companheiras” todas! É companheira para aqui, companheira para ali, até já parece a Sopa dos Anjos onde todos nos tratamos por companheiros. Todos, todos, não! Que o filho da puta do Pereira, o das pernas grandes, não devia ter direito a tal tratamento. O cabrão passa o dia a apanhar beatas apagadas da rua, depois junta o tabaco todo e enrola-o em mortalha que nos vende. Chama-lhe “Mistura Fina”. Que raio de nome que ele foi inventar. Rapa-nos o dinheiro todo que vamos juntando com o arrumar dos carros. E ainda tem a lata de dizer que se não fizesse aquilo mais o tráfico de panfletos no Intendente, a coisa que mais gostava de ser era Guarda Fiscal. O filho da puta até que nem é burro. Ladrão por ladrão…!
Ao menos nos alcoólicos anónimos podemo-nos desforrar. Fumar um SG ou um Marlboro sem complicações que os “companheiros” são todos delicados. Ó companheiro, ´tamos aqui é p’ra nos ajudarmos uns aos outros. E lá vai mais um cigarrito à borla. Que bem que sabe. Melhor que nos tempos da escola primária, na escola municipal, em que tínhamos que apanhar as periscas do professor da 2ª classe, ainda acesas, e ir mandar uma passas p’rá cagadeira p’ra matar o vício. O vício não, que naquela altura não era vício. Era p’ra matar a fome do pão duro roído com uma malga de cevada cedo pela manhã. Era muito triste a vida de uma criança criada num barraco… divisão única! Hoje em dia eram capazes de lhe chamar Tê-zero. Nome pomposo p’ró barraco em que tínhamos sempre que adormecer antes dos pais senão, levávamos no focinho. Vá-se lá saber porquê?! Bem, isto nos dias em que o companheiro da minha mãe aparecia lá por casa e dizia: hoje venho esvaziá-los! Nunca percebi o que é que ele vinha esvaziar. Não trazia nenhum saco nem nunca deixou lá em casa fosse o que fosse! Ah, a não ser a ameaça de um enchurro de porrada se eu não adormecesse depressa. Eu fingia, pois não! Ainda o cheguei a ouvir, ó Maria vira p’ra cá a melancia. Quantas vezes me apeteceu dizer que também queria uma fatia, mas… bem tinha que aguentar pela manhã pelo pão dura e pela cevada que nessa altura, de melancia, nem as cascas. Porra, comer cascas e tudo… a fome é negra!
Lá acabou a reunião e fomos buscar as placas de cartão, os lençóis como lhes chamamos, p’ra mais uma noite de aconchego numa entrada vazia.
Bem… e hoje a gente fica-se por aqui…!

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quinta-feira, maio 06, 2004

Cire… era uma vez (III) 

Aquele Inverno era um Inverno que chovia chuva fria e amarga. Cire perdera-se dos seus mais directos e a fome mordia-lhe as entranhas. Nunca tivera tanta fome e tanto frio. Frio na alma e no corpo. Fome da paz das palavras doces e de algo que lhe acalentasse a barriga. Nem do Seu Segredo sabia. O vento uivava como chicotes nos ramos nus dos castanheiros já despidos de seus ouriços. Escorriam água que fugia para o chão em enchurrada. Lama, pedras, frio, água, solidão, tudo se juntava num inferno de raiva e natureza bruta. Cire tremia de frio, de medo e da incerteza que a todos abarca quando tudo parece perdido. Foi então que algo mudou em toda esta paisagem de Dante. Começou por ser um som diferente. Sim, apenas isso, diferente. Algo que não se coadunava com os gritos ferozes da Mãe Natureza. Parecia humano. Ou antes, de rato. Era como que um sussurro que se foi tornando mais forte, mais audível. Era um chamado, um grito de angústia. Os olhos turvos da chuva fizeram um esforço e correram o lodaçal e o mar de fúria. Arrastou-se na direcção que pensou certa. Rastejou e foi arrastado. Bateu numa pedra e estancou. O som vinha-lhe agora nítido e perto. Lançou a mão mínima e frágil e deu-se conta de um pêlo húmido que não era seu. Fez um esforço e puxou. Arrastou enquanto pode, o que pode e não pode, sem saber bem para onde. Pareceram-lhe horas a fim. O instinto deu-lhe as forças que não tinha. Encaminhou-o pelo caminho certo que ele próprio desconhecia. Arrastava consigo o corpo inerte que não sabia. Não foi fácil aquele primeiro encontro com Ruhtra.
Quando deu por si, encontrava-se perto da gateira que tão bem conhecia. E não estava só. Tinha um corpo frágil a seu lado. Parecia maldade. Perdera tudo e todos (até o Seu Segredo?) e salvara alguém que não lhe dizia nada. Arrastou-a mais para dentro. A cave fria, e agora inóspita, era só sua. Só sua e de mais ninguém. A verdade nua e crua. Era dono do nada e da imensidão das suas memórias. E agora, como se lhe não bastasse ter de lutar por si, contra o nada, tinha aquele corpo a seu lado para lhe lembrar que outros iguais tinham existido. Foi um inferno aquele Inverno. Deu-lhe o canto mais quente. Deixou sobrar para si as palhas húmidas que as secas poucas eram. Dividiu grão a grão o pouco que tinha de guarda. Chegou a mentir a si próprio dizendo que já comera a sua parte. Sentiu momentos de angústia e até ódio por aquele ser que lhe tirava o pouco que tinha... sem, no entanto, nada nem nunca lho pedir. E às vezes sentia-se grato e o ódio tornava-se amor. Era isso: o seu consolo era dar o que sempre pretendera para si. Aprendera a dar. Jamais seria a criança inocente que todos protegem. Sentiu as lágrimas amargas e a alegria, a fome e o conforto, o frio e o calor da alma. Berrou, berrou aos quatro ventos que podia viver sem dor no meio do sofrimento, que podia sofrer sem dor no meio de tanta vida. Ruhtra não fora, na verdade, o milagre enviado à sua vida sem sentido, fora antes o espinho que lhe faltava para se sentir completo, o estímulo da porta do templo de Delfos, o tudo ou nada do conhece-te-a-ti-próprio.

Pedro Rodrigues de Miguel

segunda-feira, maio 03, 2004

Perder-te nos sentidos... 

Alcácer esperava-nos à hora do almoço. O branco caiado da igreja velha brilhava ao Sol. Corremos em passo lento a calçada velha da rua interior. Um vai-e-vem, adiante e atrás, com um pousar de olhos na inocência de montras de lojas que já não existem. E os estendais, pau erguido e a roupa a corar.
Escrevo isto com uma melancolia, sem azedume ou lamento, que me afaga o mais íntimo que há em mim. Sinto-lhe a mão que me acompanha neste deambular. Sinto o ar sonolento da vila no pico do Sol. É uma vila calma que agrada, Sado a correr, ponte velha do outro lado como tela de van Gogh… é isso que me lembra!
Sentei-me à mesa, hora passada. Olhei-lhe os olhos ternos e compreendi-lhe o estender de mão. Foi um toque suave que me disse mais que imensas palavras. A refeição passou depressa por entre o robalo e o borrego ensopado. Fumei um cigarro que me soube a calmaria.
Dirigimo-nos à estrada. Um milhafre siou de repente, uma cegonha lá do alto mirou-nos enquanto os pinheiros mansos nos acompanharam caminho fora em direcção a uma praia calma, perdida entre aromas a pinho e maresia.
Praia da Comporta. Uma língua de traves de madeira, em forma de passadiço leva-nos ao cimo da duna. O mar em frente faz-se calmo. Um barracão envidraçado na frente, oferece-nos umas espreguiçadeiras cómodas em que repousamos o corpo. O sol bate e uma brisa leve e morna afaga-nos os corpos. Olho-a de soslaio e noto-lhe o ar sereno que lhe brilha nos olhos verdes e nos lábios sorridentes. Sorvo um café aromático que me dispõe enquanto ela prefere um sumo de ananás mergulhado em gelo.
O ar quente convida à modorra. Ela tem um sorriso e encosta-me a cabeça no obro. Um ar de sonolência envolve-a e adormece. Há um gosto que me enternece de a ver assim. Afago-lhe os cabelos sem a acordar. A idade entorpece-me e reganha-me a inocência. Gosto de a olhar assim. De a ver na plenitude do sono que a embala.
Olho o mar calmo e sonho-a, acordado. Aquela tarde faz-se-me calma e acalma-me o desassossego da vida. Algumas gaivotas esvoaçam, algumas como que paradas no tempo fingindo confundir-me os pensamentos. De repente, sinto-lhe o acordar e um beijo ao de leve na face. Há sabores que se ganham, há tanto perdidos. Trinca um pouco de chocolate de que sinto o gosto num terno encostar de lábios. São lábios doces de cacau gostados que me enternecem. Sou um rapazinho sem emenda.
O marulhar das ondas confunde-se com o aroma acanelado das farófias. Ela gosta. Uma neblina, ao longe, parece prolongar a Serra da Arrábida. Há em tudo isto um gosto imenso. A natureza envolve-nos enquanto as mãos se tocam e os dedos se entrelaçam. Deixo-me espraiar neste gostar.
A tarde finda num Sol poente, envergonhado de se fugir. Voltamos.
Há tardes que não se perdem da memória. Há momentos que se ganham de tão curtos. Cai a noite que nos ilumina e perco-me em pensamentos e desmemórias que não são mais que um perder-te nos sentidos.

