Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
Do outro lado do Natal — uma estória real
As ruínas da velha fábrica ainda se levantam como um monte de ferro velho, lata torcida e betão horrorizando a paisagem que caminha lenta até à praia. A rua atrás suja e semi-nua alberga velhos pavilhões e alguns casebres. A curta distância vive a cidade nova.
Onde tudo se confunde vive a vida. É o chão do medo, o dia a dia. Os arrumadores de carros lutam, sete cães a um osso. Mordem na canela. Lutam pelo medo, pelo pão, pela amarela. É gente sem princípio nem fim. Ar esquálido. E o cão acompanha-os, escanzelado, tão miserável como os donos. Sente-se-lhe o medo até no latir, no rosnar de rabo entre as pernas. Miserável resto. Mas tão dócil.
“Aqui, aqui, ó chefe” à sombra dos choupos e plátanos das ruas tão paralelas entre si. Sempre, sempre, todos os dias. Lá vem o carro da bófia, lá se vão as pernas lestas, quando podem. Jeans coçadas, nikes ruças.
Olhos midriáticos. Comem o que podem, o que o apetite lhes deixa. Mas não esquecem o bicho. O cão é um rafeiro, talvez semelhante àquele do Junqueiro mas no fim tão diferente. “Olha ó bicho, dá-lhe de comer, ou julgas que também num é gente?!”.
Um dia aconteceu. É tudo um repente. Não sabem como. “Narciso”, o cão de Matosinhos, é atropelado. Não há sangue, o gemido é surdo, os olhos continuam meigos. As mãos ásperas tornam-se doces, as pernas trôpegas tornam-se céleres, a voz rouca ouve-se carinhosa. Não erram o caminho, conhecem as ruas. Aparece a parede de tijolo burro, a fábrica de frigoríficos e a Clínica Veterinária.
“O bicho foi atropelado”. É assim que Maria conhece os três magarefes que lhe entram porta dentro. Vinte anos como Médica Veterinária não a deixam assustada com o rompante da visita. Já nada a assusta. Os olhos brilhantes de ébano na tez morena olham os arrumadores sem medo, mas sem desafio.
As mãos já percorrem o abdómen do bicho. Agora a coxo-femural… isto está mal! Pior ainda “não temos dinheiro para pagar, Doutora!”. As mãos dóceis mas precisas, veias dorsais marcadas, não tremeram um milímetro.
“Deixem ficar”. Mais complicações. Mais gastos para a clínica. Mas era parte de um dever que assumira para consigo e a sociedade. Era aquilo que se escondia por trás daquela mulher aparentemente frágil mas de palavra decidida. Era aquilo que a fizera cirurgiã, era assim que encarava a vida. Era assim que voltava para casa para encarar a tarefa de partilhar a vida com quatro filhos.
Despiu-se, lavou-se, equipou-se, operou. Tudo correu bem. Todos os dias, duas vezes por dia, lá estavam os arrumadores à porta da clínica a saber do “Narciso”. Estava tudo bem, estava melhor, ia ficar bem, que não se preocupassem. Todos os dias. Cinco dias. E no dia final lá foram. E no dia final não pagaram, como prometeram. Lá foram!
Hoje é Véspera de Natal. Merda de dia. Maria não é de impropérios, mas pensa-os. As pessoas não podiam ir às compras? os bichos tinham que ficar todos doentes, hoje? gatos com coriza, tártaro de última hora, hemorróidas na cadela, ao papagaio só cresce o bico hoje, até o sapo da Amazónia tinha uma alergia… boa! Pensava nas duas meninas e nos dois rapazes. E no António à espera. Também era mulher. Também se tinha casado. Também era Mãe. Também tinha Natal. Também…
Maldito dia a que faltava tempo para tudo. Estava frio e às cinco da tarde a negritude já se estendia ao firmamento. O dia ainda se tornava mais feio. Deixou-se cair num sofá a um canto da clínica. Extenuada, derreada, quase… quase com vontade de voltar a ser criança, a ter o seu Pai Natal, a ter o direito ao seu carinho!
— Dra. Maria, deixaram isto ali na recepção para si, peço desculpa, esqueci-me e é capaz de ser urgente.
Ora bolas. Só faltava esta. A empregada esqueceu-se até à última da hora de um recado. Abriu o envelope, ansiosa. Surgiu brilho e cor. Os dedos puxaram um postal de Natal, daqueles com pintinhas brilhantes. Uma paisagem com um Pai Natal e um cão. Por trás “Obrigado Doutora por tudo o que fez pelo Narciso. Nunca a esqueceremos. Um Feliz Natal e Bom Ano Novo”.
Duas lágrimas rolaram nas faces cheias de alegria.
Maria voltava a ser criança, tinha o seu Pai Natal e recebia o seu carinho!
Por questões de protecção da identidade o nome do Animal foi propositadamente modificado.
Dedico esta estória ao João “o pré-adolescente” que quer ser Médico Veterinário; a todos os Médicos Veterinários por quem nutro especial respeito e admiração; a George Stilwell com quem aprendi que é possível escrever estórias sobre veterinária; a Desmond Morris com quem aprendi que é possível gostar ainda mais de animais e aprender-lhes o comportamento; e a Konrad Lorenz pelo definitivo contributo na Etologia e Psicologia Comparada e que me ensinou que posso aprender muito do Homem olhando mais para os Animais.
Pedro Rodrigues de Miguel
Onde tudo se confunde vive a vida. É o chão do medo, o dia a dia. Os arrumadores de carros lutam, sete cães a um osso. Mordem na canela. Lutam pelo medo, pelo pão, pela amarela. É gente sem princípio nem fim. Ar esquálido. E o cão acompanha-os, escanzelado, tão miserável como os donos. Sente-se-lhe o medo até no latir, no rosnar de rabo entre as pernas. Miserável resto. Mas tão dócil.
“Aqui, aqui, ó chefe” à sombra dos choupos e plátanos das ruas tão paralelas entre si. Sempre, sempre, todos os dias. Lá vem o carro da bófia, lá se vão as pernas lestas, quando podem. Jeans coçadas, nikes ruças.