Pedro Rodrigues de Miguel

quinta-feira, abril 29, 2004

Cire… era uma vez (II) 

Agora Cire estava grato a Gregório e bem o entendia. Olhava à sua frente e aquelas quatro bolinhas pretas eram a certeza da sua própria origem. Ratos davam ratos e as histórias das ervilhas e das leitugas também se aplicavam a ratos! E quanto mais olhava mais acreditava que todos somos um pouco de tudo e só assim fazemos um todo. Pouco lhe interessava que fosse puro ou impuro. Noé morria à vista de quatro bolinhas pretas. Lembrava-se do que tantas vezes lhe tinham tentado ensinar na escola: “De todos os animais puros levarás contigo sete pares, o macho e a fêmea; dos animais que não são puros, levarás um par, o macho e a sua fêmea; das aves do céu, também sete pares, macho e fêmea, a fim de conservares a raça delas viva sobre a terra. Porque dentro de sete dias, vou mandar chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei na superfície de toda a terra todos os seres viventes que Eu fiz. E Noé cumpriu tudo quanto o Senhor lhe ordenara” (Gn 7, 2-5). E sem saber muito bem porquê, sem dominar o seu pensamento, surgia-lhe logo de imediato a figura terna de Mark Twain. Talvez porque uma coisa lhe fazia lembrar outra: “ Primeiro, Deus criou os idiotas. Isto foi só para praticar. Depois criou as Autoridades Escolares”.
Naquelas duas semanas o Sol brilhara como nunca na vida de Cire. Não era só a alegria da Primavera. Era verdadeiramente a Primavera de toda a sua alegria. O brilho de seus olhos era o brilho do Sol e da Lua. Era a alegria louca do Amor pela sua amada Ruhtra. Tinha enfim alguém a quem contar as suas próprias histórias. Até podia ser Inverno que para si o Sol continuaria a brilhar. O afã, os mil e um trabalhos, as canseiras, o corre-corre, tudo lhe era grato porque corria por um pouco de si próprio.
Lembrou-se da sua infância e da fome. De tudo de bom e de mau que lhe havia acontecido. Das histórias à lareira, dos Invernos duros e frios, do aconchego de sua Mãe, das brincadeiras no campo, de como crescera ausente do mundo, de como se perdera na imensidão do nada, de tanto sofrer, de tanta labuta, das pedras das fisgas, do veneno, da alegria de ser feliz sem saber porquê, do medo, de um dia encontrar Ruhtra... de um dia ser feliz e outro não. Vida de rato.
Agora olhava o mundo e sonhava os tempos passados. Conhecera Ruhtra num longo Inverno em que lhe parecia já não ter razão a vida. Não que lhe quisesse pôr termo. Nisso nunca pensara. Nem precisava de fugir da ideia que ela, pura e simplesmente, não lhe vinha à ideia. Só que não achava razão na vida. Parecia não saber muito bem para que servia. São coisas que acontecem e não sabemos bem explicar. Ruthra não lhe aparecera como que por encanto, não fora um acaso feliz, não fora o milagre enviado à sua vida sem sentido. Pelo contrário.

(continua)

Pedro Rodrigues de Miguel

quarta-feira, abril 28, 2004

Manhã de sonho 

Manhã de sono. Manhã de sono. Acordei tarde nas horas. No dia anterior a festa em casa do Aires. A irmã fazia anos, sete ou oito, lembro lá. E nós aproveitamos. Finalistas de liceu.
Acordo agora, já tarde. Não tinha aulas ao primeiro tempo das quintas-feiras. Chego tarde, atrasado, ao liceu. Já passa das nove. Burburinho na aula da Mariana Manso. OPAN! Que tinha acontecido qualquer coisa, ninguém sabia.
Na noite anterior, tarde, volto a casa de madrugada., de volta da casa do Aires. Nem smbra de bófias no Marquês. Coisa estranha. Bagunça naquela aula, com aquela professora? Não percebo! Sento-me. Eh pá, será uma revolução outra vez? Golpe das Caldas ainda fresco na memória.
Tinha dormido sozinho na casa. Sem rádio ou televisão. Apenas o despertador mecânico. Mecânico levanto-me, já tarde, despertador sem dar horas. Porquê? A festa do Aires. Pois, não o liguei. Visto-me à pressa e corro pela quelha que me leva ao liceu.
Termina a aula, intervalo grande. Só carros a chegarem ao liceu. Os papás aflitos. Afinal houve mesmo uma revolução lá em baixo. E o lembrar da Faculdade de Ciências ainda arder, ainda na memória.
Corro à sala de rádio do liceu. Ensonado, estremunhado, confuso. Vejo o Vítor, o Vítor meirinho.
— Vamos lá, pá, houve ma revolução.
E berramos aos altifalantes do liceu.
— Malta, houve uma revolução.
Entra o reitor, seus malandros, não têm vergonha!
— Ave de rapina, homem das cavernas...
... grita-lhe o Vítor.
Virou-nos as costas. Ficamos a olhar um para o outro. E agora? Agora a média, a dispensa a todas as disciplinas, a dispensa da Aptidão...
— Porra, se esta merda não vai para a frente!
— ‘Tamos lixados.
Faz-se longe a memória da nossa terra. Moçambique lá longe e nós aqui. E agora?
O reitor não voltou. Não houve mais aulas. No dia seguinte ainda a luta. Mas houve mesmo uma revolução. A Revolução resultou. Dispensamos a tudo. O dia passou.
E nós aqui e agora à espera da Revolução!

Pedro Rodrigues de Miguel

segunda-feira, abril 26, 2004

Poema lembrado 

Mas se ainda nem me sei perder,
Como me poderei encontrar?!
Perdi a esperança no porvir?
O jeito de me encontrar!
Sei lá, olhei em volta…
Acredita, diz-me Ela
Que é minha Lua
Como Sol em noite escura.
Redoma que se abriu
No gesto doce de um beijo,
No olhar verde da esperança.

Gesto sentido,
Doce carinho, encontro de mãos,
Retrato a preto e branco
Que se faz colorido.

Enlevo de vida,
Acordar de um sono sonhado
Que me perdeu, encontrado,
Na imensidão do Amor.

(Poema a Alguém, escrito a lápis pautado)

Pedro Rodrigues de Miguel

quarta-feira, abril 21, 2004

Cire… era uma vez (I) 

O Sol brilhava intenso e arquejava por sobre a erva lenta e verde, mimava os musgos que se abraçavam para lhe fugir e se esconder na sombra, adamava os frutos jovens que por ora fingiam crescer, dourava o alto das espigas que se espojavam em miríades de pequenos grãos, entrava pelas frestas das janelas e brincava nos chãos de soalho nu como notas soltas de uma sinfonia sem fim, dava vida e vigor às infusas verde garrafa que amadureciam o néctar tânico dando ao doce hemático as cores do arco-íris, calcorreava os calhaus rolados do regato levando à sua frente as gotas frescas e límpidas da água corrente, fazia, enfim, um pouco de vida em tudo o que tocava. Eram momentos de felicidade a que nenhum ser se podia furtar. Eram momentos em que a vida corria como que só de felicidade fosse feita. E Cire não fugia a essa felicidade que tanto queria. Corria desenfreado de um lado para o outro como se quisesse correr contra a vida que tanto amava. Cada canto e recanto, que há muito conhecia, eram como se de novo lhe aparecessem. Sentia-se mais jovem na sua própria juventude.
Finalmente acreditava naquele monge de Heinzendorf. Afinal não eram lérias apenas sobre ervilhas e leitugas... também se aplicavam a ratos! Um antepassado seu falara-lhe de um velho da família que vivera há muito, muito tempo, num mosteiro em Brünn e conhecera um jovem monge, um tal Gregório, que decidira contar vezes sem conta quantas vezes podia contar as mesmas coisas nas flores da ervilheira. Cire não percebia bem o interesse que poderiam ter as flores da ervilheira para a felicidade de um rato. Não percebia na altura e até duvidava. Também muitos, como lhe dissera o seu tio-avô, duvidaram do homenzinho de Brünn. Duvidaram ou um pouco mais ― acharam por bem calá-lo, que isso de ervilhas e leitugas era uma história de pouca sanidade. De mais a mais, pelas mesmas alturas, lá para os lados de Down House, um outro homenzinho, de Shrewsbury, resolvera pôr em dúvida a originalidade das origens. Tinha tido a ousadia, só porque um dia resolvera viajar num tal Beagle, de duvidar Da Origem das Espécies. Fizera estourar, esfumar na poeira dos tempos, o catastrofismo da Arca de Noé. Pôs lado a lado todos os macacos e tantos outros bichos, arrepiou caminho ao dualismo, fez com que cada um de nós fosse mais bicho e mais homem, deixou que o monge Gregório fosse a sua própria prova e deu-lhe luz e alma.

(continua)

Pedro Rodrigues de Miguel

domingo, abril 18, 2004

Com a Música no Coração 

Quarto, quase Lua cheia. Bom presságio. Nota-se um esboço de dia. Há um cinza-azul quase laranja que refulge lá no fundo. Olho o rio de cima, verde-vidro, espelho de água. Intocável, impassível, profundo. Curvas em remanso de areal que se me confundem com o som profundo de um Capricci de Paganini.
Passa as Devesas e o meu corpo pede-me um fechar de olhos. Deixo-me ir naquele Maestoso seguido de Agitato que me calma o pensar. Passo pelo sonho. Deixo-me ir naquela imagem que se me ficou de casas lindas, dos vintes, da Aguda e da Granja.
Espera!... hão-de pedir-to quando chegar a primavera. E ouço Vivaldi. Logo de seguida Méditation de Massenet. Doce pensar naquele doce compassar quaternário. Há uma harpa lá no fundo que me deseja uma paz imensa que o violino transcende nas mãos de Nigel Kennedy. Ah, se tu soubesses como é doce o teu ensonhar.
Agora há um rio que corre ao lado, sei lá qual. Segue por entre canaviais. Um cheiro acre atinge-me as narinas mas não me desperta da letargia funda, desse recanto, onde me deixas só contigo. Como se Bruch quisesse trazer-te a mim, tão de leve que teus passos se confundem com o meu pensar e te prendesses toda nos meus braços…
… Quando me lembra:… o eco dos teus passos… o teu riso de fonte…
Papoilas dispersas, vermelhas, vejo-as agora. Ladeiam o caminho. Papoilas mansas descomprometidas de opióides. Mas sinto o sono. Um sono comprometido com o Nocturno em mi bemol. Frédéric adormece-me.
Vejo o velho casario que estende o olhar longe, lá para o mar.
Há uma ternura em todo o meu sentir. É medo. É insegurança. E não saber dar.
Amor não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção, como dizia Antoine de Saint-Exupéry.
Volto a mim com uma paz de espírito que nunca antes senti. Sem ti. Contigo.

Pedro Rodrigues de Miguel

sexta-feira, abril 16, 2004

O meu Diário 

Férias da Páscoa

O meu pai está cada vez pior. No outro dia estávamos a ver um jogo de futebol na televisão e diz «eh pá, vista?... um golo igualzinho ao de há um bocado»! Dãããããã… brolho! Era a repetição. Nem topou! Não percebe puto de futebol. Só hóquei, só hóquei. Mas aí é melhor eu estar calado que já estou farto de levar nas orelhas…
Agora convenceu-se de uma nova: que tenho que tocar três (três…!) horas de violino por dia. Deve estar choné… também com a idade que tem! Quando diz, na brincadeira, que tem Alzaimer ou Altzaimer ou lá o que é, eu começo é a acreditar que é verdade. Olhem só: três horas de violino por dia! Não deve estar bom da cuca de certeza.
Mas há qualquer coisa que se tem andado a modificar nele. Há, há! Já desalapa mais do sofá e anda mais agitado. Chama camelo a tudo e a todos… eu sou o bombo da festa, para não variar!
Até lhe pegou a mania da Internet!
No outro dia mostrei-lhe o site do Humortadela. Agora não para de ir para lá ver os bonecos, as músicas e os joguinhos. Parece um puto! E eu estou a dizer “um puto” não é um pré-adolescente como eu. Levanta-se cedíssimo e vai para a net, não sei fazer o quê. Ainda anteontem acordei às sete horas e ele já lá estava.
— Oh meu camelo, já aqui estou desde as seis e meia — e eu com isso, nem lhe tinha perguntado nada.
Estava a ver as notícias do Público. Deve estar completamente biruta para ir ler o jornal àquela hora. Eu tenho cá uma ideia, mas…
Baixei as minhas notas no Conservatório. Ainda gostava de saber como é que os profes fazem as avaliações. Deve ser ao calhas! Ou jogam aos Metaltaz e conforme ganham ou perdem assim dão as notas. Aqui já concordo com o meu pai: esses gajos do Conservatório são todos uns camelos!
Até me senti melhor.
— Há excepções! —esta não percebi.
Mas ele, às vezes, tem assim umas coisas.
Hoje estive a ler o Clockwork Orange. Aquele Stanley, a falar, é pior que o Adelino que é um colega meu que já tem quinze anos e ainda anda no 6º ano. Vive no bairro da Fábrica do Sabão e também diz montes de asneiras… mesmo na aula!
Eu não sou burro nenhum mas não posso acreditar numa coisa que pensei. Quando estava a ver o blogue do Stanley notei que comenta muitas notícias do Público e faz sempre aquilo logo de manhã. Chegou-me a passar pela cabeça: será que o meu pai é o Stanley?! Mas não pode ser. O meu pai não diz aquelas asneiras todas. Fica-se pelos “camelos” e pouco mais. Sim, que o meu pai não é nenhum malcriadão. Às vezes chama tonta a não sei quem, mas isso é ele a falar sozinho.
O resto das férias foram fixes. Tive um torneio em Sintra e trouxe de lá uma bonita medalha. Ah!... e o meu pai comprou-me umas rodas novas para os patins… anda um mãos largas! Não percebo como é que às vezes lhe dá para estes mimos. O Pedro também foi e foram dois dias fixes.
Bem, está na hora que começo a ficar com sono.

João

Os Indigentes 

A sopa dos Anjos

Lá descemos nós, eu mais o meu primo Armando, a Avenida Almirante Reis em direcção à igreja dos Anjos. Bem, não era bem p’rá igreja mas em frente, p’rá Sopa dos Anjos que a gente ia. A puta da bicha já ‘tava grande comó caralho mas também ninguém nos mandou chegar atrasados mais de cinco minutos… é na merda que dá arrumar mais um carrito junto ao cemitério do Alto de S. João àquela hora. Mas o meu primo Armando dizia que o cabrão que tinha batido a bota era um gajo de nota e que um gajo havia de arranjar algum que desse p’ra um maço de tabaco. Ficamos fodidos que o caralho do pinoca do Bê-éme só nos deu 10 cêntimos, o grande filho da puta. Às tantas ainda queria troco!
Bem, eu como só ‘tou de visita a Lisboa ainda ‘tava mais fodido porque não tinha a merda do cartão de livre trânsito— novidade agora — que permite a um gajo ir à janta, às 18.30 em ponto à sopa dos Anjos. O meu primo Armando disse logo, que esquece que não há problema nenhum, eu entro e depois passo pela gateira o cartão e tu também entras, depois vais ter comigo senão o Sr. Carvalho começa logo a desconfiar. O que vale é que o cartão, com fotografia de perfil, “sem óculos e qualquer apêndice piloso” conforme diz a Dra. Georgina, que é a assistente social da Junta de Freguesia de Arroios, serve p’ra todo o bacano que tenha cara de estúpido como eu e mais o meu primo Armando.
O meu primo Armando, hoje, ‘tava todo jeitoso com a camisa nova que foi receber à junta de freguesia… às flores e de manga curta, com uma mancha de ferrugem no ombro esquerdo, vestida por cima das duas camisolas de lã que já lhe conheço há meses. Camisa de manga curta nesta época de frio…! Filha da puta de ideia que os gajos da junta têm. O meu primo Armando diz que devemos ser humildes e agradecer e até explicou que aquela mancha de ferrugem é dos atilhos de arame de apertar os fardos de roupa usada, enviados dos países escandinavos por uma associação humanitário de auxílio a pobres e sem-abrigo de países do terceiro mundo. Nunca percebi como é que aqueles cabrões daqueles países tão frios têm tanta roupa de manga curta.
O meu primo Armando lá entrou quando chegou a vez dele. Depois passou o cartão pela gateira e foi a minha vez de entrar. Notei que o cartão dizia: “Indigente”. Perguntei ao meu primo Armando o que é que raio era aquilo. Ele disse que também não sabia mas que tinha sido ideia da Dra. Georgina da Junta de Freguesia de Arroios. Ele diz que a Dra. Georgina é uma gaja boa como milho mas burra que nem um soco e com um grande par de mamas mas que não deve saber fazer uso delas porque deve ter uma falta de peso do caralho porque fode a cabeça a toda a gente todos os dias. Só esta última do “Indigente” obrigou o meu primo Armando a arranjar três (sim, três…!) atestados de pobreza assinados e carimbados por comerciantes locais. Como ele diz, foram mais as vezes que o mandaram p’rá puta que o pariu do que as vezes que lhe arranjaram o filho da puta do carimbo.
Adiante. Lá nos sentamos p’ra comer a sopa de couve lombarda. ‘Tava azeda mas é natural porque hoje é Domingo e a couve esteve ao monte, pelo menos três dias, porque a última e mais recente apreensão da Inspecção Económica foi na quinta-feira que aqueles cabrões não trabalham à sexta p’ra não foder o esquema aos restaurantes. Nunca percebi mas sempre que lá fui era sopa de couve lombarda. Lá estava o Sr. Carvalho e a D. Carlota que são o “pessoal do stafe”, pelo menos é assim que eles se dizem. Nós preferimos dizer que o Carvalho é “um topa a tudo” (…até as laranjas melhorzinhas o filho da puta leva p’ra casa!). O meu primo Armando só me disse que estávamos fodidos é se chegava o Pereira. Lá rapamos a tigela de alumínio, ou aço inox ou lá que caralho é aquilo, com um bocado de pão. Isto tem duas vantagens: comemos mais sopa e a malga fica devidamente escorrido p’ra depois nos podermos servir do peixe. É que não dão o peixe a quem não comer a sopa toda! O peixe também é das apreensões da Inspecção Económica mas há quem diga que fica pelo menos cinco dias na doca de Alcântara nos armazéns da guarda da Guarda Fiscal… sei eu lá p’ra quê!? Isto tem a vantagem de um gajo não ter que se preocupar com as espinhas que já vêm meio desfeitas. Foi aí que chegou o Pereira e foi aí que eu percebi porque é que estávamos fodidos se ele chegasse. O filho da puta tem mais de dois metros e p’ra se sentar afasta o banco corrido (sim que ali não há cadeiras individuais…! Não queriam mais nada, como diz o Sr. Carvalho) e ficamos todos a mais de meio metro da mesa. Foi aqui, e por causa desta merda, que o meu primo Armando ficou com uma nódoa de gordura na camisa nova de manga curta vinda dos países escandinavos. É fodido, principalmente se pensarmos que isto tudo de deve àquele cabrão ter umas pernas enormes. Eu por acaso não me caguei com o molho (óleo de fritar com cheiro a ranço…!) porque resolvi chupá-lo todo com miolo de pão.
Na fruta é que a gente se safa. O meu primo Armando dá-se muito com a D. Carlota e ela arranja-lhe sempre fruta da menos tocada. Às vezes tem bicho, mas isso acontece, ou como diz o Sr. Carvalho “comeide que são proteínas”!
No fim fomos dar uma volta p’ra estender as pernas e procurar um sítio onde deitar os “lençóis” (placas de cartão novinhas em folha…!) que arranjamos logo de manhã na funerária ao fundo da Morais Soares. É que aquilo tem a vantagem de ter logo a medida certinha dum gajo! Mas isto agora ‘tá difícil que os filhos da puta dos monhés e dos chinocas põem grades em tudo o que é loja de trezentos e fodem-nos a vida que não encontramos um recanto adequado facilmente.
Bem…e hoje a gente fica-se por aqui…!