Olhos midriáticos. Comem o que podem, o que o apetite lhes deixa. Mas não esquecem o bicho. O cão é um rafeiro, talvez semelhante àquele do Junqueiro mas no fim tão diferente. “Olha ó bicho, dá-lhe de comer, ou julgas que também num é gente?!”.
Um dia aconteceu. É tudo um repente. Não sabem como. “Narciso”, o cão de Matosinhos, é atropelado. Não há sangue, o gemido é surdo, os olhos continuam meigos. As mãos ásperas tornam-se doces, as pernas trôpegas tornam-se céleres, a voz rouca ouve-se carinhosa. Não erram o caminho, conhecem as ruas. Aparece a parede de tijolo burro, a fábrica de frigoríficos e a Clínica Veterinária.
“O bicho foi atropelado”. É assim que Maria conhece os três magarefes que lhe entram porta dentro. Vinte anos como Médica Veterinária não a deixam assustada com o rompante da visita. Já nada a assusta. Os olhos brilhantes de ébano na tez morena olham os arrumadores sem medo, mas sem desafio.
As mãos já percorrem o abdómen do bicho. Agora a coxo-femural… isto está mal! Pior ainda “não temos dinheiro para pagar, Doutora!”. As mãos dóceis mas precisas, veias dorsais marcadas, não tremeram um milímetro.
“Deixem ficar”. Mais complicações. Mais gastos para a clínica. Mas era parte de um dever que assumira para consigo e a sociedade. Era aquilo que se escondia por trás daquela mulher aparentemente frágil mas de palavra decidida. Era aquilo que a fizera cirurgiã, era assim que encarava a vida. Era assim que voltava para casa para encarar a tarefa de partilhar a vida com quatro filhos.
Despiu-se, lavou-se, equipou-se, operou. Tudo correu bem. Todos os dias, duas vezes por dia, lá estavam os arrumadores à porta da clínica a saber do “Narciso”. Estava tudo bem, estava melhor, ia ficar bem, que não se preocupassem. Todos os dias. Cinco dias. E no dia final lá foram. E no dia final não pagaram, como prometeram. Lá foram!
Hoje é Véspera de Natal. Merda de dia. Maria não é de impropérios, mas pensa-os. As pessoas não podiam ir às compras? os bichos tinham que ficar todos doentes, hoje? gatos com coriza, tártaro de última hora, hemorróidas na cadela, ao papagaio só cresce o bico hoje, até o sapo da Amazónia tinha uma alergia… boa! Pensava nas duas meninas e nos dois rapazes. E no António à espera. Também era mulher. Também se tinha casado. Também era Mãe. Também tinha Natal. Também…
Maldito dia a que faltava tempo para tudo. Estava frio e às cinco da tarde a negritude já se estendia ao firmamento. O dia ainda se tornava mais feio. Deixou-se cair num sofá a um canto da clínica. Extenuada, derreada, quase… quase com vontade de voltar a ser criança, a ter o seu Pai Natal, a ter o direito ao seu carinho!
— Dra. Maria, deixaram isto ali na recepção para si, peço desculpa, esqueci-me e é capaz de ser urgente.
Ora bolas. Só faltava esta. A empregada esqueceu-se até à última da hora de um recado. Abriu o envelope, ansiosa. Surgiu brilho e cor. Os dedos puxaram um postal de Natal, daqueles com pintinhas brilhantes. Uma paisagem com um Pai Natal e um cão. Por trás “Obrigado Doutora por tudo o que fez pelo Narciso. Nunca a esqueceremos. Um Feliz Natal e Bom Ano Novo”.
Duas lágrimas rolaram nas faces cheias de alegria.
Maria voltava a ser criança, tinha o seu Pai Natal e recebia o seu carinho!
Por questões de protecção da identidade o nome do Animal foi propositadamente modificado.
Dedico esta estória ao João “o pré-adolescente” que quer ser Médico Veterinário; a todos os Médicos Veterinários por quem nutro especial respeito e admiração; a George Stilwell com quem aprendi que é possível escrever estórias sobre veterinária; a Desmond Morris com quem aprendi que é possível gostar ainda mais de animais e aprender-lhes o comportamento; e a Konrad Lorenz pelo definitivo contributo na Etologia e Psicologia Comparada e que me ensinou que posso aprender muito do Homem olhando mais para os Animais.
Pedro Rodrigues de Miguel
Domingo, Dezembro 21, 2003
Um Conto de Natal
A noite não tarda e o céu brilha argêntico. A poeira e a neblina inundam o morno ar. Há um frio leve agudo que se instala. O bairro pobre, antes rico, misera.
Ruínas, estragos, detritos.
Risadas de crianças confundem o ar.
Como é estranho o céu visto de baixo.
Bagdad, a bela, dos mil sonhos! Mil e uma noites de encanto e desejo. Prendas que se ouvem para além do querer.
Cire mergulha do infinito do céu. O sol brilha! Como é diferente a terra vista do céu. Fogo laranja a oeste. Azul metal, raios purpúreos, alguns, já a nascente.
Há um súbito impacto, quase imperceptível. Cirros e nimbos que se confundem, confundem Cire. Minaretes que se avistam. E a bela Bagdad!
Paff! Oh! É sempre assim… estas aterragens de improviso na poeira.
— Porcaria de cidades!...
17:48, 22 de Dezembro do Ano da Graça de… que lhe interessa a data, a Cire. Risadas de criança confundem o ar.
Aproxima-se das crianças, míseros bonecos. Olha-se no pelo luzidio. Acautela-se.
Mustafa, Rashida, Muhammad, Fatimah. Curdo, cristã, maometano, judia. Escolhido, sábia, glorificado, acostumada. Juntos brincam no meio do lixo e destroços. Juntos jogam a sua maior alegria: a sua infância.
Cire, olha-os. Vê-lhes nos olhos a imensidão do mundo. Não lhes descobre diferenças. Antes, aquela antiga lembrança, o seu pequeno Rialb, a sua prenda… a sua perda! Maldita lágrima que sempre lhe corre a face.