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quinta-feira, abril 15, 2004

O meu Voto em Branco 

O país percorrido por um coro de imbecilidades. Um tardar do pensamento que arrasa as capacidades de quem pensa. Uma falta de lucidez!
A obra de Saramago — e ele já negou ter feito qualquer apelo — lança o país num estertor de indignidades. Na verdade, há muito senhor que “não leu o livro que eu escrevi” como ele afirmou no Porto. E mesmo que ele tivesse apelado ao voto em branco não vejo onde encontrar essa expressão de hostilidade à democracia. Muito menos o posso ver, num país, onde vegeta ainda uma protodemocracia, para não dizer um criptofascismo.
Milito nas teses de um estado de Direito, melhor, num Estado de Direito democrático, e não “no estado de direito” que muitos pretendem como seu. O seu direito de dar, fornecer, liberdade, progresso e democracia: como se alguma destas coisas se desse. Não distinguem voto em branco de abstenção. Mesmo assim, o voto em branco é a nódoa que mancha a alva toalha, o melhor pano. Que diriam do voto em branco útil…. Seria o arrear da mesa, o destronar dos comensais. A Ceia dos cardeais da púrpura demagógica (… e não democrática!) seria o seu próprio Inferno de Dante.
Eu próprio voto em branco frequentemente. Vou lá. Entro no jogo porque se quero combater tenho que estar presente no campo de batalha, seja lá ele qual for. O voto em branco não é um dirimir de responsabilidades, um afastar-me da culpa dos outros, é sim uma participação activa nem que seja para dizer que estou contra todas as candidaturas, que rejeito o próprio mecanismo eleitoral.
Vital Moreira chega a tratá-lo como “função democraticamente virtuosa”. Aplaudo-lhe o sentido mas nego-lhe a simplificação. Nem o voto nem a Democracia têm seja o que for de virtuoso. Quero um voto e uma Democracia na prática e não na virtude. Virtude têm os santos e os monges, mas não me pretendo recolhido a um convento! Isto seria, para mim, por demais populista!
É o mesmo Professor que afirma que o voto em branco “ainda” significa utilizar instrumentos democráticos… não, é na realidade um instrumento democrático, não “ainda”, “quase”. É, na realidade, um instrumento de cidadania democrática e de democracia representativa, mas esta vê-se nas comunas e nos municípios, nos Homens e não nas formações políticas. Esta, será por demais conveniente a um consentâneo com a república burguesa que no nosso país foi o protótipo da república fascista e, agora a república “dos bananas”.
O voto em branco é uma atitude deliberada. Não é apenas um dizer NÃO às opções políticas existentes ou aos esquemas partidários “disponíveis”. É dizer SIM, dizer que ainda há quem tenha e assuma a liberdade de pensar. E está ali. Cumpre o seu dever cívico. Não foge, não se esconde, não se alheia.
— Porque não uma opção “em Branco”?
Sim, um quadradinho para colocar a cruz. E definitivamente deixarem cadeiras livres, vazias, no parlamento, expressão exacta desse pensar. Depois, queria ver as “maiorias absolutas”, plenipotenciárias, as soluções de compromisso! Queria ver a certas maiorias, como a de Cavaco Silva de cinquenta e tal por cento, mas a que não corresponde mais de trinta e um por cento do eleitorado, a arrogarem-se os abusos cometidos.
Neste momento, tendo o voto em branco o mesmo valor contabilístico e eleitoral da abstenção, até será seguro, e equívoco, apelar ao voto em branco por parte de quem não quer ver a abstenção subir como deslegitimação democrática. É o caso do primeiro-ministro ao “tentar pôr fim” ao contencioso criado há uma dúzia de anos com José Saramago. É uma jogada de fundo, e dos fundos, de quem tem trejeito soviético e fascista. É a posição de um porco bolchevique, um partidário do “partido da maioria”.
Eu não combato a “democracia eleitoral”, combato sim a arruaça, o equívoco e a não legitimação de “um voto em branco” útil, consequente, efectivo, legitimado e com direito a expressão parlamentar se os movimentos libertários sempre pugnaram pela participação activa da população — dentro do esquema de liberdade absoluta de expressão — não será por certo ao Professor Vital Moreira que cabe apontar o dedo a movimentos anarquistas como instigadores das eleições como uma “farsa”, logo ele que foi defensor acérrimo de um sistema em que as eleições eram, na realidade, uma farsa!
Dê-se ao voto em branco a sua dignidade ou seja, e para isso, contabilize-se e aceite-se essa forma de manifestação activa e democrática. Se assim for, a abstenção por certo decairá e será dada uma maior dignidade à expressão eleitoral dos cidadãos e à Democracia como valor inalienável.
Assim, deixam de ter o Anátema do Voto em Branco.

Pedro Rodrigues de Miguel

terça-feira, abril 13, 2004

Samuel Beckett 



A 13 de Abril de 1906, nasce Samuel Barclay Beckett em Cooldrinach, região de Foxrock, Condado de Dublin


...this place, if I could describe this
place, portray it, I've tried, I feel no
place, no place around me, there's no
end to me, I don't know what it is, it
isn't flesh, it doesn't end, it's like air...

The Unnamable

...ouço o Nocturno de Chopin, opus póstumo em Dó sustenido menor!


Pedro Rodrigues de Miguel

domingo, abril 11, 2004

Praia das Maçãs 

Manhã cedo. Passeio os olhos pelo areal. Praia das Maçãs. Um vulto longe, canas ao alto, atravessa. O Sol aquece-me. O vento é vago, afaga-me leve. Há línguas estrangeiras que se confundem no passar das gentes. As rochas, ao fundo, entram num mar tão calmo, espuma escorrida à procura da praia. Sei que preciso disto, desta calma que cala fundo. Há tanto tempo que não me sentia assim.
A calma vem-me de ontem, uma conversa longa. Há quanto tempo!
Hoje. Desço Sintra, carris borda da estrada, arvoredo em todo o longe, verde que me entra. Deixo uma mensagem. Cuido o meu sentir. E o verde olha-me, olhar calmo, como um alguém que se aproxima. Há um cheiro em tudo que me adoça o sentimento. Perco-me nos versos de Sophia, num deserto sem água, numa noite sem lua, num país sem nome ou numa terra nua; por mais que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua…
Porque me lembra de ti?!
Sorvo o café amargo, como sempre, que a mim me sabe doce. Há reflexos na negra arábica. Pouso a chávena, puxo um cigarro. Maldita mania! Mas queixo-me de quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje. E calmo inalo uma fumaça daquele Virgínia. Viver com o mesmo sem vontade com que rasguei o ventre a minha Mãe? Não, não posso acreditar em Régio. Deixei-me a ouvir-te e isso é mais do que eu podia ter pedido a alguém. Transpareço-me na paisagem, natureza morta, viva. O meu futuro é hoje. A frase ecoa-me, num doce pensar.
Olho de novo a praia. Debruado de espuma, rendas rectilíneas que se esmeram, contínuas, repetidas, ondas rasas que me enchem de alegria no seu doce marulhar…
… porquê?
Ouço-lhe o encanto de quem fala comigo. Perco-me naquele imenso que é não me sentir sozinho. E o Sol. Sempre o Sol que me aquece o corpo. Sei lá se aquecido por quem. Atiro frases ao papel. Sinto um gosto, sei-lhe o gosto. Escrevinhar. Sinto-lhe o longe e a distância. Quantas vezes rascunho o mesmo, para mim. Sinto. Gosto deste sentir, deste marulhar em mim.
Volto de novo, àquela Praia das Maçãs, repetida vezes sem conta por Lobo Antunes. O salino cheiro inunda-me as narinas. É como um sal da vida que se nos entra. Um hebdomadário de emoções. Um Canto que nos aquece o ser e o estar. A mesa de madeira, tão pouco segura, não me incomoda o correr da mão. É assim que gosto, é assim que quero, não pensar quando corro o que discorro no longo do papel. Deixar-me sentir. Há uma mão que me guia o punho. Vejo-lhe o gesto terno, as unhas finas, o toque suave. Uma voz ao longe, de tom ligeiramente áspero, mas que se encanta nas palavras. Se escrevo já não é por mim. Tenho alguém que me escreve.
Deixo-lhe espaço. Deixo-lhe a Liberdade de ser e dizer. E ouço-a. Ouvir é difícil e tento aprender. Apreender. Sentir-me no outro. Tomo-me conta. Tem cuidado contigo, diz-me.
… de novo um cigarro. Preocupa-me o quê? Ouço-lhe as palavras, o meu futuro é hoje!

Pedro Rodrigues de Miguel

quinta-feira, abril 08, 2004

Um passeio pelas Palavras 

Os dias passam lentos, subtis. Como se de nada fossem feitos. Aventuro-me, manhã cedo, por entre um emaranhado de floresta e jardins. Sinto uma solidão acolhedora que me abraça com aromas de carqueja e pinho e sons de melros atrevidos. Os meus pés pisam o caminho com um sabor de terra húmida. Exorto o espaço livre e verde que me envolve. Um laranjal a meio, laranjas já perdidas nesta época. Sobra o cheiro que me inebria.
De repente um espaço livre. O Sol toca-me, com um fulgor cintilante, os olhos até agora protegidos pelos braços longos das copas. Um touro Barrosão pasta. Ovelhas, cabras, bodes, vacas soltas e um cavalo de tiro, espalham-se. Ao fundo o palheiro, os curros e a guarita do cavalo. Aproximo-me. Há aromas que sobressaem. Ao lado a casa do quinteiro, estilo senhorial, chaminé imensa, as alfaias perdidas a um recanto.
Sinto que a necessidade do lápis se me afia. Sento as jeans numa laje de granito. Perco-me. Sinto o cheiro do papel e da grafite emadeirada. Encontro a minha solidão mas não estou sozinho. Uma imagem feminina aflora-me, fugaz, mas não quero perder o correr da linha. Sei lá. Não escrevo, deixo que a mão corra o papel, traço hipnótico, guiada por um sentimento que me corre a alma.
A imagem perturba-se-me. Vejo a paisagem à minha frente como um tracismo de van Gogh. Há uma paleta de cores que me inundam a palavra. É assim que não escrevo, escrevinho os traços largos que a Natureza me dá. De novo aquela imagem feminina. Deixo-a ficar ali ao lado. Pode-me ser útil. Afinal, «escrevi, escrevo, sigo a caneta, indo para onde ela me leva; que mais me resta agora?» como dizia Coetzee.
Sim, não me resta mais nada. Ou sei lá bem se resta. Nem procuro a arte que escrever é. É um limbo, um local no etéreo. Não escrevo para gostarem de mim, escrevo para gostar de mim. Lembro de novo John M., que feios estamos a ficar, à força de não conseguirmos estar de bem connosco próprios.
Escrever é uma arte, que me perdoem os artistas. Escrevo-me. Como se um tormento contínuo me impelisse. Deixo no vago aquilo que me apetece e aguardo. Guardo em mim o enigma que escondo por trás da escrita. Aos outros fica a face, em mim o sentimento. É com ele que guio meus passos no dia-a-dia, minha mão livre, o que quero pensar!

Pedro Rodrigues de Miguel

segunda-feira, abril 05, 2004

Lembrando Agostinho da Silva 

Faz ontem anos que o Professor Agostinho da Silva nos deixou de falar na sua voz pausada e grave. Era o Dia de Páscoa de 1994.
A mim toca-me ainda aquele conversar, aquela utopia provocatória, quase demoníaca — como lhe chamou Eduardo Lourenço — aquele anarquismo quase profético, das suas “Conversas Vadias”. É nelas que conheço mais frente a frente o autor de “Aproximações”, a paganização subtil, o agnóstico — que como eu via os ateus como crentes — o herói da Contra-Cultura.
Agostinho da Silva nasceu no Porto, faz quase cem anos, e viajou mundo, deixando uma marca profunda na cultura e linguística portuguesas. É ele que faz a aproximação de África — é ele que chama a Moçambique a Porta de África, onde repousa sua Mãe — o Brasil e o Oriente. O seu pensar, o seu discurso, emboitado e imbuído de um Iberismo afoito, exsuda uma simplicidade atroz mas confrangedora. É neste mesmo Iberismo, sem mágoa ou ressentimento, que compreende uma das mais profundas pulsões — a paixão. É aqui que o filólogo entende o coração e corazon peninsulares, como um coeur e um cuore, francês e italiano, em tamanho grande no seu aumentativo… em dupla função.
Na sua “Última Conversa”, passada a livro, falada e convivida apenas cinco meses antes da sua morte, lembra-nos o seu doutoramento em Raiva e uma licenciatura em Liberdade; frisa bem o seu «ódio à estupidez» e lembra que «alfabetizar hoje uma pessoa não é apenas mostrar-lhe como se escreve isto ou aquilo».
É ele que me ensina que paixão é estar dominado por isto ou aquilo. É ser, não ter. É uma questão de “paciência” e de gosto. E não esquece no seu discurso o amor, algo de mais terreno, de mais activo, mas sempre um viver “por” e não “para”.
Quando confrontado com a solidão sai-se com um «sinto-me sempre acompanhado, mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva…». É do desenrolar deste tema que eu tomo a ideia das “Três Solidões”. Na verdade, Agostinho da Silva fala-nos de solidão como um sentir-se sozinho, sem ninguém, na falta de companheiros, camaradas e colegas. Companhia, que deriva de panis, pão, vem de «comer o pão juntamente com outro». Companheira é assim aquela com quem partilhamos o pão, as coisas. Camarada, que vem de camera — abóbada, câmara, quarto — é aquela que dorme no mesmo aposento, com que partilhamos o mesmo tecto, a vida, o dia-a-dia. Colega, com o seu étimo legis — lei — é com quem partilhamos a mesma lei, os mesmos princípios.
Foi o Professor Agostinho da Silva que me permitiu este sentir das coisas, sentir as coisas, perceber a solidão, perceber o viver sem estar sozinho, procurar no mundo o que ainda me falta. Como ele diz, e eu bem o sinto, «eu não escolhi nenhuma (solidão), só que elas às vezes parece que combinaram e aparecem todas ao mesmo tempo!». Mas recordo que ele lembra que, como dizia Camões no Cântico IX — que eu também li proibido — a pessoa só está presa no tempo e no espaço quando não é criador. A criatividade deriva do tempo e do espaço e devemos aprender duas coisas: «aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largos por dentro, para o mundo poder entrar».
É assim que me lembro deste amante de «Calvin e aquele tigre», deste verdadeiro universitário, no sentido mais eclético de Universidade, unidade na diversidade.

Pedro Rodrigues de Miguel

domingo, abril 04, 2004

Ribeira pintada 

Desperdiço o tempo à beira rio. Os rabelos a olharem-me e a amortecerem-me o pensamento. Estou do outro lado, ponte passada, sem tempo nem longe contado. Olho o rio que corre, sujo nas margens. O vento norte corre frio.
Há que tempos não visito aquele ambiente fluvial. Tenho a Sandeman ali ao lado. Entro e olho em volta. Os densímetros, os alcoolímetros, as vinhas, as castas — Tinta Roriz, a Touriga Francesa e a Nacional, o Tinto Cão — os pesos e as medidas, as fotos do trabalhar — a escava, a enxertia, a redra — os tonéis em metros cúbicos e galões. O ar suave anestesia. Uma sensação de bem estar, como fora do mundo. Não faço a visita guiada. Contento-me a ver papeis antigos, notas de despesa, talões, folhas de remessa. O tempo passa e encobre-me o tempo e o porvir. Hora de fecho. Saio, já porta fechada. Parece que me deixaram ficar por complacência com a minha ilusão. Sou um menino que se encanta.
Cá fora o sol é frio. O “Pirata” na doca. Sonho-me um passeio ao Pinhão, talvez Barca d’Alva. O ar fresco acorda-me. Acorda Pedro, acorda.
A esplanada do tasco à borda da rua chama-me. Peço o café e sento-me. A robusta quente aquece-me. Fumo um cigarro com gosto. O fumo inebria-me e mistura-se ao café amargo, tomado sempre sem açúcar. Sabe-me bem, pronto!
Estou noutro mundo, longe do todo e do tudo. O amargo na boca é o meu doce de pensar. Deixo-me ficar. Só isso. Ficar com a Ribeira Velha, em frente, à vista. Calma-me os olhos, os sentidos. É esparramar o olhar por um todo de cor e luz. Não vejo cada coisa, cada casa. Vejo uma tela de tons que me inebrilham. Deixo-me ficar. Copio a Ribeira de um sopro do nada, copio a Ribeira de uma imagem apagada. Sinto o quadro que se me pinta a meus olhos, fechados, nos olhos do pensar. Esbruma-se, esfuma-se.
São momentos de vida que não quero perder. São momentos que quero sentir sem sentidos. Ficar ali. Deixar-me entrar uma calma que não encontro fora de horas. Olhar, viver, o que esqueço no dia-a-dia.

Pedro Rodrigues de Miguel

quinta-feira, abril 01, 2004

A noite (III) 

O mundo girava soturno na noite escura. Lá longe, no firmamento, uma estrela solta brilhava de vez em quando por entre as nuvens, a lembrar a alguns olhos mais serenos que a imensidão do tudo não se perdera. E sempre que a estrela brilhava, brilhavam os olhos do velho que no alpendre da casa de madeira, na cadeira de baloiço e envolto na manta puída, baforando o cheiro doce do cachimbo, afagava em si um quente lembrar. Só ele sabia sentir quão bom era ver aquela estrela e sentir-lhe o lembrar da liberdade na imensidão do escuro. Sempre que via a estrela era como se a sua doce esposa volta-se do além para seu lado, afagar-lhe a mão e perder-lhe a solidão, era como voltar à infância e ao carinho da sua velha Mãe, sentir o aroma das fragrâncias das flores dos campos e a liberdade das corridas e tropelias, do gosto das maçãs vermelhas trincadas e trocadas entre os garotos, das histórias de embalar no quente aconchego da lareira, na sopa de chouriço à mesa, no pão escuro e acre que adoçava as entranhas, no mel de odor de melissa e funcho, no doce desprender da vida. Que bom era ver a estrela e sonhar de novo o passado. Sentia um arrepio e mergulhava dentro de si deixando-se perder no mais fundo das memórias.
Era assim o velho Barnabé, o homem só da velha casa de madeira. Ali vivia desde há muito, muito tempo — casa virada para a imensidão do nada. Vivera as alegrias da vida com amor e desejo, acreditara que tudo seria melhor, perdera as esperanças e, por fim, ali ficara no seu recanto perdido aguardando que as suas memórias o pudessem consolar. Mas havia uma força funda que sempre o animara. Acreditava que jamais lhe tirariam o pensamento, aquilo que lhe ia na alma, a vontade de pensar. Recolhera-se para que lhe não tirassem aquele ouro que lhe ia na alma e que não queria perder. Vira tudo pela vida fora e sempre se dera ao desejo de ver os outros mais felizes. Era um homem simples que o trabalho árduo moldara e que as agruras da vida jamais dobraram. Tinha um sentir amargo mas uma doçura extrema no contacto. Acreditara quando aparecera o Partido que tudo seria melhor. Finalmente, homens e animais poderiam dar as mãos e fazer um mundo melhor. Era crédulo e a sua ingenuidade terna fazia-o sentir-se bem ao sentir o bem dos outros. Mas o tempo foi passando e os Senhores ficaram cada vez mais Senhores, os Ratos cada vez mais ratos e os Porcos cada vez mais porcos. E o velho Barnabé não queria crer no que os seus olhos viam. Era ingénuo mas não perdera o olhar. Fugiu ao medo e à vergonha de ter que acreditar no que os seus olhos viam. Deixou-se ficar, lá longe de tudo, na sua velha casa de madeira. E a cada noite que passava, voltava ao alpendre e deliciava os olhos já velhos na imensidão do mundo das estrelas.
A noite era um eco surdo dos desejos mais íntimos de cada um. Era um momento para esquecer o dia e o trabalho sujo e árduo, era um momento de traições e das mais altruístas amizades, era um momento para afogar no álcool as mágoas e as dores do dia a dia, era um momento de silêncio concubino e de palavras soltas e rápidas que fugiam doces e amargas de lábios que não se moviam. A noite era um eco que afagava a alma de cada um como podia. Mas o velho Barnabé não se escondia na noite. Abria-se a ela com todo o amor de quem quer o infinito. Deixava-se sentir o doce aroma do milho que bordejava a casa, o fresco do musgo da cancela há muito escancarada, o ruído do noitibó e o tacto sedoso da neblina que lhe tocava a pele escura. Voava no tempo.