Olha de novo a alegria das crianças, no meio da miséria. Vê-lhes os olhos bons e as diabruras. Sente-lhes o brincar com os restos da guerra e da morte. Até ele já morreu, faz tempo. Agora só voltou!
Voltou para ver o mundo que deixou, as memórias que viveu. Sente uma agonia, por dentro.
Ele sempre soube o que muitos não sabiam.
Ele sempre olhou, mesmo quando os olhos já não viam.
Ele sempre escutou, mesmo quando os ouvidos já não ouviam.
E do outro lado do Mundo, do outro lado da miséria, é Natal!
Natal!
Pedro Rodrigues de Miguel
Ruínas, estragos, detritos.
Risadas de crianças confundem o ar.
Como é estranho o céu visto de baixo.
Bagdad, a bela, dos mil sonhos! Mil e uma noites de encanto e desejo. Prendas que se ouvem para além do querer.
Cire mergulha do infinito do céu. O sol brilha! Como é diferente a terra vista do céu. Fogo laranja a oeste. Azul metal, raios purpúreos, alguns, já a nascente.
Há um súbito impacto, quase imperceptível. Cirros e nimbos que se confundem, confundem Cire. Minaretes que se avistam. E a bela Bagdad!
Paff! Oh! É sempre assim… estas aterragens de improviso na poeira.
— Porcaria de cidades!...
17:48, 22 de Dezembro do Ano da Graça de… que lhe interessa a data, a Cire. Risadas de criança confundem o ar.
Aproxima-se das crianças, míseros bonecos. Olha-se no pelo luzidio. Acautela-se.
Mustafa, Rashida, Muhammad, Fatimah. Curdo, cristã, maometano, judia. Escolhido, sábia, glorificado, acostumada. Juntos brincam no meio do lixo e destroços. Juntos jogam a sua maior alegria: a sua infância.
Cire, olha-os. Vê-lhes nos olhos a imensidão do mundo. Não lhes descobre diferenças. Antes, aquela antiga lembrança, o seu pequeno Rialb, a sua prenda… a sua perda! Maldita lágrima que sempre lhe corre a face.
Olha de novo a alegria das crianças, no meio da miséria. Vê-lhes os olhos bons e as diabruras. Sente-lhes o brincar com os restos da guerra e da morte. Até ele já morreu, faz tempo. Agora só voltou!
Voltou para ver o mundo que deixou, as memórias que viveu. Sente uma agonia, por dentro.
Ele sempre soube o que muitos não sabiam.
Ele sempre olhou, mesmo quando os olhos já não viam.
Ele sempre escutou, mesmo quando os ouvidos já não ouviam.
E do outro lado do Mundo, do outro lado da miséria, é Natal!
Natal!
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
Da discussão nasce a luz
... e bem podiam apagar as luzes da Assembleia que sempre poupavam energia!
Os comentários mais jocosos gosto de deixá-los para mim... não me importo!
Do Pedro sei que há papel velho a monte sobre o assunto... não há-de faltar!
Os nossos Amigos comentam e eu gostei: Joe, Anarca, Animal, Alvino & Ca. Lda. Aguardo pelas tempestades!
O aspecto gráfico deliciou-me, deu-me gozo... e trabalho! Mas gostei; o Duffy e o Bugs estão um primor!
Mas a Ética e a Verdade não são para ficar na gaveta... está lá: espaço cedido!
Um jagunço da praça tem-se andado a animar com esta nossa coisa dos blogues. Palavra puxa bujarda e porque não?... escreve lá no nosso e eu digo-te como se faz uma coisa destas. Não tem nada que saber! Afinal os telefones servem para alguma coisa.
E já anda por aí... a julgar pelo que vi e pelo nome que escolheu deve ser um rapazinho cheio de pruridos!
E olhem que eu tinha-o em conta de menino atilado!
Salvé o 19 do 12... anda mais um "aborto" à solta
Quiz
Os comentários mais jocosos gosto de deixá-los para mim... não me importo!
Do Pedro sei que há papel velho a monte sobre o assunto... não há-de faltar!
Os nossos Amigos comentam e eu gostei: Joe, Anarca, Animal, Alvino & Ca. Lda. Aguardo pelas tempestades!
O aspecto gráfico deliciou-me, deu-me gozo... e trabalho! Mas gostei; o Duffy e o Bugs estão um primor!
Mas a Ética e a Verdade não são para ficar na gaveta... está lá: espaço cedido!
Um jagunço da praça tem-se andado a animar com esta nossa coisa dos blogues. Palavra puxa bujarda e porque não?... escreve lá no nosso e eu digo-te como se faz uma coisa destas. Não tem nada que saber! Afinal os telefones servem para alguma coisa.
E já anda por aí... a julgar pelo que vi e pelo nome que escolheu deve ser um rapazinho cheio de pruridos!
E olhem que eu tinha-o em conta de menino atilado!
Salvé o 19 do 12... anda mais um "aborto" à solta
Quiz
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Concurso do Ano
PSD dividido sobre o aborto
Eh pá! …eu não sou má língua, ´tá bem… mas se isto vai a votos a coisa vai ficar renhida!
Lá no governo, quem vai ganhar o título de “Aborto do Ano”?
também cedemos espaço! Quiz
Eh pá! …eu não sou má língua, ´tá bem… mas se isto vai a votos a coisa vai ficar renhida!
Lá no governo, quem vai ganhar o título de “Aborto do Ano”?
também cedemos espaço! Quiz
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
Desobediência Civil… in memorian VI

Olho nos olhos dos outro e sinto o riso amargo que me rói por dentro. Sinto a dor que me dói e a vontade… ah, a vontade de lhes cuspir a cara, cuspir-lhes o nojo nos olhos! Cegos que não querem ver. Traidores que se vendem a si próprios no Templo da Servidão da venda do corpo pelo soldo do mês. Servos lacaios, esbirros de Estado, proxenetas do próximo, servidores do servil. Pobres coitados que prostituem o corpo — e a alma — atrás do balcão de qualquer pública repartição.
Esperam sentados pela vil reforma, esperam — coitados! — de hemorróidas entalados… e o fel à tona, nos gritos, horrendos feridos, que vomitam desauridos.