Pedro Rodrigues de Miguel

segunda-feira, março 29, 2004

A noite (II) 

Começava a cair uma neblina espessa. A noite tomava um cheiro acre que se expandia na luz difusa da bruma. Ouvia-se aqui e ali passos corrediços que se perdiam na noite e no medo. Não eram passos autênticos mas antes sons esparsos que ressoavam na calçada como que fugidos ao medo, como que fugidos a si próprios. A noite era um burburinho de mazelas entrecortado de ideias fugidas por entre lábios que sussurravam vontades e iras, queixumes e raivas, desejos e vinganças. Há muito que tudo começara e o tempo fizera esquecer da história a realidade enquanto a cobardia e a mesquinhez se encarregaram de destruir o mínimo de auto-estima. Em cada beco, em cada esquina, em cada rua, em cada gaiola monstra de betão, quedavam-se restos de vida amontoados que viviam vegetando perdidos na imensidão do nada, sem ideias, sem alma, sem vontade, sem querer, sem porvir. Eram destroços de carne perdidos que viviam à míngua dos restos do seu benemérito Estado, dos seus beneméritos Governantes, dos Porcos, dos Ratos, dos arrogantes, dos traidores, dos que lhes sugavam o sangue e as ideias, dos que lhes concediam a liberdade, dos que lhes concediam a educação, dos que lhes impunham a ordem e a lei. Sim, que já nem Liberdade tinham, que a Educação já se perdera na bruma dos tempos e o Direito e a Justiça já não se lia em lado algum que não convinha.
Perdera-se há muito a noção de respeito e o bem querer ao próximo. Até os filhos vadios, solitários, que ninguém queria, perdidos na podridão do mundo, bulhavam e escouceavam pela esmola que pediam a bem ou a mal. Os Porcos passeavam-se, nas suas fardas cinza de arma e bastão à cinta, fazendo a sua lei como senhores demoníacos de outro mundo. Eram os pequenos do poder. Eram os últimos na escala de quem mandava e faziam a todo o momento alarde da sua condição. Eram o freio e a vontade do poder que mordia na turba anónima. Comiam as notas gordas do lenocínio, os cifrões amargos do tráfico do pó que esbulhava os desgraçados já mais que perdidos, o dinheiro sujo das influências e da denúncia dos seus iguais. E os Ratos, os bufos que escutavam o alheio para colar nos ouvidos dos Senhores as pequenas Liberdades de cada um. Eram a enxúndia do poder, os que mordiam pela calada delatando os amigos e os vizinhos. Viviam longe, do lado de lá da cidade, lá perto de onde os Senhores viviam. Comiam com o dinheiro do mal e da tortura. Eram os basbaques e os lacaios que engordavam à sombra do seu próprio mal. Eram jóias da estupidez e da virtude de bem servir o Estado e o Partido.

(continua)

Pedro Rodrigues de Miguel

sexta-feira, março 26, 2004

A noite (I) 

O brilho do Sol deixara, por fim, de manchar a plenitude nocturna do Universo. A noite fria e límpida, entrecortada por uma Lua crescente e minaz, corria calma e acompanhava timidamente os passos do relógio da torre. As cores dos becos cresciam espelhadas na humidade entranhada. Os baldes de lixo, gordurosos e sebentos, vomitavam para o pavimento os restos das suas entranhas. A noite era uma imagem de história aos quadradinhos. Um negro azulado ecoava por todos os cantos como comendo tudo e todos. O tijolo das paredes era uma ténue sombra do seu esplendor de outrora, fazendo lembrar a pele seca e mumificada de um cadáver perdido no deserto. Gotas largas, de água forte, escorriam das paredes em manchas perenes carregadas de solidão. Ao fundo, no breu, a luz tosca de uma vela perdia-se por uma janela mal definida. Sentia-se um correr contínuo de água suja, enquanto o seu feder fazia um eco fundo num bueiro, algures, como tentáculos de um polvo pessonhento e viscoso que a tudo se agarra. O frio atingia os ossos tão fundo como a solidão e o cheiro nauseabundo que de tudo exalava mordia no nariz, mais forte que pó de coca. E os minutos contavam-se por horas a cada noite que passava... lenta e amarga. Passos apressados cortavam de quando em quando o silêncio como se fugissem da própria vida. Era um local calmo, podre e nojento onde a pobreza — irmã do medo e da angústia cobarde — reinava e se enterrava em cada espaço, em cada ser, como garra afiada em carne flácida. Era um mundo estranho que vivia na míngua de fome, na solidão atroz em que se perde a vontade e nas grilhetas, há tanto apertadas, que se perdera já o fio à própria dignidade.
Lá mais além, longe, junto a uma esquina, imaginava-se o halo morno e amarelecido de um lampião de ferro forjado que o tempo fazia desmaiado. Os seus vidros foscos e enegrecidos escondiam a luz, com vergonha, que se derramava sobre as pedras da calçada. Do passeio sobravam uns restos toscos que a luz estranha do lampião tornava ainda mais desoladores. Um lance de escadas subia pelo edifício de três andares acima. À entrada uma pichagem audaz pensava “Abaixo a fome - mate o seu porco” numa ironia infantil de raiva mal contida. Sentia-se recente e o vermelho duro da tinta ainda fresca saltava aos olhos, ora sim ora não, ao som cadenciado do néon velho da placa de Hotel da esquina em frente. Era uma pensão miserável, uma espelunca de cheiro bolorento, que se alimentava do vai-e-vem constante de mulheres que arrastavam atrás de si toda a escumalha. Cediam-se a troco dos restos da míngua do mês que ainda sobrassem no fundo dos bolsos sujos do suor das mãos. Vendiam o que ninguém comprava. Eram o caixote do lixo do esperma e da fúria que cada um vertia para fugir à solidão do próprio lar. A meretriz de rosto cansado, “baton rouge” espalhado na beiça, beata ao canto da boca e cabelo de um louro velho mal pintado deixou-se encostada ao corrimão. Era uma mulher já gasta na juventude dos seus poucos anos, que o olhar perdido e desencantado da vida, por entre o rimel barato que lhes escondia o fulgor antigo, lembrava um palimpsesto perdido há muito nos fundos de um museu esquecido. A vida não augurava nada de bom a ninguém. Vivia-se com o mesmo sem encanto com que se morria.

(continua)

Pedro Rodrigues de Miguel

quinta-feira, março 25, 2004

Y’ a kwini? (Onde vais?) 

Lembro, sim.
Já vai longe no longo ― lhe conto eu ― mas desse tempo não dá para desmemoriar. Era fim de tarde, desse de praia oca de gente, areia se espraiando desaguada, deixando a Xefina ao alcance de pé ― a pé de se pisar!
Me olhei ali. O sol se poenteava, no outro lado, copiando cada riscadinho das palmeiras que se caminham ao longo da praia. Aí que tudo aconteceu. Chão ante chão uma névoa se foi adentrando. As ilhas e o Índico se esfumaram e xilunguiné, na distância, se esbrumou.
No poente, lá no qual o sol se namaacha, nem sombra daquela cacimbada sem dia nem hora marcada. O sol se brilhava em bola de fogo. Aquele sítio só dele pertencia e eu me buscava aí. Tudo se apagava em volta, para luzir em minha frente a cor forte do calor que me abraçaria para sempre. Agora lhe compreendo esse nome de Costa do Sol. A gente se encontra aí. Tomei meu rumo, meu desnorte. Achei meus pontos cordiais.
Faz tanto tempo, quase não tinha idade. E nessa idade em que nada se cria, nada se perde e tudo se transtorna, esse dia foi como visita de xipocué.
Naquele dia me morri? E alguém se destina morrer? Ninguém se destina nascer. Ser ninhado não foi meu querer. Cada um nasce onde é seu próprio destino. Ser parido é ocaso do acaso. É em meio de vivência que cada qual nasce em si mesmo. A gente se destina. É nessa estrada sem berma que se constrói o caminho e se escolhe o destino.
Tomei rumo na areia e me caminhei. Pés descalços. Passos atrás deixados. Cada vai e vem das águas lhes apagando. A memória se esvanecendo para tomar rumo novo. No fim do cabo só me olhava no poente.
Não me requisitem tempo que tempo se sobra. Para tempo temos sempre lugar. Muitas vezes não encontramos é o lugar do tempo. É assim minha vida em que o tempo corre. Corre a meu lado mas longe do lugar. As coisas se me lembram, se assim posso dizer.
Percorro agora um lugar chamado longe.
Y’ a kwini?

Pedro Rodrigues de Miguel

quarta-feira, março 24, 2004

Rui Knopfli e a Moçambicanidade 

Conheci Rui Knopfli no início dos anos setenta, era eu aluno do Liceu. Não vivia longe de minha casa, um pouco adiante para lá de uma álea de acácias. Não nos separava o longe ou a distância mas a idade. Depois, por uns tempos, perdi-lhe o rasto. Viria a falecer, em Lisboa, no dia de Natal de 1997.
Dirigiu o jornal onde se iniciou Mia Couto. O seus moçambicanismos tornaram-lhe a obra ilustre. Como diz Nelson Saúte, a sua poesia constitui, indubitavelmente, um dos edifícios fundadores da literatura moçambicana moderna. Deve-se-lhe em grande medida o facto de Moçambique possuir uma tradição literária eclética e cosmopolita, sobretudo no campo da poesia.
Prefiro-lhe a esparsa prosa como “Lumina”, que me deu, a mim e a tantos outros, o sentido e a necessidade da moçambicanidade, esse sentido que me mantém indubitavelmente agarrado à língua ronga.
Deixo, no entanto, um dos poemas que mais me toca, publicado na obra a que deu o nome irónico e tão exemplarmente actual de “O País dos Outros”.


Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando."

Naturalidade in O País dos Outros, 1959

Pedro Rodrigues de Miguel

terça-feira, março 23, 2004

A Crónica 

Que bom. Que alegria sentir essa pequenina felicidade no meio do escuro em que me encontro. Sentir o êxtase desse pacto de sangue que fiz com as crónicas do Lobo Antunes — de quem nunca li uma obra, como se de um apóstata se tratasse. Sempre lhe admirei as crónicas, na Visão, mas a de hoje calou-me fundo. Está ali o que eu sinto vontade de atirar cá para fora e não consigo.
Como ele, sinto que é a minha parte das trevas que escreve, não eu. E quando escrevo quero apenas libertar-me do que escrevo, jorrar o que sinto para o papel corrido pela caneta. Escrevinho, não escrevo.
Ah, António, que alegria sentir que alguém sente o mesmo que ainda ontem afirmei: desadmirar Pessoa! Finalmente outra alma não bajula o ícone posto à pressa no altar.
Que bom é saber que mais alguém quer “deixar tudo” e teme o tempo. Temo o tempo e a razão. O mesmo medo do corredor escuro quando, ainda criança, ia buscar os chinelos a meu pai. Saber que não está lá nada e temer, tremer! E fugir à pressa para a luz.
Essa luz que me apareceu nesta crónica de agora. Esse terrível, desesperado e feliz silêncio. Ler o silêncio com Eine Kleine Nachtmusic no fundo. A Felicidade a sair-me — não a entrar — pelos olhos que correm a página seco creme. Esparramada no papel. Meu Deus, como tu dizes — eu, um agnóstico a admirar a interjeição — parece-me que estou a principiar e o tempo a fugir.
Onde está a voz, a alma gémea, que me cicia ao ouvido os contos que me deixam contar? Porque não sinto uma mão amiga que me toque e me diga, na leve carícia, “vem por aqui”. E eu não tenho que olhar com ironia e cansaços…
Sinto um pequeno brilho cloretado nos olhos. Corre-me algo pela face como a Cire. Espero que venha longe aquela dor surda, o pequenino sopro que me fuja. Escrever é como um espelho de água, uma miragem, um nada. E se sinto que me falta o dom que me fuja o orgulho e possa ler a miragem de outro alguém.
Já não peço nada à vida.
Talvez um beijo, uns lábios doces, uma mão que se me estende.
E escrevinhar de onde em quando. E deixá-lo a alguém, dar tudo.

Pedro Rodrigues de Miguel

Justiça e Paz ou… o 11 de Março e os Criminosos de Guerra 



Aquela manhã sangrenta de 11 de Março parecia-me um despropósito. Logo às primeiras notícias algo não me batia. A insistente tese da ETA confundia-me. Com o correr do dia algo me irritava. Parecia-me fartar de ouvir as mesmas informações. Era como já não pudesse ouvir falar mais de Santa Eugénia, Atocha ou El Pozo. Não, francamente, algo em mim se negava. Eu não queria acreditar naquelas vozes de fundo repetitivas. Fartava-se-me os comunicados oficiais, fáceis e sempre os mesmos. O nome da ETA repetia-se, mas havia qualquer coisa em mim que se negava a acreditar. Era sangue demais.
Estou à vontade para o dizer porque nunca acreditei na ETA. Nem sequer lhe reconheço qualquer valor ou razão histórica. Carlos V já vai há tempo demais! Mas o apontar fácil de dedo começava a enojar-me. Nem via qualquer tipicidade no ataque. O dia correu e uma náusea funda calava dentro de mim. Como um vulgar ladrão, de súbito, a noite caiu. O hospital mergulhou na artificialidade das luzes de néon.
Seriam umas oito horas da noite quando o Quiz me foi visitar. Falamos do falar. E havia uma raiva que explodia em mim. Saiu-me — Quiz, não foi a ETA! Olhou para mim incrédulo. Parecia-lhe a negação de mim próprio, dos meus princípios. Eu negava-me a acreditar! Rebateu. Não sei o que se me passava pela cabeça. Devia haver no meu olhar um brilho que o confundia. Quiz, não me chateies a cabeça!
Ficou ali a olhar-me como quem se extasia perante um monstro. Eu, o amigo dele, assumia o sangue com a naturalidade de um terrorista. Não Quiz, não foi a ETA, repeti. É sangue a mais, Quiz. Já não consigo ouvir esses gajos a repetirem sempre a mesma coisa. é fácil demais.
É. As coisas não batiam certo. Ataques múltiplos e simultâneos. Dirigidos a civis. Sangue a jorros. Tinham perdido o tino? Não, a ETA não era. E eu acreditava no meu próprio crer. Não era não acreditar que fosse a ETA. Era acreditar que não era. Quiz! Foi uma organização terrorista islâmica! Ele olhou-me como quem olha um louco. Eu que nunca tinha perdoado a ETA clamava a sua inocência?! Ouve lá, estás bem? Saltou-te a tampa? Saíste dos carretos? Porra Quiz, já te disse que não me chateies a cabeça. Há mãos sujas de sangue para além dos gajos que meteram as bombas. Esse filho da puta do Aznar está banhado no sangue das vítimas. Quiuz, o gajo é um criminoso de guerra. Esse cabrão, como o Durão, alinhou numa guerra ilegítima para satisfazer os seus próprios interesses. Ele e o Durão são criminosos de guerra. Não vale a pena chorar as vítimas. Devemos é chorar a insanidade desses dois senhorzecos da guerra. Se há culpados, um deles é o Aznar. Esse gajo tem as mãos mais sujas que um carniceiro, esse gajo é que é o carniceiro. É mais culpado que o tipo que lá colocou as cargas.
Ele não queria acreditar no que ouvia. Eu apontava um dedo. E não apontava à ETA. Já nem apontava a qualquer outra organização terrorista. Eu não podia estar bom da cabeça. Parecia que só eu me acreditava. Parecia enlouquecer! Dei-lhe um abraço. Começava a ter medo de mim próprio. Nascia uma raiva calada dentro de mim. O coração descompassava-se-me. Srá que eu acreditava na minha própria razão? Enlouquecia.
O dia seguinte traria a notícia terrível!
Balatazar Garzon há muito devia ter dado ordem de prisão a José Maria Aznar e entregue o “caudillo” ao Tribunal Criminal Internacional. A Justiça seria feita e talvez assim o derramamento de sangue tivesse sido evitado. Durão devia ter seguido o mesmo caminho. O saqueador da Faculdade de Direito torna-se agora um criminoso de guerra também. Estava tudo nas mãos de Souto Moura. E não tinham que ter pruridos. Não se tratam de criminosos de delito comum mas sim de criminosos de guerra. A pena máxima exigida, dentro dos nossos critérios legais, de vinte e cinco anos deveria ter sido usada sem possibilidade de recurso a liberdade condicional. Refuto totalmente a pena de morte ou a prisão perpétua. Nunca as aceitei, nem mesmo para criminosos de guerra desta índole. Talvez assim se tivesse evitado o ataque.
Os Iberos pagaram todos naquele dia.
Aznar mostrou a sua cobardia. Jamais disse fosse o que fosse acerca do assunto. Escondeu-se atrás das saias da ignomínia. Nem uma palavra mesmo depois de se ter descoberto os suspeitos. Durão, o ladrãozeco cobarde, segui-lhe os passos. Nem uma palavra. Tudo assenta, como dizia Júlio Henriques no posfácio de “Recordando a Guerra de Espanha” de Orwell, na organização e difusão da mentira e na impraticabilidade dos debates de fundo.
Daí para cá deixei de ler e ouvir o que fosse sobre o caso. Esses dois canalhas não me merecem o mínimo respeito ou consideração. A não haver Justiça e mesmo sendo totalmente contra a pena de morte, relembro que nunca fui contra a legítima defesa. O abate de um cão raivoso nunca enojou ninguém.
A mortandade foi por demais arrepiante.

Pedro Rodrigues de Miguel

domingo, março 21, 2004

Cire 

Está bem, o Quiz convenceu-me. Estive doente e desde já quero deixar bem explícito que não fiquei “zangado” com ele; a revolta estava dentro de mim. Afinal, quem consegue ficar chateado com um tipo como ele?! Mas para já não me apetece falar da tal conversa, do 11 de Março nem do raio que o parta. Isso deixo para mais tarde… mas prometo que falarei. De mais a mais não tenho premonições!
Mas aquela do enquanto há vida há esperança é outra das “máximas” que nunca me convenceu. Acredito, sim, que “enquanto há Esperança há Vida”. E aqui estou eu… um bem haja para todos.
Quando há três dias cheguei a casa tinha uma mensagem no telemóvel: “Abandonaste os blog? Estamos com saudades, principalmente do Pedro… bjs”.
Em especial para ela — ela sabe quem é — deixo algo que me faz sentir bem. As pobres palavras de um capítulo de umas porcarias que desde há muito tenho andado a escrevinhar. Digamos antes, a deixar o lápis correr o papel que de escrever não percebo puto.
Aqui ficam.


Cire cofiou, mais uma vez, as vibrissas com denodo. Já se lhe tornara um hábito. Era um movimento repetitivo que lhe afagava mais a alma que os pêlos. Olhava para trás nos tempos e sentia-se grato, apesar de Ruhtra lhe continuar a roer a memória.
Lembrou-se de Alberto, de quem lhe falara um tio avô longínquo, da América, fugido de barco da Alemanha. Lembrou-se quando pensou quão longa pode ser a vida em tão curto tempo... tão curto para eles, como o Alberto. Como lhe contara o tio avô longínquo, Alberto era um homenzinho bizarro que, numa repartiçãozita de patentes, sem mais que fazer, se pusera a pensar no tempo e na forma de o dobrar. Dobrar mesmo, entortar, encurvar, vê-lo de outra maneira que não a maneira como os outros o viam. Um homenzinho tão bizarro que até havia fugido do seu país natal porque lá não gostavam muito da forma do seu nariz. Bizarro!
Contara-lhe o tio avô longínquo que o degredo começara no Natal de trinta e dois. Alberto deixava para trás as raízes mas pensava que um homem feliz está demasiado contente com o presente para pensar muito sobre o futuro. Preferia pensar em homenzinhos que caem de telhados, e não se apercebem bem do seu próprio peso, ou interrogar-se se a Lua só existiria realmente quando olhamos para ela. Por vezes pensava mais longe, mas aí o tio avô, que também fugira de barco da Alemanha, deixava de lhe acompanhar o raciocínio. Certa vez Alberto pensara qualquer coisa nestes termos:

W =∫ K'x' d x' = m ∫o y3 υ d υ = mc2 (y - 1)