Um laço bonito, um sisal entrançado, uma volta à volta do auro pescoço, a volta por cima do ulmeiro em flor… não era vingança, era gesto de Amor.
E o meu prazer de continuar Thoreau
O meu encontro directo, cara a cara, com o governo, acontece uma vez por ano, não mais, quando me aparece o cobrador de impostos. É com o meu vizinho cobrador de impostos que eu me avisto (porque, afinal de contas é com homens que luto, não com pergaminhos), com o meu vizinho que voluntariamente escolheu ser agente do governo. Como tomará ele consciência do que é e do que faz enquanto agente do governo, ou enquanto homem, se não for obrigado a optar entre tratar-me (a mim seu vizinho, por quem ele tem a máxima consideração) como seu vizinho e pessoa de bem ou como doido e desordeiro?
Com um governo que prende alguém injustamente, o lugar do homem justo é na prisão. É nesse chão isolado, mas afinal livre e honroso, que o Estado planta aqueles que não estão com ele mas contra ele. A prisão é, num estado esclavagista, o único local onde um homem livre pode morar com honra. Votar não é só meter na urna um bocado de papel, há que tornar o voto plenamente eficaz. Uma minoria fica desarmada quando se conforma com a maioria; deixa afinal de ser minoria. Mas torna-se irresistível quando exerce pressão com todo o seu peso. Se a alternativa for meter todos os justos na prisão ou acabar com a guerra e com a escravatura, nenhum Estado hesitará na escolha. Se houver este ano mil homens que não paguem os impostos, o Estado terá de tomar medidas violentas e cruéis, para os obrigar a pagar, fica capacitado para cometer violências e derramar sangue inocente. Será, por definição, uma revolução pacífica, se é que tal coisa é possível. Se um cobrador de impostos ou qualquer funcionário público me perguntar, como um deles já me perguntou: «Mas o que é que eu vou fazer?», eu responderei: «Se deseja realmente fazer alguma coisa, renuncie ao cargo». Quando o súbdito nega a fidelidade e o funcionário renuncia ao cargo, a revolução estará completa.
Seja como for, incorrer no castigo, por desobedecer ao Estado, custa menos do que obedecer-lhe. Obedecer é como confessar que nada valho.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
A Ceia dos Cordiais
Depois da ceia ela pegava no livro e lia-me passagens sobre Moisés, que tinha sido encontrado num cesto de juncos; e eu estava em pulgas para saber tudo a respeito dele.; aos poucos a viúva foi-me dando a saber que esse Moisés já tinha morrido há uma data de tempo; assim deixei de interessar-me por ele porque não perco tempo com gente morta.
Não tardei a sentir vontade de fumar e pedi licença à viúva. Mas ela não consentiu. Dizia que era um vício e que eu devia tentar deixar de praticá-lo, porque me fazia mal. Há muitas pessoas assim. Não sabem nada a respeito de uma coisa mas isso não as impede de difamá-la. Aí estava ela que se preocupava com esse Moisés, que não lhe era nada e não podia já servir para nada, visto que morrera mas, como vossemecês vêm, dizia cobras e lagartos de uma coisa que me causava prazer. E isso apesar dela tomar rapé; mas como era ela que o tomava, não via mal nenhum nisso.
Seguia-se depois uma hora chata como tudo, e eu sentia-me cheio de impaciência. A Miss Warton, dizia: « Não ponhas os pés em cima, Huckleberry» e «não mastigues assim, Huckleberry… senta-te direito» Pouco depois voltava à carga:«Não abras a boca e não te espreguices dessa maneira, Huckleberry… porque não tentas adquirir boas maneiras?» Falava-me então do lugar para onde vão os maus e eu dizia que quem me dera estar lá. Ela ficava furiosa, embora eu não dissesse aquilo para ofender. Tudo o que eu queria era estar fora daquela casa.; qualquer sítio me servia, para variar. A velha observava-me que era um pecado dizer o que eu tinha dito; que ela o não diria por nada deste mundo; que ela tencionava viver de modo a ir depois para o lugar reservado aos bons. Bem, eu não via nenhuma vantagem em ir para onde ela tencionava ir, portanto decidi imediatamente que nada faria nesse sentido. Mas nunca declarei a minha intenção porque só serviria para armar sarilho e eu não ganharia nada com isso.
Mark Twain in As Aventuras de Huckleberry Finn
Pedro Rodrigues de Miguel
Quinta-feira, Dezembro 11, 2003
Desobediência Civil… in memorian V
das leis injustas
As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais? No geral, os homens sujeitos a governos como o nosso, julgam que é seu dever esperarem até haver uma maioria que possa alterar as leis. Estão convencidos de que, se resistirem, o remédio será pior que a moléstia. Mas o culpado pelo remédio ser pior do que a moléstia é o próprio governo. Porque não estimula os cidadãos para que estejam alerta, lhe apontem as faltas e o obriguem a actuar melhor?
Se a injustiça é parte integrante do inevitável atrito produzido pela máquina governamental, que seja! É até possível que um dia venha a tornar-se mais suave… A máquina vai acabar por se estragar com o uso; mas se a natureza desse mecanismo exigir que nos tornemos agentes da injustiça, não hesito em afirmar que a lei deverá ser transgredida. Há que produzir um outro atrito que faça parar a máquina. Tenho de evitar, dê por onde der, submeter-me ao erro que condeno.
Um homem não tem obrigações de fazer tudo, tem de fazer somente alguma coisa; mas, por não ser capaz de fazer tudo, não é necessário que cometa erros.
Além do mais, um homem mais justo que os seus vizinhos já constitui só por si maioria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais? No geral, os homens sujeitos a governos como o nosso, julgam que é seu dever esperarem até haver uma maioria que possa alterar as leis. Estão convencidos de que, se resistirem, o remédio será pior que a moléstia. Mas o culpado pelo remédio ser pior do que a moléstia é o próprio governo. Porque não estimula os cidadãos para que estejam alerta, lhe apontem as faltas e o obriguem a actuar melhor?
Se a injustiça é parte integrante do inevitável atrito produzido pela máquina governamental, que seja! É até possível que um dia venha a tornar-se mais suave… A máquina vai acabar por se estragar com o uso; mas se a natureza desse mecanismo exigir que nos tornemos agentes da injustiça, não hesito em afirmar que a lei deverá ser transgredida. Há que produzir um outro atrito que faça parar a máquina. Tenho de evitar, dê por onde der, submeter-me ao erro que condeno.
Um homem não tem obrigações de fazer tudo, tem de fazer somente alguma coisa; mas, por não ser capaz de fazer tudo, não é necessário que cometa erros.
Além do mais, um homem mais justo que os seus vizinhos já constitui só por si maioria.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Terça-feira, Dezembro 09, 2003
Desobediência Civil… in memorian IV
A virtude
Não me interessa combater inimigos distantes, interessa-me dar luta aos meus próprio vizinhos, que apoiam e defendem os que estão longe e que sem este apoio seriam inofensivos… as minorias não são materialmente mais sábias ou melhores do que as maiorias, O que mais importa não é haver muitos tão bons como nós, importa, sim, que haja algures alguma bondade absoluta. Por cada homem virtuoso, há novecentos e noventa e nove apoiantes da virtude.
Votar é uma espécie de jogo. Estão em jogo as questões morais, o certo e o errado. Tudo isto acompanhado de apostas. Voto, porventura, no que acho mais justo. Mas pouco me importa que a justiça saia vencedora. Prefiro que a maioria decida. Pode-se votar pelo que é justo sem se fazer nada pela justiça. Expresso apenas de forma pública e débil o meu desejo de que vença a justiça. Um homem sábio não pode deixar a justiça à mercê da sorte nem desejar que ela se imponha através do poder da maioria. Há muito pouca virtude nos actos das massas humanas.
É evidente que nenhum homem tem obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem.
Em nome da Ordem e do governo, todos estamos de acordo em prestar homenagem e dar apoio à nossa própria cobardia. O erro, para se espalhar e para dominar, requer a mais desinteressada virtude.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Não me interessa combater inimigos distantes, interessa-me dar luta aos meus próprio vizinhos, que apoiam e defendem os que estão longe e que sem este apoio seriam inofensivos… as minorias não são materialmente mais sábias ou melhores do que as maiorias, O que mais importa não é haver muitos tão bons como nós, importa, sim, que haja algures alguma bondade absoluta. Por cada homem virtuoso, há novecentos e noventa e nove apoiantes da virtude.
Votar é uma espécie de jogo. Estão em jogo as questões morais, o certo e o errado. Tudo isto acompanhado de apostas. Voto, porventura, no que acho mais justo. Mas pouco me importa que a justiça saia vencedora. Prefiro que a maioria decida. Pode-se votar pelo que é justo sem se fazer nada pela justiça. Expresso apenas de forma pública e débil o meu desejo de que vença a justiça. Um homem sábio não pode deixar a justiça à mercê da sorte nem desejar que ela se imponha através do poder da maioria. Há muito pouca virtude nos actos das massas humanas.
É evidente que nenhum homem tem obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem.
Em nome da Ordem e do governo, todos estamos de acordo em prestar homenagem e dar apoio à nossa própria cobardia. O erro, para se espalhar e para dominar, requer a mais desinteressada virtude.
(continua)
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
December, 8th 5:00 P.M.
— Is that all you want?
— Thanks, John.
…
— Mr. Lennon…?!
— ?
— Shot, shot … shot, … shot, shot!
— I’m shot, I’m shot.
Dakota Apartments Building, N.Y., 5:00 P.M. (Eastern Time)
Dec 8th 1980
E ele se esvoou negro, no alto, noite fria e luzes como rastos de água gélida por entre nada no escuro.
Minh’ alma
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise.
De novo… vrooumm! Ciou, flecha que corta o negro cristalino e de olhar doce.
Encanta-te, John…
Free As A Bird,
It's the next best thing to be
Free as a bird.
Home
Home and dry
Like a homing bird I fly,
As a bird on wing
Whatever happened to the life that we once knew
Can we really live without each other?
Where did we lose the touch
That seemed to mean so much?
It always made me feel so....
Free — as a bird,
It's the next best thing to be
Free as a bird.
Home
Home and dry
Like a homing bird I fly — as bird on wing
Whatever happened to the life that we once knew
It Always made me feel so
Free
Free as a bird
It's the next best thing to be
Free as a bird
Free as a bird
Free as a bird
Pousa-me agora no ombro — sinto o quente pulsar — sou já ele, gélido, no ar…
Voz bela, acalmo, sinto ensonar…
Now it's time to say good night
Good night Sleep tight
Now the sun turns out his light
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Close your eyes and I'll close mine
Good night Sleep tight
Now the moon begins to shine
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Close your eyes and I'll close mine
Good night Sleep tight
Now the sun turns out his light
Good night Sleep tight
Dream sweet dreams for me
Dream sweet dreams for you.
Good night Good night Everybody
Everybody everywhere
Good night.
E encontro...
Toda esta mortalha de restos de azedume envolvia Cire àquelas horas da noite, daquela noite fria e sem luar. Os sonhos corriam-lhe lentos e tristes, amargurados, por se lembrar daqueles episódios que tão fundo lhe magoavam a alma. Era um lembrar presente, como que obrigado por algo mais forte que a força do querer. Eram velhas histórias que ouvira e lhe fluíam como se da própria consciência se tratasse. Velhos contos que aprendera a venerar e se lhe fizeram lei pela vida fora. Verdadeiros Códigos, Honra, Amor pela Verdade. Tudo o que lhe fizera sentido à vida. Vivera na admiração dessas histórias de homenzinhos, da mesma espécie dos que tanto mal lhe haviam feito. Mas era esse o seu Código. Era Bíblia, Talmude, Corão, Wu Ching, Shih Shu, Avestá, Analectos, Filactérias, Veda, Tripitaka, Midrash, Tora, Talmud, Masora, Lotus Sutra, Mishna, Kojiki, Nihongi, Yegishiki, Tao-Te-Ching, era todos eles e nenhum.