Era para todos os efeitos complicado de mais para o velho tio... talvez não o fosse para outras pessoas a quem a idade ainda tanto não pesasse! Uns tempos mais tarde Alberto simplificara as coisas, clarificara as ideias, discernira de outra forma e disse aquilo tudo de uma maneira bem mais simples:

E = mc2

O velho tio avô continuou a não perceber, mas achara bem mais fácil!
Cire gostava de se lembrar das histórias que lhe tinham contado ao longo da vida. Era bom saber que havia homens como Alberto, deixar-se embalar nas suas memórias, cobiçar um pouco tudo aquilo que estava um pouco mais longe que o imediato e ouvir as suas vozes enevoadas pelo tempo. Eram histórias de lareira, ou talvez não fossem. Mas o amargo da vida fugia um pouco e o coração sentia-se afagado. Era bom, era doce, reconfortante, e o tempo parecia correr mais fácil.
Ouvira muitas histórias a esse seu tio e a muitos outros velhos antepassados, amigos e familiares. Mas naquele momento as histórias de Alberto zurziam-lhe os ouvidos mais que as outras, tomavam-lhe e toldavam-lhe os pensamentos, sem no entanto o confundir.
Era como se o tivesse à sua frente naquele momento. Os olhos lassos, de cocker, a longa alva guedelha, os lábios cobertos do farto bigode... a imagem fazia-se-lhe, calma, enquanto sentia como que se um túnel de tempo se estreita-se em turbilhão. Havia tons de azul prússia raiado de vermelho forte com estouros de amarelo cintilante. Na verdade, quando olhamos para trás, para o passado do nosso presente, sentimos uma vertigem que nunca percebemos se estamos a ser traídos pela nossa memória ou se nos enganamos por desejo.
Cire sabia, porque ouvia falar, e tudo o que se falava e dizia tinha que em absoluto ser verdade, ou pelo menos não estar muito longe dela, que a sua eternidade estava, por certo, garantida... ainda tinha Rialb. Mas isso é outra história. A certeza mais certa que tinha da sua eternidade não era por certo o Céu dos ratos... até porque os ratos não têm Céu, e pronto! O que ele tinha certeza era que, tal como outros lhe haviam ficado na memória pelas memórias que lhe deixaram, também ele se podia perpetuar, eternizar, manter vivo na memória de outros e até no seu corpo... seu corpo deles, dos outros! Ou de outro, pelo menos, de Rialb. Ou não era ele sangue de seu sangue, vida de sua vida, o perpetuar eterno do seu corpo, de um pouco do seu viver? Afinal o que são os filhos? No mínimo um espermatozóide com autodeterminação... com autodeterminação mas com todo o assumir de uma vivência anterior que lhe é arquétipo e de que eles são a lembrança perene. Era isso que Alberto lhe fazia recordar mais vivamente. Alberto e os outros que o prosseguiam. Prosseguiam ou precederam, perseguiam ou pereceram, tanto fazia. De todos lhe tinham falado com carinho e Amor. Rutherford, Plank, Newton, Thomson, Hawking, Feynman, Wheeler, Gehrig, Weinberg, Penrose, Dirac, Aristóteles, Kepler, Copérnico, Olbers, Hubble, Maxwell, Michelson, Morley, Lorentz, Poincaré, Wright, Herschel, Wilson, Penzias, Friedman, Peebles, Gamon, Dicke, Doppler, Bondi, Hoyle, Gold, Lifshitz, Khalatnikov, Heisenberg, Schrodinger, Mott, Pauli, Salam, Rubbia, Glashow, Eddington, Chandrasekhar, Oppenheimer, Schwarzchild, Israel, Kerr, Robinson, Carter, Schmidt, Bell, Hewish, Thorn, Zeldovich, Starobinshy, Porter, Weekes, Taylor, Appleton, Bethe, Alpher, Linde, Albrecht, Steinhardt, Scherk, Scharz... Bem, uma pessoa também não se pode lembrar de todos de uma só vez!
Mas o certo é que todos olharam para o Universo, mais para longe do que os olhos podem ou querem ver. Isso, querem ver. Porque às vezes podem e não querem. E a nossa eternidade é mais uma questão de querer do que poder. Era isso que Cire sentia quando se dava tempo de olhar um pouco mais para si próprio, de se incomodar um pouco mais consigo, como gostava de pensar. Para ele a eternidade era o vão abissal que a todos nós pertence. Eterno é podermos pensar que jamais morremos, mesmo quando morremos. É deixar algo para os outros do pouco que é nosso. É poder fazer inveja, com tão pouco, àqueles que se julgam no direito de possuir muito. Porque esses nada possuem senão o ódio que cá deixam. São os políticos, os todo-poderosos, os messias, os inúteis, os iníquos, os bufos, os traidores dos seus próprios concidadãos, a escória, os filhos da puta (afora os que honradamente podem, por acaso, ter nascido de Mãe puta), os a quem ou a morte leva ou só levam a morte onde vão.
Cire espreitou por entre as grades da gateira térrea para o escuro lá longe no céu errante. Deixou os olhos fugirem tão longe quanto podiam e sentia-se feliz. Não era feliz, feliz. Era antes feliz como que em paz consigo próprio, com o pretérito, o momento e o porvir. Sentia que valera a pena a sua tão longa, tão pequena vida. E lembrava-se de Alberto, e de todos os outros que não esquecia - esquecera-se de um, mas de propósito. Esquecia-se sempre dele quando dele se queria lembrar no fim. É que lhe era uma figura assaz grata. Um dos que lhe dera a hipótese ― até a ele, um simples Mus musculo ― de ver um Mundo bem maior. Gostava de se lembrar dele no fim porque adormecia melhor.
O voo onírico atirou-o para alturas do carnaval de 1564. Nascia nas margens do Arno, perto da Piazza del Duomo, mais um menino sob os auspícios do sucessor de Carafa. Carafa, o Gian Pietro, o monstro Paulo dos sermo generalis. Paulo em nome de Paulo. O III e o IV da trilogia que o VI encerraria com o nome maldito de Congregação para a Doutrina da Fé. Um eufemismo violento que na altura pairava por sobre tudo e todos com o epíteto arrogante de Santo Ofício.
O filho de Vincenzo cresceu por terras de Vallombroso e de novo voltou a Pisa e depois, já por força de razões, a Pádua. Em certa altura lembrou-se de um Diálogo Sobre as Marés que os lacaios de Carafa renomearam de Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo. Escrevia e pensava porque não lhe agradava a ideia aristotélica de que nada novo podia aparecer, sequer imaginar-se, nas abóbadas celestes. Assim, deleitou-se com as manchas solares, os satélites de Júpiter, crateras e vales lunares ou as fases de Vénus. Mas não lhe perdoariam a ousadia. Já na época existiam timoneiros que não gostavam que lhes dirigissem o barco... nem se permitiam encalhar em águas algarvias. Quiseram que se penitenciasse perante montes de banha e estrume de púrpura vestidos. Nunca lhe perdoaram. Esperava-o a prisão perpétua. Por clemência hipócrita encerraram-no em casa até ao fim de seus dias.
Não morreu sem deixar à eternidade um Discurso Sobre Duas Novas Ciências. Passariam mais de três séculos e meio até lhe reconhecerem razão. Mas é difícil ressuscitar passado tanto tempo. Como dizia George Bernard Shaw, o que há de errado com padres e papas é que em vez de serem apóstolos e santos, não são mais que empíricos que dizem “eu sei” em vez de “estou a aprender” e pedem credulidade e inércia tal como o homem sensato pede cepticismo e actividade. Não que lhe tenha feito alguma diferença caminhar com orelhas de burro por entre suas iniquidades cardinalícias, que se lhe tenha perturbado o génio por viver acorrentado, que se tenha tornado um pária ou associal, que menos amor houvera à verdade, sequer que menos respeito lhe hajam merecido os seus iguais, todos os Homens... que lhes tenha sido ingrato e escondido para si, só para si, o que soube mais! Mas morrer na ingratidão é tornar o etéreo sempre triste e ougar por liberdade. É ser e não ser. É meio viver enquanto os outros, à volta, nadam na ignorância e deixam num homem a sensação de vazio, de pecado, por dever e não poder dar mais a seus semelhantes.
Toda esta mortalha de restos de azedume envolvia Cire àquelas horas da noite, daquela noite fria e sem luar. Os sonhos corriam-lhe lentos e tristes, amargurados, por se lembrar daqueles episódios que tão fundo lhe magoavam a alma. Era um lembrar presente, como que obrigado por algo mais forte que a força do querer. Eram velhas histórias que ouvira e lhe fluíam como se da própria consciência se tratasse. Velhos contos que aprendera a venerar e se lhe fizeram lei pela vida fora. Verdadeiros Códigos, Honra, Amor pela Verdade. Tudo o que lhe fizera sentido à vida. Vivera na admiração dessas histórias de homenzinhos, da mesma espécie dos que tanto mal lhe haviam feito. Mas era esse o seu Código. Era Bíblia, Talmude, Corão, Wu Ching, Shih Shu, Avestá, Analectos, Filactérias, Veda, Tripitaka, Midrash, Tora, Talmud, Masora, Lotus Sutra, Mishna, Kojiki, Nihongi, Yegishiki, Tao-Te-Ching, era todos eles e nenhum.
Uma pequena lágrima brilhou de alegria nos olhos de Cire, correu-lhe a face sem que sentisse, misturou-se no sonho, calmou-lhe o âmago, calcorreou-lhe os lábios e deu-lhe de beber, calou-lhe a sede da vida e deixou-se volatilizar por um último pequenino sopro que lhe fugia das narinas. Houve uma dor surda no Mundo que ninguém sentiu. Cire estava calmo porque chegara a vez da sua Eternidade. Tinha, enfim, cumprido os seus dias, chegara a vez de também ser lembrado. Corria célere para os braços dos antepassados, algures, lá longe na imensidão do eterno... que os ratos não têm Céu!
E Cire voou, voou para lá longe e certo que não devemos morrer ignorantes porque já chega a ignorância com que morremos! Porque somos um paradoxo!

Pedro Rodrigues de Miguel

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