Uma pequena lágrima brilhou de alegria nos olhos de Cire, correu-lhe a face sem que sentisse, misturou-se no sonho, calmou-lhe o âmago, calcorreou-lhe os lábios e deu-lhe de beber, calou-lhe a sede da vida e deixou-se volatilizar por um último pequenino sopro que lhe fugia das narinas. Houve uma dor surda no Mundo que ninguém sentiu. Cire estava calmo porque chegara a vez da sua Eternidade. Tinha, enfim, cumprido os seus dias, chegara a vez de também ser lembrado. Corria célere para os braços dos antepassados, algures, lá longe na imensidão do eterno... que os ratos não têm Céu!
E Cire voou, voou para lá longe e certo que não devemos morrer ignorantes porque já chega a ignorância com que morremos!
(in “Cire”, excerto)
… e as palavras de Lennon
“…We're more popular than Jesus now; I don't know which will go first — rock 'n' roll or Christianity.”
— Bye, John…
— Is that all you want?
— Thanks, John.
Pedro Rodrigues de Miguel
Sábado, Dezembro 06, 2003
O meu Diário 10
Tenho andado preocupado. Aproxima-se o fim do período e lá vêm as notas. E este período tenho que ter melhores notas que nos períodos dos anos anteriores… não sei como! É uma teoria que ainda me têm que explicar. É sempre a mesma coisa: no próximo período as notas têm que ser melhores! ‘Tá bem, ‘tá! Um dia rebenta a escala!
Pois, no tempo do meu pai tudo era mais fácil, pelo menos as notas iam até vinte, sempre dava mais hipóteses… digo eu.
Bem, não deve ser o pior problema do mundo. Ainda há pouco o Quiz estava a falar com o meu pai sobre uma amiga da net… acho que também é dos Blogues — uma tal de Zazie. Um problema qualquer com o gás. Compreendo-a perfeitamente. É que eu, todos os dias tenho problemas com o gás: fecha a porcaria da água que já estes aí há tempo demais… ou julgas que o gás é de borla?! Todos os dias. Pois é Zazie, estamos os dois no mesmo barco. Quem me dera que estivéssemos os dois na mesma canoa!
Mas continuando. Não percebi muito bem a não ser o meu pai a dizer ao Quiz: esses gajos são todos uns camelos (deu-lhes outros nomes também e mandou, se não me engano, cumprimentos para a Mãe de um deles…) e era de lhes fechar a porta por dentro e atirar a chave pela janela… e eles atrás! O resultado é tanto mais eficaz quanto mais alto estiver situado o andar.
O meu pai tem destas coisas. Gosta sempre de pensar em termos Físicos e Matemáticos. Eu também.
Zazie. Posso-te chamar assim, não posso? Vou-te dizer uma verdade: eu nunca tinha ido ver o teu Blogue. É mesmo fixe e gostei muito! Tem quadros e fotografias bonitas. Olha, aquele do Don Giovanni. Não sei quem é o tal Alexandre que o pintou mas sei quem é o Mozart… e sei que Don Giovanni é do Mozart. Temos lá um poster no Conservatório. E gostei daquela fotografia do gato no sofá. Olha que estou a ser verdadeiro, não é só sincero. O meu pai é que me costuma dizer: sê verdadeiro, meu filho, sê verdadeiro — depois diz uma asneira, posso dizer?! — sinceras são as nossas mulheres, verdadeiras são as pê-u-tê-ás que não têm nada a perder. Ele lá sabe. Diz que sincero é um eufemismo. Sei lá eu o que é isso…
Mas, já me esquecia… ele lembrou-se de um amigo nosso, cá de casa, que nasceu e viveu muitos anos aí em Lisboa. Certo dia teve um pequeno acidente de carro e a companhia nunca mais lhe resolvia o problema. A certa altura esse nosso amigo retirou o carro da Marca e pô-lo na garagem de um amigo e ex-colega de escola primária (de onde nunca tinha passado…!) — o Cesário Chapeiro, do Casal Ventoso. Remédio santo. Vai lá o perito e em menos de meia hora tudo resolvido a contento… até o arranhão da porta do outro lado já fazia parte do mesmo acidente. Diz o meu pai: é que o Cesário Chapeiro do Casal Ventoso explica mesmo bem as coisas!
Zazie! O meu pai acha que deves contratar um amigo dele: o Alcino Picheleiro, com sede e oficina no Casal Ventoso. Depois quando os outros dois Senhores aparecerem, dás-lhes a morada do Alcino Picheleiro, eles vão lá de livre e expressa vontade, ele vai-lhes explicar tudo muito bem e… logo, logo nesse dia vais ter gás. E logo, logo nesse dia alguém vai começar a barafustar contigo se ficares muito tempo no banho a gastar água e gás…
Um Grande Beijo para ti e bons sonhos que está na altura de pensarmos nas prendas que queremos no Natal.
Vou dormir.
João
Pois, no tempo do meu pai tudo era mais fácil, pelo menos as notas iam até vinte, sempre dava mais hipóteses… digo eu.
Bem, não deve ser o pior problema do mundo. Ainda há pouco o Quiz estava a falar com o meu pai sobre uma amiga da net… acho que também é dos Blogues — uma tal de Zazie. Um problema qualquer com o gás. Compreendo-a perfeitamente. É que eu, todos os dias tenho problemas com o gás: fecha a porcaria da água que já estes aí há tempo demais… ou julgas que o gás é de borla?! Todos os dias. Pois é Zazie, estamos os dois no mesmo barco. Quem me dera que estivéssemos os dois na mesma canoa!
Mas continuando. Não percebi muito bem a não ser o meu pai a dizer ao Quiz: esses gajos são todos uns camelos (deu-lhes outros nomes também e mandou, se não me engano, cumprimentos para a Mãe de um deles…) e era de lhes fechar a porta por dentro e atirar a chave pela janela… e eles atrás! O resultado é tanto mais eficaz quanto mais alto estiver situado o andar.
O meu pai tem destas coisas. Gosta sempre de pensar em termos Físicos e Matemáticos. Eu também.
Zazie. Posso-te chamar assim, não posso? Vou-te dizer uma verdade: eu nunca tinha ido ver o teu Blogue. É mesmo fixe e gostei muito! Tem quadros e fotografias bonitas. Olha, aquele do Don Giovanni. Não sei quem é o tal Alexandre que o pintou mas sei quem é o Mozart… e sei que Don Giovanni é do Mozart. Temos lá um poster no Conservatório. E gostei daquela fotografia do gato no sofá. Olha que estou a ser verdadeiro, não é só sincero. O meu pai é que me costuma dizer: sê verdadeiro, meu filho, sê verdadeiro — depois diz uma asneira, posso dizer?! — sinceras são as nossas mulheres, verdadeiras são as pê-u-tê-ás que não têm nada a perder. Ele lá sabe. Diz que sincero é um eufemismo. Sei lá eu o que é isso…
Mas, já me esquecia… ele lembrou-se de um amigo nosso, cá de casa, que nasceu e viveu muitos anos aí em Lisboa. Certo dia teve um pequeno acidente de carro e a companhia nunca mais lhe resolvia o problema. A certa altura esse nosso amigo retirou o carro da Marca e pô-lo na garagem de um amigo e ex-colega de escola primária (de onde nunca tinha passado…!) — o Cesário Chapeiro, do Casal Ventoso. Remédio santo. Vai lá o perito e em menos de meia hora tudo resolvido a contento… até o arranhão da porta do outro lado já fazia parte do mesmo acidente. Diz o meu pai: é que o Cesário Chapeiro do Casal Ventoso explica mesmo bem as coisas!
Zazie! O meu pai acha que deves contratar um amigo dele: o Alcino Picheleiro, com sede e oficina no Casal Ventoso. Depois quando os outros dois Senhores aparecerem, dás-lhes a morada do Alcino Picheleiro, eles vão lá de livre e expressa vontade, ele vai-lhes explicar tudo muito bem e… logo, logo nesse dia vais ter gás. E logo, logo nesse dia alguém vai começar a barafustar contigo se ficares muito tempo no banho a gastar água e gás…
Um Grande Beijo para ti e bons sonhos que está na altura de pensarmos nas prendas que queremos no Natal.
Vou dormir.
João
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
Escuta, Zé Ninguém
Carta Aberta... a quem?!
Senhor ministro.
Bom dia. Não sei porque lhe digo “bom dia” em dia tem chuviscoso, mas digo. O senhor também diz muitas coisas e, quanto saiba, não se coarcta de as dizer. É um boçal, como diz minha Mãezinha.
Desculpe lá: o senhor foi eleito por quem? É que eu me lembre… ah, ou julga-se “um eleito”? Foi convidado… a falar! novos hospitais, organização disto e daquilo, o senhor sabe tudo, e mais as listas e os “utentes” e os “seus genéricos”, a música canta-me aos olhos
Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão
Faz me lembrar… ai não digas, está calado, que ao outro também ele calou. Julga que sim? Não tem vergonha? Não é pela idade, é pela dignidade…
O jornal na retrete
Ao outro dia no emprego
Sorrir ao chefe não é frete
Por um pouco de sossego
Eu cá não me meto em nada
É mais fácil ser assim
Mantenho a boca calada
Desde que esteja bem para mim
Quero lá saber dos outros
Se aqui se mata e esfola
Issa não é da minha conta
Só leio reader's digest e a bola
… julga que somos todos assim? todos palhaços de pasquim? todos carneiros, todos boiada, rameiras da noite travestidas de nada?!
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Quem é o seu mestre? Será ele mau ou maoista, tão bom da vista que deu o golpe, a golpada, só com um olhar…!?
Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado.
Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram
Ai senhor ministro, senhor ministro, que a brincar é que a gente se entende. A brincar com o fogo? A dinamite? Já vi mãos esfaceladas, corpos queimados, entranhadas evisceradas, corpos nus todos iguais… sabe quão iguais são os corpos nus por dentro? Sangue, pus e esfacelos, ossos fracturas e esquírolas, gritos raivas e desesperos… tudo vi! E vosselência?!
Não, por certo não viu.
Então não me venha pedir desaires
“Vem por aqui!” — dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “Vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Dê a si próprio uma oportunidade
… bata a porta, porta traseira — cabeça entre os ombros de mansinho — lance fora a chave e saia pé ante pé, pela calada da noite, sem que ninguém note, porque
… há lazaretos para os coléricos, manicómios para os loucos, prisões para os delinquentes, mas não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos!...
saia agora, Obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Senhor ministro.
Bom dia. Não sei porque lhe digo “bom dia” em dia tem chuviscoso, mas digo. O senhor também diz muitas coisas e, quanto saiba, não se coarcta de as dizer. É um boçal, como diz minha Mãezinha.
Desculpe lá: o senhor foi eleito por quem? É que eu me lembre… ah, ou julga-se “um eleito”? Foi convidado… a falar! novos hospitais, organização disto e daquilo, o senhor sabe tudo, e mais as listas e os “utentes” e os “seus genéricos”, a música canta-me aos olhos
Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão
Faz me lembrar… ai não digas, está calado, que ao outro também ele calou. Julga que sim? Não tem vergonha? Não é pela idade, é pela dignidade…
O jornal na retrete
Ao outro dia no emprego
Sorrir ao chefe não é frete
Por um pouco de sossego
Eu cá não me meto em nada
É mais fácil ser assim
Mantenho a boca calada
Desde que esteja bem para mim
Quero lá saber dos outros
Se aqui se mata e esfola
Issa não é da minha conta
Só leio reader's digest e a bola
… julga que somos todos assim? todos palhaços de pasquim? todos carneiros, todos boiada, rameiras da noite travestidas de nada?!
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Quem é o seu mestre? Será ele mau ou maoista, tão bom da vista que deu o golpe, a golpada, só com um olhar…!?
Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado.
Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram
Ai senhor ministro, senhor ministro, que a brincar é que a gente se entende. A brincar com o fogo? A dinamite? Já vi mãos esfaceladas, corpos queimados, entranhadas evisceradas, corpos nus todos iguais… sabe quão iguais são os corpos nus por dentro? Sangue, pus e esfacelos, ossos fracturas e esquírolas, gritos raivas e desesperos… tudo vi! E vosselência?!
Não, por certo não viu.
Então não me venha pedir desaires
“Vem por aqui!” — dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “Vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Dê a si próprio uma oportunidade
… bata a porta, porta traseira — cabeça entre os ombros de mansinho — lance fora a chave e saia pé ante pé, pela calada da noite, sem que ninguém note, porque
… há lazaretos para os coléricos, manicómios para os loucos, prisões para os delinquentes, mas não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos!...
saia agora, Obrigado!
Pedro Rodrigues de Miguel
Segunda-feira, Dezembro 01, 2003
Caminhos do Diabo III
1º de Dezembro
Deparo-me com as notícias dos Jornais ou antes… com a falta delas. O 1º de Dezembro?... feriado de nada — e a escumalha cantarola porque não tem nada que fazer. A escumalha que é o povo e os ministros, os sábios e os ignorantes, os jornais e os meninos dos blogues, que falam de tudo… e do nada. Eles são Mexias e Zés Quintela, monárquicos ou republicanos de meia tigela, que da república só aprenderam a metade, faltou-lhes a outra — a Liberdade de escolha. Esqueceram-lhe a causa, o colonialismo — “o mapa cor-de-rosa” — e a reimplantação da pena de morte (coitado do 502, homem de má sorte, de seu nome João Ferreira de Almeida, a bem da república e da moral rameira, encostado ao poste…!) mas eu, Libertário, com escolha e com princípio, que se necessário um Rei apoio — não me demito! — dou hoje a palavra a um republicano... de bom corte.
Só para lembrar que no 1º de Dezembro atiramos um gajo pela janela abaixo e hoje, podíamos atirar muitos mais…!
Sou contra a pena de morte, não sou contra a legítima defesa. Ladrões de Templos e Salteadores da Arca são corridos a chicote e açoitados em praça pública...!
Balanço patriótico
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6 000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas;
Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico, – água de poça inerte, trasbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacifico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, enfim, de índole estreita, acanhada mente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e boca para mandar…
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, – o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, – tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., – teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa…
A burguesia liberal, merceeiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, morgadinhas, judias, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como eles diziam), todo esse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores, num Alcácer Quibir esfarrapado, de feira da ladra.
A nação, como o rei, ia cair de podre.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcaças de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoísmos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de inscrições…
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante.
Fora o rei um homem, que a nacionalidade moribunda se levantaria por encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de governo. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas, – absurdo evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da majestade à ex.ª que da ex.ª ao tu. Impero eu mais no meu criado que o rei em mim. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, boca para rezar. Pelejas como as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nun’Álvares de hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico, com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias, anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso, vazando-os logo, – atascadeiro de baixezas, lodo de malandros, – pelo buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector in pace, um cano de esgoto jazigo de família.
O burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas, cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um vintém. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, justiça, Honra, Pundonor, – palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O câmbio estava ao par.
Falir um banco, que desastre! Falir uma alma... – Mas que demónio é isto de falir uma alma?
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geograficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o medo. Anda guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Porto, onde a polícia usa revólveres e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.
Receio do exército? Lisonjeá-lo... e diminuí-lo."
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1893)
…nasceu, em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850, filho do lavrador José António Junqueiro e Ana Maria Guerra, e faleceu em 7 de Julho de 1923, em Lisboa
Quiz (na ausência de Pedro Rodrigues de Miguel)
Deparo-me com as notícias dos Jornais ou antes… com a falta delas. O 1º de Dezembro?... feriado de nada — e a escumalha cantarola porque não tem nada que fazer. A escumalha que é o povo e os ministros, os sábios e os ignorantes, os jornais e os meninos dos blogues, que falam de tudo… e do nada. Eles são Mexias e Zés Quintela, monárquicos ou republicanos de meia tigela, que da república só aprenderam a metade, faltou-lhes a outra — a Liberdade de escolha. Esqueceram-lhe a causa, o colonialismo — “o mapa cor-de-rosa” — e a reimplantação da pena de morte (coitado do 502, homem de má sorte, de seu nome João Ferreira de Almeida, a bem da república e da moral rameira, encostado ao poste…!) mas eu, Libertário, com escolha e com princípio, que se necessário um Rei apoio — não me demito! — dou hoje a palavra a um republicano... de bom corte.
Só para lembrar que no 1º de Dezembro atiramos um gajo pela janela abaixo e hoje, podíamos atirar muitos mais…!
Sou contra a pena de morte, não sou contra a legítima defesa. Ladrões de Templos e Salteadores da Arca são corridos a chicote e açoitados em praça pública...!
Balanço patriótico
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6 000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas;
Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico, – água de poça inerte, trasbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacifico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, enfim, de índole estreita, acanhada mente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e boca para mandar…
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, – o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, – tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., – teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa…
A burguesia liberal, merceeiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, morgadinhas, judias, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como eles diziam), todo esse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores, num Alcácer Quibir esfarrapado, de feira da ladra.
A nação, como o rei, ia cair de podre.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcaças de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoísmos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de inscrições…
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante.
Fora o rei um homem, que a nacionalidade moribunda se levantaria por encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de governo. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas, – absurdo evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da majestade à ex.ª que da ex.ª ao tu. Impero eu mais no meu criado que o rei em mim. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, boca para rezar. Pelejas como as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nun’Álvares de hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico, com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias, anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso, vazando-os logo, – atascadeiro de baixezas, lodo de malandros, – pelo buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector in pace, um cano de esgoto jazigo de família.
O burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas, cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um vintém. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, justiça, Honra, Pundonor, – palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O câmbio estava ao par.
Falir um banco, que desastre! Falir uma alma... – Mas que demónio é isto de falir uma alma?
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geograficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o medo. Anda guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Porto, onde a polícia usa revólveres e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.
Receio do exército? Lisonjeá-lo... e diminuí-lo."
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1893)
…nasceu, em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850, filho do lavrador José António Junqueiro e Ana Maria Guerra, e faleceu em 7 de Julho de 1923, em Lisboa
Quiz (na ausência de Pedro Rodrigues de Miguel)